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JOÃO RASTEIRO
ENCONTROS
Encontro com Herberto Helder
Herança
A memória do nome
Elegia do esquecimento
Encontro com Herberto Helder

Há algures uma cidade interrompida onde a luz

já se vai perdendo prostrada entre as âncoras

como estiletes arejados enjaulados nas palavras, do

 

deves ir pela tarde mágica das trovoadas ávidas

quando Cascais vai morrendo um pouco menos

apesar de o miolo da carne infindável ser sangue

emergindo como fungos atiçados junto à pele

em ciclos de intempéries e migrações filicídias,

 

vai procurá-lo nos jardins embora não te fale enxutas

(esquecerás que transportas o contágio das dores

e as manhãs ressuscitarão secas sobre os espigões

ao longo das vozes aguçadas a cidade coagulada

ardendo no éter da asma sob o ritual dos êmbolos),

 

pergunta na praça das súplicas enxutas dos velhos

por aquele homem que menstruou a sílaba nua

quando na cidade passava o ar odorífero das ilhas

e que lutou nos campos da cal contra as cobras

para que a escassa estria ainda se ouça torrencial,

 

no absurdo da busca da casa do espectro da areia

habita a transparência materna dos últimos dias

senta-te sob os salgueiros com a cabeça inclinada

ouve o vento e cheira as entranhas certas da morte

o corpo estilhaçando-se em matizadas direcções,

 

pára e não digas nada ao ouvido das nascentes

(enquanto escutas as patas frágeis da magnólia

bebe a cidade pelo sexo aberto das fêmeas azuis

guelras por onde resfolega toda a luz preambular

como se fosse a redentora faísca do corpo vegetal),

 

aí,junto à água o engenho das bigornas brancas

o fogo das mãos sagazes ardendo como ofício puro

casulo entre as bilhas onde habita Herberto Helder.

 

In, O Arquipélago do espanto (inédito)

 
Posto em linha a 20.11.2006