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A poesia na óptica da Óptica |
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OBRA AO RUBRO (Associação Portuguesa de Escritores/ triplov.com/ Centro Interdisciplinar Comunicação ao I Encontro de Jornalismo, Literatura e Ciência. São Paulo, Universidade São Judas Tadeu, Curso de Jornalismo. 14-16 de Agosto de 2007 |
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Problema jornalístico |
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Herberto Helder é um escritor ideal para trazer a um curso de jornalismo. Ele trabalhou bastante nesse domínio da comunicação, quer na imprensa escrita, quer na Rádio. De notar neste ponto que alguns dos seus textos poéticos manifestam ligação estreita com o conteúdo dos jornais, e por vezes usam a estrutura de noticiário, disso sendo exemplo mais óbvio a montagem de notícias intitulada “o humor em quotidiano negro” (Photomaton & Vox, pág. 98):
Em 1971 e 1972, num período em que as colónias portuguesas lutavam pela independência, Herberto Helder foi para Angola como repórter de guerra. Trabalhou para a revista Notícia, de Luanda, sob vários pseudónimos. As reportagens de guerra não foram ainda identificadas, mas decerto terá interesse para o conhecimento do autor a análise de um corpus tão forte. Não é porém nesse lado da Literatura que reside o problema de Herberto Helder, e ele é de facto um problema jornalístico. Os que desejem dar ao público uma imagem do autor, seja imagem em sentido especular - uma fotografia, um vídeo, um filme –, seja imagem em sentido mais amplo, um texto que apresente o autor, vão deparar-se com obstáculos intransponíveis. Ele não se apresenta em público nem recebe jornalistas. Dissuade aqueles que desejam prestar-lhe homenagens. Uma vez que não recebe prémios, certas instituições já não lhos concedem, para não sofrerem o vexame de não terem o autor premiado na cerimónia oficial de atribuição. Correm só três ou quatro fotografias dele na Internet, digitalizadas a partir de um artigo meu na revista Colóquio/Letras (nº 46) e de mais dois ou três lugares impressos. Se não erro nas lembranças, essa fotografia, no meu artigo de 1978, em que o vemos na idade madura, com quarenta e poucos anos, foi tirada a bordo do navio em que regressou de Angola. Como deve proceder o jornalista face a um autor que recusa mostrar-se? Há duas semanas fui entrevistada em Britiande por uma jornalista de televisão que não quero identificar agora para não lhe causar transtornos. Os trabalhos da sua equipa são bons, sérios, visam divulgar os nossos escritores e promover desse modo a leitura. Naturalmente preocupada, a jornalista perguntou se Herberto Helder acederia a ser entrevistado. Respondi, on e não off the record, que ela não precisava do autor para fazer o documentário. Devia convidá-lo, mas não devia desanimar com a sua recusa e ainda menos ceder a pressões para não levar por diante as filmagens, pois isso prejudicaria os leitores de Herberto Hélder, o seu próprio trabalho e a sua carreira de jornalista. Para obter uma boa imagem do poeta, caso ele declinasse o convite para ser entrevistado, aconselhei-a a ir ao Museu Bocage, para ali filmar um exemplar de peixe de uma espécie a que Herberto Helder dedicou um conto esplêndido, no livro Os passos em volta: o Coelacanto. Destes peixes só se conheciam registos fósseis, por isso julgava-se extinta a espécie. Para pasmo da comunidade científica, na década de sessenta descobriram-se exemplares vivos no Canal de Moçambique, e parece até que os pescadores apanhavam regularmente esses peixes. Contra todas as expectativas dos evolucionistas, a morfologia dos exemplares vivos era igual à dos fósseis. A evolução esqueceu-se de os transformar. O facto é tão extraordinário como se aparecessem agora dinossauros vivos, a peregrinar pelo recinto da basílica de Fátima. A tais espécies, atribui a ciência o significativo nome de “relíquias”. Apercebendo-se do insólito caso pela leitura dos jornais, Herberto Helder escreveu então uma narrativa sobre a loucura dos ictiologistas. Este caso fecha o meu preâmbulo sobre um escritor que toca os três ângulos da problemática deste Encontro: no caso do Coelacanto, com a sua ligação à ciência. É o natural fascínio do poeta pelo absurdo que nela pode por vezes residir. Porém não é a ictiologia a ciência que mais marcas deixa na obra herbertiana, sim a Química, reflectida pela Alquimia. Como se verá no correr do meu ensaio, existe também no autor uma vertente de cariz biológico, patente no modo como apresenta o rosto e a biografia. É o que já vamos ver. |
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| Biografia mítica | |||
Herberto Helder é dos mais importantes poetas portugueses, publicado em vários países e em várias línguas. No ano passado, o autor de “O el poema contínuo”, seu mais recente livro, publicado em Espanha em edição bilingue, foi eleito candidato ao Prémio Nobel de Literatura pelo P.E.N. Club português. Oito anos mais velho que Herberto Helder, José Saramago, outro escritor português, foi Prémio Nobel da Literatura em 1999. Saramago não é apenas prosador, ele é também um bom poeta, como demonstra o livro “O Ano de 1993”, publicado em 1975. O percurso de Herberto Helder é diferente, e é sobretudo diferente no posicionamento social e político. Já vimos algo do seu temperamento secreto, que afecta o público e a Imprensa: recusa prémios e homenagens, raramente se deixa fotografar, não responde a entrevistas para jornais, nem aceita convites para ir à televisão. Dir-se-ia que, nestas circunstâncias de silêncio social, a sua vida seria discreta. Em certo sentido, é. Por exemplo, soube agora que, depois de ter morado quarenta anos em Cascais, na Rua do Mercado, se mudou para lugar desconhecido de quem habitualmente o via nessa linda vila piscatória e de veraneio, a trinta quilómetros de Lisboa. O seu barbeiro, ao descobrir-lhe a fotografia num jornal, com a notícia de ser candidato ao Nobel, confessou a um outro escritor, meu amigo, que estava espantado, não imaginava que aquele senhor de barbas fosse uma pessoa importante. – Sim, sim, é um dos nossos maiores poetas contemporâneos! – informou o meu amigo. E comentou então que a casa de Herberto Helder em Cascais está à venda e que o poeta desapareceu. "Desapareceu quando ninguém olhava para ele" (Photomaton & Vox, pág. 176). N’ Os passos em volta, podemos ler a história de um homem que regressa à ilha, manda construir uma casa com um quarto de chão de terra batida, para se deitar nela no momento oportuno, e morrer. Nascido na ilha da Madeira em 1930, lê-se nas biografias que o seu nome completo é Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira. Nunca vi o cartão de identidade do poeta, mas creio que a mítica biografia começa aqui, no nome dele. “Herberto Helder” é um heterónimo como os de Fernando Pessoa, a construção de uma personagem poética. O nome verdadeiro deve ser Luís Bernardes de Oliveira. Por muito que possa ser verdadeira, isto é, que os críticos e jornalistas só prestem as informações recebidas do poeta, a sua biografia é tão mítica como a de Luiz Pacheco, escritor como ele ligado ao Surrealismo e ao grupo do Café Gelo. Da Internet, respigo algumas actividades da sua juventude:
Deve datar desta época o meu conhecimento do poeta: adolescente, passava eu as férias de Verão em Britiande, onde lia os livros deixados pela carrinha da Gulbenkian. Eu subia e o homem dos livros ajudava-me a escolher. Também deve ter sido assim que travei conhecimento com Luiz Pacheco, cuja biografia apresenta vários pontos de contacto com a de Herberto Helder. Ambos trabalharam nas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, ambos pertenceram ao grupo surrealista e do Café Gelo, ambos tiveram experiências nos sub-mundos disto e daquilo, para não dizer que ambos se chamam Luís. Porém não é nesse ocasional emprego do tempo, distribuindo livros pelas aldeias, que me revejo na obra de Herberto Helder, pois, que notasse, esse emprego não é referido nela. O espelho funciona sobretudo com a poesia, se bem que uma corrente de identificação muito forte se estabeleça às vezes em segmentos de prosa, como esse, de Os passos em volta, em que ora ele, ora ela, pensam, e esse monólogo interior é uma tentativa de conhecer o outro. Refiro-me a “Duas pessoas”, quando a rapariga arranca da cabeça de Herberto Helder farrapos de um tema difuso na obra, muito tentador, o do suicídio, neste caso a dois:
Se entendermos que o destino maior do poeta é o silêncio, fazer que as palavras regressem à sua matriz pré-verbal e que o poeta vença o mundo, então a tentação do suicídio é irresistível para um poeta que, como Herberto Helder, se insurge contra a biografia, denega os seus auto-retratos, mas afinal é da experiência própria que se alimenta, sendo que uma das mais fortes experiências é a da leitura. E então deparamos com reflexões sobre a vida lida de quantos semelhantes a ele se suicidaram e de que maneiras várias, na “Carta do silêncio”: Georg Trackl, Mário de Sá-Carneiro, Hart Crane, Sylvia Plath, Paul Celan,
– e eis um dos medos terríveis em Herberto Helder, o de ficar sem voz, o de serem definitivos os seus espaços sem criação. Contradições que a biografia engendra: o partir ou não partir de mim, o saber que de mim nada de relevante há a dizer, mas só essa experiência manifestar algum relativo absoluto… Não à biografia!, proclamou a comunidade científica (ou marxista), contra o individualismo e em prol do social, sem dispor de um nome com suficiente coragem para assinar obras que, como as de Herberto Helder, se assumem como e são realmente actos terroristas. Disse então o poeta que não só angariava clientes para as prostitutas como recebia algum salário a cantar o tango em bares de marinheiros, na Holanda. Nas suas viagens pela Europa, ia morrendo de fome. Chegou a dormir nas retretes de Paris e nelas escreveu alguns dos seus mais arrebatados poemas. E eu pergunto: quem presta, quem poderia prestar, tais declarações biográficas? Essas e outras, mais ou menos terríficas, podem ser lidas por qualquer um nas obras mais narrativas do autor. Excluindo Apresentação do rosto, livro apreendido pela Polícia e não reeditado como tal (os textos foram reaproveitados noutros livros), a informação biográfica está patente em Photomaton & Vox e Os passos em volta . Porém, como sabe o leitor que essa informação é verdadeira e não ficcional? Que instrumentos tem o jornalista para fazer a triagem? De tabuleiro à frente com uma colheita de terras e algas feita na praia, de que modelo e métodos se serve o intérprete para ajuizar que esta informação é histórica e aquela outra é criação literária? Não leva a parte nenhuma a resposta, e separar é facílimo, basta usarmos como guião a biografia fixada por Maria de Fátima Marinho, isto supondo que a sua fonte não tenha prestado falsas declarações. Porém, se prestou, tanto melhor, isso facilita a exposição da tese de que em Herberto Helder existe uma construção biográfica. Ou seja, a obra não conta o que ele experimentou na vida, podendo tê-lo experimentado, a obra é essa experiência de vida, a vida é registo gráfico, bios+grafia. E é central, sempre, essa grafia:
De que modo temos nós acesso a dados biográficos que em geral as pessoas ocultam? Estamos a lidar com uma versão altamente elaborada do mito do poeta maldito, do desesperado, do marginal da beat generation. Ou, se preferirmos, Herberto Helder era um “clochard”, na expressão requintada de João Gaspar Simões, o mais odiado de todos os críticos literários portugueses. A biografia vê-se ao espelho permanentemente na obra. Com alguns elementos identificativos, nas obras mais romanescas, mais despojada deles a poesia. Porém as referências ficam na mente, de forma que é possível a orientação no labirinto do intertexto e do hipertexto. A informação repete-se de maneiras diversas. Nos poemas, por vezes só temos um vago GPS: sabemos que o poeta viajou por Antuérpia, por exemplo, mas não sabemos quando nem por onde exactamente, nem com quem travou relações. A presença da Madeira, sua terra natal, é fraca ou nula na obra, apesar de as ilhas aparecerem nela, e sem dúvida a natal, como comprova a presença de Lacerta dugesii em “(uma ilha em sketches)” (Photomaton & Vox). A presença do pai é fraca ou nula (só retenho a sua aparição no texto final de Os passos em volta), tal como é fraca ou nula a presença da filha, ou de filhos, que surgem na biografia estabelecida por Maria de Fátima Marinho. “Pai” e “filha” não figuram nos gráficos feitos por João Amadeu Silva para saber quais os termos mais comuns na poesia de Herberto Helder. Já a presença da mãe é avassaladora, e intensa a das irmãs, quando recordadas junto a um ponto saturado de sangue, a menstruação:
Da des-identificação, sobra o essencial: o vivo, o biológico a substituir o biográfico. Porém um poeta culto que não usa nem dados de identidade pessoal nem referências à circunstancialidade social e política do seu tempo, dois dos três requisitos essenciais da obra de arte, segundo Kandinsky, para só recorrer ao terceiro, a questa da beleza pura, intemporal e impessoal, necessariamente tece um microcosmos verbal em que toda a informação oriunda da História se torna mítica. É assim que o poema reflecte quase sempre a natureza mágica das evocações biográficas, e chega a usar vocábulos da área semântica de “construção” para a definir. É o autor, de resto, quem algures descobre que só para quem está muito de fora o que acontece na poesia se deve ao acaso. Como se Herberto Helder fosse um pedreiro ou um arquitecto. Não é, não acabou nenhum curso na Universidade, e seria caso para perguntar à Universidade por que motivo tantos escritores de alto nível, a exemplo do Prémio Nobel de Literatura de 1999, José Saramago, não acabam os cursos ou não chegam a frequentar as aulas. Herberto Helder não é nenhum arquitecto nem meteorologista; mas, se o que acontece na poesia não se deve ao acaso, não é por se dever ao homem, sim por se dever aos próprios poderes da linguagem na construção verbal. É a língua que mergulha nas suas próprias entranhas para de lá trazer a poesia. Neste apontamento sobre a biografia mítica, citemos “Exemplos”, poema no qual o que cria a fábula da mãe-animal não é uma construção à maneira de pedreiro ou carpinteiro, sim algo de mais primitivo, o movimento do poeta como caçador-recolector:
Deixo agora um modesto contributo para a biografia do poeta: um poema dele escrito na parede do quarto da república em que viveu, quando estudou na Universidade de Coimbra. Repúblicas são residências comunitárias para estudantes de poucos recursos económicos. Advém-lhes a designação do regime republicano, democrático do governo, nelas exercido peos próprios estudantes. Têm geralmente nomes bizarros. Quem me chamou a atenção para aquela casa, e me levou lá, foi o poeta Rui Mendes, um dos mais antigos editores de Herberto Helder, na revista Êxodo. Foi então na parede da Real República Palácio da Loucura, nº 21 da Rua Antero de Quental, em Coimbra, que fotografei o poema “História”. Inédito em papel, pelo menos nas edições da Poesia Toda e subsequentes recolhas de poemas, merece ser divulgado, por quanto nele anuncia a mitificação biográfica maior, a do Poeta. Se a presença da mãe é central na obra, se é intensa a presença das irmãs, se as mulheres, enfim, tecem no poema contínuo um espaço matricial que pode até parecer matriarcal, a figura dominante é masculina, e falocêntrico, hierofálico, esse universo que rodopia à volta de Deus-Pai, o Poeta:
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| História | |||
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| A cor do sangue | |||
A cor não se pode conceber numa extensão ilimitada. O nome completo é Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira? Maria de Fátima Marinho assim o assegura, embora num site coordenado por artistas e professores universitários como Rui Torres e Pedro Barbosa, possamos ler:
O nome verdadeiro não é, para o poeta, o do cartão de identidade, sim o que escolheu para si. Nas biografias, os dois nomes foram ligados como um poema contínuo, arrastado pelo pseudónimo, a persona. Não é a vida de Luís Bernardes que ergue a obra de arte, é o poema que mantém o homem vivo, é o homem que sente a morte quando seca a fonte das palavras, e é ainda o homem que canta de alegria quando a inspiração o faz renascer das cinzas, como acontece no mais recente dos poemas, “Redivivo”. O elemento mais forte deste regresso à vida é o sangue a subir na garganta, metáfora biológica do canto. Em Herberto Helder a morte não existe, ou, se existe, é para mitificar e eternizar o amor, como acontece no conto “Teorema”, dedicado ao tema de Inês de Castro. Existem textos alusivos a crimes e a homicídio, outros, suicidários, em que se manifesta a atracção pelo desaparecimento total, e há textos ainda em que se fala da morte da avó e do funeral de alguém - caso de "(uma ilha em sketches)" -, mas o sangue é um poderoso motor que até a morte põe em movimento. N’ A colher na boca, vemos que os mortos, se correm por dentro do orvalho, se respiram, é porque estão vivos. E o que se surpreende com o paradoxo é o sangue, que corre, assombrado, como se dotado da individualidade de personagem. Maria de Fátima Marinho demonstra que a cada grande passo da biografia corresponde um texto ou uma passagem da obra herbertiana. Na prosa esse espelhamento entre texto e vida percebe-se melhor, visto que a poesia se situa sempre num grau superior de estilização. Também já vimos que um dos mais antigos poemas, significativamente intitulado “História”, é uma antecipação biográfica: nele se declara que o poeta abandona o estatuto social do cavalheiro, o senhor bem vestido e de monóculo, para baixar ao estado de vagabundo. No meu ensaio sobre Sá-Carneiro, refiro que o poeta optou por certas soluções de vida por as ter cantado e para as poder cantar. Herberto Helder, cujas filiações literárias são pouco conspícuas, nasce, como todos nós, da poesia portuguesa em geral, e em particular de dois momentos muito fortes nela: o modernismo da geração de Orpheu (1915), com Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, e o Surrealismo, em cuja expansão teve participação activa. Mário de Sá-Carneiro e Herberto Helder fazem opções de acordo com certa linha melódica que os agita interiormente, isto é, agem na vida em conformidade com a ideia que têm de ser poetas, por isso a sua biografia é elaborada, construída com mapas e plantas, como se a vida fosse uma viagem ou uma catedral. Mas estamos aqui ocupados com a biografia, quando Herberto Helder atravessou uma fase da teoria literária oriunda da Universidade que depreciou a questão do autor e por conseguinte a biografia, criticando asperamente quantos buscavam na obra de arte ilustrações da vida passada. É claro que a teoria influencia a prática, mesmo a daqueles que se lhe opõem. Nenhum artista aceita que pressões do exterior lhe ponham uma corda ao pescoço, sobretudo quando movimentos da importância do surrealista abonaram em favor da boa interpenetração da arte e da vida. Para voltarmos a Kandinsky, nosso guia nesta viagem à América do Sul com Herberto Helder na bagagem, o primeiro nível de informação da obra de arte é o pessoal. Porém, agora, não é a vida passada que está em questão, sim a vida futura, aquilo que nos textos o poeta inscreve como lei, para se obrigar a cumpri-la. Finalmente, o que há de mais impressionante na biografia implícita nos versos de Herberto Helder é a sua essencialidade vital: como se despisse o senhor de monóculo, para lhe ver o corpo, lhe arrancasse depois a pele, para ver as vísceras, como se lhe abrisse depois o coração, para ver o sangue correr. Estilizando os acidentes pessoais e sociais, o poeta, ao cantar a substância da vida, atinge a eterna beleza das obras primitivas, cujo autor não conhecemos, tal como ignoramos quando e em que circunstâncias foram construídas. O sangue, tal como se comprova nos gráficos de João Amadeu Silva, é das palavras mais vulgares nos poemas. Ele define a cor dominante da obra – obra ao rubro, para recorrer aos termos alquimistas - , cor da alegria, da exultação e da exaltação da vida. Símbolo poderoso, aponta para o espaço sagrado do canto, confundindo-se com a voz do poeta, por conseguinte com a palavra. Nada de muito distante da sacralidade que manifesta na religião que nos é mais próxima, a de Cristo, em que, além de bebida para eterna memória, o sangue define um duplo movimento, sacrificial e redentor. Este vaivém não é alheio à poética herbertiana, pensemos no seu tema recorrente do renascimento. Nada também muito distante de uma biografia animal, carnívora, aspectos do vivo que de formas várias apontei no meu livro, Herberto Helder, Poeta Obscuro. O valor semântico do sangue varia com a situação poética em que aparece, mas de modo geral é manifesto de vida. Sendo porém a biografia herbertiana mais biológica do que social, o sangue ocorre com frequência em circunstâncias de corpo exposto, de ferida. Por isso o vimos já sob a forma de menstruação das irmãs, o vemos também em textos que parecem inspirar-se no acidente de automóvel que teve em Angola, e o forçou a três meses de hospital. Em "Do mundo", ficamos confrontados com uma viagem no interior do corpo, de tal modo os versos mergulham no labirinto da anatomia:
É o sangue a correr que assinala o facto de o homem estar vivo. Quanto mais o sangue corre, mais o vivo perde limites, como se a cor do sangue, em Herberto Helder, tivesse substituído o azul, que, por ser a do céu, é a única cor sem limites. Não espanta então que o sangue possa ser um regato a correr das gárgulas, em Flash. A presença contínua do fogo e das cores quentes, girando em torno do vermelho e do sangue, bem como certas cadências e musicalidades, aproximam muito Herberto Helder de um outro poeta, seu contemporâneo e amigo, Carlos de Oliveira. Manuel Gusmão apontou a afinidade entre ambos na recente homenagem (falhada) a Herberto Helder, promovida pela Câmara Municipal de Cascais, e levada a bom termo pelo escritor Júlio Conrado, na revista literária Boca do Inferno. Nos meus textos sobre os híbridos em Herberto Helder, já tive ocasão de dizer que a técnica de eliminar fronteiras é natural na sua poesia, e vai desde a metáfora até à fusão de modalidades estéticas, como se as artes estivessem interligadas por algo comum a todas, facto aliás asseverado por Kandinsky e artistas que traz ao debate, como Delacroix. Essa hibridação é muitas vezes orgânica, passando assim pelo sangue, uma vez que era a consanguinidade e não o património genético o que outrora definia a genealogia. Em Ou o poema contínuo, deparamos com casos muito interessantes de híbridos biológicos. Híbridos biológicos em palavras, claro, pois na vida seriam impossíveis. Em Poemacto, poema cujo título já anuncia as múltiplas fusões de palavras e conceitos, encontramos um híbrido de animal e vegetal, a rosapeixe. Em estrofe anterior, irrompe um híbrido ainda mais complexo e impossível para a ciência, pois cruza o humano com o vegetal e com o animal:
Falar de híbridos é falar de corpo, do vivo, da temática herbertiana da ressurreição, pois eles decorrem de cópulas transgressoras, e só se concebem como fenómenos da biologia da reprodução. |
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| Bibliografia | |||
CITI, Biografia de Herberto Helder, em linha em: http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/helder/biogra.html . Citado a 10.07.07. Herberto Helder, Photomaton & Vox. Lisboa, Assírio e Alvim, 1979. Herberto Helder, Os passos em volta . Lisboa , Assírio e Alvim, 1980. Herberto Helder, Ou o poema contínuo - O el poema contínuo. Trad. de Jesús Munárriz. Edición bilingüe. Madrid, Ediciones Hiperión, 2006. João Amadeu Oliveira Carvalho da Silva, A Poesia de Herberto Helder. Do texto ao contexto: uma palabra sagrada na noite do mundo. Textos Universitários de Ciencias Sociais e Humanas. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. Manuel Gusmão, “Carlos de Oliveira e Herberto Helder ao encontro do encontro”. Boca do Inferno – Revista da Câmara Municipal de Cascais, nº 10, 2005. Maria de Fátima Marinho, Herberto Helder: a obra e o homem. Lisboa, Editora Arcádia, 1982. Maria Estela Guedes, “Viagem e utopia em Herberto Hélder”. Colóquio/Letras, Fundação Calouste Gulbenkian, nº 46, 1978. Maria Estela Guedes, Herberto Helder, Poeta Obscuro. Lisboa, Moraes Editores, 1979. Em linha em: http://www.triplov.com/poeta_obscuro/index.html . Citado em 07.07.07. Maria Estela Guedes, Obra Poética de Mário de Sá-Carneiro. Editorial Presença, Lisboa, 1985. Em linha em: Maria Estela Guedes, Cândidos animais transmutando-se - releitura de Herberto Helder. O Escritor, Revista da Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, nº 9, págs: 182-190, 1997. Em linha em: http://www.triplov.com/estela_guedes/Candidos-animais/index.htm Maria Estela Guedes, “Estes são outros híbridos”, 2004. Em linha em: http://www.revista.agulha.nom.br/ag29helder.htm . Citado em 07.07.07. Maria Estela Guedes, “Magia e rito florestal em Herberto Helder”. Boca do Inferno, Cascais, Câmara Municipal, nº 10, 2005. PO-EX (Poesia Experimental), Biografia de Herberto Helder. Em linha em: http://po-ex.net/index.php?option=com_content&task=view&id=76&Itemid=40&lang= Wassily Kandinsky, Do espiritual na arte. Trad. de Maria Helena de Freitas. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2006. |
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