JOÃO GARÇÃO..
A importância da Arte
na construção de uma nova sociabilidade

2. Arte é construção

Afirmar que a essência da Arte é ser comunicação qualificada implica também referenciar o Artista como um comunicador qualificado.

Assim sendo, que pretende o Artista comunicar? Ele deseja revelar a sua verdade mais íntima, afirmar a sua interpretação da realidade circundante e, simultaneamente, interrogar-se a si mesmo, descobrindo-se e enriquecendo-se humana e espiritualmente. Pretende, em suma, partilhar as suas concepções e as suas descobertas com o seu semelhante, desta forma elevado a espectador privilegiado do fenómeno criador.

O Artista é pois, no seu âmbito de acção, um verdadeiro demiurgo, ou seja, um construtor de mundos até então ignorados - e isto tanto para a Pintura como para o Teatro, tanto para a Arquitectura como para a Música, ou para qualquer outra disciplina. A afirmação de si mesmo e da sua individualidade criadora, o seu desejo de permanência expressando a luta eterna entre a Vida e a Morte; a sua vontade de partilha (pois a Arte também combate a solidão); o seu espírito inovador em maior ou menor grau; e, finalmente, as suas próprias interrogações e reflexões, conferem à “obra de Arte” um cunho profundamente pessoal e imbuído de uma linguagem simbólica específica. Treinando-se para compreender mais de si mesmo e do quotidiano que o rodeia, por forma a poder expressar cada vez melhor e mais fielmente a sua ‘Verdade’, o Artista expande não apenas os seus horizontes próprios mas possibilita-nos também a nós - espectadores, observadores, leitores ou ouvintes - que expandamos também os nossos, o que levou o escritor Marcel Proust a dizer, com justeza, que “o prazer que o artista nos dá é fazer-nos conhecer um universo mais”.

Estes criadores de Arte, exprimindo as suas vidas e as suas experiências pessoais nas obras que executam, possibilitam-nos, assim, o acesso a vários mundos, proporcionando, numa certa medida, que possamos transcender a própria condição humana no que à limitação cronológica da vida diz respeito. Ou seja: tanto o historiador profissional quanto o amante da Arte ou mesmo, apenas, o honesto observador atento e interessado, apoderam-se de diversos e multifacetados mundos interiores, de variadas expressões de vivências, experiências, trajectórias e concepções da Existência. É-lhes conferida, desta forma, a faculdade de contactar com mais universos do que aqueles que, por si sós, poderiam conhecer e, em consequência, é-lhes possível também enriquecerem o seu particular universo interior, ampliando-o através da obtenção de uma maior soma de elementos que, conjugando-se, contribuem para uma melhor compreensão no que se refere ao percurso da aventura humana.