Sand e Baudelaire: a política da caridade

 

Tributo a CHARLES BAUDELAIRE 
Org. ALESSANDRO ZIR


Reginald McGinnis

Nos seus comentários de abertura à primeira Conferência George Sand, realizada em 1976 na Universidade de Hofstra (Nova Iorque), Henri Peye mencionou os traumas infligidos ao longo do tempo por detratores masculinos na reputação literária da autora. O quadro pintado por Peyre corresponde muito de perto, infelizmente, à forma como Madame de Staël retrata a presença feminina no mundo das letras, em que o sucesso transforma as mulheres em objeto de difamação. O primeiro na lista de detratores de Sand é Baudelaire, que Peyre cita aludindo à preferência que o poeta afirma ter por Laclos. Peyre menciona, de passagem, a ausência do que quer que seja de comum entre Laclos e Sand, exceto a admiração que ambos compartilham pelo sentimentalismo de Rousseau, e insiste na condenação que Baudelaire faz de Sand por ela recusar acreditar no mal. Embora breves, os comentários de Peyre são bastante esclarecedores — mesmo em suas simplificações. Partindo de uma comparação aparentemente arbitrária entre Laclos e Sand para chegar na recusa dela “em acreditar no mal”, Peyre deve ter tido em mente, embora não o mencione, uma passagem das anotações de Baudelaire sobre Les Liaisons dangereuses, em que a recusa de Sand em acreditar no mal é expressa precisamente através de uma comparação com Laclos: “Na verdade, o satanismo saiu-se vitorioso. Satã apareceu como ingênuo. Dando-se a conhecer, o mal era menos horrível e mais próximo da cura que ao ignorar-se. G. Sand inferior a Sade.” A comparação entre Laclos e Sand não é arbitrária, e diz respeito, ao contrário, a um contraste entre a consciência que o primeiro tem do mal e a recusa da segunda em acreditar no mal…

 

Sand e Baudelaire

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revista triplov

SÉRIE VIRIDAE / 03 / CHARLES BAUDELAIRE

Portugal / Dezembro 2021