Cânone, identidade, e o sfumato cirúrgico de Annabela Rita

 

TRIBUTO A ANNABELA RITA


CÂNONE, IDENTIDADE E O SFUMATO CIRÚRGICO DE ANNABELA RITA
Por Dionísio Vila Maior


«Mais do que uma abordagem analítica tradicional destas figurações culturais […], interessar-me-ão as ficções das origens e as origens das ficções […], os nossos museus imaginários […] que se exprimem ou se deixam pressentir no verbo, na pedra, nos (p)actos e nos factos […]» (p.23). É assim como que preambular, epistemológica e metodologicamente se define Annabela Rita no seu livro mais recente, SFUMATO. Figurações in hoc. Não é para mim uma surpresa, devo dizer, este livro (mais um numa carreira exemplar, e edificativa, desta professora universitária da Universidade de Lisboa). Digo isto não me referindo, naturalmente, ao (precioso) conteúdo que nos oferece, antes tendo em consideração a lúcida medida com que a Autora já nos habituou, medida essa rubricada por uma constante voz crítica no âmbito dos Estudos Literários, dos Estudos Culturais e dos Estudos Interartísticos, alongada por âmbitos regularmente equacionados em função de específicas opções ensaísticas. Nesse trajeto, surge, então, SFUMATO. Figurações in hoc signo, publicado pelas Edições Esgotadas, que, de certo modo, vem rematar uma trilogia composta por três outros livros: Luz e Sombras no Cânone Literário (2014), Do que não existe. Repensando o Cânone Literário (2018) e Perfis & Molduras no Cânone Literário (2019) — trilogia que, lembro, conforma um estimulante itinerário de reflexão crítica sobre a inscrição cultural das obras do nosso cânone literário, cristalização cultural esteticamente configurada e exprimindo, afinal, o imaginário das comunidades que nelas se revêm. Pode dizer-se, portanto, que, desde a sua génese criativa até à sua receção, aquelas obras funcionam como espelhos deformadores em que se podem reconhecer cifras identitárias, mesmo codificadas por anamorfoses, relacionadas que devem ser com aquela “verdade da memória” de que nos falou Bloom[1], e que, tendo “significado hermenêutico ou textual”[2], se constitui sob a invocação de “critérios de poder”[3], seja por “processos de influência literária” e/ou por “imposições ideológicas”[4].

Nesse sentido, o que no livro de Annabela Rita desde logo interessa realçar é a circunstância de a Autora refletir sobre esse pano de fundo em que o cânone literário se foi/se vai gerando, procurando, para lá do retrato em primeiro plano, o signo denunciado pelos seus sinais. E nessa coerência reflexiva, a Autora assinala cinco pontos nucleares dessa perspetiva, já ancorados, aliás, na trilogia que o antecede (e, por isso mesmo, apenas aflorados em SFUMATO).

Por um lado, o homem, “ser imaginante” (na senda doutrinária de Morin e de Durand), que encara compreensivamente a realidade aparentemente caótica e heterogénea, procurando explicá-la para a vivenciar em tranquilizadora previsibilidade: «Desde sempre», escreve Annabela Rita logo na abertura da primeira secção, Figuras na Paisagem, «o homem procurou compreender o que o rodeava, quer as coisas (in)animadas, quer a sua organização. Mais do que a razão de ser, a de ser assim. Na falta de uma justificação lógica e/ou comprovável, imaginava uma ou mais, “ser imaginante” que é (Edgar Morin). E a imaginação gerou os mitos e a sua relação numa mais vasta e compósita mitologia: a narrativa agregava características, factos e figuras, relacionava-os e conferia sentido» (p.25); e, relembrando igualmente a proposta do autor de O Enigma do Homem (e, até, indiretamente, de um certo Bachelard, ou de um Lévi-Strauss), revigora a Autora a perceção do real como constructo humano, procurando determinar a proporção estética da relação que com o mundo mantém o homem: «[…] os homens […], seres imaginantes […], uma vez atingidos por factos pregnantes, longa e profundamente os elaboram em sucessivas reconfigurações (com especial destaque para as estéticas) que acabam por embeber a sua realidade, a sua acção, a sua… visão!» (p.182).

É igualmente em função deste equacionamento das questões inerentes ao “ser pensante” que se torna necessário delimitar contornos que delimitam concomitantemente esta problemática. Solidificando de igual modo a sua reflexão na informação do autor das Comunidades Imaginadas, Benedict Anderson, Annabela Rita lembra ainda que as comunidades, constituídas por diferentes fatores (geográficos, políticos, etc.), se concebem, se reforçam e se “imaginam” através de narrativas que as assemelham, e se afastam, das que as rodeiam; lembra, por isso, que a construção da identidade comunitária é análoga à identidade individual nessa combinatória do idêntico diferenciado, justificação da existência e da continuidade, tudo parecendo, portanto, derivar de uma gramática do sistema imaginário através dA qual o sujeito individual/coletivo se situa no seu aqui e agora, se compreende (e se naturaliza), se historiciza… de uma gramática através da qual o sujeito individual/coletivo adquire sentido como protagonista no espaço-tempo em mutação. Assim, refletindo sobre as singularidades na «elaboração mítica» (p.111) das identidades nacionais (Benedict Anderson, Patrick Geary, Ernest Gellner) — essas identidades que se “elaboram no tempo, em etapas” (p.184) —, lembra Annabela Rita que estas se encontram em permanente atualização, evidenciando uma gramática do sistema assente na história (mitos, lendas) fundacional que a justifica (tantas vezes legitimada num «plano espiritual, num além fundado» [p.157]) — gramática aquela que (esclarece na terceira secção do presente livro) aparece reforçada em protagonistas, lugares, objetos e episódios identitários: «[…] os factos vão sendo reconduzidos a uma hermenêutica que os integra e os dota de compreensibilidade, tornando inteligível sentidos de futuro, o pensamento retrospectivo e o prospectivo na sua íntima relação» (p.184). A comunidade legitima-se, assim, para si e para as outras in hoc signo (justificando-se, também por aqui, o subtítulo deste livro), vertebralizando-se deste modo como corpo histórico feito de passado, presente e futuro. E falar aqui em comunidade nacional é falar em corpo e alma nacionais, é ter em conta um conjunto de indivíduos por entre quem deflui o discurso da identidade, sobre ele incidindo uma relação de identidade diferencial que, no mesmo panorama, existe entre o eu e o Outro (o passado, o Presente e o Futuro), isto é, a impossibilidade de cada indivíduo, dentro de uma comunidade nacional, conseguir atingir a identidade de si próprio sem perspetivar esse Outro. Trata-se de uma problemática que revela contornos especiais e que exemplifica, mesmo, a projeção ubíqua do discurso da identidade no discurso crítico contemporâneo (com o qual a obra de Annabela Rita intimamente se relaciona). E se é certo que aquele discurso ilustra por vezes alguma cedência a comportamentos sociais de grupos mais ou menos restritos, seja como bandeiras ideológicas, epistemológicas, ou outras, não menos certo é a circunstância de esse mesmo discurso se encontrar tantas vezes conformado por quadros concetuais de cariz pluridiscursivo, em consonância (pelo menos parte dele) com franjas ideológicas sustentáculos de diferentes quadrantes socioculturais. Como quer que seja, o conceito de identidade evolui, transforma-se, polifoniza-se desdobra-se centrifugamente, por uma razão primordial: a própria vivacidade das línguas e das culturas, que se transformam, que evoluem. Por isso, a identidade é sempre dinâmica. E por isso mesmo também, deve sempre emprestar-se ao termo e conceito “identidade nacional” um caráter proteiforme, já que concilia sempre a exaltação do passado, a exaltação do presente, alvejando o futuro. Por outras palavras, pode dizer-se que a identidade de um povo, de uma comunidade, é a insígnia desse povo, dessa comunidade, aquilo que marca (e é marcado por) um processo amplo de receção, transmissão e/ou revisão de um passado comum, de ação no presente, alvejando o futuro; essa insígnia é o que caracteriza essa comunidade, do ponto de vista biopsicológico, cultural, histórico-literário, etc. Ou, como diz Annabela Rita: «[…] a identidade elabora-se no tempo, com história, em etapas: os factos vão sendo reconduzidos a uma hermenêutica que os integra e os dota de compreensibilidade, tornando inteligível sentidos de futuro, o pensamento retrospectivo e o prospectivo na sua íntima relação» (p.184). Por esse prisma, deve o capital identitário de uma comunidade ser encarado como repousando substratos culturais diversos com os quais essa comunidade reclama um compromisso com o futuro.

Entretanto, o terceiro ponto estudado por Annabela Rita: o caso das nacionalidades europeias; aventuras inacabadas (Zygmunt Bauman), conformadas por fatores culturais diversos em que avulta o Cristianismo, cada identidade tende então a apresentar gramáticas semelhantes, mas singularizadas por episódios, atores, cronologias e cartografias próprias; na segunda secção do seu livro, Paisagem com Figura(s), escreve a Autora: «Como construção mítica, a identidade nacional perscrutada de seguida apresenta uma narrativa com correspondentes gramática, tópica, museologia, biblioteca, monumentalidade e modelos, ou seja, um sistema coerente e mutuamente justificado por uma lógica credibilizadora» (p.117). Nesse conjunto heteróclito de representações, a divergência é tão legitimadora como a analogia; e se a historiografia medieval desenvolve e aprofunda dados da tradição popular (e vice-versa), reforçando-se ambas mutuamente no esboço de uma razão de ser e de ser assim («Tudo começa… pelo princípio» [p.130]) que bebe no pensamento de uma cristandade em movimento, também o poder político, por sua vez, recorre a essa gramática para se reforçar e justificar (quantas vezes!), promovendo um autêntico programa estético que lhe dê visibilidade.

Importa, por isso, perscrutar a dimensão oculta (Edward T. Hall) de uma História oficial (e os respetivos “processos de dissimulação” [p.28]), a face oculta da factualidade documental e comprovada. Trata-se do quarto ponto central de SFUMATO: há que buscar o sombreado da tradição e do inter-dito, perscrutar os interstícios da História, os enigmas, as lendas e narrativas, as inscrições das artes, o aquém e além da prova. Nesse sombreado, nesse inter-dito, encontram-se as elaborações do secreto, do oculto(ado), do mítico, do sagrado — desde a velha e monástica historiografia até à ensaística de autores como Marc Bloch, Jacques Le Goff, e tantos outros —, pelo que se torna necessário, segundo Annabela Rita, operar numa espécie de arqueologia do saber/consabido (Michel Foucault), bebendo-se na História cultural (E. Burke) e na História do Imaginário (Lucien Boia).

O quinto ponto basilar de SFUMATO remete-nos para o facto de o cânone literário se encontrar na confluência de fatores culturais e estéticos: na sua tópica (imagística, simbólica e textualmente modelar) e na sua genologia, apenas emerge e se mantém o que condensa/cristaliza o imaginário coletivo, quer da identidade nacional, quer dos programas estéticos, permitindo a sua densidade a metamorfose da mesma (ao sabor do tempo, dos programas estéticos e da diferência derridiana desse mesmo imaginário). É isso que garante a leitura da Literatura Portuguesa (como de qualquer outra nacional ou as obras do Cânone Ocidental) em permanente (ir)reconhecimento — não nos podendo esquecer, a este nível, de um outro livro de Annabela Rita, No Fundo dos Espelhos. Em visita (2007 e 2018), itinerário pela Literatura portuguesa moderna e contemporânea através de alguns dos seus autores e obras-chave, consciência crítica essa diretamente ligada à capacidade para que essa Literatura possa ser observada como uma casa metamórfica; e isso explica de igual modo por que motivo, como se percebe na ensaística da Autora, a literatura oitocentista, tempo de violenta contestação da Igreja católica, nos oferece um cânone em que a identidade nacional e a discursividade estética são dominadas pela configuração cristológica.

Trata-se, nuclearmente, de aceitarmos a noção segundo a qual o processo legitimador na auto-representação identitária se replica na construção do cânone literário: as obras impõem-se compondo uma “museologia” do nosso imaginário (p.99), representada diversamente nas artes, nas tradições, nos costumes, promovendo-se entre todas estas manifestações um diálogo polifónico e dialógico, num concerto através dos tempos e dos discursos artísticos, e sobreimprimindo-se nesse fantasmático sfumato de que parecem assomar em primeiro plano. E esse facto, evidentemente, explica (também) a íntima relação entre as literaturas europeias e o lugar que nelas ocupa a literatura portuguesa.

Eis, pois, o Sfumato. Figurações in hoc signo. Trata-se, como escreve no Posfácio, D. Francisco José Vilas Boas Senra de Faria Coelho, Arcebispo de Évora (e autor de Nossa Senhora e a história de Portugal. Alianças com Santa Maria [2017]), de uma «obra dividida entre a observação mais genérica dos signos-sinais dessa representação ocidental (mais particularmente europeia)» (p.335) — pesem embora as relações dialógicas com elementos orientais —, facto que constitui a base essencial de leitura da primeira secção, Figuras na Paisagem (secção esta onde a Autora aborda o processo de gramaticalização identitária, tendo [igualmente] em conta todo um conjunto pluridiscursivo de elementos [episódios, objetos, profecias…] que, em conjunto, contribuem para a consagração de uma figuração comunitária). Já na segunda e terceira secções, Paisagem com Figura(s) e Paisagem & Figura(s), respetivamente (ambas inteligentemente formuladas com uma marca plural entre parênteses), é protagonista o caso português. Encontra-se, aí, o lastro das preocupações operatórias da Autora ligadas ao seu posicionamento específico enquanto professora universitária de Literatura Portuguesa, que atentamente percorre a memória coletiva, equacionando alguns dos contornos que topicamente determinam Portugal como corpo e alma nacionais, como sujeito coletivo que não se subtrai (antes pelo contrário, com eles se vai construindo) à configuração de incoerências (tantas vezes) e equilíbrios históricos, culturais, literárias, políticos, conformadores desse corpo/alma.

Revela, assim, a Autora (e convocando de novo as palavras de D. Francisco Coelho), «uma linhagem de pensamento identitário com (des)continuidades, apesar das diferenças perspetivas, linhagem que vai da velha historiografia e tradição oral até ao grupo da Filosofia Portuguesa e aos seus mais assinalados desenvolvimentos actuais (Manuel J. Gandra, Paulo Loução e outros): os que lhe concebem uma identidade e ciclicidade históricas em horóscopo cifrada (Fernando Pessoa, António Telmo, Manuel J. Gandra), os que lhe verbalizam a utopia (Bandarra, com as suas trovas, Padre António Vieira, desde a Chave dos Profetas à História do Futuro, em especial), os que lhe salientam o projecto áureo (António Quadros) ou de gnoseológico recorte (Dalila Pereira da Costa) […]… Por fim, destaca-se o modo como, mesmo o Modernismo habitualmente visto como ruptura com a tradição cultural, a revisita e se constrói através dela» (p.335). E, como se pode ver, a todas as matérias aqui trabalhadas não é alheia uma outra questão que com aquelas se relaciona: a robusta participação da Autora em diversos Eventos Científicos, como deixa bem evidente o exemplo do texto “O Futurismo entre memória & inovação”, no qual (mais uma vez) lembra a Autora a necessidade de, no campo literário, nunca se dever entender a novidade sem que se invoque a tradição.

Uma nota final para este SFUMATO: a Antologia final; muito útil, reúne um conjunto de textos que são trabalhados ou referidos ao longo da obra, e que, por isso mesmo, permitem ao leitor aprofundar reflexões, esclarecer dúvidas, percorrer outras áreas de reflexão.

Terminamos com as palavras, sempre clarividentes, de D. Francisco Coelho: «Em tempo de crise das identidades nacionais, de globalização acelerada, dissolvendo fronteiras espaciais e temporais e valores tradicionais em benefício de supra identidades, eis o olhar ensaístico a perscrutar as “brumas da memória” colectiva em busca do que nos foi constituindo como sujeitos da História» (p.333).


SFUMATO. Figurações in hoc signo: uma obra a adquirir, absolutamente; depois, por ela navigare necesse est.


[1]     BLOOM, Harold. The Western Canon. The books and school of the ages. New York / San Diego / London: Harcourt Brace & Company, 1994, p.35

[2]     BRUNS, Gerald L. Canon and Power in the Hebrew Scriptures. Critical Inquiry, 10, 3, March, 1984, p.464.

[3]     ADAMS, Hazard. Canons: Literary Criteria/Power Criteria. Critical Inquiry, 14, 4, Summer, 1988, p.751.

[4]     BLOOM, 1994, pp.8 e 527)


Revista Triplov . Série Viridae
Julho de 2022
Tributo a Annabela Rita