Bestiário

 

Tributo a ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO


antónio cândido franco

BESTIÁRIO

[poema de zoologia fundacional aplicada]

 OBJECTIVO

criar uma nova colecção de animais

REGRAS

nenhuma concessão ao pensamento racional

nenhuma concessão à fidelidade zoológica

MATERIAIS

histórias da literatura portuguesa

discursos oficiais, manuais escolares

revistas especializadas, livros científicos

relatórios, dissertações e teses académicas

dicionários, enciclopédias 


ZOOLOGIA FUNDACIONAL DA LITERATURA


A Zoologia Fundacional [ZF] é uma disciplina autónoma que nasceu na sequência dos estudos piloto da Medicina Fundacional da Língua [MFL]. Enquanto esta se dedicou em exclusivo à doença das palavras, a ZFL consagrou-se à aplicação da anatomia analógica de N. Porta e de G. Cuvier aos fenómenos morais, que foi um dos campos que contribuíram para o nascimento da MFL, mas que depressa foi por esta abandonado, já que pouco se podia dela esperar num quadro clínico patológico.

O seu sucesso mundial como área autónoma foi, porém, imediato. Pela nossa parte, interessa-nos muito particularmente um dos campos auxiliares desta nova ciência, a que chamaremos por comodidade Zoologia Fundacional da Literatura [ZFL]. Esta disciplina auxiliar foi criada em Portugal por um grupo de estudiosos que desde então se tem entregue a uma aturada pesquisa, que leva já alguns anos de intenso e esforçado labor.

Tudo começou com a obtenção de três inesperados resultados que foram vistos e apreciados com alguma hesitação, até porque os sujeitos de estudo eram pouco representativos e até inexistentes. Os seus nomes – e os nomes na ZFL são apenas o indicativo arbitrário da obra, nunca da pessoa – não se referiam a nenhum obra em especial, menos ainda a alguém em particular, e foram obtidos pela junção aleatória de nomes tirados à sorte num dicionário onomástico – o de João Pedro de Andrade, 3.ª ed., revista e acrescentada. De resto, como é vulgar acontecer em literatura (veja-se por exemplo a indicação expressa na folha de rosto do mais recente romance de Z.A.), qualquer concordância com nomes reais de pessoas existentes é, ou foi, pura coincidência sem realidade.

Ainda assim, estes três resultados, dado o seu efeito de surpresa, e até a sua sugestividade inusitada, foram considerados promissores. São hoje uma relíquia arqueológica na área da ciência e é nessa qualidade que os apresentamos aqui. Estão para as descobertas ulteriores como a locomotiva a vapor está para a elétrica e o aeroplano de Santos Dumont para o vaivém espacial.

CARLOS REIS – pastor alemão com um laço cor-de-rosa de lulu na cauda, unhas aparadas, polidas e envernizadas, pelo escovado e penteado ao jeito de bandós, orelhas lavadas e polvilhadas de pó de talco de bebé.

CRISTINA DE ALMEIDA RIBEIRO – centopeia cega que estonteia nos dias quentes e vive no bacelo se­co; usa calçado ortopédico, meia de palha, óculos de anel médio, dentes ácidos de acrílico; tem como particularidade invulgar ter aprendido a falar por meio de um susto que lhe deu uma jiboia que serve aos barbeiros para aparar franjas, quando não para descascar toranjas.

CARLOS PINTO COELHO [JÚNIOR] – bicha-solitária [verme platelminte cestode] que se instala nos aparelhos elétricos, em especial nos ventiladores a hélice, e cuja expulsão só pode ser obtida por um vermífugo à base de malte fermentado – obtido com toda a facilidade em qualquer prateleira de hipermercado.

Liderada por Serápio Calhau, reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro, doutor honoris causa pela Universidade de Bucareste, Colar Montaigne do governo francês, bolseiro do MIT em dois semestres, onde se iniciou nos estudos de ZF, ex-coordenador geral da FCT, a equipa tem por divisa o princípio majestati naturae per ingenium.

Com a devida permissão, divulgam-se nas próximas páginas alguns dos resultados obtidos, que, embora dos mais modestos, dão ainda assim uma imagem alargada do contributo que esta ciência auxiliar está a dar para um novo conhecimento da literatura.

Pode dizer-se que depois da aplicação dos métodos da ZF à literatura nunca mais o estudo desta voltou a ser o mesmo. Numa área ainda então com forte défice científico, isto sem esquecer os denodados mas insuficientes esforços de ontem do estruturalismo e do pós-estruturalismo, aconteceu finalmente a tão esperada e desejada revolução coperniciana nos estudos literários mundiais e nacionais.

Depois da ZF, é certo que estes não mais abandonarão o campo da ciência, dispondo hoje de métodos quantitativos infalíveis, de processos exatos de cálculo, de instrumentos racionais de experimentação que levam à determinação exata do valor das obras e dos autores e remetem todas as análises do passado, com as raras exceções acima apontadas e suas raízes formalistas, para o baú das velharias.

Estamos convictos que os resultados ora apresentados constituem a melhor e mais avançada abordagem que se conhece até hoje da literatura portuguesa dos séculos XIX e XX. Nenhuma história conhecida da moderna literatura portuguesa, de Mendes dos Remédios e Teófilo Braga a Seabra Pereira, passando por Fidelino de Figueiredo, Mário Fiúza, Óscar Lopes e o grande, grande, grande António José Saraiva, foi tão longe gnosiologicamente falando.

O valor exato, aferido até à escala milesimal, está definitivamente adquirido para um conjunto obras que até agora andavam à deriva, numa flutuação indeterminista injustificável, que era, além de pre­ju­di­cial aos nossos estudantes e ao público interessado nas nossas letras, um verdadeiro e intolerável atentado aos avanços gerais da ciência no nosso tempo.

 

O Adjunto Português

para a Missão Mundial de Zoologia Fundacional


ALGUNS MONSTROS LUSITANOS

[arcaicos & clássicos]


PAYO GOMES CHARRINHO – Pardal do cânhamo.

PERO GARCIA BURGALÊS – Garça pétrea de burgo francês.

PEDRO HISPANO – Precinto em pano.

JOHAM DE LOBEIRA – Anaconda licantrópica.

DOM DUARTE – Roedor de asas do deserto – dito Zero do Sono.

PERO VAZ DE CAMINHA – Teleósteo exótico, isto é, peixe-telepata que prefere o jota cego.

GIL VICENTE – Garça com pente em forma de til ou Farsa Teliforme.

BERNARDIM RIBEIRO – Peixe-pássaro de jardim lobal.

ANTÓNIO RIBEIRO CHIADO – Chia das margens dos rios.

PEDRO NUNES – Cavalo alado em tábua de conjunto – assim dito, porque abala qualquer quadrado fundo de asas.

GARCIA DE ORTA – Garça herbórea expedita, isto é, graça de ervanária jacobita.

FREI BARTOLOMEU FERREIRA – Cão-de-Deus corcunda, também chamado canídeo arqui-hierarca da curcuma.

LUÍS DE CAMÕES – Peixe-torre em forma de octaedro.

JORGE FERREIRA DE VASCONCELOS – Arnaz arqueólogo.

JORGE DE MONTEMOR – Arau cuneiforme.

FREI MANUEL COELHO – Ténia obnóxia praxista.

PEDRO MARIZ – Herbívoro gráfico e zoantário.

FERNÃO ÁLVARES DO ORIENTE – Gaio do mar de trave e saio.

FRANCISCO SANCHES – Mocho-real das cidades vermelhas.

MANUEL SEVERIM DE FARIA – Peixe-pedreiro arquimandrita.

DUARTE NUNES DE LEÃO – Cachalote monástico.

RODRIGUES LOBO – Leão enófilo.

FRANCISCO MANUEL DE MELO – Octópode de repetição verbal.

BRAZ GARCIA DE MASCARENHAS – Pata-Roxa de Carnaval.

PADRE ANTÓNIO VIEIRA – Onça-vermelha de sermonário.

FREI ANTÓNIO DAS CHAGAS – Jandaia Aratinga feita em prata e porcelana e que leva um toque de catinga.


ALGUNS MONSTROS LUSITANOS

[século XIX]


ALMEIDA GARRETT – Cavalo puro-sangue árabe, de calças felpudas, camisa curta de seda, punhos de renda, sapato amarelo envernizado, boné de lona ou cartola preta de tira doirada, que aparece ao entardecer nas ruas centrais de Moscovo apoiado numa bengala de prata.

ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO – Lémure da ilha de Madagáscar, de cauda longa e rosto asiático, que solta assobios prolongados e frenéticos quando aprende a ler runas e ideogramas.

SOLANO CONSTÂNCIO – Texugo migrante de acém que se fez fiel de Armazém

ALEXANDRE HERCULANO – Gato dourado de Lovaina que se notabilizou em Iena com uma dissertação comparatista entre o movimento helicoidal dos parafusos e o salto das panteras.

CAMILO CASTELO BRANCO – Corvo marinho das Malvinas com estrela branca na cauda da casaca, bico cor de sangue vivo, que acasala no final do Inverno com o alcíone feminino da Antártida. Pode transformar-se em hidra mitológica.

SOARES DE PASSOS – Coruja nórdica das ruínas que passou vários anos na universidade sem ser vista um único dia.

REBELLO DA SILVA – Peixe do alto mar que dá à costa com chapéu de feltro, escamas de vidro, barbatanas de renda branca lacada e muleta de toureiro.

MENDES LEAL – Gastrópode letrado que serve de ventosa nos teatros.

MANUEL SILVA GAIO – Lebre escocesa que tem horror a tudo o que pi­ca e emite sons triunfais de guerra quando lhe lêem um verso latino cuja última sílaba é a reprodução da penúltima.

ÁLVARO CARVALHAL – Serpente do interior do Amazonas que expele um licor negro e adocicado que se usa em todo o mundo para engomar os vestidos das noivas.

RAMALHO ORTIGÃO – Urso dos Pirenéus com as unhas envernizadas em Génova e postado à janela num palácio, em Lisboa, na Pampulha. Ou então gárgula de pedra com forma de pacaça que se usa para fabricar termómetros.

ANTERO DE QUENTAL – Bicho que se celebrizou por inventar um tipo novo de letra tipográfica – a anteriana – que se caracteriza por emitir sinais luminosos no momento da leitura. Há quem diga que além dos sinais luminosos pode também emitir variados sons de clarim (todos de revolta).

GUILERME DE AZEVEDO – Zebra feroz do Quénia que está desejosa de se passear por Paris e ir à Ópera de fraque e cartola.

TEÓFILO BRAGA – Elefante cartaginês que serviu a Claude Bernard para acelerar o método experimental de torrar papel e reduzir a pó os dentes de cardo.

EÇA DE QUEIROZ – Flamingo cinzento de ânus azul, com pena lilás no alto da cabeça e ponto vermelho no alto do bico amarelo, que se extinguiu no final do século XX e cujo derradeiro exemplar pode ser visto no Jardim Zoológico de Pequim. Está em processo de identificação um segundo exemplar no Zoo de New Jersey.

GUERRA JUNQUEIRO – Jaguar faminto dos desertos setentrionais do Mé­xico que frequentou o seminário e serve de mola em caleches de campainhão e longo curso. Ou então papagaio loiro das pampas argentinas que todos os dias de manhã toca por brincadeira a corneta do regimento de milicianos de Montevideu.

GUILHERME BRAGA – Pulgão das heras que canta à meia-noite ou então gota de orvalho que escorre todas as manhãs das violetas e relincha como cavalo com pés de bode.

GERVÁSIO LOBATO – Carneiro velho, de pelo crespo, que bate as horas com badalo de bronze e anuncia o Natal com trinta dias de antecedência por meio dum concerto eletrificado de sinos com canções tradicionais galesas. Ou então porta de secretaria ministerial, de aldraba em latão amarelo, que grunhe como leitão aflito.

GOMES LEAL – Gavião das penedias do Rife, de botim e esporão de sola, que se alimenta em exclusivo de folha de cânhamo.

CESÁRIO VERDE – Gaio de cemitério Druso que se caracteriza por ter olhos verdes em todo o corpo. Uma única exceção é o olho que tem na ponta do dedão esquerdo do pé que é quase transparente. Ou então lagarta verde das couves com estrias doiradas e sedosas.

ABEL BOTELHO – Condor andino com um olho gelatinoso de vidro e um dedo postiço de borracha que frequenta os cemitérios da Gronelândia e os pastos da Serra do Cão.

FIALHO DE ALMEIDA – Águia-Real das estepes desérticas cruzada com abetarda e cobra que aprendeu a silvar em língua tibetana. Ou então Gato-Real que frequenta os circos e sabe fazer truques de magia maia. Em qualquer caso é tão antigo que já não conheceu Padsambwa nem o tetravô do avô de Montezuma I.

WENCESLAU DE MORAIS – Espadarte que usa cabaia de seda e tem por obrigação servir o chá aos convivas de Neptuno. Ou então peixe-cabeçudo dos açudes de Linda-a-Velha.

ANTÓNIO NOBRE – Albatroz branco que dorme de dia e se alimenta à noite em grandes voos do leite da Via Láctea. Ou então hipogrifo solteiro da praia de Avintes.

EUGÉNIO DE CASTRO – Platirríneo que tem o vício da logografia.

CAMILO PESSANHA – Dromedário amarelo com automatismo ambulatório e que em cada duodecénio precisa de encubar.

JOSÉ DURO – Corvo negro transmissível por penetração cutânea.

ALBERTO BRAMÃO – Embarcação trirreme da ilha de Corfu que emite bramidos de veado no cio.


ALGUNS MONSTROS LUSITANOS

[século XX, primeira metade]


RAUL BRANDÃO – Rinoceronte de Java que gosta de procissões de velas em ilhas do Mar do Norte e nunca esteve sujeito à jurisdição de bispo ou de tribunal.

ÂNGELO DE LIMA – Cetáceo de fole e xaile, cujo sopro dá o Braille.

TEIXEIRA DE PASCOAES – Pássaro que liberta cânticos persas à noite e reina entre os libertinos da Catânia e os li­cor­nes brancos.

AFONSO LOPES VIEIRA – Protozoário que provoca epidemias de riso.

ANTÓNIO CORREIA D’OLIVEIRA – Peixe-espada que gosta de ir a chá-dançante fardado de gala, com distintivo de general e chapéu de três bicos.

AUGUSTO GIL – Ave de contacto que passa os Invernos na beira a tocar contralto e os Verões nas bilheteiras de teatro.

CAMPOS LIMA – Pardal-francês que recusa usar sotaina preta, dalmática branca de seda, bem como qualquer outra veste litúrgica, incluindo escarpins de verniz, e é por isso também chamado Antipapa.

JÚLIO DANTAS – Imperador vermelho com lenço de seda que se pesca na costa portuguesa e se usa nas caldeiras prateadas com greda.

AUGUSTO DE CASTRO – Mergulhão eclesiástico, isto é, pássaro de medalhão que usa sapato de elástico. Ou então ave dedeira que se desunha por ir ao brídege e também é conhecida por brigadeiro.

JOÃO LÚCIO – Peixe das profundidades que emite uma luz prateada que se destina a fornecer energia aos marégrafos. É muito estudado em Viena de Áustria.

ALFREDO PIMENTA – Falena hidrófoba que agita frascos em livraria – assim dita, porque quando lhe falha o hidrogénio contrai logo a alergia rábica que dá picos de rabo à raiva dos livros. Também é chamado o Hitler da literatura.

ANDRÉ BRUN – Galo francês de capoteira, quer dizer, fetichista que fia nos salões e aguadeiro que angaria nos porões, ganhando crista, esporas e galões na arma de cavalaria.

ANTÓNIO PATRÍCIO – Pássaro esquisito de gaiola, assim dito porque sai fora dos requisitos da argola. Resulta do acasalamento do escorpião escocês e do sargo de Angola e tem por habilidade especial empoleirar-se no cadeirão do mandarim chinês.

JAIME CORTESÃO – Águia ruiva e camoesa com doirados lustrosos na cabeça que gosta de bater esteiras e tapetes na fronteira cingalesa e ganha delírios de ceia nas noites de saca cheia.

AUGUSTO CASIMIRO – Búzio hiante em papel que assoma de noite nas praias sem se fazer cruel.

AQUILINO RIBEIRO – Ave termal provida de baia e corno e que serve para moer barbatana e fazer caldo verbal.

FERNANDO PESSOA – Cobra gigante que tem a cauda no covil de Napoleão e a cabeça na cabana de Gaugin. Produz efeito asséptico na limpeza dos grandes armazéns, dos grandes auditórios e dos grandes hospitais e pode ainda ter efeito sedativo e narcótico, sendo nestes casos usada em quantidades mínimas contra a tosse.

MÁRIO BEIRÃO – Bicho desconhecido, metade borrego e metade caracol, com olhos alaranjados e pestanas de bailarina, que tem por particularidade hibernar numa cova da Lua.

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO – Urso doméstico que vive pacatamente em capoeira e põe ao pôr-do-Sol ovos de cobre.

RAUL LEAL – Tigre asiático que aprendeu a usar bengala e chapéu de coco número onze e se senta sem incómodo à mesa do café e não se importa de urinar no bronze.

ALMADA NEGREIROS – Mula de sapatos pretos envernizados que dança o tango nas noites de Lua gorda.

LUÍS DE MONTALVOR – Cão esquimó que vive no forte de Caxias um mês e vai todos os anos passar o Natal num Farol francês.

ANTÓNIO FERRO – Tartaruga cartácea de ar absorto – assim dita, porque presta serviço nas farmácias do Porto.

AMÉRICO DURÃO – Lebrão carrapeto com número dez, isto é, sezão que faz cara de soneto e traz o quarto da mobília de Ramsés.

FLORBELA ESPANCA – Pardal selvagem das ilhas da Nova Zelândia enfeitado com pena de gavião e que acasala em Marte com o andorinhão africano.

ANTÓNIO BOTTO – Lampreia órfica sem repressão legal.

FERNANDA DE CASTRO – Ema natalícia de tono escolar – assim dita, porque faz de barítono nos orfeões dos lares.

ANTÓNIO SARDINHA – Sardão que gosta de passear na Porta do Sol em Madrid e ir à ópera enfeitado de luvas brancas, barretina e dólmen.

IRENE LISBOA – Palmípede com membrana natatória em prata e asas de papel vegetal que tem alguma parecença com o cogumelo de cristal que cresce no mês de março na Terra do Fogo (Patagónia).

FERREIRA DE CASTRO – Beija-flor das florestas de madrepérola que só canta depois de observar atentamente o que o rodeia por meio de um minúsculo binóculo que transporta sempre escondido na lona da asa direita.

JAIME BRASIL – Rodovalho seminífero, quer dizer, que se dedica à mântica em seminários académicos. O seu meio predilecto de adivinhação faz-se através de quadros onde se dá a projecção estatística do sémen e por isso é também conhecido como seminarista. O mesmo que amador que frequenta viveiro e estabelecimento de ensino seminal.

MÁRIO DOMINGUES – Rouxinol aberrante de certas ilhas africanas que se alimenta de imperadores, imperatrizes, infantes, príncipes, reis e rainhas. Seria capaz de transigir com algum papa, mas a sua dieta refinada e exigentíssima já não comporta nem duques nem condes nem mesmo cardeais. De barões, bispos, monsenhores, valetes e viscondes nem vale a pena falar, pois nem sequer dá por eles. Diz-se que Babeuf possuía um destes animais e antes de tomar qualquer decisão se aconselhava com ele, emprestando-lhe o maior crédito.

JOSÉ RÉGIO – Girafa de vidro martelado que anda aos solavancos e se enfeita no peito com mecanismo prateado de corda e na testa com número pitagórico.

JOSÉ GOMES FERREIRA – Caracol cuja concha é usada para o chá da tarde e se encontra sempre nas melhores casas da especialidade. Em certos casos faz traduções instantâneas com a ponta das antenas, libertando ao andar um som inconfundível de violino.

JOAQUIM PAÇO D’ARCOS – Tritonídeo ecónomo do Hospital da Ordem Terceira.

GUILHERME FARIA – Dragão bebé de escamas azuis e hélices castanhas, com mecanismo de latão nos calcanhares e algeroz de zinco nos bíceps.

ANRIQUE PAÇO D’ARCOS – Galgo mesão que pratica à mão e sempre à porta dos teatros a telepatia dos retratos.

MARIA ARCHER – Cigarra extranumerária de anel que viaja à vela e sem diária e come num paralelepípedo de papel.

EDMUNDO BETTENCOURT – Coruja taxidérmica que lê da direita para a esquerda e é capaz de traduzir o Capital de Marx em símbolos químicos. Ou então búzio do mar que está convencido que pode resolver a quadratura do círculo através da cor branca.

TOMAZ DE FIGUEIREDO – Peixe-brasão feito em pasta de papel de dicionário.

PEDRO HOMEM DE MELO – Pomba branca de olhos míopes, que canta nos médões quando os metros se afastam da costa. Ou então cobra do leite que sopra como xilofone.

ARMINDO RODRIGUES – Pássaro solar que frequenta os leilões.

DOMINGOS MONTEIRO – Gato-pedra que serve para dar vida aos mortos e aparece sempre que é chamado por assobio – em certas situações, como as que decorrem do morbo, a gaita do amolador pode substituir o assobio.

JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS – Pisco-ferreiro, também chamado mineiro porque se alimenta de mingau, que resulta da composição gráfica de anúncios comerciais fingidos numa mistura de tipo Baskerville com tipo americano. Quando usa boldrié de água é também chamado de pisco-mingacho.

BRANQUINHO DA FONSECA – Brinquinho preto dos caniçais chineses que teve por pai um lobo e por mãe uma raposa coreana que nunca precisou de rapar o pêlo – nem mesmo de aloirar o buço. O mesmo que bibliomania nómada, bibliomancia vagabunda e bibliologia errante.

JOÃO GASPAR SIMÕES – Catatua siamesa que aprendeu a falar uma língua desconhecida na praia do Guincho e tem a paixão dos carros descapotáveis e das viagens a Marte.

ALBERTO DE SERPA – Serpente epistolográfica de reversão.

MIGUEL TORGA – Leão de pedra da Cabília que só pode acasalar com a loba de bronze das nascentes do Eufrates. Quando assim não acontece, abre loja de comércio e tem morada postal num apartado dos CTT.

AGOSTINHO DA SILVA – Bicho nómada e inclassificável que nasceu em Júpiter do acasalamento da Galáxia de Andrómeda com a Estrela de Cinco Pontas de Perseu.

JOSÉ MARINHO – Licorne luminoso que só se deixa ver nos interstícios dos fractais ondulatórios.

ÁLVARO RIBEIRO – Corvo-Marinho-de-Crista [Phalacrocorax aristotelis] que avalia as coisas desde o seu princípio. Exemplo: a existência tanto se pode dever a um acto de vontade como ao esquecimento do método anti-concepcional.

ADOLFO CASAIS MONTEIRO – Hidrofilídeo que sofre de loxodromia. Ou então macaco luciferário que substitui em certas costas os faróis.


ALGUNS MONSTROS LUSITANOS

[século XX, segunda metade]


ANTÓNIO PEDRO – Onagro habituado às pedras xistosas e que só suporta a cor verde quando bebe vinho ou então macaco de barba branca que sabe engomar camisas às forças de segurança quando trazem a goma já incluída.

ALVES REDOL – Sargo de água doce que desce os rios voltado do avesso.

RUY CINATTI – Garça branca de arribação, que nidifica no delta do Nilo e se alimenta de talófitas clorofiladas e de toda a casta de videiras cultivadas na bacia do Mediterrâneo. Quando a temperatura desce abaixo de zero, transforma-se na Alpaca ruminadora dos Andes que gosta de apanhar raposeiras.

VERGÍLIO FERREIRA – Peixe teleósteo [Lúcio] que nasce melancólico e se torna voraz na maturidade.

MANUEL DE LIMA – Pombo-correio madrugador que levanta voo do Parque Mayer com um grão na asa.

RUBEN A. – Setter inglês sexangulado cuja soma das letras é igual à distância da Terra ao Sol.

FERNANDO LOPES GRAÇA – Tentilhão melófilo e optométrico da Rua do Sol à Graça – assim dito, porque opta por ser tentame na praça barométrica do mel e tenente no sótão filosófico.

ÓSCAR LOPES – Casuar romano da Rua da Academia das Ciências.

ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA – Caimão de prédica, já que à beira do prédio da consultadoria médica tem por estranho costume deixar cair a mão.

JORGE DE SENA – Raia especialista em logomaquia e em descargas eléctricas.

AFONSO BOTELHO – Cavalo de pau que se usa em palco nas récitas minhotas para representar os amores de Tristão e Isolda.

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL – Peixe porfírico – assim dito, porque é porfioso e em segredo se converteu a uma confraria sufi. Depois disso, deixou de cantar no coro da Igreja de São Sebastião para passar a viajar com gravata de lã.

JOAQUIM NAMORADO – Psitacídeo que todos os dias vai ao túmulo de um Czar russo dar os bons dias e recitar um poema dos Árcades.

SOEIRO PEREIRA GOMES – Lobo estético que bate às portas para fazer a leitura dos contadores domésticos. Nos dias de folga – domingos e feriados – faz de relógio e bate horas.

CARLOS DE OLIVEIRA – Arara rara de Abrantes que se alimenta de araruta e que abriga armas de arame. Fabrica ainda aranhas sem arestas, arados de areia e antas de arenito. Pôs na arca a arçã do arcano, mas meteu na água arcanjos, arcebispos e arcediagos.

JACINTO DO PRADO COELHO – Cação erudito com o grau de terarca.

FERNANDO NAMORA – Bicho-de-sete-cabeças – assim conhecido porque nos dias frios da serra enfia quatro capuzes gregos e três capuchas galegas.

RAUL DE CARVALHO – Cachorro-boi que distribui bulas hospitalares ao domicílio e gosta de afastar o Sol com limão. Ou então Cavalo-Leão que à meia-noite vem à janela de chapéu de feltro verdes.

CRUZEIRO SEIXAS – Concha lunar bivalve feita em organdi e açúcar cristalizado e que tem mecanismo de relógio suíço por dentro.

BERNARDO SANTARENO – Rena que usa bornal e sino.

ANTUNES DA SILVA – Bugio cingalês que gosta de ficar parado nas esquinas. Quando veste fato branco, tem aproveitamento para rolos de massa-fita. Presta esta um serviço inestimável à humanidade para cintar espelhos e descolar latifúndios, isto é, os fundos latos de vasilhas velhas. O mesmo que dizer decigrama heróico.

ORLANDO VITORINO – Bodotodonte com carlinga de aço alemão que um dia teve de ser operado a uma mão e levar dois dedos de substituição – anelar e polegar – em plástico do Japão.

AGUSTINA BESSA-LUÍS – Ave da família dos falconídeos que come contas de vidro e deita fora pautas com sinais de música. Ou então mastozoário cor-de-rosa que confunde a missa da manhã com o deitar a cabeça na Rocha de Foucauld. Um dia foi mais longe e confundiu Foucauld com Foucault (cf. Cours au Collège de France, 1978-79, lição de 7 de Fevereiro, 1979) e ficou sem saber se gostou.

JOSÉ SARAMAGO – Réptil sáurio da família dos lacertídeos, quer dizer, os descendentes dos Lacerdas, que eram os que viviam ao pé do rio e usavam lacerna no Inverno, perdendo a pele ao menor sinal do frio.

MÁRIO CESARINY – Dragão beladonado que aprendeu a tocar castanholas nas pedras da calçada do Rossio e assim se salvou do Dilúvio sem precisar de entrar na Arca de Noé.

MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA – Raposa que se lambe por uva moscatel e bolo saloio (sobretudo se comidos no Porto de Honra da Sociedade Nacional de Belas Artes). Pode também ser a Moby Dick que outrora pôs o seu ventre à disposição do Profeta Jonas e do Pinóquio.

LUÍS AMARO – Touro preto da Lezíria que torce o rabo ao mobiliário de estilo francês, sobretudo aos cadeirões à Luís XIV almofadados em seda de Anvers, e à gramática de Port Royale. Isto não obsta que não se orgulhe de falar ao Petit Prince.

EDUARDO LOURENÇO – Coruja das torreadas granjas do Cáucaso que gosta de comprar cautelas e outro jogo da sorte. Condescende em final de obra com a soda de Casino e com as máquinas de jackpot.

ANTÓNIO QUADROS – Hipocampo que as tribos do Leste afegão usam como tatuagem móvel no ombro direito quando querem fazer lume numa esteira de verga. O mesmo que lantânio (elemento químico, n.º 57 da classificação periódica).

NATÁLIA CORREIA – Borboleta-azul [Maculinea arion] que foi feita segundo uma fórmula encantatória da tradição oral com o pólen do céu, o borboto da lã e uma roleta com bola de marfim. Quando crisálida, tem folhas de ouro, quer dizer, é crisanto que padece de crisofilia acentuada. Pode ainda nas noites húmidas soltar um néctar de aroma adocicado e cor esbranquiçada, acompanhado por electrização intensa, e que é altamente aconselhada na alimentação dos adolescentes.

JOSÉ-AGUSTO FRANÇA – Psitacídeo que recita a fórmula dos esconjuros dos Museus. Teve de optar entre abrir em libré de veludo as portas do palácio do marquês de Chamilly ou ir descalço de bicicleta a pedal ao Palais Idéal do Facteur Cheval. Não hesitou e hoje é mordomo-mor do Tesouro em vez de carteiro cota em terra dos Mouros.

EUGÉNIO DE ANDRADE – Pombo toscano que pode ser usado na reconversão de modelos cosméticos.

ANTÓNIO RAMOS ROSA – Pavão do palácio real de Sintra que salta para as maçanetas das portas com a intenção de dar bonés e bilhetes a quem passa.

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA – Gavião em forma de barco cartaginês que faz tagaté e é conhecido pelo ticotico do mar das letras já que detecta e limpa as sílabas nocivas. Também conhecido por Falcão de prata, pois possui fotóforos que emitem luz e lhe dão ar de candelabro.

ALEXANDRE O’NEILL – Equídeo que anda a uma roda, isto é, cavalo divino monociclista; atravessa livremente os ares no equador no momento da passagem do equinócio, quer dizer, com dor de égua e ócio de equídeo. O mesmo que dizer andar na Lua.

JOSÉ CARDOSO PIRES – Rafeiro alentejano com uma habilidade especial para os dias claros e enxutos, os parágrafos de sopro e os instrumentos crus.

ALEXANDRE PINHEIRO TORRES – Primata ferroviário.

LUIZ PACHECO – Minotauro com turbina ôntica, que na Rua das Farinhas sonda o cotim coçado, mas na Rua do Sol-ao-Rato só vai ao cheiro do taco.

URBANO TAVARES RODRIGUES – Pássaro pugilista. Com mais treino no gancho à esquerda, podia ter chegado a ser o Arthur Cravan português.

AUGUSTO ABELAIRA – Poupa ontológica que não larga o dedal.

DANIEL FILIPE – Pargo marinheiro – assim dito porque tem pá e prega no mar sem dinheiro.

AMÂNDIO CÉSAR – Melope meloniforme – assim dito porque liricamente melodia sempre em uniforme MP.

DAVID-MOURÃO FERREIRA – Primata catarríneo que varia de tabaco artístico para cachimbo e toma café sempre em pé na pastelaria. Pode também cruzar palavras e fazer sonetos beletrísticos no salão de chá – neste caso, sempre sentado.

SEBASTIÃO DA GAMA – Peixe-balão que que se alimenta de figo e grão e nunca quis ver máquina de escrever.

PEDRO OOM – Leão vermelho alado com bicos de papagaio. É o avô em Portugal da Zoologia Funcional da Literatura – que prescreveu sem sal e sob forma de gotas homeopáticas.

JOÃO ARTUR SILVA – Bicho braquidáctilo com olhos de algodão hidrófilo e que está proibido na alimentação dos doentes hepáticos.

ANTÓNIO MARIA LISBOA – Gafanhoto de oiro que serve de capa aos livros, protege do mau-olhado, lubrifica as correntes das bicicletas e acende as velas dos túmulos dos Mapuches. Pode ainda servir como afia-lápis, como lâmina de barbear e como papel de parede. É vendido nas feiras, nos mercados e nas ervanárias mais antigas. Aparece todos os anos anunciado no Borda d’Água.

CARLOS EURICO DA COSTA – Cão São Bernardo que anda sempre de barril de madeira ao pescoço, gosta de lima e de Dão e faz cura de alhos e de melão num kibutz de Israel.

FERNANDO ALVES DOS SANTOS – Mamífero da família dos mustelídeos que enfeita o pescoço com uma pedra de quartzo no solstício de Verão e ganha uma franja de azulejos árabes em fim de vida.

VIRGÍLIO MARTINHO – Gato tricolor litólatra que gosta de desarrumar caixas, destroçar dominós, arranhar cortinados, entornar copos, deitar abaixo candeeiros e baralhar cartas. O que o distingue dos muitos congéneres que viram latas é a fama dos pés em forma de embarcações vikings.

JOÃO RUI DE SOUSA – Leão verde dos arredores de Lisboa – tem o seu habitat entre a Palhavã e a Paiã, detesta o laço fechado e autotélico em forma de 8, suporta mal a quina e prefere o enlace aberto do 6 e do 9.

ANTÓNIO TELMO – Ave-Sol que acompanha Orpheu na descida ao reino dos mortos. Poisa no seu ombro esquerdo e dá-lhe ao ouvido a nota de entrada da Lira. O mesmo que antífona. Pouco sai da Boca do Inferno, onde se alimenta de queijadas saloias e jeropiga. Nunca se interessou pelo filho de Bóreas nem pela Asa Delta.

ISABEL MEYRELLES – Panda que se alimenta em exclusivo de flores com folhas de oiro – crisântemos e girassóis. Em momentos de escassez, que são muitos, pode transigir com orquídeas, tulipas, gerânios e até rosas. É raro que se interesse pelas flores de retórica – embora se bata com gosto com as fleurettes e seja amiga de Henriette La Chapelle-Baisé, châtelaine de Fleury.

FERNANDO ECHEVARRÍA – Castorídeo claviculado com canevão. Liberta uma substância altamente cognitiva e nada desagradável ao cheiro no momento em que nele giram as chaves do instrumento musical. O mesmo que anfíbio de eixo polido e varrido.

FERNANDO GUIMARÃES – Ave ventríloqua que passa por Aveiro e transige com avisos, avios e aviadores, mas se recusa a imitar avieiros.

ANTÓNIO ARAGÃO – Dragonte heráldico de expedição automática – isto é, dragonete arconte de expolição matemática (que alguns quiseram aplicar em inquéritos estatísticos mas tudo o que conseguiram foi obter demérito balístico).

HERBERTO HELDER – Vulcanossauro com o rosto em forma de bico e tentáculos de polvo, que se caracteriza por viver de noite, adorar os astros e deitar fogo anão. Pode ainda ter repentes de penitência asiática e dar vinte voltas a correr à roda de um vulcão.

ALBANO MARTINS – Albatroz branco do mar de Timor, cuja principal função é soprar no ventilador dos fornos de fundição do bronze. Especialista em sinos, pode ainda servir para assoprador de sinas.

ANTÓNIO JOSÉ FORTE – Bicho longímano que prega sustos às mulheres grávidas nos caminhos e se esconde nos estendais da roupa. O mesmo que grifo de cristaleira dental.

AFONSO CAUTELA – Célula atómica da madeira que provoca estragos nas celuloses. Nos raros dias em que sente paciência pode ainda servir com infinito préstimo nos teatros e nas récitas.

ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO – Lobo poeta com tubagem exterior de água e cana, que vive nas barragens aos saltos mentais – assim dito, porque uiva nas listagens versos à Lua e bebe sem fazer chantagem canecos de salva e menta. O contrário de galo vernáculo e latino.

MANUEL DE CASTRO – Onça azul do deserto de Atacama com cauda dupla e perfumada, muito apreciada pelos fumadores amazónicos dos cachimbos fabricados em terra. Em decocção lapidada serve de colírio.

HELDER MACEDO – Garça-de-cabeça-negra, com a crista verde-garrafa e plumas ornamentais lanceoladas. O mesmo que soldado lanceiro armado de lança ou de caneta e que lanceia laços e desfaz lanches.

ANTÓNIO SALVADO – Lince pilastra, quer dizer, felídeo de visão aguda que traduz as cartas de Pilatos. Quando lhe cresce o pincel grosso de pelos escuros em cada pavilhão auricular, pela-se por uma pildra-dourada e na falta desta por uma pildra de prata.

VASCO GRAÇA MOURA – Elefante Paleólogo – assim dito porque é teólogo entre os que sofrem de elefantíase.

CRISTOVAM PAVIA – Unicórnio voador que resultou do acasalamento do rinoceronte-negro com a borboleta-real e cujo chifre é feito na mesma pedra em que foi talhada a Torre de Belém. Levanta voo por levitação e não pelo bater das asas, que são nele atrofiadas. Tem um sistema lanífero de arranque alternativo que faz lembrar os primeiros balões a gás.

MANUEL S. LOURENÇO – Burro de oiro universal que foi outrora gerente de circo e antes melro-peixeiro. Mais tarde, na metempsicose final, promete ser o nadador.

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO – Pássaro alaudídeo, quer dizer, pássaro que toca alaúde e tem a forma de Dido, quando não e ao mesmo tempo de dedo e de índio. Pode também ser clavicórneo sem clavícula que toca clavicórdio quando exorciza a clavina e tem o sentido no alto claveiro de Hermes, embora não desterre a clava de Hércules.

MANUEL ALEGRE – Tamboril que tamborila tamborim com o pé da barbatana e tem na mão da savana privilégio de tamborete com tampa e tampão. Pode também ser predador de lapela e laço que caça formigas com obuses e acha que as verdadeiras ecologistas, amantes sublimes da paz e da natureza, são as lagartas dos tanques – estes só de fabrico e de ladrilho americano. Papa-formigas.

MANUEL GRANJEIO CRESPO – Cotia com um mecanismo exterior de rodas em madeira aquática que pulveriza televisões nas avenidas de Nova Iorque e faz feitiço nas grandes jurisdições internacionais.

MARIA VELHO DA COSTA – Peixe-pedra com olhos cilíndricos de vidro, que serve de elevador solúvel nas importações e tem propriedades aritméticas na confecção de garrafas e garrafões.

VITOR SILVA TAVARES – Carpa azul do Alasca que deu à costa com um cardume de bebés no cais de Alcântara e foi criada no mesmo farilhão onde foi encontrada a cestinha de Moisés.

JOSÉ MANUEL PRESSLER – Vibrião roxo e branco que serve para desinfectar à mão as lantejoulas do telescópio.

RICARTE-DÁCIO DE SOUSA – Buzilhão – ou búzio grande – com que antigamente o Sinaleiro chamava as senhoras à missa no Bairro da Lapa. Hoje é peça do Museu da Cidade de Lisboa.

ERNESTO MELO E CASTRO – Macaco hidráulico que serve para levantar um poema épico de ângulos obtusos. Ou então linguado que só se pode comer acompanhado de números decimais.

ANA HATHERLY – Cotovia de Sousel que alguns, confundindo conserto e concerto, quiseram aplicar ao trem de aterragem da aviação civil.

ALMEIDA FARIA – Para evitar melindres passa-se esta obra. Cabe só dizer que se pode juntar a mão invisível da cobra, penta-digitada, que aparece pintada no mealheiro do Mercado da Ribeira.

ANTÓNIO BARAHONA – O mesmo – mas sem mão.

FERNANDO ASSIS PACHECO – Teratodonte ancião, isto é, animal pterodáctilo de era fóssil com interesse pela mastozoologia e pelo futebol de salão.

ARMANDO SILVA CARVALHO – Corvo-Marinho de alça que tem máscara e bengala, usa capote varino arraiano e bate as horas pelo relógio de areia do Vaticano.

LUIZA NETO JORGE – Celacanto que usa gabardo ou gabão e cujo sonho preferido é aparecer a tocar cravo nas ruínas da Igreja de Arroios enquanto a revolução avança na rua (ou no céu) dos Anjos.

GASTÃO CRUZ – Equinoderme equinídio especialmente atraído pela arte de ourives e provido de lente que projecta imagens ampliadas. O mesmo que ranhura de Verão franjada de areia e encadernada em madeira.

EDUARDO PRADO COELHO – Mistura de gastrópode e de mamífero de pêlo crespo, cuja especialidade é fazer congressos sobre a arqueolo­gia geral dos pré-modelos cibernéticos. Tem por isso o chamado “tique doutoral”, que a psicanálise classificou como imitação fantasmática do trabalho do electricista quando no cimo de uma escada aparafusa lâmpadas.  Não confundir com uma ginjinha escura que se bebe nas Portas de Santo Antão – o Eduardinho.

MARIA TERESA HORTA – Animal floriforme, da família dos cervídeos, cujo cheiro é indicado na cura das doenças cinzentas. Contra as doenças verdes ou brancas é ineficaz. Nas restantes doenças coloridas, assim designadas porque afectam o que de cor se diz, está por determinar a sua eficácia.

CASIMIRO DE BRITO – Mamífero da família dos pinípedes, isto é, manajeiros que fazem o pino e opinam providos de lampião. Em certos casos produzem caseína e são aplicados na fiação manual. Noutros são usados na aviação artesanal (asa delta).

LUÍS OLIVEIRA – Baleia bárbara (ou infantil) que não desenvolveu a angústia da castração e deita por isso a língua de fora, sem medo que lha cortem.

ALBERTO PIMENTA – Ruminante melancólico, isto é, Rumi dançante da família dos bovídeos que ri e a quem o mel faz cólicas. Gosta de dizer “vá pôr” e “ás sen­to”, e ainda “com ração” e dana-se por repetir. Pediu já a mão à “La Vache-qui-rit” e espera marcar casamento no Registo Civil alemão (Baden Baden).

ANTÓNIO LOBO ANTUNES – Animal imaginário cor-de-rosa, que tem alguma parecença com a cobra-de-vidro, pois é feito com uma mistura proporcional de porcelana e de petróleo.

MÁRIO CLÁUDIO – Clássico galo pedrês, com pedestal de mármore e tabuleiro grande de xadrez.

LÍDIA JORGE – Borboleta das noites quentes feita em chocolate belga.

MÁRIO DE CARVALHO – Bicho das fábricas a que se aplica uma frase de Guy Debord [final do ¶ 3 da sexta parte (“Plataforma de uma oposição provisória”) do famoso Relatório sobre a construção de situações… (1957)].

SEBASTIÃO PENEDO – É o último exemplar da tartaruga-cofre dos mares do Sul. Tem um mausoléu guardado no Guggenheim de Nova Iorque. Esteve para ser o Diabo-da-Tasmânia, mas emendaram a mão.

FERNANDO GRADE – Tubarão feito em maçapão.

FRANCISCO PALMA DIAS – Hiena hierática e hieromante, assim dita porque usa uma pedra de hieracite e representa o hierodrama quando acasala por meio de hieróglifo com a hierofântide da hierogeografia. Nos momentos em que não usa esferográfica, não se importa nada de ir a Lamego seroar bôla e vinho de Almacave. Quando vota é no branco entrecruzado com bolo finto.

TEOLINDA GERSÃO – Serapião pergaminheiro – assim dito, porque é sereia-pião que veste serapilheira. Quando se matematiza, o que só sucede uma vez por ano, aplica-se em inquéritos estatísticos, estando a ser estudada a sua utilidade no rastreio económico.

MANUEL SILVA RAMOS – Bicho raro e inclassificável, sem cheiro, que aparece nas Antilhas no início do mês Maio e acende as velas do Vodu. Não suporta o cativeiro.

ALFACE – Facetodonte que se iça ao pé dos castelos isolados e em ruínas e que para grandes distâncias se desloca em faetonte. Em ânsias suínas vai a Paris – embora só necessite duma ponte de cortiça para cortar o bronze.

JOSÉ ALBERTO MARQUES – Tainha ciclométrica que alguns disseram que se andava a especializar em loiça cibernética, mas, bem vistas as coisas, tudo o que quer é andar de bicicleta.

HÉLIA CORREIA – Cobra colar que usa binóculos crómicos. 

AL BERTO – Quimuma cadernal, isto é, quimera de espuma que reina entre os jogadores de quaderna. Num horóscopo, a quimuma tanto pode dar a quadratura como o quadratim.

MIGUEL SERRAS PEREIRA – Peixe-pedra galiforme que galvaniza o aço.

REGINA LOURO – Hidromedusa com efeito hidropírico, cuja principal labilidade nas horas vagas é fabricar hidróstatos e hidroscópios, estes em forma de frade fardado.

CARLOS MOTA DE OLIVEIRA – Bucéfalo que se move através de um mecanismo feito de rodas dentadas de oiro e cujas crinas são fios de arame. Embora se renovem, tem de se acautelar do Sol, pois as narinas são moldadas em chocolate suíço.

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES – Leopante óptico – assim dito porque é felídeo que veste bata branca de oculista e tem antepassados nos planaltos dos Andes.

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE – Único exemplar português dos melgabuns astrais, isto é, miscelânea de melro e gato bravo dos bambus que canta nas orquestras das catedrais.

MANUEL JOÃO GOMES – Peixe-homem de cetim – assim dito porque mistura em proporções desiguais de um para três o feixe e o peito, o totem e o latim. Daí ser um famoso exegeta de citações latrinas.

PEDRO BARBOSA – Zebra electrónica que se especializou na computação de inscrições latrinas, de que se tornou o primeiro e o mais ilustre académico.

NUNO JÚDICE – Iaque lunar – assim dito, porque lê Jack London.

DAVID MESTRE – Gazela bromada do Solange, isto é, herbívoro de bossa feito de gaze óssea que se alimenta do sol dos anjos. É usada pelos barbeiros para jogar xadrez e tem por especialidade beber ambrósia.

FERNANDO CABRAL MARTINS – Glossodonte palicário – assim dito, porque faz glossários.

MIGUEL REAL – Bicho-carpinteiro que tem a seu cargo o mobiliário tauxiado dos nobiliários e ainda, sem desfalque, o hipotecário dos grandes apanha-céus.

PAULO DA COSTA DOMINGOS – Pica-osso não-kantiano de motel.

MARIA ESTELA GUEDES — Salamandra de covilhete aberto
que procria na trave-mestra da décima letra do alfabeto

LUÍS CARMELO – Golfinho semiótico de ponta – assim dito, porque pratica o minigolfe e se dedica com a conta dos ossos do mindinho à meia óptica.

PEDRO PAIXÃO – Hipopótamo de sofá com hipófise freudiana.

FERNANDO PINTO AMARAL – Cão de luxo de poro sedoso e pêlo comprido que usa, quando dança, sapatos espanhóis e lornhão – não se sabendo se este era o que Mefistófeles usava em criança ou não. É lotófago porque se alimenta do cartão do loto.


ALGUNS MONSTROS LUSITANOS

[geração minha & arredores]


JOÃO FREIRE – Náutilo anfíbio de bússola que despacha relatórios de náutica na secretaria de Neptuno e vive apaixonado por uma das filhas de Nereu.

JOSÉ MANUEL CAPELO – Papa-Passarinhas que é também conhecido por Clérigo de Arma, Cardeal de Ama, Cónego de Mola e Merlante de Ponta.

MANUEL CADAFAZ DE MATOS – “Pássaro conirrostro de penas mosqueadas que pode ser encontrado ao pé dos rios e ao qual se pode ensinar a falar.” (Dicionário Prático Ilustrado, Lello & Irmão, 1972, p. 5552)

JOSÉ CARLOS DA COSTA MARQUES – Pégaso nosomântico com escada em caracol por dentro.

LEVI CONDINHO – Gato abexim cujos bigodes em arame são usados como arco de violoncelo.

JÚLIO HENRIQUES – Cação que vem dos arcos do Japão para desfazer o nó dos barcos. Ou então noitibó desobrigado que não tem maquinismo moderno e voa a remos. Pode ainda ser o jóquei, isto é, a fenda e a senda entre o jogo e o coque.

HERMÍNIO MONTEIRO – Milhafre que anda de comboio.

JORGE TELLES DE MENESES – Falcão de prata, cujas rémiges têm o poder de pulverizar telemóveis.

ALEXANDRE VARGAS – Gato de estimação em cristal vidrado que tem cauda de peixe com escamas de metal platinado e que pode ser usado para adivinhar os números da lotaria (mas só em Monserrate, Sintra).

PEDRO TEIXEIRA DA MOTA – Sardão de marfim que galimatiza o baço.

JOËLLE GHAZARIAN – Bicho-da-seda musical que vive na estratosfera e tanto vê o Propileu de Atenas como as ruínas Maias de Milreu.

RISOLETA PINTO PEDRO – Borboleta órphica que poliniza com o pé e frequenta o tapete da pirâmide de Gizé. Canta nos mistérios de Ó, melodiza nas efígies secretas de É e finaliza debruada de espada na sinalética épica dos hieróglifos.

DÉLIO VARGAS – Lagosta logográfica, fundadora da SPL (Sociedade Psicadélica de Lisboa), que tem a sua origem nas bacias hidrográficas do Açor. Nas noites quentes de luar em que o planeta Júpiter é visível a meio do céu, sofre de arco-íris licantropo. Na ressaca, pode ser usada para traçar com rapidez e sem falha múltiplas elipses e outras curvas fechadas.

JOÃO CARLOS RAPOSO NUNES – Peixe-pistola que quando dispara faz cio.

ANTÓNIO LAMPREIA – Náutilo com torreão axadrezado e sem capela. O mesmo que peixe-tinteiro em pórfiro e com janela.

MANUEL SILVA-TERRA – Lobo bíparo com injunção octogonal.

FERNANDO BOTTO SEMEDO – Grifo sedentário com pigmento de cobalto que funde lâmpadas à distância e acende velas com o mexer da cauda. Os serviços secretos da EDP avaliam-no como o principal inimigo do Natal electrificado em território português.

ABEL NEVES – Alce de contrato bilateral.

GABRIEL RUI SILVA – Peixe-frade que pincela a bucha e faz retiros com arma ânua na Cartuxa de Parma.

DONIS DE FROL GUILHADE – Crisóstomo fusiforme – animal mítico de crista gráfica que resultou do acasalamento fóssil do Grifo crisólogo de pista e do bucentauro cúbico desestruturante. Apresenta por isso propriedades desestruturalistas – tanto cúpricas como crisográficas.

JORGE GRAÇA – Javali-leão verberativo com joeira – assim chamado, porque adora ir aos verbetes em Oeiras.

LUÍS MIGUEL NAVA – Peixe-miúra que desova no caule do Rei-Serpente e leva agarrados às guelras miniaturas de pianos de cauda.

EDUARDO GUERREIRO – Peixe-têxtil com mecanismo interior de gás e de guia dor que lhe permite arrefecer as escamas, elevar-se no ar, ganhar a atmosfera das nuvens e reconfortar-se com a luz solar da esfera. Também chamado peixe que pesca estrelas.

FRANCISCO DIVOR – Abetarda acusmática que aparece citada no artigo terceiro da secção final do Código Visigodo.

ANTÓNIO ELOY – Saltão palestino em basalto com nó mordido de correr.

NUNES DA ROCHA – Lacrau de oiro com beiral interno de repetição, que serve de degrau para estoirar fronteiras ou de montada a Rimbaud.

DULCE PASCOAL – Mulher peixe de invenção conectiva já que apareceu a Ulisses em momento de inventiva.

FELICIANO DE MIRA – Paquiderme electrónico de carga múltipla.

ANTÓNIO CABRITA – Bode almofadense de disparo automático.

PAULO BORGES – Serpente de jade, chamada a-do-boné-amarelo, porque no tempo em que os animais falavam foi o último rei da Lagoa de Óbidos, cuja cabeça era então dourada e se chamava por isso Lagoa Crisocéfala.

MAURÍCIA TELES – Abelha portuguesa com três anéis reais, que tem sonhos à noite com saias de estilo escocês e com o carnaval de Veneza. Fabrica o mel do Passal da Presa e dirime orquestras quando se esquece da mimética das surpresas.

PAULO BRITO E ABREU – Peixe-Rocha romântico que vive aos saltos, tem sino-saimão, é usado para tratar a alexia ou cegueira verbal e toca buzina à mão. Desconhece a linguagem cambial.

ZETHO DA CUNHA GONÇALVES – Alcatraz que fornece pentes às barbearias do Bombarral.

JORGE LEANDRO ROSA – Gamo feito em miolinho de pão e cujo olhar é muito útil para ganhar o gamão e o pelinho é indicado para polir a mó de um moinho.

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA – Puro sangue lusitano que serve para apostar nos hipódromos.

MÁRIO BRUNO CRUZ – Iguanídeo diatérmico que os Incas usavam para fazer fogo.

NANDA LOPES – Cavala bicípite de galões dourados. Pode ainda ser chamada de lepidossereia porque mistura o lepidóptero com a sirene que toca na areia.

FREDERICO LOURENÇO – Mocho grego do Necker.

JOÃO PAULO COTRIM – Cachalote-sabre que aparece nas pastelarias do bairro do Padre Cruz, em Lisboa, e liberta um cheiro doce de alcaçuz.

PEDRO MARTINS – Elefante africano que vai às oficinas de Andrómeda ensinar mecânica de Ovnis.


AUTORETRATO

COM ZOOLOGIA FUNDACIONAL


Caranguejo pernóstico

que se disfarça com pala preta

e que tem por hábito gnóstico

ficar sempre no fim da sala

 

antes ficava na retranca

para poder jogar nas aulas ao galo

e viver livremente

as grandes guerras da batalha naval

 

agora não avança um passo

preferindo sempre o último assento

a cadeira mais pequenina

a de buinho

para fechar os olhos    libertar a mente

e ressonar à vontade

nos Concílios dos Deuses Marinhos

 


NOTA FINAL


Não obstante as imperfeições que se possam apontar aos resultados antes apresentados, e algumas serão sobretudo no domínio das metamorfoses animais, a Zoologia Fundacional tem prestado inestimáveis serviços no conhecimento da literatura. O facto está longe de se circunscrever ao caso português e o sucesso mundial da ZF é hoje comprovado a cada passo. Em todo o mundo a ZFL é hoje adotada como o único método capaz de abordar com segurança e precisão a literatura de todos os tempos.

Mas a ZF deu origem em todo o mundo, e entre nós também, em variadíssimos campos, a um autêntico bestiário mundial, que tem hoje aplicações ilustres na política, na literatura, na Igreja, na história, na filosofia, na ciência, no jornalismo, no desporto, na edição, na pintura, na escultura, na arquitetura, na música, no bailado, no cinema, na educação, na ourivesaria, na medicina, no teatro, na ergonomia e em muitas outras áreas onde o génio humano, através das suas figuras mais representativas, também chamadas figurões, se manifestou.

Pode neste momento fazer-se a mais completa e erudita Enciclopédia mundial com a compilação de tão curiosos e parcelares subsídios. Deixamos ao Diderot do futuro a organização de tão necessária obra, cujo interesse universal evidente está acima de qualquer dúvida.

No caso português a ZF tem tido múltiplas aplicações, mas está ainda longe de esgotar o seu campo de ação. Neste momento temos contributos exaustivos no campo da história política e eclesiástica e na área do desporto, e possuímos ainda pesquisa interdisciplinar em todas as outras áreas, podendo pensar-se que não tardará o dia em que assistiremos ao surgimento de um autêntico bestiário lusitano, cobrindo todos os campos onde o ser nacional revelou o seu génio próprio e que será o vade-mécum à disposição de todos daquela que é já hoje em Portugal a ciência piloto do presente – a teratologia lusitana.

Deixamos aqui alguns exemplos obtidos através do método da ZF aplicado à história política portuguesa, incluindo nesta a política da língua, e que dão uma ideia daquilo que foi feito pela equipa do Professor Anjos Espadinha, que coordena a partir da UBI (Universidade da Beira Interior), mas em par­ce­ria estreita com Coimbra, Salamanca e Cáceres, a cátedra internacional em Zoologia Fundacional da História Política (ZFHP).

AFONSO DE ALBUQUERQUE – Cavalo-marinho de Fetais que produz electrochoques fatais.

CARDEAL DOM HENRIQUE – Lobisomem de decisão pré-frontal – assim dito, porque é cirurgião e pratica lobotomia no lobo frontal anterior do hemisfério cerebral.

MARQUÊS DE POMBAL – Catatau que serve de pau de cabeleira. Pode ser também pombo doméstico que quando posto na água da banheira se afunda com o peso da exo-tortura.

AFONSO COSTA – Saguim de jardim municipal que usa paletó e gravata. Daí o cognome de gravocrata.

ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR – Pisco local aspermático que só se re­pro­duz por decreto governamental.

ÁLVARO CUNHAL – Probodonte catequista com bolsa de napa algebrizada e máscara de médico anestesista.

MÁRIO SOARES – Pinto belfudo de projeção ortogonal, com manifestações incontroláveis de exibicionismo azul.

FRANCISCO SÁ-CARNEIRO – Moscardo de casaca preta e cartola que está à espreita da ocasião para picar a rosa.

MALACA CASTELEIRO – Grilo gramatical de tesoura e pasta de cardeal que é usado na Primavera nas ruas da cidade e nas escolas como verbicida.

PASSOS COELHO – Cifozoário sadomasoquista, cuja principal perversão sexual é assistir ao orgasmo dos algoritmos.

ANDRÉ VENTURA –Fissípede com cara de farmacêutico editorialista. Também chamado mamífero de varanda fasquiada, já que vivendo num primeiro andar se delicia a gritar a quem passa.

Mais tarde estes e outros subsídios relativos à história política portuguesa aparecerão integrados, ao lado de todos os outros que nos chegam da literatura, da ciência, da arte, do desporto, da música, do bailado, da educação, da história e de todas as matérias onde a portugalidade essencial deixou a sua marca, nessa grande Enciclopédia nacional – a Enciclopédia Lusitana da Zoologia Fundacional – que será a obra de referência pela qual a nossa geração se orgulhará de ter existido e que será apenas uma parcela ínfima, mas indispensável, da grande enciclopédia universal que os primeiros académicos do ranking mundial já titularam, reservando o copyright, como o Grande Bestiário Mundial da Zoologia Fundacional – nas artes, nas ciências e nos ofícios e em todos os domínios de ocorrência em que o figurão humano manifestou a sua energia, a sua dinâmica, a sua iniciativa, o seu mérito e o seu espírito de inclemente e furiosa concorrência.

 

O Novo Adjunto Português

para a Missão Mundial de Zoologia Fundacional

 


ADDENDA


Os excelentes resultados mundiais da Zoologia Fundacional com avanços decisivos em áreas tão diversas como o desporto, a literatura, a política, a música e tantas outras, levaram uma equipa de sábios mundiais a empreender experiência similares na área da botânica analógica, quer dizer, aplicando os princípios das espécies vegetais aos fenómenos morais humanos.

Nasceu assim a Botânica Fundacional [BF], da qual há muito ainda a esperar, mas que constitui desde já um terreno consolidado em áreas tão diversificadas como a pintura, a ergonomia, a cozinha, o desporto, a música e a literatura. Espera-se agora o mesmo em todas as outras em que a ZF se impôs como método infalível de conhecimento. Os maiores desenvolvimento da BF tiveram porém lugar na literatura de que se deixam aqui dois breves exemplos.

 

VIOLANTE DO CÉU – Perpétua roxa que tem uso na confecção de doçaria conventual, em especial nos três bolos chamados Parnaso de Anjos, Arcádia de Freiras e Olimpo de Mel.

MARIANA ALCOFORADO – Açucena mascavada.

RICARDO REIS – Narciso primário absoluto sem esperma.

Dado o entusiasmo dos recentes progressos da BF, e da rapidez com que as befetecas têm surgido em todo o mundo, não é difícil antever que em dia não muito longínquo teremos como complemento do Grande Bestiário Mundial – complemento em tudo desejável, que muito acrescentará ao conhecimento dos ilustres figurões humanos – o Grande Herbário Mundial da Botânica Fundacional.

 

O Delegado Português

para a Pré-Missão Mundial da Botânica Fundacional


Revista Triplov

Tributo a António Cândido Franco – Índice

Portugal – Maio de 2023