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Somos ecos de uma inexactidão que torna propícios os oráculos - há em tudo isto uma relutância aos gracejos equestres. Mais do que à felicidade, entregamo-nos ao eco na euforia dos mínimos gestos - o que é precisamente uma não-insularização. Ou guerrilha aos totalitarismos derivados da moleza.
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A tagarelice é aquilo que não desejas abolir. O silêncio, na sua majestade, é já uma censura, ampla, profunda, divina. A isso nos preparamos para furtar. Um palrar desmedido, com a possibilidade, medíocre ou não de quebrar a opacidade do sagrado.
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A antiguidade é o que se foi despedindo das coisas. Regressa como não-coisa, em caracteres meditativos. Contorna as mumificações e as exercitadas museologias. A antiguidade é uma exuberância mais fresca que o preço circunstâncial das sucessivas modernidades.
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Não tenho sabido separar a alegria da alergia. A vida forte providencia alergias às gentes descontentes, mais que a corpos fracos ou a corações sensíveis. O mundo deu-se à luz como alergia às quietudes soberanas. E o sentido mais afinado para os sentimentos é o de que há uma alegria vulcânica intrometendo-se para sempre.
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Não busques desenganos como severas transparências. Contenta -te com o vidro baço - no qual o olhar, fora, demora. O invisível limita-se a ter como vocação a decepção ou a delinquência.
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Persegues algo que o mistério abomina. Designas-te predador sem presas - perdes-te em andanças e sabes que o ardor da paisagem é uma exercitação suada. A cada passo cede ao excesso.
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Espécie, especiaria - mais húmida que humana, mais humilde que húmus. Estreita-me sem sombras ou veredas de fama - astro anónimo, oral criatura.
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Sê materna e raposa. Acolhe, como a brancura, a roupa furiosamente lavada e meticulosamente estendida. Junto de ti reduzimo-nos a esbracejantes infantes. Descobrimo-nos larvas em vésperas de estrondosas metamorfoses. Quereríamos reter esse instante para nele renascer. Faltam-nos tais gestos. E ainda não chegou a hora em que nos deixamos mordiscar por gargalhadas devotas, daquelas que eliminam o medo. Deixai as inquietações em si quedas como uma miragem que a avestruz no buraco produz.
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Desconfio do imutável, assim como me afasto das cadeiras que rangem e das portas que não se deixam entreabrir. Os nomes com que nos incitamos são como o tabuleiro de xadrez no qual decorrem cedências fatais. O amor periga em tempestuosas manhãs. O tempo lá fora não se deixa compensar pela acutilância e soberba dos objectos caseiros - os invernos fazem dos lares descontentes museus. As musas quedam-se fora, frias e ao vento.
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Há quem vá à guerra em caçadas quiméricas e em braços de marfim morra. Bastam-me os rascunhos para que trema regelada. Julgava que as minhas convicções eram cópias mal amanhadas,, mas porventura enganei-me. As metáforas de que abuso são cinzas de imagens que preteriram o perfeito. A si entregues, à flutuação conjectural e possessiva...
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Aos seus sábios poderes o demiurgo resignou. A emancipação nunca é vã. Limita-se agora a ser autarca ou nem isso. E a si as coisas se entregam, num abandono responsabilizante, como o sabor do café em frescas manhãs orientais.
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Até da injustiça fomos espoliados... mas não do chá.
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Juba, alga, barro - não rimam estas palavras, mas pedem-nos que remendemos os espaços gananciosos que as parecem separar - pego na agulha e no remendo, como se os anjos me movessem.
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Todos os cumes reduzem à lentidão os rastejantes júbilos. Acolhemos o borbulhar ruidoso como algo precioso embora impreciso, e na sua espuma nos deleitamos como numa noite em que se canta para além do evidente - lamentos como rebanhos?
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Era num cantinho de uma miniatura que te via, de bicharada rodeada - com um despudor tão natural que até os anjos no sexo se alumiavam.
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Somos menos coabitantes do que coabitáveis - procuramos pigmentos que nos interiorizem, cores traiçoeiras - antes que o dia (qualquer dia) chegue já provamos o veneno de cada noite:, reptilíneo, delicioso, insuficiente...
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Menos que as amadas nos desiludem os deuses. Sabemos por demais que a carne tão nossa invejam assim como as canoras evidências - e as nossas vozes que percorrem como animais a Terra. Um hiato nos devora - esta separação dos imortais. Acre devém, a saliva. Sopas paupérrimas preferimos, às calmarias do incenso.
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A teima nas orquídeas já viera molhada.
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Com devorante devoção as criaturas ascendem a uma mestiçagem progressiva -e lá enxergamos esse progresso como condição premonitória. Não há cidades, nem celestes, capazes de rivalizar com esta soberba civilidade.
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Há na paixão uma desesperante transparência paradisíaca. E há também do êxtase a tenacidade. E suas paisagens claviculares! - para a sublime acidez fomos exilados! - desde Eva.