Marés

GLEDSON SOUSA
Marés

Tente entender
o mar só escuta a quem consegue lhe ouvir
não espere símbolos
o mar arranha docemente
palavras na areia
restos de medusas
pedaços de conchas
aqui ali
o sal da língua arrastando
os dias
escamas de peixe, larvas de craca
na rebentação
alfabeto de curvas na praia
feroz escondendo a lua cheia
miragem de ilha
tantas falas
a água improvisa
Tente entender
o canto das sereias é a voz do mar
que Ulisses não quis evitar
rugindo
voltando
da primeira à última névoa ela pergunta
quem suportará o fardo das marés
da beleza que sufoca na cesura
da fala que não cessa
a dor cósmica
resposta de pêndulo
na terra os ossos que o mar deposita
com ternura de ave de rapina
de ouvidos vazios
sem cera nas mãos
escutamos
essa litania da paixão
a fera aflora
na âncora, no leme
águas pedem
asas nos pés
o oceano se decifra
já nos devora todo dia
dispensa o requinte da pergunta
é homem o que rumina
nas sombras o destino
que lhe aparece flecha
ao resto a vida oscila
entre a preamar e a cortina
do fim
não há fugas
na barriga do monstro a luz se faz
a maior virtude de Ulisses
paciência
Tente entender
logo a língua do mar
apagará o poema


Gledson Sousa  (Brasil). Nascido em Juazeiro do Norte em 1972. Reside em São Paulo desde 1991. Formado em História, com especialização em História da Arte. Tem trabalhos publicados no site Triplov (www.triplov.com) e no blog A Esfera da Manhã, além de publicações em livros:

O Ovo – Meditações Sobre a Semântica do Mundo. São Paulo: Ed. Janos, 2004 .  A Iconografia Interior – Kandinsky e a Teosofia. Lisboa: Ed. Apenas Livros, 2014 . O Livro das Novas Mutações ou O Oráculo da Natureza. Lisboa: Ed. Apenas Livros, 2014 . 

Além de participar em obras coletivas: Presença do Feminino no Relato dos Viajantes, no livro Desigualdade no Feminino. Lisboa: Apenas Livros, 2009; Uma Espiritualidade Nietszcheana?, no livro A Religião que Anda no Ar. Lisboa: Apenas Livros, 2014. Poeta e ensaísta.