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José Augusto Mourão (UNL-DCC)
Acerca da autonomia do texto e do conceito de criação
EM TORNO DE UM TEXTO TEÓRICO DE
A. RAMOS ROSA (*)

Introdução

A organização do texto

A palavra e o silêncio (a estratégia do signo)

A noção de autonomia

O estalar do sentido (ou a revolução do significante)

A literatura e o real

Conclusão

 
Introdução

Os discursos são signos complexos. Toda a cultura dispõe, em relação às concepções da produção do sentido, de uma força que organiza a diversidade das suas esferas, algo a que Lotman chamou modelização semiótica ou ainda semioticidade. As "atitudes" que as culturas adoptam relativamente aos discursos produzidos são as suas interpretações meta-semióticas conotativas.

A reflexão da poesia sobre si própria é uma das aquisições dos últimos duzentos anos. O mito do Livro desviou a Literatura da sua função mimética, inspirando uma escrita auto-representativa e autotélica. Ramos Rosa parte de um tipo de semioticidade moderna (saussuriana) e já longe dela, muito perto de quem, na década de setenta representava um dos pontos mais altos da crítica e da teorização literária: Roland Barthes.

A "diabolia" moderna põe essencialmente em jogo dois processos que provocam a ruptura do contrato linguístico, modificando o significado e fazendo aparecer uma autonomia do significante. Desta ruptura (desbloqueamento) emerge o plural do texto: É preciso empreender, no nosso ocidente, na nossa cultura, na nossa língua e nas nossas linguagens, uma luta de morte, uma luta hostórica com o significado (1). Ou dito de outro modo: A teoria libertadora do significante deve ajudar a libertar o texto - todos os textos - das teologias do significado transcendental (2). Tal luta relança a diabolia, expulsando da modalização da semiótica moderna a lei da bifacialidade do signo e fundando a proliferação do sentido exclusivamente sobre o jogo do significante. É neste contexto da transgressão do contrato linguístico, de ruptura com o signo, que deve ler-se o texto de Ramos Rosa.

Este trabalho, diga-se desde já, pretende ser fundamentalmente uma produção de sentido a partir de um texto teórico de Ramos Rosa e da minha posição de sujeito de produção-recepção de teoria da literatura. Uma reacção portanto às proposições de sentido de um metadiscurso sobre o fenómeno literário e de modo específico no que se refere à criação/produção do texto. Levantarei de imediato alguns problemas analisados à superfície do texto, para me deter um pouco mais demoradamente nos tópicos da criação e da produção do texto.

Que provoca o fenómeno poético? Ramos Rosa, conforme o título do ensaio sugere, escreve que o nascimento da palavra (do texto) se faz no momento em que uma ruptura advém, no vazio (do sentido e do real), ruptura essa provocada pela emergência do significante (bloco é aqui a metáfora desse processo:

"nó de tensões significativas, para lá
ou para cá do significante da palavra", "primeiro significante"
"significante desse primeiro momento da criação".

É de notar que este autor utiliza a palavra "criação" e a palavra "produção" como equivalentes. O que não deixa de criar algumas ambiguidades do ponto de vista teórico. Aparentemente, o quadro em que o autor se move orienta-nos para uma teoria materialista da produção da escrita - a palavra é ressentida como palavra (objecto) e não como simples substituto do objecto nomeado, não estando a perceptibilidade da palavra poética ligada a qualquer forma mimética -, mas dados os avatares que a palavra "criação" comporta na sua referência à ideologia humanista, não podemos deixar de nos perguntar do valor real de uma tal aparência. Porque, de facto, só uma teoria materialista da escrita faz da reactivação do significante o essencial do trabalho poético. O reconhecimento do trabalho poético numa necessidade criadora de fundo, expresso na metáfora bloco, lugar de tensão e de luta, diz bem essa espécie de descarga intensa donde provém o facto poético, "concreção de linguagem", "realidade materializante e material" e da sua própria "dinâmica material criadora". O poema como bloco, como ouriço (Derrida) sugere a fábula da singularidade ameaçada da poesia.

A criatividade em poesia tem muito pouco que ver com a criatividade de Chomsky (linguística), como Aguiar e Silva muito judiciosamente escreve (3). Este ensaio evidencia sobremaneira o lado arbitrário da linguagem, o seu carácter artificial, a sua autonomia e a distância que mantém das coisas. O cratilismo é em cada um de nós o esforço infinito para suturar a fenda do signo e nele encontrar sentido e fruição. A ciência linguística terá de controlar o delírio imanente a qualquer língua, tentando separar o sistema do sujeito. A criatividade é invenção de um dizer primeiro que se cria o seu próprio sistema de funcionamento em termos de clausura vs abertura infinita relativamente à língua, entendida quer como sistema de signos, quer como dispositivo. É difícil não ver ainda aqui o eco do que R. Jakobson dizia da linguagem poética, uma linguagem que tende para um discurso transracional onde se manipulam, não conceitos, mas seres verbais autónomos.

Assinala além disso este texto o lugar onde se inscreve o poeta e o seu projecto: realizar o "livro" (no sentido que lhe deu Mallarmé), a obra ausente que do outro lado do silêncio o solicita, o extenuamento da linguagem e a possibilidade da sua dicção. Como nota Abastado, a poética de Mallarmé marca já uma ruptura com a tradição: ele é sobretudo o pôr em causa da função referencial da literatura, o fim do princípio da mimese (4), donde uma escrita auto-representativa e autotélica. São muitas de resto, as afinidades teóricas do nosso autor com R. Jakobson, no que diz respeito sobretudo à função poética da linguagem, baseada, como é sabido, no autotelismo da mensagem e na projecção da equivalência. É o primeiro ponto que este artigo essencialmente desenvolve e é também sobre este primeiro ponto que algumas críticas podem ser feitas a ambos.

Ler este texto é revisitar, para lá do tempo, Hermógenes e Crátilo, Saussure, os Formalistas - R. Jakobson em particular -, Barthes, Blanchot, Heidegger, H. Meschonnic ou Kristeva. O problema da "historização do significante" foi posto por H. Meschonnic que ignora a linguagem da psicanálise enquanto teoria do significante e do desejo, de modo algo polémico: a escrita é uma prática materialista da linguagem definida como a homogeneidade e a indissociabilidade do pensamento e da linguagem, da língua e da fala, da fala e da grafia, do significante e do significado, da linguagem e da metalinguagem, do ser e do dizer. Pensamento discursivo, não anterior à linguagem, constituído como prática da língua. Lógica do significante desaguando num primado do significante (5). Era o começo do combate contra a teoria do arbitrário do signo que rompia a união sagrada da linguagem e das coisas. Ou era somente o regresso de Crátilo? E isto para quê? Para libertar o poema da relação ocidental dominante da filosofia com a poesia, da transitividade que supõe o sentido e a comunicação. É sob o primado do significante, com efeito, "força textual do significante", "força do acto materializador", "dinâmica materializadora dos significantes" que o texto que vou analisar se constrói.

(1) Roland Barthes, "Deuxième entretien avec Roland Barthes", in R. Bellour, Le livre des autres , L´Herne, 1971, p. 218.

(2) Roland Barthes, O grão da voz , Lisboa, d. 70, 1982, p. 237.

(3) V. M. Aguiar e Silva, Competência linguística e competência literária, Coimbra, Almedina, 1977.

(4) Claude Abastado, Mythes et rituels de l´écriture, Complexe, Bruxelas, 1979, p. 293; cf. M Pierssens, La tour de Babil, Paris, Minuit, 1976.

(5) Henry Meschonnic, Pour la poétique , Paris, Gallimard, 1970, p. 160.

(*) Ramos Rosa, A poesia moderna e a interrogação do real, I, Lisboa, Arcádia, 1979.
 

 

 

 


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