Trabalho em curso

 

JONAS PULIDO VALENTE


Um dia o meu ego não morrerá, mas será simplesmente substituido como algo mais adaptado. Nós nem somos muito diferentes das máquinas que inventámos. O princípio é o mesmo, e irá convergir. O novo eu poderá arranjar amigos, respeitará o espaço dos outros, será um ambicoso moderado e feliz. Hoje não foi esse o dia. Sei que ela se vai embora daqui a pouco e não consigo deixar de pensar no último auto da Santa Inquisição. Foi um auto terrível, poderosas chamas consumiram o seu próprio combustível, e que combustível terrível!

O deus do fogo segue as ordens dos homens, que como as suas máquinas, se adaptam, a bem ou mal, não se tornarão eles combustíveis do progresso.

O novo trabalho é estável e fixe. Tenciono mantê-lo e ser um funcionário cada vez mais eficiente. Talvez se torne no meu próximo projecto pessoal, para me aguentar e amanhã talvez escreva mais.

Amanhã chegou em cinco minutos, que tal como o século XX que só começou após 1921, o dia oito de Outubro de 2020 começou às 00:21.

Existem questões culturais, talvez grandes falhas civilizacionais que surgiram de alguns traços culturais que explicam coisas como diferentes medidas métricas, ou maneiras de dizer foder ou cambalhota. Existem também tentativas de tornar essas falhas como abismos e construír pontes. Estas pontes têm uma largura limitada e são taxadas para passarem menos pessoas, ao invés de cimentar as falhas.

No entanto existe outra coisa importante que é a liberdade, e todas as variantes culturais acreditam que têm uma melhor resposta para manter o seu equilíbrio entre liberdade e bem comum, e todas as variantes culturais tentam pela melhor maneira manter o seu circuito fechado para não ser ameaçado. Será que quando ela voltar para apanhar as coisas dela eu lhe possa dar um beijo? Provavelmente não, mas a Santa Inquisição tirou algo mais que a minha liberdade, tirou-me mesmo muito mais que isso.

Coisas como jantar são importantes, e até contextualmente importantes para o que estou a tentar dizer aqui, como uma bola de galhos que cai uma colina, o que é importante aqui mesmo é o nosso nível de proximidade com os outros.

As diferentes empatias, o amor, a gravidade e uma série na televisão estão entrelaçadas de um modo simples. São diferentes patas da mesma centopeia. O centro é a gravidade, depois constrói-se o que é preciso. E talvez as coisas sejam diferentes para a próxima, mas os nossos sistemas nervosos são frágeis e quanto à gravidade não há interferências em questões como ética, ou moralidades.

Amanhã iremos acordar. Onde não sabemos. Nem vamos dar pela diferença, seja onde for. A nossa carne também é responsável. A minha poderia ter sido bem melhor também.

O fractal é o incício, centro e fim de tudo, talvez até também do desenho subatómico. Não fosse ele um fractal. Tudo é fractal-fractal-fractal. Logo, o que deve desaparecer é a recusa a entrelaçar, por mais subjectivo que isso seja.

E amanhã, no Carmo ou na Trindade, o pão que sabe ao da avó, o café do trópico de Capricórnio ou o mito da criação serão juntados a outras ofertas, mas não desaparecerão, ficarão apenas entrelaçadas com o resto. Acredito que deve haver muita calma neste processo, mas que o expliquem na rádio da forma que pense no ângulo morto.

Não irão perceber isto, por si só, mas acontecerá com menos atrito se correr bem. Da maneira a que não se corroiam as margens do contínuo, infinitas que são, para manter pelo menos a memória de um subcosmos que nos chega a todos, juntos na familiaridade do trato, na concordância do acto e na abstração do sono a que chamamos de rotina.