Silêncio falante

 

ANTÓNIO BARROS


Privámos numa viagem de comboio entre Cerveira e o Porto. Eu, o Hélder Macedo, e o João Vieira. A lucidez e as palavras serenas e acertadamente ditas do Hélder, acerca da então pátria lusa, ainda guardo de um modo quase dolorosamente sagrado. Essa coisa que só as palavras conseguem quando surgem a esculpir a alma. Do João, amigos num caminho já então longo (juntos operámos na SACOM2 em Cáceres, no que viria a ser o Museo Vostell Malpartida), guardo a sua ópera letrista gerada nos vitrais da Igreja Matriz de Vila Real. Tantas vezes sinto necessidade de lá ir e mergulhar naquela nave, tão solta, entre a terra e o céu. Entregar-me àquelas letras de silêncio e gRito. A melhor forma de reaprender a ler. Deixar gerar toda uma nova escrita. Uma esgrita
 
Desde os tempos do Círculo, em Coimbra nos anos setenta, que o meu gesto, progesto a gerar obgesto, era ficar em silêncio ouvindo as palavras das molduras envolventes. Os outros. E depois trazia, em modo de resposta a procurar dialogar, os meus objectos-falantes, os meus textos visuais. Ex patriar, esse meu obgesto, e as palavras de Hélder avulsas a seu tempo, hoje dialogam de novo. Sinto continuadamente, com esse ambiente sonoro que me ensinou Schafer, ao fundo. Esse silêncio falante. Que nos instrui para um fazer aprender. Em nós. E em partilha. Dando dando-nos. Ou não será isso o jogo educador com sapatos de Gadamer?
 
 
 
 
[Silêncio Falante #5]