JOSÉ AUGUSTO MOURÃO

 

O quinto evangelho
a palavra que falta

 

Teologias da história

Recuemos um pouco. A concepção bíblica da história vai ter uma influência considerável na construção das grandes ideologias modernas e em particular o milenarismo. Na concepção linear do tempo impõe-se também a noção de fim definitivo do mundo e da história. A teologia da história de Agostinho contraria uma concepção clássica do tempo como um movimento circular periódico e sem objectivo. É esse o desígnio do seu monumental De civitate Dei contra Paganos (3). Os mil anos de felicidade terrestre anunciados no Apocalipse significam de modo simbólico o tempo da Igreja terrestre. Desde que foi eufemizado, o milenarismo desaparece da teologia cristã oficial. Há-de ressurgir ao longo da Idade Média sob a forma de profetismos místicos combatidos pela Igreja. O mais influente é o de Joaquim de Flora, no século XIII que anuncia a vinda da idade do Espírito. Na idade moderna estas correntes secularizam-se tornando-se correntes político-religiosas, v.g. a guerra dos camponeses ou o movimento anabaptista de Thomas Münzer no século XVI. O declínio dos sistemas religiosos institucionalizados deixou um grande vazio moral e afectivo no interior da cultura ocidental. Depois da decomposição do cristianismo e da sua teologia, G. Steiner examina as mitologias de substituição oferecidas pelo programa filosófico-político de Marx, a psicanálise freudiana e antropologia estrutural de Lévi-Strauss. Estes três movimentos, marcados por uma dimensão redentora ou apocalíptica, teriam suplantado a oferta de salvação que o cristianismo perdeu. Onde localizar este declínio? Talvez a partir do desenvolvimento do racionalismo científico que ocorre ao longo da Renascença, do secularismo explícito das Luzes, do darwinismo e da técnica moderna que tornaram obsoletas as crenças e a teologia e que fizeram com que as Igrejas perdessem o seu lugar de controlo dos discursos e das práticas. “Esta dessecação, este desossamento, que tocam o próprio coração da existência moral e intelectual do ocidente, deixou um vazio imenso. E desde que há um vazio surgem energias e substitutos novos” (4).

A teoria pagã do movimento circular pode ser acertada ou falsa, porém é “carente de esperança”, como a alternativa entre miséria e relativo bem-estar. Carece de resposta ao desejo de salvação (5). A figura do círculo em geral, modelo de perfeição para o pensamento clássico e oriental, é em si moralmente reprovável. É um círculo vicioso. Assumir o conceito de destino é assumir o conceito supremo do paganismo ocidental, contra o dever cristão de esperar acreditando na morte redentora de Jesus Cristo. Eusébio na sua Demonstração ( IV, 10, 17.19) escreve: “Jesus é o Salvador e o médico”. O Evangelho é uma religião da libertação. Jesus proclama uma mensagem nova – a proximidade do reino de Deus o Pai, seu Pai – e uma lei nova, mas age como um Salvador e é como tal que é crucificado. Jesus veio no meio dos seus como um m é dico: “Não são os que gozam de boa saúde que precisam de médico, mas os doentes” (Mc 2, 17; Lc 5,31). É como o médico do corpo e da alma, como Salvador, que os três primeiros evangelistas o apresentam. O sofrimento do justo é a salvação na história, escreve Adolf Von Harnack (6). De resto, uma religião que não aparecesse no horizonte do mundo sem o anúncio de libertação, não seria uma religião. O capital simbólico de uma religião vem-lhe do Messias que propõe. Por mais que a nossa sociedade técnico-industrial proponha um mediador neutro universal, plataformas abertas, protocolos; por mais que o desencantamento cresça. Até os mais lúcidos pós-modernos se deram conta disso e procuraram dissimular a sua descoberta por trás dos ecrãs de abstracção, como por exemplo, a “messianidade abstracta” inerente à linguagem, de que fala Derrida (7). Ele veio para libertar. A figura do Messias está em todos os sonhos e visões que povoam a literatura não apenas apocalíptica. Mas hoje, tanto os historiadores como os sociólogos nos dizem que estamos a assistir ao declínio do papel outrora desempenhado pelos sistemas religiosos oficiais na sociedade ocidental.