Relíquia

 

NICOLAU SAIÃO


Onde está o silêncio onde jaz o silêncio?

Não neste braço   sujo   cortado

Não neste tapete espesso   neste bloco de apontamentos

onde se cruzam insultos   rimas

Não no pequeno perímetro das veias

 

– afinal tudo tudo entre nuvens de carbono

semelhantes a um bafo de camponês sobre a neve

onde se esmagavam insectos e excrementos de lobo

O primo velho outrora mo ensinara num mês adolescente.

 

Onde  em que ilha de desolação

sufocado  incerto  esse silêncio soberano

onde jaz    cerzido por traços de faca de pedra

Não   não o barulho de um passo que caminha para a beleza dum rosto

saindo de um vazadouro para a lama musgosa da margem

Brilhante como celofane

 

O silencio que respira

Sim o silêncio morno de quem procura o vazio

ou de quem busca uma cor imersa na carne recordada

da mão faminta    de muitos negrumes alheios

 

O silêncio que se recolhe

que se desdobra

que nos relembra de momentos e perdas

O silêncio que permutamos

O silêncio para além da luz   entre os olhos de uma fera morta.


ns