Reincidindo sempre: o Eros e a Lira em Carlos d’Abreu

 

PAULO JORGE BRITO E ABREU


«Nada de grande se realizou no mundo sem paixão.» 
Friedrich Hegel

( eu dedico o meu ensaio à Paz Universal )

A mente, ou melhor, a «mens», em Latim, é aquilo que mensura. São as lentes dos óculos com que assistes e contemplas o espectáculo do mundo: se as lentes forem azulinas, te alevantas ao celeste, mas se as lentes forem negras, tudo vês tu cor da morte. É que ao invés de Karl Marx ( 1818 – 1883 ), são as Ideias, dessarte, que movem o mundo, e os homens de acção são os servos, inconscientes, dos homens de pensamento. Pensamos isso a propósito de «o intenso amarelo da carqueja ( amor e erotismo )», e a primeira ilação que tirar nos é lícito é a seguinte: em grau superativo, e portanto superlativo, cria o Carlos d’Abreu ( Maçores, 15/ 09/ 1961 ) os seus lemas e poemas. Quero eu dizer: ele lê, directamente, no Livro da Vida. E, também, no coração do ledor. E sendo o mundo a minha representação, a medida do Amor, segundo Santo Agostinho ( 354 – 430 ), é amar sem medida. Pra Soren Kierkegaard ( 1813 – 1855 ), outrossim, o que faz falta, neste mundo, não é a razão, é o alor e o fervor da patética paixão. Ou melhor: do coração que tem razões que a razão desconhece. E da plaga e da Palavra do inconsciente. Do «coração» de Blaise Pascal ( 1623 – 1662 ), da «vontade» de Schopenhauer ( 1788 – 1860 ), do «élan vital» de que falava o filósofo Henri Bergson ( 1859 – 1941 ). Sendo assim, a Carlos d’Abreu não apraz perder a razão, a ele apraz, seguramente, todo o cor, tudo aquilo, que a razão nos faz perder. «Verbi gratia», a Liberdade, o sonho e a paixão. A paixão, im-paciente, por uma Vénus Vinália. Ou, agora, em críptica hermenêutica: o hino, para os Latinos, ele é, no fundo, o rompimento do hímen, e o estro é aquilo que provoca o estrogénio. Estar apaixonado é uma maneira, ritual, de ser Poeta, e do amante para o amente vai um passo muito curto. Ou como sinaliza, em «Via Lucis», o nosso Poeta: «abre-me as portas do teu ninho / para que eu o possa habitar / e ter um abrigo entre os teus braços / em todos os amanheceres». «O ninho. Bonita metáfora», aduz, no lance, António Salvado ( Castelo Branco, 20/ 02/ 1936 ).  Que natural, desta feita, e fisiologicamente, a mulher, para o Poeta, é a casa do homem, e dormir é regressar ao estado e ao estádio intra-uterino. Sendo o prazer, por isso, o lazer. E sendo, o sonho, a via magna para a expressão do inconsciente. Sendo o Eros, por isso, o acme da Lira. E a Citereia, por isso, uma Acidália. Ou lendo, com alor, a lauda 25: «mas o alvo na vénus de milo / não era o debrum mas a descosida / e sorridente costura no seu centro // um dia todos os pelinhos a vénus / de milo arrancou parecendo / a sua vulva pito sem penas». E isto mesmo assertavam, de facto e de feito, os grandes Ruy Belo ( 1933 – 1978 ), Pablo Neruda ( 1904 – 1973 ) e David Mourão-Ferreira ( 1927 – 1996 ). Que as portas da percepção, em Carlos d’Abreu, elas são abençoadas, e por isso purificadas. E a simpatia, por isso, libera e sana, ela sara e ela cura a patologia. E o Eros, deste modo, conduz o amante, do singular para o Arquétipo, da particular Beleza para a Beleza geral. Ou como afiança, de feito, o Poeta: «unto-te com o meu sabor / e na tua sedosa pele deleitosa / a minha sedenta língua escreve / os versos mais belos por seres / argênTea folha de lua cheia / e multicor tinta de luar». Ou seja: em pulsão libidinal, libar a Afrodite é ser «liber» e lauto: «ofereces-me / a amêijoa / liba-me / a amêijoa / beijo-a / à amêijoa». E não será, esta pássara, bivalve??? «A vulva bivalve / à minha espera»??? Em lhaneza de chão plano: não serão, os ditirambos, como o sémen dionisíaco??? É esta, afinal, a lauta Saudade, e é este, no escólio, o «amar em liberdade». O amar em Liberália, e libertariamente. E liberando, por isso, o livre-pensador, a libertina saga – e eis, aqui, a Afrodite em Abril, eis o elmo e o leme em Carlos d’Abreu. Se o pensamento, no lance, é selvagem, é força, aqui, é força dizê-lo: o amante persegue a amada como o lobo, alfim, persegue o cordeiro. E é o que se infere dos dous últimos tercetos de «carta a uma poeta»: «todos os poemas ela ao vento soltou / e apenas o meu guardou / e ao lobo mostrou / leu-o o lobo e depressa percebeu / do poema o título em que se meteu:/ ‘’QUE-RO-CO-MER-TE’’». O leitento é dilecto, o aluamento, por isso, é completo, o amor é uma laia de alucinogénio. Que alucinar, para os Latinos, é ser como a Lucina, e eis, aqui, a nau e a nave, eis o típico e tópico em Carlos d’Abreu. Surrealizar, por isso, é dormir, e a nave é pois o leito em que dormem os amantes, nada mais sendo a cama do que o «Site», ou do que o sítio, em que os sonhos são partilhados. Porém esses sítios são sitiados – e não alembras, no carme, a Luiza Neto Jorge ( 1939 – 1989 ) ??? E o carme é pois o charme: do genial ao genital vai um curto, curto passo, e são os casos, e as causas, de Luís Dantas ( 1946 – 2011 ), de Camilo Castelo Branco ( 1825 – 1890 ), e do Carlos d’Abreu. E aduziríamos mesmo: a palavra e a semente, elas são, no sémen, em colaboração. Que dormir, por isso mesmo, é ser Iniciado, e sonhar, portanto, é viajar na Luz astral. Ouçamos, por isso, o Carlos caroal, é dele, entanto, a voz e a vez: «em tua busca / para além de marinheiro / fui também ginete / que em «cavalo quatralvo» / galopei galopei e «a galopar» / vi a tua sombra / lá longe no mar». E não existe o ginete sem o preste gineceu: o génio, por isso, é genioso, generoso, e ele tem muita genica, ele é, ginástico, o Marquês de Marialva. Na celeste aparição, ele é comparação, ele vai parindo os Numes da Maga e da meiguice. A paixão, por isso, é patética, a Beleza, como sempre, é convulsiva, o Amor é surreal, ou então nada será. Ouçamos, então, como a nossa companheira reparte, connosco, o Pão da campanha: «desde então só contigo faço AMOR / SÓ CONTIGO AMOR SEI FAZER / por contigo ter feito os mais lindos versos / DE POEMAS QUE FIZEMOS JUNTOS». Ou melhor: o útero, então, é crisol, é cadinho alquimista em que o Poeta prepara o seu cântico magno, e eis, aqui à vista, uma Arte Real, e só por ser crisol ela acrisola, deveras. Sendo, decerto, a crisóloga «mise». E por isso diremos nós: se a maioria dos Poetas deletreiam, e escrevem, livros diversos, o Carlos imaniza, ele grava, e ele grafa, no vasto «Liber Mundi». A Poesia, aqui, é como o lance cupidíneo: Horácio ( 65 – 8 a. C. ) chama ao canto uma «amabilis insania», ou seja, o estro, o êxtase, o fantástico furor. E amatório, outrossim, à guisa, liberal, do Anacreonte magno ( 563 – 478 a. C. ). E para Arístocles, ou melhor, para Platão ( 428 – 347 a. C. ), no «Fedro», o Eros é forma de hieromania. Ele se encontra em ligação, ou «liaison», com Dioniso, Apolo, e com as Musas sagradas: e eis, para o Magíster de Aristóteles, as quatro «fôrmas», ou formas, de «loucura divina». Que é Poeta, ou que é porta, para a láurea e a Lira, para a távola redonda. A magia, aqui, é do maior – e cavalheiro, no lance, é o preste Cavaleiro. E não das armas, mas das Almas, aqui é chama, e são chamados, os Cavaleiros do Amor. Aqueles que, na flama, proferem, aqueles que professam o livre-pensamento: «Em tudo amador, e  adepto d’ A Ideia» é como se define o Carlos d’Abreu. Um signo lindíssimo, um vocábulo que nos legaram os Gregos antigos é a palavra «entusiasmo»: do heleno «en theos», quer dizer, «com um deus interior»: essa a Lira e a lis, esse o escol e a escola do Carlos d’Abreu. A propósito dela, aduzia, ou dizia, Eduardo Lourenço ( 1923 – 2020 ), que a nudez do corpo é como a nudez da Alma, não admite, no lance, idolatrias. Em discurso, agora, parentético: uma Obra cardinal, e capital, da Cultura lusitana é a «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica». Essa lavra, da Autoria de Natália Correia ( 1923 – 1993 ) e dada a lume por Fernando Ribeiro de Mello ( 1941 – 1992 ), da Afrodite, em 1965, logo que apareceu, escândalo causou – e foi, preste, preste, apreendida pela PIDE. É que a sátira, aqui, é feita, dessarte, por sátiros e momos, e do entremez para a tertúlia vai um passo muito curto. Que o jogo é do jogral e o jogral é o «Joker»: um homem grado, um homem grande, um homem grandíssimo, que usava, em seus poemas, o chiste e a facécia, ele era, sem temor, Manuel Maria Barbosa du Bocage ( 1765 – 1805 ), ele teve o plectro, e o paládio, do Teófilo Braga ( 1843 – 1924 ), transiente e Presidente da República lusa. Em rigorosa, por isso, e ponderosa acribia, Alexandre Herculano ( 1810 – 1877 ) tinha, no teor, toda a razão: é que o Elmano trouxe a Poesia dos salões para a praça pública. E eis, aqui, os vasos comunicantes: é esse mesmo o desiderando, e o escopo, do Carlos d’Abreu; em Carlos, que actua, a Poesia está na rua. Queremos dizer: em Bocage, como em Camões, como em Carlos d’Abreu, os Poetas são expulsos da República falaz, eles vivem, sempre e sempre, fora da cidade, e eis, aqui, o vitupério, e eis o veredicto do socrático Platão. É que «O Pensamento Selvagem», do afamado Lévi-Strauss ( 1908 – 2009 ), não é só próprio, digamo-lo agora, dos primitivos e selvagens, ele é apego, e apanágio, dos Poetas, das crianças, dos afectos, e afeitos, ao merencório pensar. O estrénuo Estagirita corrobora e ratifica: em todos os tempos, e em todos os países, os homens mais distintos nas ciências, nas artes e nas letras, eles tinham, a miúdo, melancolia ou bílis negra. Com mais ênfase, afiança o Filósofo, na classe dos Poetas. E vem, aqui mesmo, a talho de foice: a última parte de «O Intenso Amarelo da Carqueja» tem por título, cordial, «Dislates, Arrufos e Por Vezes Merencórios Dizeres», e eis o estado e o estudo do Eros sensual. Na escola, por isso, do estético furor e do sonho acordado ( remembremos, aqui, Robert Desoille ), eis como se ama, eis como se penetra em completa Liberdade: «porque te afrontou esse POEMA? / POEMA que só não é modesto / e singelo por nele teres participado, / sozinho não teria sido / capaz de o escrever, / a sós não há POESIA / e por conseguinte / não pode haver POEMA». E bem a propósito, «Poiesis», em Grego, significa «fazer»; e citemos, na verve, João Belo: «O Amor não existe, é preciso fazê-lo» – e não se ajusta, esta frase, ao grito e ao mito do Carlos d’Abreu??? Realçando, aqui, o erotismo ou anarquismo, esta lavra é contubérnio, este poema é deveras o Hinário-Binário. Ou melhor: as Bodas Químicas, decerto, da «Luna» com o Sol, o Andrógino primitivo, ou primordial. Seguindo a lei do triângulo, o filho, de facto, é «opus magnum», no alquímico sentido. Quanto ao mais, Robert Desoille, psicoterapeuta gaulês, foi nado em Besançon, a 29 de Maio de 1890, e faleceu, de feito, em Paris, em 10 de Outubro de 1966. E sua Obra, aqui, que importa referir, é de 1938 e chama-se, na flama, «Exploração da afectividade inconsciente pelo método do sonho vígil». Ao lermos, degustando, «o intenso amarelo da carqueja», pensamos, deveras: se o «êxtase» é estar fora de si, foram criados, seus poemas, em estado de transe. E a Beleza é mostração do visível no invisível, do sensível, entanto, em estado arquetipal. E se as mulheres são belas, então são artistas em génita natura, as mulheres, no engenho, elas pintam-se e maquilham-se diante do espelho. E o Aquinate ( 1225 – 1274 ) o afirma: a Beleza é aquilo que, uma vez vista, causa prazer na humana pessoa, o Belo provoca um conhecimento gozoso. Ou melhor: no estádio estético, o prazer é «leitmotiv» e pedra-de-toque – e estamos perto, então, de «O Prazer do Texto», seguindo e segundo o Roland Barthes caroal ( 1915 – 1980 ). E o Poeta, que aluz, é sempre e sempre e sempre aquele que seduz. Não alembras, aqui, o «transfert»??? A participação mística, do Carl Gustav Jung ( 1875 – 1961 ) ??? E se o Génio, dessarte, é aquele que gera, os Poetas fazem, com a letra, o que fazem as mulheres com os órgãos genitais. Pois o Poeta, seguindo e segundo o Almada-Negreiros ( 1893 – 1970 ), é aquele que se reproduz igual a si próprio, e é, o Escritor, de acordo com Estaline ( 1879 – 1953 ), um alto e um lauto engenheiro das Almas. E hemos dito, no ádito: Almas artistas, Almas anarquistas. Ser artista é ser um grito, ser artista é professar o direito à diferença. Que o Poeta é diverso e inverso é o verso, é «O Sol nas Noites e o Luar nos Dias» da Natália Correia. É qual a sorte da Saturnália, é tomar, à guisa de saltimbanco, a verdade por mentira e a mentira por verdade. Existe, por isso, o mentar, co-existe, ou resiste, o poético mentir. Ou melhor: as imagens, os Mitos e as metáforas, apanágio são do Eros, e persistem pois na Lira do Carlos d’Abreu. E o que serão os Professores de Literatura, senão astutos, e manhosos, contadores de mentiras??? Toda a Arte é uma mentira que acrisolada, matutada e admirada, se transforma, deveras, na verdade promissora. Segundo o Lorde Byron ( 1788 – 1824 ), a mentira é a verdade duma mascarada. E o similar é parente do simular, que ideias factícias são, no carme, ideias fictícias. E a propósito, ainda, do Bocage: se a Poesia, entanto, é bacanal, não será dessarte a Lira carnavalesca??? Ou melhor: se a ficção é fingimento, se a Lira do Carlos é jaculatória, apanágio, do jogral, é a jocosidade – e estamos no domínio, não só da Logoterapia, como, lilial, da Ludoterapia. Ouçamos, por isso, do Poeta, o brandão e o brasão, a brincadeira verbal: «Do biscoito / Que tuas mãos / Moldaram / Soube a canela / A teus lábios / / Por isso foram / Os teus lábios / Que a minha / Fome sararam // Devo assim / A teus lábios / A doçura / Do biscoito // Bis / Coito // Com sabor / A lábios // Ou a canela?» E eis, em Freud, a libido primeva, o canibal da fase oral: ao ser morada e namorada, como já dissemos, a mulher é portanto o alimento do homem: e são as pomas, da terra, e a deusa Pomona. A relação que se instaura com o corpo do desejo é comer e ser comido, a Mãe, matéria-prima dos temas e poemas. O Amor antigo e avito, que é para sempre interdito. Ou melhor: o inter-falo, ou dito entre, as Edições e Dicções. E no dizer de Camões, «Melhor é experimentá-lo que julgá-lo / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo»: é que o fantasma é fantoche, e é fetiche a fantasia, e é pois, a fidúcia, efabulação. E, se o comer é manducar, é manjar, também, o beijar, lactar é uma forma de incorporação. Que pode levar, o bípede implume, à identificação. Através, então, do Édipo, instaura-se a Lei e o acesso à linguagem. A induzir, a conduzir, e a preste seduzir – e eis a Flora, e o «Fatum», em Carlos d’Abreu. E já falámos, aqui, das Liberálias. E quanto, agora mesmo, a «o intenso amarelo da carqueja»??? Esta Obra poliglota, esta lavra liberal, este «liber» torna livre quem no cultua. E é úbere, portanto, a Ibéria. É da forma e é Morfeu. É d’alor, o santo-e-senha, na península de Espanha, aquela que acalenta Ortega y Gasset ( 1883 – 1955 ), aquela que alimenta Camões ( 1524 – 1580 ) e Dom Quixote. Que não se iluda, porém, o ledor: mais do que raiano, mais que lusitano, e muito mais do que ibérico, é, o Carlos d’Abreu, um caroal cosmopolita, um cidadão do mundo inteiro. E ora muito e muito bem: pouco a pouco, e livro a livro, o Carlos vai criando um cenáculo e um simpósio em que as palavras são pesadas, insufladas, em que se pensa e com-pensa a narcísica ferida. E se o Picasso, nado em 1881 e falecido em 1973, assertava «Eu não procuro, encontro» é porque o «trovar» é parente linguístico do verbo «trouver». Quer dizer: acoplar, cientemente, o metro com a rima. E se o artista, por isso, é artilheiro, imaniza e dinamiza o Carlos d’Abreu, ele é sonoro, a Ideia, é pedra de Heracleia. De tal modo que diremos: a líbido, então, para Carlos d’Abreu, é mais do que Fado, ela é, entretanto, o domínio do sagrado. E daí sua liança com a Musa e com a copla. O hino, por exemplo, ele permite, aos que o cantam, o sentido e sentimento duma lauta simbiose, o ritual, e a «communio», duma preste comunhão. Palavras e cânticos, mitos e ritos – e estamos no âmbito do sonho acordado. A inferir, a aferir e a proferir, a «ecclesia» e a assembleia, o «agon», dessarte, do protagonista. O futebol, por exemplo, como «divertissement», ele é Mercúrio «Mercator», é espectáculo de massas. E se a Poesia é de «Homo Ludens», se é sagrado o xeque-mate, o jogo é necessário à vida humana, e são, no único e «ludus», os jogadores de xadrez do real Ricardo Reis. Que ao jogo da Poesia opõe-se o jugo do trabalho. No dizer de Mark Twain, «o trabalho é tudo o que se é obrigado a fazer; o jogo é tudo o que se faz sem se ser obrigado.» E remata o Aquinate: «O brincar é necessário para a vida humana.» Esclareçamos, agora, o nosso leitor: as Liberálias, celebradas, adrede, por o povo latino, eram festas de orgia primaveris em honra de «Liber Pater», o Baco, o deus do vinho, do êxtase e do entusiasmo. E que é, também, das Belas-Artes o divo – e saudamos, belamente, o belo Baudelaire ( 1821 – 1867 ). O Carnaval, ou «carrus navalis», do Carlos d’Abreu, ele é uma espécie de Abadia de Thélème, é qual a festa libertária em que é, singelamente, proibido proibir. Nessa preste Abadia, segundo Rabelais, «faz aquilo que quiseres é a única lei». É que, de um lado, está a razão, e está, no extremo oposto, a imaginação. «A imaginação ao poder» do Maio de 68. O irmanar, o imanar, e o magnetizar. Carlos d’Abreu, com este livro, ele faz com que o leitor acate, e aceite, a sua paixão. Ou melhor: a sua leve ilusão. E se embriague, alfim, com a Afrodite libertária, a «Tellus Mater» ou Deméter dos povos avitos. Ouçamos, agora, como o Vate é benevolente, como é um homem, diverso, de boa vontade: «e depois um longo beijo / através dos lábios colados / a dor de vez eliminaria / por serem os nossos ósculos / de balsâmico mel dotados // contém o sofrimento! / pensa que as minhas mãos / no teu ventre repousam / e os meus beijos / nos teus lábios pousam». Quer ele dizer: além de apaixonado, o Poeta é um ser que sente compaixão. Patética, potente, paciente compaixão. E estou quase, meu irmão, estou quase a findar. Revelemos, agora, relevemos e alcemos o sagrado e o seguinte: foi nado em Maçores, a 15 de Setembro de 1961, o Poeta e artista Carlos d’Abreu. E nasceu, deste modo, em Setúbal, a 15 de Setembro de 1765, Manuel Maria Barbosa du Bocage, o Elmano Sadino dos poemas fesceninos. Mas há mais, ainda mais: a 15 de Setembro de 1850, em Freixo de Espada à Cinta, nasce Abílio Manuel Guerra Junqueiro, o Autor, acrisolado, de uma «Oração ao Pão». Com «A Velhice do Padre Eterno», ele seria o terror da Igreja Católica. E finalmente e alfim, é nado em Penalva do Castelo, em 15 de Setembro de 1939, Vítor Aguiar e Silva, Vítor Manuel Pires de Aguiar e Silva de seu nome completo. Foi Poeta, investigador, Escritor e Professor, Professor Catedrático bem entendido. Ganhou, entre outros galardões, o Prémio Vida Literária, o Prémio Vasco Graça Moura, e, ademais, o Prémio Camões. A «Teoria da Literatura» e a coordenação do «Dicionário de Luís de Camões» foram, de feito, suas máximas Obras. E foi, no Fado, dum Poeta que falei: que ele seja forte e fundo. Que ele seja leve e livro, que ele seja lilial, e que rompam as águas………..


Tomar, 01/ 02/ 2023

SPES MESSIS IN SEMINE

PAULO JORGE BRITO E ABREU