Sou
um leitor compulsivo, embora com bico doce. Ao contrário de alguns
amigos e confrades meus, que se preocupam sobretudo com a escrita
das suas “coisas”, ao longo dos anos tenho-me preocupado sobretudo
em ler, ler bastante – e nunca achei, até hoje, que tenha lido
demais. Como diria o escritor argentino Jorge Luis Borges, a
única angústia de quem tem uma biblioteca é saber que nunca poderá
lê-la por inteiro. Um dos hábitos que mantenho desde a adolescência
consiste na transcrição, em cadernos pautados de humilde factura, de
excertos que me vão estimulando nos textos lidos. É uma forma
discreta de lhes manifestar a minha amizade. Há dias, folheando um
desses “Diários de Leituras”, veio ao meu encontro um
trecho de Georges Bernanos, escritor católico francês, admirável na
sua verticalidade. No seu romance intitulado Diário
de Um Pároco de Aldeia escreve a dado passo:
“[…] o Estado principia por mostrar boa cara diante dos
infelizes. Toma conta dos garotos, cuida dos estropiados, lava as
camisas e faz a sopa dos mendigos, esfrega os escarradores dos
velhos senis, mas tudo isto sem deixar de olhar para o relógio e
perguntar a si mesmo se irá ter tempo para se ocupar dos seus
próprios negócios.”
Acolhi-o como foco luminoso numa época como aquela que atravessamos
no mundo, mas sobretudo em Portugal. Ajudou-me a confirmar a
convicção de que o fundamento principal da depressão crónica em que
mergulharam os portugueses está num forte sentimento de abandono. O
Estado português, entidade abstracta tornada física em todos quantos
lhe dão corpo e movimento, tem abandonado os cidadãos deste país em
boa parte da sua história. Tivemos momentos de esperança, mas sempre
que avistámos raios de luz – naquelas parcelas de tempo em que a
democracia se aproximava da realidade –, a inércia, a hipocrisia e a
corrupção foram fazendo o seu trabalho. Nomeadamente, colocando (em
lugares-chave da gestão pública e da administração) pessoas cuja
competência se concretizou e concretiza apenas no momento em que os
seus interesses e os da sua clientela política e social foram e são
satisfeitos, institucionalizando (usando a justiça e a fiscalidade,
por exemplo) oligarquias corruptas que, em vários períodos,
transformaram o governo numa autêntica plutocracia.
É difícil não se pensar assim quando se é cidadão português e não se
tem a barriga cheia. Existem, em Portugal, exemplos de boa conduta,
de exigência social, de devoção abnegada ao bem comum? Claro que
sim. Não tranquilizam, contudo, os portugueses que ainda têm honra
(essa palavra infelizmente em desuso). Quem poderá estar descansado
quando tem sobre a cabeça a ameaça de um Estado abusador e
negligente? A fiscalidade sobrecarrega a classe média para aliviar
os poderosos e aquietar os ociosos. Por todo o lado é promovida
gente sem currículo nem competência, mas com mal-disfarçada vontade
de “subir”. O mérito é desvalorizado, premiando-se antes a
obediência à iniquidade. Várias escolas e muitos pais tentam
camuflar o insucesso educativo. Os direitos e ansiedades dos
cidadãos são desprezados. A gestão do território em termos
ambientais, urbanísticos, económicos e culturais facilita o tráfico
de influências. Há empresários que impunemente exploram o trabalho
com chantagens e com atrasos no pagamento dos merecidos salários,
que fecham ou mudam a localização das suas empresas. Sectores
estratégicos da vida nacional são colocados em mãos privadas ou
estrangeiras. O governo tenta diminuir a despesa pública indo pelas
vias mais fáceis, mas menos justas, evitando afrontar os que
verdadeiramente são poder em Portugal.
Os exemplos são múltiplos e variados. Claro que existem muito boas
práticas nalguns locais – mas chegará tão curto lenço para cobrir a
larga face de tão grande negrume? Além disso, a nossa miopia e a
nossa falta de memória obriga-nos a fugir de um verdadeiro exame de
consciência como o diabo da cruz. Preferimos antes aceitar
passivamente a manipulação televisiva ou internética e esquecer
quanto fomos e somos enganados pela mania das grandezas, pelas
seduções do consumismo, pela inveja e pela ambição desmedida.
O autor da letra do hino nacional escreveu em 1890:
“Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal...”
Deveríamos dirigir-nos assim aos que nos governam neste momento
difícil, exigindo-lhes um saneamento profundo do Estado português e
exigindo a nós próprios uma rigorosa moralização da vivência social,
no âmbito de uma ética democrática fundada na responsabilidade. Os
canhões contra os quais devemos marchar são hoje a
irresponsabilidade, a mediocridade, a chantagem, a incompetência e a
corrupção. E só com autocrítica, coragem e frontalidade os podemos
enfrentar. Pergunto-me tantas vezes: teriam fugido os vendilhões do
Templo de Jerusalém se Jesus Cristo lhes tivesse falado com
brandura?
Será talvez verdade: “uma vez que os costumes estão
estabelecidos e os preconceitos enraizados, é uma empresa perigosa e
vã querer reformá-los – o povo não pode mesmo suportar que toquem
nos seus males para os destruir, tal como os doentes estúpidos e sem
coragem, que estremecem à vista do médico”,
como escreveu Jean-Jacques Rousseau. Serão também verdadeiras as
palavras, proféticas e assustadoras, de Raul Brandão (escritas,
vejam só, há quase cem anos): “O rico explora o desgraçado,
já não há homem nenhum que não se sinta afrontado e que no íntimo
não deseje que isto desabe… Só falta um passo. O que falta é
exteriorizar a nossa alma. Essa sociedade anticristã, que aí está,
não merece ser poupada: não só não crê em Deus como só crê na
matéria e no gozo.” Mas, como diz o nosso povo, o povo humilde
que salvou sempre este país, a esperança é a última virtude a
morrer.