Percurso inacabado da economia de Francisco

 

Frei BENTO DOMINGUES, O.P.


1. A característica do pontificado do Papa Francisco não é a de multiplicar iniciativas e realizações de ordem pessoal. Desde as tentativas de reforma da Cúria, ao envolvimento com o vasto mundo dos migrantes que fogem da fome e das guerras; da visão de um mundo a partir dos pobres e de todas as periferias existenciais; de despertar a sociedade para uma concepção da vida como realidade intergeracional, intercultural e interreligiosa; de não descansar enquanto a pedofilia e o seu encobrimento, por parte do clero, não se tornem empenhamento de toda a Igreja e da sociedade para acabar com essa tragédia; de fazer do Sínodo dos Bispos o Sínodo de toda a Igreja, mostrou sempre que procura, em todas as suas iniciativas, o envolvimento crescente de todas as pessoas de boa vontade.

Para este Papa, desde Março 2013, as suas questões são as de toda a humanidade, a fraternidade universal, como manifestou na Laudato Sí’ (a ecologia integral, cuidado da Casa Comum), na Carta A Fraternidade Humana em prol da paz mundial e da convivência comum – a quatro mãos – assim como na Fratelli Tutti. Não são documentos para figurar nas estantes religiosas, são tentativas de mobilização de pessoas e grupos que podem e devem trabalhar por um mundo outro, um mundo de paz activa. São convocatórias. Como mostrou nos encontros com os movimentos populares, trata-se sempre de olhar o mundo a partir de baixo, a partir do mais elementar figurado com os 3Ts: terra, teto e trabalho, isto é, três direitos sagrados.

No seu documento programático, A Alegria do Evangelho (2013), denunciou a economia que mata, expressão que teve um grande eco, tanto entre os que a apoiavam – católicos ou não – como entre os que a censuravam, com o argumento de que o Papa não é um economista. Teria exorbitado da sua missão de pastor da vida espiritual. Deixe, de uma vez para sempre, a política económica para os debates entre economistas, nas suas diversas orientações.

De facto, não conheço nenhuma obra de ciência económica assinada pelo Papa Francisco. Também neste domínio, revelou-se um bom pastor: desencadeou um movimento – A Economia de Francisco – precisamente porque a economia dominante não tem em conta o espírito do Santo de Assis, em vez de promover a vida dos mais pobres, arruína-os cada vez mais. E ainda neste domínio, segue fiel ao seu estilo: não faz aquilo que não sabe, mas faz fazer quem sabe ou pode vir a saber.

  1. É paradoxal a minha situação ao escrever esta crónica. Ao elaborá-la, só podia conhecer uma parte do percurso da chamadaEconomia de Francisco e o anúncio de um evento do futuro, a realizar-se de 22 a 24 deste mês. Quando aparece publicada, é sobre um evento que já terminou e no qual não participei. Dir-se-á que o melhor seria ignorar o que, por outro lado, não quero nem posso ignorar.

O que desejo destacar é que o evento, em Assis, com a participação de tantos jovens de tantos países e a presença activa do Papa Francisco, não pode ser a clausura de um percurso. Seria uma traição ao convite que Bergoglio enviou, no dia 1 de Maio de 2019, a economistas, agentes de mudança, empreendedores e empreendedoras com menos de 35 anos em todo o mundo. Seria também trair o trabalho on-line dos últimos dois anos que não se deixou vencer pela pandemia, envolvendo milhares de jovens de 120 países dos cinco continentes.

O Papa designou o Professor Luigino Bruni para director científico deste grande projecto. Nesta reunião sem precedentes, além dos jovens, participarão também muitos especialistas de renome, incluindo Prémio Nobel da Paz de 2006, Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Economia de 1998, Amartya Sen, Jeffrey Sachs ou Stefano Zamagni, entre vários outros, como os portugueses, Ricardo Zózimo, Professor da U. Nova, e Américo Mendes, da UCP Porto. Toda a movimentação desenvolvida, desde 2019, não pode ter prazo de validade.

O que aconteceu, nos últimos três dias, foi a realização de um programa preparado ao longo do tempo. O perigo destas realizações, por mais que se diga o contrário, é confundi-las com a lógica dos festivais: realizou-se e acabou. No entanto, é preciso dizer que, desde há muito, tudo tem sido feito para contrariar essa tendência. Um dos sinais foi dado no dia 24, ao apresentar ao Papa um pacto que ele e os jovens assinaram em conjunto, de forma pessoal e coletiva para se comprometerem neste caminho rumo a uma economia com alma, que não deixa ninguém para trás, como tinha explicado a jornalista da equipa de Economia de Francisco, Lourdes Hércules.

  1. A esperança é que aEconomia de Francisco faça parte de um processo mais amplo que possa levar os jovens e os adultos a comparar as suas propostas com importantes realidades da economia, finança e energia. É continuar a confrontar-se e confrontar os grandes da terra para que o acontecimento de Assis não seja só um sonho.

Quando tantos jovens se disponibilizam a trabalhar para dar substância aos sonhos e experimentar a profecia de uma economia, que não deixa ninguém para trás e que sabe viver em harmonia com as pessoas e com a terra, toda a Igreja se deve alegrar e sentir o dever de se informar, seguir e acompanhar esse processo, evitando a tentação de querer encaixotar os jovens e os seus projectos em estruturas pré-existentes, como tinha dito a irmã Alessandra Smerilli, secretária do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que é parte desta iniciativa.

Importa, agora, dar a conhecer o percurso realizado até ontem e partir para uma etapa que divulgue, no ensino secundário e universitário, nas empresas, nos movimentos sindicais, nas Igrejas, para que saibam combinar o culto com esta nova cultura económica.

Como toda esta movimentação aconteceu a partir de iniciativas católicas, tentando envolver a sociedade e as igrejas cristãs e outros movimentos religiosos e humanistas, é fundamental dispor de um calendário de avaliação dos passos que forem dado. Não para reproduzir o acontecimento emblemático dos últimos dias, mas pelo contrário, tanto ao nível da investigação como das realizações, perguntar-se sempre o que está a acontecer de novo.

Não estou a dizer nada de inédito. Apetece-me lembrar o que li, numa entrevista de 2019, de Ricardo Zózimo que envolve também Américo Mendes: Há três coisas que eu quero levar: o nosso entusiasmo por esta iniciativa, a nossa vontade de que isto não seja um ponto de chegada nem um ponto de partida, mas um ponto de celebração e de nos lançar para a frente, ideias para conseguir mudar os modelos económicos[1].

A situação actual está cheia de imprevistos, também de ordem económica, a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin e também das suas ameaças cada vez mais loucas.

 

[1] Agência Ecclesia, 18.07.2019; cf. também Manuel Brandão Alves (7Margens, 20.09.2022)


Público 25SET 2022