Paradigma da fraternidade para o mundo

 

Padre AIRES GAMEIRO


Viveram-se assuntos em linhas cruzadas: o Papa Francisco assinou “Tutti Fratelli” em Assis (3 out.), encíclica publicada no dia de S. Francisco no Vaticano; e logo veio o dia feriado da República. A carta apela ousadamente a todos os homens, em todo o mundo, para realizarem a fraternidade, a paz e o bem comum (de todos). Os erros e males têm-se repetido através dos tempos apesar das mudanças político-religiosas tentadas. A República de 1910 tinha por objetivo corrigir os males da governação monárquica, mas rejeitou a Pedra Angular da fraternidade e faliu; Jesus pediu a S. Francisco: “vai e reconstrói a minha a Igreja”, não a de S. Damião, de pedra e cal, mas a de pedras vivas com doze séculos de caminhada e já com brechas por não atinar viver o evangelho sem “glosa”. E, hoje, não Lhe faltam ruinas. A carta sobre a fraternidade do outro Francisco, o Papa, apresenta a todos o incrível paradigma global para reconstruir não só a Igreja, mas a humanidade toda com receitas de S. Francisco. Tanto o santo, como o Papa, propõem práticas pastorais novas, às vezes mal aceites por elites e aristocracias que recusam partilhar com os irmãos pobres, iletrados e doentes. Foi o erro da República, golpe de poucos iluminados que recusaram a democracia todos os cidadãos. De fora as mulheres, os analfabetos, os não proprietários; liberdade sem garantias e dignidade dos pequenos. O papa do tempo de S. Francisco resistiu à aprovação de uma ordem de irmãos pobres, sem propriedades. S. Francisco propunha o Evangelho como regra e dispensou as riquezas e trocou a herança do pai pela sua entrega ao Pai do Céu e de todos. O Francisco de agora, tenta mudar o mundo todo com um projeto originalíssimo de todos. Como Jesus cruza as fronteiras à procura dos “cachorrinhos” de Sidónia, os pecadores e pecadoras das ruas e prisões, os prófugos de Lampedusa e os islâmicos do Egipto e das Arábias. A todos, como irmãos, abraça, lava e beija os pés. S. Francisco não é só o irmão dos animais, flores, da terra e dos astros; parte do próprio Deus criador de tudo e do Evangelho para a ecologia integral. Põe Cristo no centro e constrói a fraternidade com todos os pobres e doentes, abraça o leproso, vai falar com o Sultão no Egipto, não para discutir mas dar-lhe um abraço de paz  fraterna. Gestos novos de fraternidade sem distanciamentos aristocráticos das monarquias não foram o forte dos republicanos de elites maçónicos e carbonários de 1910. Afastaram pobres e cristãos. Tinham o projeto de corrigir os erros anteriores, mas copiaram os de outra mudança violenta republicana da história, de 1789. Sem os fundamentos da cultura cristã pioraram a situação do país que Nossa Senhora veio socorrer em 1917. Diz o Papa: Julgamos que, «quando se pretende, em nome duma ideologia, expulsar Deus da sociedade, acaba-se adorando ídolos, e bem depressa o próprio homem se sente perdido» (cfTutti fratelli, 274), como hoje. Algumas medidas boas ficam sombreadas pelos erros da recusa de Deus e da igual dignidade de todos os seus filhos. Apesar de tantas tentativas, a humanidade global, como um todo, ainda não acertou numa política hoslística de fraternidade entre todos. Todos, é mesmo a palavra chave de Tutti Fratelli (150 vezes no texto) em que o Papa Francisco apela a todos por todos, pobres e “descartáveis”, não apenas pelos super-ricos. Clama: dai de comer, roupa e casa a todos os vossos irmãos, vivei em paz com todos. S. Francisco viveu em saída de paz e bem, atravessou fronteiras levou Jesus Cristo, que o levava, ao Sultão; o Papa proclama: “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”. Nossa Senhora do Rosário, a 7 e a 13 lembra como importa rezar e meditar no Evangelho, porque diz Jesus: “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 1-8).


Funchal, 7 de outubro 2020

Aires Gameiro