JONAS PULIDO VALENTE
O comandante de um campo de recruta da tropa tinha uma vida muito relaxada. As questões de logística e pessoal não o preocupavam, nem havia guerra.
Um dia, enquanto dava formação de baioneta um rapaz com cabelo côr de feno perguntou-lhe:
“Senhor comandante, e se o inimigo já estiver no chão? Devemos estripá-lo?”
O Comandante respirava sempre com paciência redobrada quando lidava com o Alferes.
Um dia ele acabou o curso e saiu para a vida civil, enquanto reserva militar, o Comandante continuou no exército.
Passaram dois anos, a cena internacional complicou-se.
O Almirante disse ao General, o antigo Comandante depois da promoção:
“É melhor enviar umas tropas para retirar os cidadãos afectados, como missão humanitária. General, queremos que lidere a busca.”
O General aceitou depois de ponderar se ia ou não, devido à sua má condição física, acabou por decidir coordenar o terreno perto da capital.
Uma vez lá, o General cruzou-se com o Alferes, que continuava a ser um Alferes e parecia bastante feliz a carregar troncos de um lado para o outro, com o seu Sócio.
“Senhor General, acha que fomos feitos pela flagelação do clima? Que bela é esta terra.”
O General ordenou-lhe que fizesse a barricada rápido, em breve os outros saltariam por cima dos troncos. Foi o que aconteceu, um belo desastre, tudo aconteceu.
Três anos passaram. O General tornou-se Reformado.
O Reformado gostava de construir coisas, casas, por vezes construía cabanas de troncos com os seus filhos, bem a norte. Tinha uma vida relaxada com a sua segunda mulher. Os filhos dos vários casamentos e amantes juntavam-se com ele nas cabanas que iam construindo no tal norte e aos fins de semana iam à cidade jantar a um restaurante. O Reformado gostava principalmente de bifes. Vários tipos de bifes. De vaca, porco ou lombo, tudo marchava.
Um dia, ao passar na rua que vendia bonecos e curiosidades deparou-se com o Alferes. Continuava com a farda. Dizia às pessoas para se juntarem ao exército a que definitivamente não estava afiliado, nem ganhava dinheiro nenhum com a tal tropa.
“Senhor General, a vida é bela! Como não ganho o suficiente no meu trabalho como Padeiro, e tenho que alimentar várias bocas decidi tornar esta comunidade mais próspera com bolsas de estudo pagas para combatentes. Estou a incentivar as pessoas para não serem como nós fomos, eu e o General, aqui nesta região. O senhor em breve terá só o ar puro da montanha e eu terei a terra das bermas. Quer voltar à guerra, senhor Reformado?”
O Reformado olhou a si mesmo, não como General, mas como Comandante a responder ao jovem rapaz com cabelo côr-de-feno a perguntar se este deveria estripar o seu inimigo se estivesse no chão. O Comandante aproximou-se dele, deu-lhe uma palmada amigável no braço e perguntou a este Alferes da reforma:
“Já me sabes responder se se deve espetar a baioneta quando o inimigo está no chão?”
O Alferes olhou para o General como se a visão dele o estivesse a atravessar e estivesse a focar num ponto muito mais distante.
“Senhor General, será que alguém alguma vez poderá ser comandante? No meio daquilo.”
O General deixou de fazer troça do Alferes no lado inconformado da sua mente. Olhou-o triste, despedindo-se com esta deixa:
“Prefiro mais ser o bom dos maus do que o mau dos bons.”, deu-lhe uma palmada no ombro, e partiu.