Os editores de Mário Domingues

 

MANUEL RODRIGUES VAZ
Os editores de Mário Domingues: Amizades e Cumplicidades


  • Palestra lida no Restaurante O Pote, em Lisboa, no dia 15 de Fevereiro de 2023, no âmbito do ciclo de Palestras da Tertúlia À Margem

Numa época como a que atravessamos, em que a Internet parece querer dominar e monopolizar tudo e especialmente o livro, o papel do editor à maneira antiga, como agente cultural, colaborando estreitamente com o autor, nos vários aspectos da criação do livro, e apoiando-o de variadas formas, está praticamente a chegar ao fim.

A questão que vamos focar, que se poderia chamar, desde já, o “Caso Mário Domingues”, pelo volume da sua produção e pela sua diversidade e importância, é bem o exemplo da vantagem da existência de editores que souberam sê-lo integralmente, contribuindo, com o seu esforço e vontade de servir a cultura, para que talentos tivessem desabrochado mais visivelmente, embora depois tenham caído no esquecimento. Pode dizer-se que, no caso deste escritor de origem africana, os seus editores funcionaram sempre ao nível a amizade e da cumplicidade, o que lhe abriu portas que, de outra maneira, ficariam sempre fechadas.

Como bem assinalou recentemente o sociólogo José Luís Garcia, «De ideias ousadas, Mário Domingues já defendia a independência das colónias em 1920», lembrando depois que «O mérito de Mário Domingues deve-se ao seu humanismo e ao facto de ter tido a coragem de assumir posições políticas antecipatórias, ainda durante a primeira República, em prol da defesa dos trabalhadores negros, não só nas antigas colónias portuguesas em África, como na então chamada Metrópole».

Retrato executado pelo seu filho, o pintor António Pimentel Domingues

«Eu acredito em que a Humanidade atingirá um grau cada vez mais alto de perfeição moral e social. E quero contribuir para esse fim com a humilde achega do meu trabalho probo e da minha inteligência sincera», disse Mário Domingues numa das numerosas entrevistas que concedeu ao longo da sua carreira de escritor e jornalista.

Intelectual de origem africana – nasceu em 3 de Junho de 1899 na ilha do Príncipe, filho de exilado português e de mãe angolana, e faleceu em 24 de Março de 1975 na Costa da Caparica – cujo percurso atravessou épocas de várias lutas, de grandes desigualdades sociais e de muitos conflitos políticos em Portugal, desde a queda da monarquia à implantação da ditadura salazarista e à revolução do 25 de Abril, pode dizer-se, sem rebuço, que, a vários níveis e dos mais variados modos, cumpriu os seus objectivos, e até muitas vezes os ultrapassou. Como aliás lembra Maria Helena Rodrigues, no estudo Mário Domingues – Um Esboço Biográfico, «A escolha deste trabalho deve-se talvez ao facto de ser curiosa, pelo facto de ter tido oportunidade de ler um artigo publicado na revista Ler História, da autoria do Prof. José Luís Garcia, intitulado A Batalha e a questão colonial, em que o tema era Mário Domingues, e a sua luta através do jornalismo, que falava na independência do Ultramar e com uma visão prévia do que viria a ser o desenlace das colónias para Portugal, o que realmente veio a acontecer talvez uns trinta anos após a sua previsão».

Efectivamente, nada do que Mário Domingues escreveu foi gratuito, e especialmente quando eram romances policiais e de aventuras, que apareciam assinados com os nomes de Henry Dalton & Philip Gray, Marcel Durand, W. Joelson, Fernand’Almiro, Fred Criswell, F. Hopkins, Henry Jackson, James Black, James W. Slearey, James Strong, J. W. Powell, Joe Waterman, John Ferguson, Max Felton, Max Parker, Nelson Mackay, Peter O´Brion, Willim Brown, Thomas Bich, Guida de Montebelo, Marcelle de Sérizy, C. de La Touraine, Claude Weber, Repórter <Mistério André Chevalier, entre muitos outros.

A sua obra fala de si como um grande combatente pela liberdade e da justiça social, levando, justamente, a considerarmo-lo como um paladino da mudança com vista a um mundo melhor e a uma sociedade portuguesa, em que ele se integrava completamente, onde não houvesse tanta desigualdade e prepotência, luta que é paradigma do seu romance Senhores e Servos. Estudioso inveterado, prosador portentoso, com um estilo muito peculiar, sincopado e sintético à maneira dos seus congéneres americanos da época, fluente como a água serena de um rio, ele foi bem o exemplo de como o homem pode consagrar uma vida inteira a um ideal se tiver vontade e for vigoroso e perseverante nos seus intentos. Como dissemos, bateu-se sempre pelos seus princípios e não olhava a meios para fazer chegar a sua mensagem, que era de justiça e pelo bem-estar social.

De certo modo, ele iria ter esta posição durante toda a vida. Como diz Maria Helena Rodrigues no seu estudo já citado, Mário Domingues tentava despertar os intelectuais para o dever moral de se aproximarem das classes trabalhadoras, pedindo-lhes «que incluíssem nas suas obras, sobretudo na ficção, os problemas dos “mouros de trabalho” quase sempre esquecidos na sua ignorância e na sua pobreza».

No entanto, Mário Domingues nunca foi filiado em nenhum partido. Diz o seu filho mais novo: «O meu pai nunca foi sócio nem filiado em nada. Foi filiado no jornal A Batalha. Foi um homem que sempre lutou pelo operariado, sempre com a palavra e com a pena. Conseguiu que os barbeiros, em Lisboa, tivessem uma folga. Foi um lutador pela classe operária, fez comícios em Guimarães, falava em comícios. Foi para o Norte, Alentejo e Algarve, onde fazia discursos sem intenção política, mas tentando mostrar aos trabalhadores os seus direitos.

 

Os primeiros livros 

Aos dezassete anos publicou as suas primeiras tentativas de ficção numa efémera revista de estudantes de Medicina, a Alba, apresentada por Júlio Dantas. Mas a primeira grande oportunidade de Mário Domingues foi-lhe dada polo conhecido sindicalista Alexandre Vieira, ao publicar-lhe, em 1919, um conto no jornal A Batalha, órgão lançado pela Central de Sindicatos e de referência do que viria a denominar-se Movimento Libertário Português. Os dois viriam a tornar-se amigos, tendo-o Alexandre Vieira convidado, mais tarde, para chefe de redacção e tendo chegado a exercer o cargo de director. Divergências várias, entretanto, originarão, depois, a sua saída, por pressão de Emídio Santana, que o acusava de ser demasiado radical.

Muito lhe ficaria, porém, da passagem por A Batalha, além da experiência inolvidável e febricitante nesses anos de luta, a edição de dois livros, entre os quais Hugo, o Pintor (1921), publicado pela secção editorial do jornal, e a camaradagem dos colegas e correligionários, nomeadamente Cristiano Lima, Alfredo Marques, que viria a fazer crítica de arte no Diário Popular, e Francisco de Sousa.

Mas a publicação dos primeiros livros mesmo em letra de forma, foi-lhe proporcionada, no início da década de 20, pelas Edições Delta, propriedade de J. Santos Lda. que integraram três pequenas novelas Memórias de um Menino de Escola, Maria do Carmo e Audácia de um tímido na colecção Novelas & Contos, onde, entre outros, estavam Ferreira de Castro, com O Patíbulo da Mulher, não incluído nas suas “Obras Completas», meia dúzia de novelas do seu amigo Reinaldo Ferreira e a Eterna Tragédia de Augusto Ferreira Gomes. Eram ilustradas com desenhos de Martins Barata, Stuart e J. Briones e compostas nas oficinas gráficas do jornal A Pátria.

De algum modo foram o seu começo de carreira que, diga-se desde já, foi das maiores a nível de escrita em Portugal, se não mesmo a maior. A par da investigação histórica e do jornalismo, foram realmente muitas as dezenas de romances de aventuras, de cowboys, de amor e policiais, que escreveu durante a sua vida agitada e intensamente vivida. E tantos foram e com tantos pseudónimos escreveu, que, a acreditar em quem o conheceu bem, na altura, ele próprio perdeu a conta ao número de livros que publicou.

 

O editor José Rodrigues Júnior e a AEB

Nos fins da década de 30, vemo-lo a trabalhar para a Agência Editorial Brasileira, AEB, de José Rodrigues Júnior, que se tinha tornado seu amigo. Além de séries de aventuras que, mais tarde, a editora Civilização do Porto, reeditará com grande sucesso junto da camada juvenil, na Colecção Detective, publica O último gangster e O Polícia Demónio, como Henry Jackson, O Cão Polícia e O Crime da Louca, como Nelson Mackay, e A Tragédia do Palhaço, como James Black. Este retoma um enredo muito caro a Camilo, encontros e desencontros, coincidências familiares, dramas a puxar a choradinho. Com muita emoção e muita humanidade a ressumar por todos os diálogos.

Brasileiro de torna viagem, com escritório da Rua Ivens, em Lisboa, onde se situou durante muitos anos a Galeria S. Francisco, o editor José Rodrigues Júnior era um comerciante bastante audacioso e muito realista. O romance inédito, Rua dos Remolares, já estava pronto, mas os livros policiais e de aventuras é que se vendiam e, portanto, foi ficando para última opção.

Diga-se a propósito, segundo declarações do filho de Mário Domingues, o pintor António Pimentel Domingues, que isto se fazia a pedido e com a anuência da esposa da altura do escritor, Maria da Conceição Garcia Domingues, filha de um moleiro de Ruivães, Minho, que geria a casa e controlava os dinheiros com métodos de grande ecónoma, para conseguir, assim, o equilíbrio familiar.

Para o editor, bastava-lhe o facto de Mário Domingues se ter dedicado à reportagem de crimes, para ficar automaticamente habilitado a escrever uma novela policial, para o escritor, bastava-lhe, por outro lado, ir-se documentando com leituras dos mestres clássicos e leituras sobre História. «Planificaram-se então uma série de volumes de bolso, de cerca de duzentas páginas cada um, com capa ilustrada, que se apresentariam sob a rubrica de Colecção Detective. Num improviso, ditou imediatamente os títulos dos primeiros doze volumes, que surgiram assinados por pseudónimos estrangeiros, quase sempre ingleses e, de vez em quando, franceses.»  

É, no entanto, na AEB, que consegue publicar, em 1937, o romance Uma Luz na Escuridão. Apresentado como um livro que comove, diverte e até faz pensar um bocadinho, é escrito num estilo muito simples, que não exclui riqueza de expressão, palpitando nele uma realidade tão forte que o leitor, logo desde as primeiras páginas, se sente inclinado a pensar que está tratando pessoalmente com seres vivos e não com personagens de ficção.

A talhe de foice diga-se que foi a partir da AEB, onde trabalhou o conhecido editor António Sousa Pinto, que mais tarde se vem a criar a editora Livros do Brasil.

 

O papel da Livraria Civilização, do Porto

Mas a editora onde melhor se teria sentido, pelo acolhimento que lhe deu, especialmente nos anos 50, a todas as sus iniciativas e sugestões foi, certamente, a Civilização, do Porto, fundada por João Fraga Lamares e, depois, bem secundada pelo seu filho, Américo Fraga Lamares, cuja verdadeira importância no aspecto cultural ainda está por estudar, mas, atendendo aos títulos e autores que editou desde a sua fundação, é fácil concluir que, por detrás, havia um projecto cultural que não tinha apenas como objectivo único e principal o lucro.

Sobre a Livraria Civilização, que continua ser uma das mais notáveis e dinâmicas editoras, agora sob a administração de um neto de Américo Fraga Lamares, Pedro Moura Bessa, encontrámos recentemente um dado que pode lançar alguma luz sobre a origem da sua fundação, que, por sinal, não aparece, talvez, por desconhecimento, no catálogo dos seus cem anos de actividade, em 1981.

Efectivamente, no primeiro livro apresentado, editado em 1881, Inovações do Romanisno, traduzido do espanhol, a chancela é da Typ. De Fraga Lamares e não ainda da Civilização. Ora, no livro Cartas de Camilo Castelo Branco, colecção, prefácio e notas de M. Cardoso Martha, editado em 1931, no Rio de Janeiro, por H. Antunes & Cia, o autor, ao apresentar as cartas de Camilo a Eduardo da Costa Santos, datadas de 1884 a 1886, esclarece: «Mais outro correspondente de Camilo de que me escasseiam informações. Sei que foi bombeiro no Porto, e que se meteu a editor, talvez por conselho do escritor, a quem publicou vários romances. Fundou naquela cidade a Livraria Civilização». Informações posteriores indicaram-me que, além de bombeiro, Eduardo da Costa Santos era alfaiate, profissão na altura de algum destaque, o que poderia explicar, de algum modo as suas aventuras literárias. É de supor, portanto, que tenha sido esta livraria adquirida depois pela firma de Fraga Lamares, que aproveitou, entretanto, o nome, que aliás estava muito dentro das novas ideologias em expansão na época.

Foi aí, sob a capa de que se tratava de versões livres de Mário Domingues, que foi publicado, em segunda edição e com grandes tiragens, o grosso dos seus romances de aventuras que tinham aparecido na década anterior sob a chancela da AEB. Com o pseudónimo de Henry Dalton e Phiplip Gray, só a série A Volta ao Mundo por dois Aventureiros, que chegou a ser anunciado pela sua Editorial Globo sob o título de A Volta ao Mundo – Aventuras de um português e um brasileiro, sob o pseudónimo de Max Parker, chegou aos quinze volumes, As Autênticas Façanhas de Anton Ogareff, o Maior Aventureiro Eslavo aos doze, e Aventuras Extraordinárias de Billy Wilder, o Rei do Far-West aos doze. Nesta casa de grandes tradições, que editou a obra completa de Stefan Zweig e deu também a conhecer a obra sobre os descobrimentos portugueses da historiadora inglesa Elaine Sanceau, também Mário Domingues traduziu os trinta e dois volumes da colecção Fantomas, de Pierre Souvestre e Marcel Alain.

Mas já antes, em 1927, nesta mesma editora portuguesa, tinha publicado, com o seu nome próprio, Anastácio José, primeiro sub-intitulado A Novela Vermelha, na sua primeira publicação, em 1921, pela secção editorial do jornal A Batalha, e depois Primeiro Marquês de Santa Clara, onde expende toda a sua mensagem de anarquista libertário preocupado especialmente com as desigualdades sociais e com os problemas dos mais humildes.

Curiosamente, além de ter chefiado o semanário O Detective quando este teve a Redacção no Porto, em 1931, foi também noutra editora portuense, a Figueirinhas, que publicou a segunda edição da colecção Savil, editada primeiro na AEB, sob o pseudónimo de W. Joelson, um dos seus maiores sucesso de público – que chegou aos dezoito volumes. Revelando uma capacidade de efabulação cheia de dinamismo e imaginação, as suas descrições dos bas-fonds de Nova York são plenas de realismo, como se aquela cidade, que nunca visitou, tivesse feito sempre parte do seu habitat. Está claro que, como se repetirá em toda a sua obra, se trata da luta entre o bem e o mal, a luta contra a maldade e a injustiça, vencendo no fim apenas as pessoas honestas e os mais simples, porque «se o mundo é dos conquistadores, serão, no entanto, os humildes que herdarão a terra».

 

As aventuras editoriais

O seu primeiro livro como edição de autor foi publicado em 1928 e intitulava-se O Porto da Beira – Análise e comentário a uma velha questão colonial. A objectividade com que analisa o problema e a frontalidade com que critica os “velhos do Restelo” que hão-de haver sempre em Portugal, são notáveis pela sua acutilância e actualidade. Diz ele no prefácio: «No mar agitado das suspeições temos visto soçobrar as mais belas e úteis iniciativas. Sempre que aparece alguém disposto a um grande empreendimento, nós, os portugueses, que estamos habituados às causas mesquinhas, primeiro escancaramos a boca assombrados, depois, desconhecedores do problema em debate, atribuímos-lhe todos os defeitos horrorosos que a nossa imaginação criou e acabamos por enveredar, faces apoplécticas e irado gesto, pelo caminho fácil do protesto. E afinal protestamos em regra contra crimes que a nossa imaginação criou».

Mas já anteriormente, em 1926, tinha publicado a novela Entre Vinhedos e Pomares nas edições Spartacus, cujo nome valia todo um programa, pelo seu significado relativo à libertação de escravos, dita “Publicação por conta dos autores”, onde pontificavam os seus amigos e correligionários Campos Lima e Ferreira de Castro, especialmente o primeiro, que coordenava a editora e nela publicou, entre outros, A Revolução em Portugal, A Ceia dos Pobres, contraste à Ceia dos Cardeais, e A Teoria Libertária e o Anarquismo.

Neste romance, que é a história de um idílio e baseado em factos que com ele ocorreram, punha na boca do protagonista, as seguintes palavras: «Se não fosse a rebeldia de alguns espíritos fortes, talvez inspirados por Satanás, o cristianismo teria reduzido a humanidade à triste situação de um rebanho sem consciência da sua missão superior».

No entanto, a primeira aventura de Mário Domingues como editor surge em Março de 1932, quando começou a publicar a revista África Magazine, de que saíram três números. Co-proprietário e co-director com o seu amigo de muitos anos, Viana de Almeida, ali publicou a sua peça de teatro Má Raça, feita para provar que a raça negra era igual a todas as outras nas grandezas e fraquezas. Em 1943 tentará levá-la à cena, mas a censura, já muito rigorosa na época, não o permitiu, o mesmo acontecendo com a peça A Sombra do Passado, em 1945. Em parceria com o seu amigo jornalista Armando Neves, escreverá ainda a opereta O Conde de Vimioso, que não terá saído do original.

No seu último editorial no África Magazine, intitulado O Império Português, dirigindo-se ao então Ministro das Colónias, vaticinava: «E assim, num ambiente de fraternidade, inevitavelmente se desenvolverão todos os interesses que o Dr. Armindo Monteiro desejaria que existissem para dar corpo, realidade ao império, o verdadeiro império. Não se criando esses laços de união entre as duas raças. Portugal não passará – na expressão justa do Sr. Ministro – de um país que tem colónias. E a raça negra, desorientada, não sentirá, porque não poderá sentir, amor à nação que se lhe quer impor, e, em vez de olhar Portugal como terra sua, olhá-lo-á com a mesma indiferença que sente pela Inglaterra, pela França ou qualquer outro país que não tem da colonização uma opinião tão profunda e tão vasta como o Dr. Armindo Monteiro».

No campo editorial propriamente dito de livros, a sua primeira experiência foi, no entanto, a fundação da Editorial Globo, em 1941, que ficava na rua dos Fanqueiros, em Lisboa, onde em 1943 iniciou a publicação, distribuída em fascículos, de uma obra monumental, de sua autoria, Jesus e a sua Vida Maravilhosa, de magnífico recorte literário, com ilustrações do conhecido artista João Carlos, algumas das quais executadas nas mesas de A Brasileira do Chiado. Anarquista libertário por ideologia e convicção, que, como dissemos, chegou a chefiar a redacção do jornal A Batalha, assumidamente de tendências anarquistas, e anticlerical de maneira radical, a sua visão de Jesus é, no entanto, de um lirismo soberbo, digna de antologia, tendo por base a verdadeira palavra do Evangelho, a Boa Nova, e os ensinamentos de humildade de S. Francisco de Assis.

 

Nesta editora, que foi financiada por outro amigo, Ângelo Ferreira, irmão de Reinaldo Ferreira, o conhecido Repórter X, com quem manteve uma amizade inalterada desde sempre, publicará três dezenas de livros de aventuras, policiais e romances, todos, de uma maneira geral, apresentados com capas da autoria do seu filho, o pintor António Pimentel Domingues, co-fundador do Grupo Surrealista de Lisboa, em 1947, que concretizou, de vários modos, o sonho do seu avô paterno, e a primeira vocação do pai.

 

Ilustração de João Carlos para Jesus e a sua Vida Maravilhosa, obra em fascículos de Mário Domingues

 

 

A História Lusíada e outras evocações históricas

Escondido de uma maneira geral sob os mais variados pseudónimos – detectamos-lhe mais de três dezenas, mas haverá mais, porventura, – essencialmente por questões de estratégia comercial, razão porque usava essencialmente nomes estrangeiros, mais vendáveis, o seu próprio nome começa, entretanto, a aparecer, a partir de 1951, com insistência desusada agora. Foi nessa data, efectivamente, que começou o ciclo do que chamará Evocações Históricas, traçando os perfis de várias figuras da História de Portugal, de uma maneira geral editadas pelas Edições Romano Torres, ao tempo lideradas por João Romano Torres, seu fundador, que igualmente muito o apoiará, encomendando-lhe também dezenas de traduções de escritores de língua inglesa, especialmente Charles Dickens, George Eliot e Wilkie Collins, ao mesmo tempo que se atreve a dar à estampa alguns Escorços Biográficos, publicados com sucesso pela Civilização.

Diga-se que a razão de, naquela altura, os escritores portugueses assinarem com pseudónimos estrangeiros, não tinha a ver apenas com o facto de serem mais vendáveis, mas por causa da censura. E daí também o recurso à pseudo tradução, isto é evidente no caso de MD, cujas obras de aventuras apareciam como de Versão Livre de Mário Domingues.

Como já dissemos em anterior artigo, o que à primeira vista choca é encontrarmo-lo, em 1958, a elaborar para a FNAT, Fundação Nacional para A Alegria no Trabalho, instituição emblemática do regime salazarista, o volume Grandes Momentos da História de Portugal, a que acrescentará um segundo tomo em 1962. Nada mais errado. Fiel aos seus princípios, ele colabora, sim, com o regime, mas não se coíbe, no entanto, de deixar a sua mensagem. Enviada com muita estratégia, claro, que nisso é que estava o segredo. Está lá tudo o que ele quer dizer, aliás o que ele quis dizer sempre dizer. Basta pegar, por exemplo, na narrativa A Tomada de Lisboa, do II volume de Grandes Momentos da História de Portugal (1962): «Aliás a tradição de que reis e fidalgos deviam ser de tez branca e cabelo louro ainda hoje se mantém entre a gente do povo, em Portugal, e provém, certamente, de uma causa antiquíssima: a sujeição das populações peninsulares de pele morena aos barões de origem germânica e escandinava, que em vagas sucessivas se apoderaram de todo o continente durante a derrocada da Europa meridional por outra vaga tirânica, vinda do Oriente, a dos muçulmanos».

É na evocação histórica D. João III, o Homem e a Época (1962), que Mário Domingues acaba, no epílogo, por ajustar contas com a sociedade onde se inseria, mas a que era rebelde, está tudo num parágrafo: «O reinado de D. João III caracterizou-se pela desagregação e corrupção da engrenagem do Estado; pela desmoralização de um povo que, bem orientado, possuía qualidades capazes de o levarem à realização de uma grande obra nacional; pela miséria da população que nada aproveitava das riquezas da Índia; pelo descalabro financeiro de culpa da administração caótica de um Tesouro que mal chegava para satisfazer os apetites de uma enorme corte parasitária; pela ruina do Comércio e da Indústria causada pelo confisco dos bens dos cristãos-novos, confisco este de que a nação nada aproveitou, porque essas riquezas, como se fossem lançadas ao Tejo com as cinzas dos judeus queimados, perderam-se na posse do Estado perdulário e na voragem de esbirros, carcereiros e familiares do Santo Ofício que não faziam com elas coisa alguma de produtivo».

Embora tudo denunciando e criticando, não se esquece, no entanto, de fazer a ressalva, assinalando que o povo possuía qualidades capazes de o levarem à realização de uma grande obra nacional. E em Junot em Portugal (1972), depois de descrever com que valentia e abnegação os Portugueses se bateram, perseguiram e venceram o intruso, mostrará, também, com aprazimento, como os portugueses souberam reagir (…) puderam derrotar o invasor, dando assim origem ao declínio do despotismo aparente inabalável de um Napoleão que ambicionava dominar o mundo inteiro.

Para além das evocações históricas referidas. Mário Domingues ainda nos deu D. Afonso Henriques (1951), O Marquês de Pombal e a sua época (1965), D. Sebastião – O homem e a sua época (1963), D. Dinis e Santa Isabel (1967), Inês na Vida de D. Pedro (1953), A vida Grandiosa do Condestável (1951, O Infante D, Henrique – O homem e a sua época (1957), D. João II – O Homem e o Monarca (1958), D. Manuel I e a Epopeia dos Descobrimentos (1960), O Drama e a Glória de Padre António Vieira (1952), D. João V – O homem e a sua época (1964), Camões – A sua vida e a sua Época (1964), O Cardeal D. Henrique – O Homem e o Monarca, O Marquês de Pombal – O Homem e a sua Época (1955), D. João IV e a Campanha da Restauração, D. Maria e a Regência de D. João, Bocage – A sua Vida e a sua Época (1962), O Prior do Crato contra Filipe II (1965), A Revolução de 1640 (1970), Liberais e Miguelistas (1974), todas editadas pela Romano Torres, mostrando em todas os seus dotes de narrador e historiador, colocando o povo como protagonista, muitas vezes traído pelos seus chefes.

No capítulo da História são ainda de referir os anunciados Escorços Biográficos, destinados especialmente às camadas mais jovens, escritos com um sentido didáctico muito evidente e com uma objectividade a toda a prova. Apareceram integrados na Colecção Quer Saber? da Civilização do Porto, e chegaram a sair Fernão de Magalhães (1959), Fernão Mendes Pinto (1958), além de A Lição de Alcácer Quibir (1975), sendo ainda de referir a publicação de uma interessante dissertação, O Infante D. Pedro, Príncipe Europeu (1964) integrado na Colecção História de Portugal, da Empresa Nacional de Publicidade.

Em projecto ambicioso teve em mente a publicação de Evocações Bíblicas, a editar pela Romano Torres, mas não foi além de São Paulo e as suas viagens, onde dá um panorama curioso dos povos e da mentalidade oriental e romana dos tempos do cristianismo, e Moisés (1957) um fresco sobre o libertador do povo hebreu, apresentando-o desembaraçado do fabuloso, na sua mais humana feição de revolucionário, empregando processos de luta, que, desde então até hoje, todos os chefes libertadores viriam a adoptar, de harmonia com os recursos do seu tempo.

Neste livro, além de fontes históricas, socorre-se o autor da sua vocação de ficcionista para a ordenação dos lances dramáticos, criação de ambientes e observação psicológica dos vultos evocados, que formam um movimentado conjunto sem dúvida comparável ao de um bem estruturado romance profundamente humana e simultaneamente épico.

 

Os outros editores

Com uma obra tão diversificada e extensa como a que teve Mário Domingues, muitos outros editores ele teve e contactou, a maioria dos quais o ajudou de várias formas. A Prelo publicará, em 1960, um seu romance, o primeiro de grande fôlego, intitulado O Menino entre Gigantes, onde é fácil perceber a característica autobiográfica e um romance de facetas inéditas na literatura portuguesa. Tratado de forma a cativar o público apaixonado da leitura, este livro encontra-se recheado de subtilezas que, devido à simplicidade da escrita, nos surgem naturais. Assim, cada um dos personagens é profundamente analisado, enquadrado no meio a que pertence, mas perfeitamente ligado ao desenrolar da história. Somos, desta maneira, guiados pela mão do autor, a mergulhar numa Lisboa do princípio do século XX, data na qual começa a vida do pequeno herói da obra.

Em entrevista ao Diário Popular (25/3/1961), Mário Domingues falava assim sobre este livro: «Neste meu poema ou romance, como quiser, em que se narra a vida de um menino mulato no ambiente europeu e integrado numa família constituída toda por brancos, a grande mensagem que ele irradia como um perfume, toda uma ternura: é um apelo à fraternidade entre os homens de todas as cores e todas as condições».

Em 1930, a própria Livraria Guimarães Editores & Cia, de grandes tradições, lhe tinha publicado a novela O Preto do Charleston, inspirado nas suas vivências na boîte Maxime, no Palácio Foz, que ele frequentava amiúde como grande dançarino amador que era. A Editorial Enciclopédia editou-lhe, por sua vez, em 1948, o romance O Cavaleiro, o Monge e o Outro, que apresentou com orgulho: «Desde as primeiras páginas da sua leitura se reconhece que estamos em presença de alguma coisa de novo, de invulgar, de profundamente original, de um pensamento audacioso, com audácias tremendas de efabulação e de concepção, mas vazado em moldes clássicos e por isso mesmo perenes, escrito numa prosa opulenta, de mestre, num português castigado mas que não foge às exigência da moderna literatura, grandioso mas não morto, antes vivo, gritante de um nível poucas vezes atingido por qualquer romancista português depois do incomparável Eça de Queirós».

Outra editora que também o acarinhou foi a Gleba, onde publicou 12 volumes integrados na Colecção Crime e Castigo, dos quais 2 eram assinados sob o pseudónimo de Nelson Mackay, 3 como James Black, 2 como Henry Jackson, assim como com os nomes de Fred Criswel e Thomas Birch, e 1 como Joe Waterman. De vários modos, os estilos são também de algum modo diferentes, assim como os cenários escolhidos. À pujança de uma imaginação galopante aliava um enredo de acção contínua, que disfarçava com alguma eficácia o facto de não conhecer ao vivo a maior parte dos cenários onde a situava.

De referir, finalmente, ainda, colaboração com a Editorial Século, em cuja colecção As Grandes Obras de Mistério e Acção publicou Os Brilhantes Falsos, sob o pseudónimo de Henry Jackson, e O Sobrinho Pródigo, sob o pseudónimo de James W. Sleary, com a Vida Mundial Editora, A Esfera Misteriosa (1942), e Meia-Noite e 12 (1945), sob o pseudónimo de Max Felton, e com a Casa do Livro, para quem fez traduções, com o editor Francisco Direitinho, que na Colecção Novela Sucesso lhe publicou Delicioso Pecado (1923), com as publicações Alibi, em cuja Antologia dos Melhores Contos Policiais Nº 3, que H. Ips & Macofi, nos primórdios das Publicações Europa América, quando ainda era uma pequena editora situada num pequeno segundo andar do Nº 4 da Rua da Barroca, em Lisboa, publicou o conto Uma Tragédia Mesquinha, anteriormente aparecida no Magazine Bertrand, e com a Sociedade Comercial Portuguesa de Publicações e Telegrafia, que lhe publicou na colecção Novela para Todos, Uma Personagem à procura de Drama (1929).

Por outro lado, como jornalista, além de abundante colaboração em A Batalha, no Repórter X, do seu amigo Reinaldo Ferreira, e depois no Detective, Mário Domingues teve dispersa e apreciada colaboração nos jornais Avante, vespertino publicado em 1919, Século da Noite, A Pátria, A Tarde, sob a direcção de Jorge de Abreu, Primeiro de Janeiro, Humanidade, Século Ilustrado, Sol, Notícias de Lourenço Marques, Libertad, de Madrid, e na revista Vida Mundial, tendo-se, nesta última, distinguido pelos seus ensaios de investigação histórica até quase à data da sua extinção, não esquecendo as suas interessantes crónicas, novelas e reportagens nas revistas ABC, Renovação, Magazine Bertrand, Ilustração, Civilização, entre muitas outras.

De referir, ainda, que escreveu um folhetim radiofónico para Os Companheiros da Alegria, popular programa radiofónico de Igrejas Caeiro, na década de 50, intitulado Com o Amor não se Brinca, e um folhetim para o Diário de Notícias, que começou a ser publicado no dia 5 de Agosto de 1965, sob o título de Amores do Príncipe Perfeito, e que era ilustrado por José Ruy, na altura considerado como um dos melhores desenhadores da nova geração, recentemente falecido a 23 de Novembro de 2022, na Amadora.

Lembremos ainda que já em 1951 tinha publicado no diário O Século outro folhetim, Uma Grande Aventura no Oriente, sobre os “feitos” de Afonso de Albuquerque e da incrível aventura que representou a fundação de Malaca.

Para finalizar, e com o objectivo de melhor caracterizar Mário Domingues, vale a pena reportar-me ao que José Luís Garcia, sociólogo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, salientou recentemente: «Tanto quanto descobri e tanto quanto sei, antes dele não se conhecem posições públicas com tanta notoriedade em órgãos de comunicação de massas, para mais vindas de alguém da condição negra, proclamadas aqui em Portugal. Ele é virtualmente o primeiro autor de uma visão favorável à independência das antigas colónias nos anos 20, o que se deve à ligação e conhecimento que Mário Domingues tinha, como intelectual, da luta dos negros nos Estados Unidos da América (EUA) e das várias facções favoráveis à condição negra na Europa do Norte».

Foi em 1919, há mais de um século, que Mário Domingues publicou num jornal o seu primeiro texto em defesa dos negros, intitulado «Colonização». A propósito de uma evocação a Mário Domingues, que decorreu na Biblioteca Nacional, José Luís Garcia publicou o livro A Afirmação Negra e a Questão Colonial: Textos, 1919-1928 (Editora Tinta da China) que recupera a maioria dos textos de Mário Domingues, injustamente esquecidos, onde este escreve, muito à frente do seu tempo, sobre a condição dos negros, o racismo e a colonização, denunciando de forma arrojada preconceitos e discriminações, e expondo corajosamente a violência do colonialismo e de todas as formas de subjugação. Além disso, José Luís Garcia, que reuniu estas crónicas, apresenta-nos um ensaio introdutório sobre a obra, a vida e o contexto de Mário Domingues, que considera «um dos maiores símbolos da passagem do negro de uma condição de subalternidade na sociedade portuguesa para autor da sua vida», e um verdadeiro «antecessor da afirmação negra».