O sereno fluir das coisas

ALVARO GIESTA


 

A PALAVRA NO ABISMO DO SILÊNCIO

Guardo no bolso um abismo de mistérios
onde, no remanso do silêncio, se recolhe a palavra:
– aquela que me diz que “no princípio era o Verbo”.

Vive oculta e vazia no chão desse abismo
em que medita. Talvez um dia se levante
do casulo de sombra em que habita
e vista de chama e luz este tempo do silêncio.

Talvez um dia a palavra cante o fruto
do milagre e do mistério
do tempo em que habitou as trevas do silêncio,
e o sangue grite a sua nova carne
liberta das mandíbulas do corpo.

Pelas portas do silêncio corre a noite
desalmadamente e em deslumbre
a fazer-se claro dia. Da inaudível sombra
a palavra, ainda oculta, erguer-se-á na voz do vento
para lá do espaço e do tempo,
liberta da noite e do círculo do silêncio.

Da profundidade do sono desse abismo
nascerá a palavra,
como do seio da terra a natureza
a florescer em primavera radiante.

A nuvem do tempo e do espaço erguer-se-á
sobre o chão. A palavra, de vertigem em vertigem
percorrerá o espaço e o tempo, reinventará
mundos novos no trepidar da língua e do sal.

No absoluto verde doutro olhar, nascerá
um novo olhar. A palavra na jovem carne
há de cantar na pura integridade do tempo
a sagaz estória das invenções.

Erguer-se-á do abismo
com a força da doce espessura do sangue
até onde a claridade do silêncio é mais audaz
e mais interna.

Nascerá o poema contra a enorme profusão da carne!
Liberto, passo a passo
da vontade do corpo e das mandíbulas do tempo,
crescerá indestrutível e único
e reunirá em seu regaço toda a luz de todo o tempo.


SOBRE A CARTA DE ROWAN A GARCIA

Procure-se uma alavanca que faça mover
uma bússola para orientar
qualquer outro instrumento que faça parar,
que sirva de travão a tudo
quanto de ruim está a acontecer.

Uma alavanca que sirva para despregar
erguer
mover
arrancar…

Uma alavanca que arranque
tudo quanto está a atravancar
e a impedir
de crescer.

Outro instrumento qualquer
que sirva de travão e faça parar
o mal que impede o bem-pensar
como em proveito universal agir.

Uma alavanca que arranque
tudo
de ruim – mas mesmo tudo.

Se a alavanca vai fazer mover
o que está parado
pela preguiça de pensar
e falta de vontade em ser um dia…

…que o travão pare
o absolutamente inútil e fútil.

E que a bússola da responsabilidade
oriente e faça agir
como em Rowan para levar a carta a Garcia.


SOBRE UMA TELA DO PÔR DO SOL NO CABO ESPICHEL

O horizonte
distante na esmaecida tarde
encerra o espaço em volta
que em si atrai
todas as linhas de fuga.

[como se fosse poesia
e o espaço de
“os passos em volta” de Herberto Helder]

Em ogiva, quase nuclear
cristaliza-se o mar no horizonte
em ângulos exactos
de transparências puras;

[e o poeta
do lado de cá das nuvens
e das ondas encapeladas]

Todos ouvem o grito das gaivota
e veem o fogo plano
quase quieto de encontro ao corpo
quieto e sonhador dos navios
que passam longe da costa.

[como o senhor dos sonhos
e o deus dos mares]

Tudo,
como se fosse um quadro
dentro doutro quadro…

…e a noite aproxima-se completa
e negra
do farol amarelo erguido no cabo,
[como se fosse no cabo do mundo]
a anunciar que a morte é breve
e sem chão que pise,

sem coro nem oração ou lágrima
sentida aos pés da cova.
Nada sabemos de nós
neste rasgar o peito indefinido e negro
que a noite tece veloz.


AO FUNDO DO VERDE, O AZUL
[sobre uma tarde na Aldeia da Luz, Alentejo]

Ao fundo do verde, o azul
neste longínquo mar
de cal.
Aí mora uma rua de casas alinhadas
que fogem para o verde
da planície em fuga;

buscam um azul longínquo
tão difícil de encontrar
nesta paisagem deslizante.

À porta de cada casa
plantada num mar igual de cal
de outras tantas assim vestidas,
um vulto negro
sentado e pensativo;

cartilha maternal aberta e pensativa…

Cobre-lhe o cabelo alvo, cor do tempo
um laço de negro lenço apertado
sob afilado e magro queixo;

encima-lhe o queixo
um rosto curtido e talhado
por fundas e definidas rugas
encravadas sob um ausente olhar
profundo e dilacerado pelo tempo
fitando o vácuo.

Tão longínquo
como o verde da planície em preguiça
estendida para lá donde termina
o sonâmbulo mar de cal
começa a esperança prometida
embora tão longínqua
como o mar desconhecido
de glaucas águas encrespadas


AS TARDES TAMBÉM ARDEM, LENTAMENTE

As tardes também ardem, não se gastam!
Ardem lentamente e neste arder desesperado
aproximam-se do infinito fim: – o sonho.

Como se fosse um voo dentro doutro voo
doutra ave – o pássaro de rémiges cortadas
que no voo, perdido o norte, cai
no abismo do tempo que corre para
o infinito onde apenas rodopia o pó.

As tardes também ardem lentamente, não se gastam.
No infinito-céu espelha-se o fogo de dois voos
num só voo: – o voo da tarde que rodopia
no infinito rectilíneo da ave, rumo ao todo
lugar-nenhum dum céu perdido,

e o voo do sonho: – alígero, como o pó,
esfuma-se fléxil, de músculos elásticos pela tarde
que translúcida arde como a febre e não se gasta
mas célere corre para o infinito-fim,
num ritual-presságio de fogo e silêncio.

E eu, eis-me como o animal na arena aos tombos:
– este ser vago (ou vago-ser) de olhos semicerrados
e pensar dormente, um corpo cosmogónico
criando um mundo de nebulosas e febre.


CURVA-SE A VIDA À MORTE COMO A LUZ À SOMBRA
[sobre a metáfora no húmus de Raúl Brandão]

Petrifica-se a vida – tantas vezes se petrifica.
Corre-se até à insignificância do tempo
na perspectiva tantas vezes bolorenta
de encontrar a mão da esperança.

Mas a mão foge escorregadia
e o homem afunda-se no vácuo.

Fio a fio curva-se a vida à morte como a luz
à sombra. Depois do sonho
que foi apenas sonho, o silêncio
como um círculo fechado, esgana-nos.

Aliado com o silêncio lavra a solidão.
– Ouve-se o espectro da morte
e o frio greta as almas. Os pés espalmam-se
no chão que lhes foge,
– este chão escorregadio
como o mar onde não se encontra pé
balouça entre o certo e o incerto.

Perscruta-se o mundo,
ouve-se por dentro o arrastar dos passos
mal definidos, e as palavras deslizam
no silêncio como o sonho imenso
a caminho do cadafalso.

Mora ao lado da vida o ruído das lágrimas
quando o sol entra pela terra dentro
onde descansa o silêncio dos mortos.


O CORPO, MANHÃ ERGUIDA
(como se fosse o Ponto de Bauhüte)

nu branco e negro jaz em círculo
enrolado sobre a luminosidade luminosa do lençol
– o corpo

circunscrito na concha que se forma ao centro
– o nascimento

nele o ponto negro interacciona-se
com o quadrado luminoso do lençol
– assim é o corpo como ponto de bauhüte

três vértices na mancha negra
– o triângulo e o seu ponto interior –
no centro grita o fogo a chamar
sobre o corpo enrolado

grita na pele o sexo – a mancha negra
em união com a geometria do triângulo

na pele a febre oculta bebe o ar
no corte vertical fechado em concha
que se há de abrir entre as coxas do poema

quando os lábios
na sede de se darem se entregam
ergue-se o gesto que faz a poesia do corpo novo
neste sempre corpo branco e negro
em círculo enrolado na macieza luminosa do lençol

no corpo a rasgar-se a concha
fechada ao centro no triângulo negro
para o mistério do nascimento
o sempre mistério do corpo feminino
e imaculado anunciando a renovação

o interior oculto do triângulo
onde o mel da terra se cria e se dá no fogo
do vinho e da água e da rosa vermelho-sangue
– altíssima perfeição

no oculto interior o mel se derrama e o sol
como quinta essência se dá ao ósculo
– o ponto de fuga e união perfeita no triângulo
do corpo enrolado em círculo


CLANDESTINAS NOITES]
[sobre a “Memória das minhas putas tristes” de Gabriel García Márquez]

Por dentro da minha idade fora
desde as trevas à felicidade das loucuras que vivi
guardo as pérolas delicadas das mulheres que nunca amei.

Eram como as luzes da noite, estonteantes
na cidade inebriante e em fúria por viver.
Passageiras fugazes na paragem
expectantes à espera da viagem acontecer.

Passageiras clandestinas
que não souberam fazer correr o sangue
que à vida dá outro sabor e outro prazer.

Subi, dessas mulheres, os degraus arrepiantes
em ondas efémeras de loucura em delírios amargos,
sem ternura nem formas de beleza genial.

E sofri. E fechei o meu espaço muitas vezes
às leis severas da razão. E gritei.
Revoltei-me e não ouvi os ditames do bom senso,
e perdi-me tantas vezes
nos corredores traiçoeiros da ilusão.

À procura dum sonho que não vivi, doutra forma
sonhava tantas vezes transformar esta loucura em realidade.
Embarquei nestas ondas de loucura
e do sonho sem raízes, brutalmente,
de cama em cama das mulheres que nunca amei.

Formas fugazes de viver e conseguir realizar
as loucuras ilusórias, insolúveis e sedentas
da insondável ilusão.


APELO
[sobre a visão dum mendigo em terras ermas de Trás-os-Montes]

Se por aí o vires um dia, já cansado,
numa estrada abandonado
ou num ermo sem destino ou poiso incerto
sem forças para andar, qual mendigo
na busca dum caminho sem saída,
interpela-o;

não o deixes isolado no deserto dessa vida
onde sozinho se perdeu
e se encontra sem guarida e às escuras
peregrino de si mesmo nessa busca
sem Princípio e sem Fim à procura do seu Céu.

Devolve-lhe, com o teu gesto, a vontade
que perdeu, guia-o ao labirinto do seu Ser,
vem acender-lhe a escuridão, essa luz que alumia
e se faz dia quando caímos e alguém nos dá a mão.

Ajuda-o a aquecer neste frio,
nesse espaço tão vazio
e tão cheio de solidão ao mesmo tempo.

Abana essa árvore que se dobra às intempéries
e ao vento, que não se agita por si mesma
estremece e perde as folhas.
Senta-te a seu lado que é o teu lado também,
acorda-lhe essa voz de si já muda de tão gasta
que ninguém quer ouvir por estar cansada.

Segura a tua mão na sua mão… empresta-lhe
o teu ombro nessa longa caminhada, noite escura
não o deixes nesse encanto tão sombrio
em que vive
sem luz e sem esperança numa nova madrugada.


POETA? SÓ DEPOIS DA MINHA MORTE
[sobre a visão do poema de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa:
«Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.»]

Dificilmente alguém conhece a fundo o poeta,
quase me atreveria a dizer que ninguém conhece o poeta;
para lá da porta que teima em manter fechada
e apenas aberta à livre interpretação das suas palavras
está o centro do mundo – do seu mundo
soberanamente impoluto, inquebrável, inviolável.

Na plenitude do seu interior
o cento movido por motor imóvel
procura o eixo inviolável da sombra de onde
há de nascer o sol na procura do reflexo de si
que se expande para lá da bruma.

Intemporal é o desejo de que a chama se torne
o sempre inviolável nascer
que há de unir um dia
os dois polos desassossegados do mundo
do seu Universo – a Vida e a Morte.

Só depois, quando se abandona nas palavras
que dá ao mundo, se aventuram os aventureiros
em descobrir quem é verdadeiramente o poeta.


ALVARO GIESTA (Portugal). Pseudónimo literário de Fernando A. Almeida Reis, nasceu em Foz-Côa em 1950. Autodidacta, é poeta, ficcionista, ensaísta e editor e coordenador editorial. Académico Correspondente da ALA e da ALTM. Foi cronista da Revista Magazine (on-line), onde escreveu semanalmente crónica e ensaio durante dois anos. Fundou em 2013 a Revista Literária A Chama que editou e dirigiu durante dois anos, onde divulgou vários nomes de poetas da língua portuguesa. Vero activista, sobretudo no domínio da Poesia, da recensão e do ensaio poético, tem vasta produção dispersa em várias revistas e jornais e em mais de quarenta antologias em Portugal, Brasil e Roménia. De sua produção em livro, tem publicados 10 títulos – 9 em poesia e 1 de ficção: “Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser”, “Meditações sobre a palavra”, “Há o Silêncio em volta”, “O Retorno ao Princípio”, “Um Arbusto no Olhar”, “Oblíquo é o Tempo”, “O Discurso dos Pássaros”, “Sobre o Rosto do Corpo” (bilingue português-castelhano), “O Pranto dos Loucos Lúcidos” e “Entre nós, Cumplicidades” (conto). Gere a página “Este Ofício da Escrita” em https://www.facebook.com/oficinadapalavra.ag/ e o blog “Visionário” em http://alvarogiesta.blogspot.pt/