O neorrealismo de Júlio Pomar (1926-2018)

A.M. GALOPIM DE CARVALHO
FCUL. Geólogo. Escritor


É percorrer o Facebook ver a quantidade de evocações do Cidadão que ontem nos deixou e tomar consciência do seu admirável legado. Considerado o mais destacado dos cultores do neorrealismo nacional, foi autor de uma vasta e diversificada obra, em termos de estilos ou correntes (expressionismo abstrato, surrealismo e outros), revelou-se na pintura, no desenho, na cerâmica na gravura e na escrita.

Na modesta homenagem que é meu impulso prestar-lhe, limito-me a lembrar algo de muito breve e simples sobre a sua fase dita neorrelista.

Nesta fase, a primeira de muitas outras que explorou no decurso da sua longa vida, Júlio Pomar, referenciado na história como pintor pós-modernista, retomou a atitude, a um tempo, estética e social do Realismo, o movimento artístico iniciado em França, a meados do século XIX, visando , sobretudo, os problemas das classes média e baixa. Diga-se que este movimento, rapidamente alastrado ao campo da literatura (Eça de Queirós. Honoré de Balzac, Charles Dickens, entre outros), surgiu em plena Revolução Industrial, aquando das primeiras lutas sociais contra o capitalismo, então em franco desenvolvimento.

Impulsionado pela militância de contestação política ao regime do Estado Novo, o jovem Pomar procurou, nas décadas de 1940 e 1950, denunciar a realidade social e política que então se vivia em Portugal. E fê-lo em parte da obra que nos deixou.

Recordo que, em 1946, tinha eu 15 anos, Júlio Pomar iniciou um grande mural no Cine-Teatro Batalha, no Porto, mural que foi estupidamente destruído, no ano seguinte, por imposição de Salazar. Uma das suas pinturas, exibida em 1947, numa das Exposições Gerais de Artes Plásticas, realizadas na Sociedade Nacional de Belas Artes, foi apreendida pela polícia política. Por essa altura foi preso pela PIDE e, em 1949, foi destituído do lugar de professor de desenho, no ensino técnico, na sequência da sua participação na candidatura Norton de Matos à Presidência da República.

Foi esta realidade que a minha geração sentiu na pele e que os jovens, os homens e as mulheres hoje na casa dos 50 anos, felizmente, desconhecem.