O Humanismo

 

 

RICARDO DE OLIVEIRA
O humanismo . Considerações sobre a temática e seu impacto nacional, com base no livro de António José Saraiva


Introdução

O nosso principal objetivo foi perspetivar uma outra realidade do humanismo, passando pela sua génese, e repercussões, com um panorama a nível Europeu e sem esquecer a realidade ibérica, mais concretamente, Portugal, nas cortes dos percursores deste novo movimento e seus maiores intervenientes no campo da Cultura:  literária científica e artística.

O alvor e o fenecer do humanismo entre os reinados de Dom João II e Dom João III, não deixando de referir a génese do pensamento literário perpassado, pelo pioneiro Fernão Lopes, foi importante para o inicio desta temática para o estudo dos inícios do século XV.

É imperioso que se aluda ainda à análise feita por António José Saraiva, aos “grandes” da Literatura deste tempo.

Fica-nos presente a partir da obra de Jacob Burckhardt,  “Die Kultur der Renaissance in Italien “Basileia, 1860 – a tese de que foi na génese da época do renascimento das centúrias de 400 e 500, que se verificou o alvor de um novo tempo da história das sociedades humanas, ligado a toda uma nova forma de pensar em termos de sociabilidade e organização politica, cultural e artística.

Podemos dizer que o palco, ou pano de fundo desta transformação, seria a própria antiguidade clássica, que teria sido “esquecida” com a famosa noite de 1000 anos, a erradamente chamada Idade das Trevas ou, vulgarmente conhecida, como Idade Média, um prolongamento das criações greco-latinas, balanceadas, aqui e ali, pela conquista dos territórios conquistados pelos Romanos, os quais, através das ditas “trevas”, ainda são manifestas nos principais pilares da cultura contemporânea. Referimos, entre tantas outras, não menos importantes, o Latim, o Cristianismo que regulam o Mundo, em nome dos Governantes, do Direito e da organização jurídica adaptada.

Nos colégios das cortes por toda a Europa, passam a ensinar-se gramatica, retórica, poesia, história e filosofia, direito ( o Canónico, em especial, que retirou grande parte das suas bases do Direito Romano), englobando, assim, o novo Studia humanita, o estudo das humanidades.

Assim, temos um homem novo que, acompanhando este tempo, vai versar o seu interesse  nas letras, do grego e do latim e, com as fontes da Antiguidade como suporte, nasce o Humanista do seculo XVI. Esta centúria, revela-se basilar, na formatação e divulgação de informação e ideias. Os Portugueses são, por isso, importantíssimos no panorama humanista europeu, quer pelas conquitas, navegações, fosse pela expansão, e  descobertas de novos mundos.

Aprende-se mais com os Portugueses num dia, do que com os Latinos em 100 anos” Garcia de Orta.

A explosão de valores intelectuais, com a descoberta e utilização da imprensa menos de 100 anos antes, vai permitir a divulgação de toda esta singular cultura. O uso do papel que se impõe ao pergaminho, irá também facilitar este processo para que o século XVI seja um grande século literário, quer no panorama europeu, quer no nacional, aquém e além-mar.

A contaminação cultural chega ao Brasil, pela catequização dos povos indígenas, levando, consequentemente, a este recanto a civilização cristã o primeiro colégio, o de São Paulo, que será a semente da futura maior cidade do mundo abaixo do Equador.

Estácio de Sá funda a cidade do Rio de Janeiro, ainda na geografia brasileira.

A ação civilizadora dos portugueses no Oriente também é única com a matemática, a língua, a geografia, a historia, estudo das línguas e religião, e a regulação pelas normas do Direito, da vida doa homens; as especialidades cortesãs e parlamentares, dos órgãos  concelhios, distritais, das comunas, dos almoxarifados nas comarcas… .

É esta, com a necessária arrumação do País, na revolução filosófica, cultural e protocientífica através do experimentalismo, que irá ser o suporte para o antropocentrismo, racionalidade e o novo cientismo.


O alvorecer de uma nova escrita

Em Portugal, podemos balizar a entrada na Idade Moderna um pouco mais cedo do que no resto da europa, não só pela revolução dinástica que, com a ínclita geração, iria potenciar a Expansão Marítima, mas acima de tudo, pela já diferente forma de fazer história, que se anunciava com Fernão Lopes e o conceito de historiografia em 1418.

Foi com a sua indicação para cronista-mor do reino e encarregado-mor da administração da Torre do Tombo, na secção histórico-literária portuguesa, que iria revelar-se como génio do grande humanista do início do seculo XV.

Este fundador da “crónica” e prosa historiográfica, já englobando em si as qualidades humanistas, irá ter as seguintes obras em destaque: Cronica del rei Dom Pedro I, Cronica del, Rei Dom Fernando, e a sua maior obra, a Cronica de Dom João I, não esquecendo a hipótese por muitos salientada de que as crónicas de Rui de Pina são também de autoria de  Fernão Lopes dada a forma de escrever  assaz idêntica às obras assinaladas acima.

Podemos dizer que o 1º estilo que floresce é a própria História, a maneira de a fazer, com a necessidade de, pela 1ª vez, registar-se o mais exatamente possível com os seus acontecimentos locais, incluindo pessoas, gestos, ambientes e lugares corretamente postos em cena que, só com Herculano, e depois dele, no século XIX, se voltam a ter em conta, Fernão Lopes consegue, pela 1ª vez, séculos antes, introduzir o leitor nos eventos da época, com a sua escrita. Usa termos, como «Escutai! aquietai-vos que passarei a explicar, vinde espreitar por aqui»…

À data da primeira revolução de Avis, com a encomenda de Dom Duarte ao tabelião Fernão Lopes, a verdade sobre a época vivida de seu pai foi, então, dada a conhecer.

Vai ser Fernão Lopes, o protótipo de escritor humanista em Portugal, com os relatos com que explora a humanidade das pessoas, boas e más, que nos dá pela 1ª vez a coloquialidade através da sua escrita sem pudores, no panorama literário nacional tornando, desta feita, o seu estilo, profundamente moderno e científico.

Nesta área da literatura e humanidades em geral, podemos ainda destacar, os autores e obras do panorama da poesia palaciana e teatro popular, sendo estes, a par da “crónica histórica”, os estilos literários que, posteriormente, já no fim do século XV e início do XVI, iriam ser os mais explorados na época humanista portuguesa.


António José Saraiva, sobre o período literário humanista em Portugal

Ficar-nos-á para sempre a análise do autor, ao comparar o Portugal geográfico, perante a posição do resto da Europa, nas suas palavras, comprimido entre as Espanhas e o mar. Ainda o sentimento dos portugueses à semelhança dos ilhéus, quase incomunicáveis. O complexo disfarçado, a inferiorização, a autoironia e, ao mesmo tempo, o mergulho no desconhecido, do «seja o que Deus quiser» são a continuação das suas características.

Nos seus estudos, fica patente que a Literatura é um degrau na construção cultural do país, não podendo analisar-se, sem o devido contexto histórico-cultural em que ela se insere.

José António Saraiva é uma importante figura na análise, entre outras, da historiográfica portuguesa, pela literatura nacional e cultura portuguesa. É um dos responsáveis, pela contextualização literária com os devidos tempos e parâmetros de espaços exatos. Crónicas doutrinárias, fazendo uma separação entre a música e a poesia, já no reinado de Afonso V, ressurgindo com a poesia palaciana, mas, desta vez, mais humanista, em evolução à crónica historiográfica declamada nos saraus de corte diferentes da cantada.

Refere ainda a importância da produção literária, como a prosa, pelas crónicas de Fernão Lopes, a poesia palaciana do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende e o surgimento do teatro pela dramaturgia de Gil Vicente.


  • Fernão Lopes, o primeiro humanista.

Nas palavras de Saraiva, Fernão Lopes levou para a historiografia, um espírito jurídico notório, para quem o verdadeiro e o falso se corroboram documentalmente. E acrescenta: «Na literatura portuguesa, Fernão Lopes é um dos mais fecundos e poderosos criadores de caracteres, dele se alimentam poetas, romancistas e dramaturgos, dos séculos seguintes, como o teatro grego se alimenta das criações homéricas».

António José Saraiva in “O crepúsculo da idade media em Portugal” parte III, ed Gravida, 1ª edição, Lisboa, 1996, pág. 193,

  • Gil vicente, o pai da sátira e do teatro Português

Por muitos, considerado o responsável pela introdução do teatro em território nacional, este homem escreveu, diversos autos, de entre os quais, podemos sublinhar múltiplas peças, com as suas críticas sociais, seguidas de uma moralização acutilante.

A propósito, António José Saraiva acrescenta;: “Decerto a riqueza poética do teatro vicentino está muito mais chegada à nossa época do que à época clássica. E permito-me aqui um pequeno parêntese. A pintura do fim do século XV descobriu a terceira dimensão, a perspectiva. E isso dava-se no sentido da imitação da Natureza” teatro clássico, com as suas três unidades, que visavam também a imitação da Natureza, faz-nos pensar na pintura clássica na sua exatidão, no seu realismo, mas igualmente no seu empobrecimento, na sua escravidão. As experiências modernas trouxeram-nos uma libertação, um alargamento da nossa visão. E compreendemos agora que, na arte medieval, existiram formas que, nem por terem sido desprezadas após o Renascimento, deixam de ser formas válidas que a Idade Moderna de modo algum sepultou” (António José Saraiva, “Gil Vicente e Bertolt Brecht – O papel da ficção na descoberta da realidade”, in António José Saraiva, Para a História da Cultura em Portugal, Publicações Europa-América, 3.ª Edição, Lisboa, 1972, Vol. II, p. 325 (publicado inicialmente na Vértice, n.º 204, de Setembro de 1960)

Reconhecido músico, ator e encenador o trabalho artístico vicentino abarca diversas temáticas e problemáticas sociais, usando uma linguagem, que se apresenta pela transição entre a Idade Média e o Renascimento, Quem viaja, do pensamento teocêntrico (marcado por elementos de religião, como céu e inferno) à visão humanista (marcada pelo antropocentrismo e racionalismo). Homem da corte de Dom Manuel, foi o responsável pelos saraus que o monarca oferecia no palácio.


  • Sobre Camões

Podemos dizer que foi Luís de Camões, com as suas próprias experiências in loco que melhor conseguiu ilustrar o panorama literário humanista de 500.

Em comparação, qualquer dos que lhe seguiram, ou antecederam, parece incompleto. As suas experiências únicas, com a temática da guerra, fome, encarceramentos e a coloquialidade da vida oriental, vão projetar este poeta, para um patamar de realismo e profundidade na sua lírica nunca antes vista.

O seu modo de escrever, épico e narrativo, iria essencialmente apoiar-se no classicismo do Renascimento. Contudo, com certas regras dos grandes clássicos, como a Ilíada e a Odisseia homéricas além da Eneida de Virgílio.

Descreve como nenhum outro uma cabala entre os deuses, divididos em fações, num paradigma entre a ação humana e a ação divina (um conflito belicoso e uma viagem de argonautas…).

Abaixo cito Saraiva:

«A Eneida, embora se tenha destacado muito de entre os poemas heroicos em latim, deve considerar-se uma fonte já secundária destas regras, porque surgiu como repto imitativo aos poemas homéricos».

Em Portugal foi levada a cabo uma experiência pessoal múltipla que nenhum outro escritor contemporâneo realizou, e que ficou a dever-se, enfim, ao facto deste poeta ter sido capaz de dar forma lapidar e definitiva a um conjunto de ideias, valores e tópicos característicos da sua época. Quase tudo o que se manifestou na Literatura de Quinhentos, através de autores tão diferentes como, Bernardim Ribeiro, António Ferreira, Fernão Mendes Pinto, João de Barros, e até Garcia de Orta ou Duarte Pacheco Pereira, encontra eco na lírica ou na épica de Camões. Comparando com ele, qualquer dos mais notáveis escritores quinhentistas aparece-nos incompleto, embora, por vezes, mais profundo neste ou naquele aspeto particular. Se o compararmos com os poetas humanistas, torna-se evidente que nenhum deles pôde exprimir a experiência vivida na guerra e da vida oriental, da cadeia e da fome».

António José Saraiva, “As Duas Máscaras de Camões”, in António José Saraiva, Para a História da Cultura em Portugal, Publicações Europa-América, 3.ª Edição, Lisboa, 1972, Vol. II, p. 153 (publicado inicialmente no Comércio do Porto de 14 de Outubro de 1958.)


A importância do livro e suas contaminações no saber humanista português

«A arte dos caracteres móveis nasce adulta.»

A história do humanismo e seu desenvolvimento, ficará para sempre pautada pelo livro, a arte divina ou diabólica dos caracteres móveis.

O humanismo português recebeu a influência do humanismo italiano, francês e alemão, ainda que por si só desse os primeiros passos, com bases nos clássicos.

Fica-nos a importância de como as ideias e os livros circularam por toda a Europa e vieram a Portugal, quase concomitantemente. Até que ponto a impressão e a tipografia portuguesa tiveram um papel dinamizador do humanismo português?

O humanismo, não teria chegado tão longe, nem influenciaria tão profundamente na cultura que lentamente ia chegando a todas as classes (incluindo pessoas que nunca antes tivessem a possibilidade de possuir um livro) no final da centúria de Quatrocentos, sem a multiplicação dos exemplares.

De livros manuscritos, a Incunábulos, livros de pequeno formato, um pouco pela história da Europa e Portugal, fica registada a forma como as pessoas da época, de qualquer idade começam a passear-se nas ruas com este novo contentor de cultura. Os mais novinhos ouviam.

O fenómeno do livro só a partir da primeira metade do século vinte, começa a entender-se com mais atenção, até mesmo pelo seu aspeto económico. O livro, essa mercadoria, será o título de um dos capítulos do mesmo sobre a sua aparição: ” L’ aparicion du livre” de Lucien Febvre e Henry Jean Martin. Paris. 1958.

Muito embora se pense que o livro de algibeira, seja um fenómeno recente, fica provado do ponto de vista histórico, que, já desde o século XV, havia livros em pequenos formatos que podiam transportar-se no bolso do casaco.

Já pela Europa, se publicavam centenas de exemplares, podendo cada um  ter  milhares de tiragens de exemplares, tal como O Novo Testamento de Erasmo  publicado em 1516.

Na Península Ibérica, mais concretamente em Portugal, poderiam chegar a 300, 400 exemplares.

O humanismo em Portugal, segundo algumas opiniões, nasce com Cataldo Sículo com as suas poesias e cartas em latim impressas por Valentim Fernandes.

No resto da europa, já existiam livros portugueses antes de 1500, de Aires Barbosa que teria sido impresso em Salamanca em que hoje apenas existem três exemplares nas bibliotecas públicas. Os nossos autores humanistas estariam a par da problemática do humanismo europeu, com o conceito de logos. O livro e o humanismo portugueses, estão intimamente relacionados com o mundo da corte e com o mundo do poder.

Será a alta nobreza que irá ter acesso aos mais caros manuscritos. D. Leonor de Noronha, apadrinha o desenvolvimento da cultura. Já no enxoval de D. Catarina viriam livros de Erasmo, impressos pelos impressores Espanhóis, como  Miguel de Eiria, entre outros.

Quando a universidade passa definitivamente para Coimbra, começam a imprimir-se mais e mais livros a partir do século XVI, já com papel português, no qual, em contra luz, poderá ver-se o Brasão real com as quinas.

Fica-nos, então, a ideia de que o humanismo seria impossível de divulgar-se no campo literário sem o auxílio da tipografia.


  • A influência estrangeira na corte nacional

Tendo o movimento em Portugal começado mais tardiamente que na vizinha Castela, foi, ainda assim, mais precoce que em muitos outros estados europeus. Devido às contaminações das cidades-estados italianas, no campo económico e cultural, contámos com a Península Itálica como um dos primeiros fenómenos de interculturalidade entre Portugal e outros estados.

Banqueiros funcionários e comerciantes de arte, foram os agentes deste fenómeno, trocando-se assim ideias formando-se laços religiosos, transformando as repúblicas italianas num dos destinos mais visitados pela aristocracia portuguesa do século XV.

Foi neste contexto que, em Portugal, – e ilustrando o presente cenário de interculturalidade-  Giovanni Cataldo Parísio (Palermo1455-Lisboa 1517),  por recomendação do bispo de Lamego, em 1485,  veio para Portugal, com a incumbência de vir a ser o preceptor do Príncipe bastardo, o infante D. Jorge, filho de D. João II.

Conhecido também apenas por Cataldo Sículo, foi um homem das letras, humanista e poeta, tendo vivido na Europa e, mais precisamente, em Portugal, onde veio a falecer.

Tinha à sua responsabilidade a educação do mais alto substrato aristocrático, como precetor e educador dos príncipes. Destacando-se pelo seu Saber e Capacidade Oratória, bem como pelos conhecimentos de latim, rapidamente, faz percurso ascensional na corte de D. João II, passando ao cargo de assessor do rei, na diplomática europeia, continuando o seu trabalho. Mesmo após a prematura morte do Príncipe D. Jorge, educa D. Leonor de Noronha, acabando esta por ser uma das primeiras mulheres escritoras e com reconhecidos conhecimentos literário em Portugal. Foi ainda um dos grandes influenciadores do movimento educativo a nível nacional, deixando a sua impressão, nos círculos mais eruditos da corte e noutros.


  • Os Palcos onde se desenrola o humanismo em Portugal. O triângulo cultural Lisboa, Sintra e Évora.

Podemos averiguar que será através de relatos, difundidos pela Europa, com descrições aproximadas dos que estes novos lugares visitam, de forma idealizada ou não os vão interpretar, Deste modo, é a partir do renascimento Europeu e, mais concretamente, do “italiano”, que se aceitam irrecusavelmente as teorias aristotélicas e de Vitrúvio bem como as interpretações geográficas de Ptolomeu. Estes relatos descritivos, sublinhavam as diversas e ramificadas funcionalidades oferecidas pelas urbes. Na Literatura Portuguesa, desde Sá de Miranda, Bernardim  Ribeiro e Luís de Camões, já acima citados,  voltam à cena a aurea mediocritas, o amor petrarquista e o tema da mudança tão revolucionários nas correntes da escrita da Época. Com efeito, trata-se de um recuo propositado aos Gregos e aos Romanos, às ideias e estilos clássicos, que parecendo terem dado um salto de 460 a 1400. Tal nunca aconteceu, porém, bastando ter em conta o Bucolismo das Cantigas Trovadorescas e com elas a partida dos nossos homens para os fossados, as vintenas e guerras no exterior.

Em exemplo disso, temos também as novas preocupações estéticas pelo espaço, assim como a forma de descrever a vida nos campos, e as urbes, que iram transformar-se numa contraditória absorção destas descrições, também elas autênticas obras de arte.

É através de relatos cada vez mais individualizados que se corroboram entre si, que os visitantes, nas suas viagens, passaram a ter em conta nas  descrições, cada vez mais numerosas, fruto de um apetite por inovações que deslumbravam quem os liam.

Com estas novas experiências, um arrojado diferente universo de leitores  começa a criar-se, englobando não apenas a população autóctone, mas também um público estrangeiro interessado em conhecer novos lugares, ainda que quem tivesse poder para tal, fosse um pequeno nicho aristocrático loaico e clerical e da alta “burguesia”.

Será o alemão Jerónimo Müzer, no século XV, entre outros, como o italiano Cá Masser, que, poucos anos depois, ao longo de uma década, iriam fazer uma descrição da cidade de Lisboa, tendo mais tarde, em 1514, uma outra comparação pelo holandês Van Zillebeke.

Será a visão destes 3 homens, talvez de outros também, que, a par da descrição de Damião de Góis, iriam dar ao mundo o panorama da metrópole quinhentista. Se, por um lado, temos a descrição da vida da corte de Dom Manuel, feita pelo Italiano Ca Masser de uma pura ostentação, de privilégios aos nobres, o autêntico viver acima das possibilidades, a julgar pela caracterização que dão das moradias comuns, e das terras áridas e inférteis ou por cultivar, que mal dariam para o pão que o povo necessitava para se alimentar.

A descrição é de um vertiginoso antagonismo, em que a população e a corte davam a impressão ao alemão e holandês que Lisboa seria maior que Nuremberga e até mais populosa. Pois, numa só casa, apenas viviam de 3 a 5 habitantes. Seria na visão deles tao grande quanto Bruges, ainda que não tenha a mesma beleza, fica o holandês admirado com a quantidade de novas casas em construção.

Münzer descreve ainda em Lisboa que no mosteiro da Santíssima Trindade havia visto um enorme crocodilo pendurado no coro, e uma enorme árvore, a quem chamavam de dragão, dando-nos ainda a visão de um crocodilo menor a subir as escadas do castelo, assim como dois lindos e fortes leões e uma linda e bem feita carta cosmográfica dourada.

Damião Góis, que chega à cidade a 4 de Abril de 1519 tal como o holandês, descreve a cidade tão grande quanto Bruges, sem metade da beleza, espanta-se com a quantidade de população que a cidade tem, estando muito mal pavimentada.  Quando chovia, era difícil andar-se nas ruas, onde se localizava toda a espécie de ofícios e mercados. Nas suas palavras, diz: «Judeus tornados cristãos, que é de admirar os quais tanto poder têm sobre o rei e monopólios na cidade».

Relata também que, «na cidade habitam tantos mouros e negros, como os outros, por o rei ter conquistado muitas ilhas e cidades aos mouros turcos e outros infiéis» e descreve ainda a chegada dos navios negreiros e a forma como eram alimentados e tratados e vendidos «Uns poderiam ganhar o nome da família que os comprou».


  • Évora

Podemos dizer que o facto de ter sido em Évora, a reunião das cortes por 12 vezes, entre 1391 a 1535, pôs a cidade na vanguarda da demonstração de estatuto social. Seria nela, que, muitas vezes, o rei se instalava, destacando-se a cidade por mérito dado  prestígio no patamar económico e cultural, iniciando assim este centro urbano, num ciclo do cosmopolitismo socioeconómico e cultural, enclave de todo o tipo de mesteres: ourives, arquitetos, pintores, carpinteiros, todos de diversas nacionalidades, com estes cruzando-se mercadores estrangeiros e nacionais que iriam firmar contactos, tanto em negócios de especiarias, açúcar, como até de encomendas artísticas, para os mais abonados (cremos que panos finos, sedas, jóias, sapatos à moda francesa, tapeçarias, objetos de ferro…).

Não apenas o comércio floresceu na cidade, mas acima de tudo a vida cultural que, entre o final do século XV e metade do século XVI, será Évora um dos principais pontos de encontro do humanismo em Portugal. No final do século XV, será esta cidade a residência de D. Manuel, tendo a igreja de São Brás, sido palco para uma das visões mais insólitas que já teriam aparecido na cidade, quando uma pele de uma gigantesca serpente com mais de 30 palmos de comprimento, oriunda da Guiné e da grossura de um homem, pode ser vista, assim como um camelo no pátio do paço do rei, onde apenas em África existiam animais desta espécie. Jerónimo Münzer, anota, assim, a admiração que causava esta exposição permanente de fauna tropical. Os nomes do já referido Cataldo, Francisco de Holanda, como os portugueses Álvaro Rodrigues, João de Menelau, Martim Afonso estão com outros ligados à imortalidade desta cidade iluminada.

Évora sempre esteve ligada às cortes da Europa, quer pelos seus mestres estrangeiros, quer pelos intelectuais da terra. Tenhamos em conta que além de ter sido palco de um auto de Gil Vicente, o historiador José de Figueiredo fez da cidade estrado, a par de Lisboa, para um novo género de música, que seria escutada na Europa, já ao tempo do Venturoso. Inclusivamente, vemos a representação no retábulo de Santa Auta, de Cristóvão de Figueiredo da dita banda de instrumentos de sopro, já com elementos Africanos.

Infelizmente, e ainda depois da fixação em Coimbra da universidade na segunda metade do século XVI por D. João III, viviam-se tempos de mudança de mentalidade religiosa e cultural, criando assim uma oposição e mundividência proporcionadas pelo pensamento humanista e da Contra Reforma (com efeito, a nossa Reforma). Esta situação deveu-se a iniciativas do monarca que irá estender o seu braço à inquisição e à universidade, que, por iniciativa do Cardeal D. Henrique,  incorporou os novos valores católicos tridentinos e contratos de especialistas estrangeiros em áreas mais desprotegidas..


 A Cyntia Renascentista

É já com o fenecer da euforia dos descobrimentos, que vemos Sintra como um local de eleição da alta aristocracia e da corte. Na sua serra e vila, os intelectuais deleitam-se com as novas ideologias provenientes de Itália e pelos exotismos trazidos do Oriente. Nada nos arredores da já grande Lisboa, poderia adaptar-se de forma tão idealizada aos sonhos e vontades, de quem teria meios para os realizar.

Sintra seria já palco de um protorromantismo em alturas da centúria de quinhentos. A serra, com idílicas paisagem, entre a terra e o mar, os bosques da coutada real, lugares que ainda antes da florestação ordenada por Fernando II, proporcionavam um ambiente às mais exóticas experiências arquitetónicas. Seria ainda com D. João I, que iria dar-se a construção do paço da vila, ou a sua adaptação ao palácio mourisco gótico em 1415.

A sua geografia, desenrola-se num poço cultural artístico, englobando, assim, uma projeção para o caldeirão da cultura humanista, sem precedentes.

Nesta época, os Nobres dos mais altos níveis teriam mandado construir a Penha Verde, a Ribafria, a Penha Longa e, por outro lado, a procura pelo isolamento nos rochedos íngremes com vistas privilegiadas para o mar. A corte renascentista revia em Sintra, este ideal romântico, bucólico até, refletindo assim o poder e a recusa dele ao mesmo tempo, tal como sublinha André Chastel, recordando a literatura dos antigos ( Virgílio, Horácio e Plínio), que representam tão bem este ideal.

O livro do cortesão de Castiglione Venza (1528) dedicado ao português Cardeal D. Miguel da Silva, que tantas noites passou em Sintra, contribuiu para se arquitetar um ideal de corte, baseado em Urbino que irá refletir, na sua Itália, possíveis influências do Cardeal, ou ao contrário. Mantemos a dúvida.

Lordes, príncipes e outros aristocratas usam Sintra como pano de fundo, para as suas caçadas e passeios pelos bosques, reminiscência ainda dos romances de cavalaria. É em Sintra que o epicentro humanista se congrega, muito antes do seculo XIX e os seus românticos ingleses, para conversas intelectuais, em que as senhoras se ocupam com as suas leituras, músicas, danças e jogos.

Desde a epifania de D. Manuel, vendo as naus da Índia chegando aos portos do reino, em homenagem manda construir o Mosteiro da Pena, passando pelas inspirações que o local causa a Luís de Camões com a sua discrição em Os Lusíadas, como um local de um mundo novo pleno de beleza e harmonia, ao que o Príncipe D. Luís, acompanhado por Francisco de Holanda que, em exploração ao local, descobre, em 1543, as ruínas do templo romano circular em colares, dedicado ao sol e á lua. Francisco de Holanda desenha o santuário e, não se contentando apenas com a observação do sítio arqueológico, ilustrou-o, implantando na paisagem um círculo de 16 aras, com um disco central e talvez a sugestão da Lua na margem e o Sol no horizonte.

Será mesmo nos arredores de Sintra que, na quinta da Nossa Senhora dos Enfermos, que Francisco de Holanda se estabelece, escolhendo esta localidade como por considera-la ideal para os seus estudos, sobre a arquitetura antiga, resultando em Janas, o templo de são Mamede, inspirado pelas suas visões.

Acabmos por referir, o primeiro elogio a um local descrito em Portugal, por D. Luísa Sisleia, dama de companhia da D. Maria, filha de D. Manuel. Syntra 1546, comparando o local a uma arcádia de criaturas mitológicas com ninfas e faunos. Ou por Damião de Góis que tão bem repete as palavras de um pescador das Azenhas do Mar, ao descrever o canto de um tritão, quando este chega às margens da praia, para seduzir as virgens moças…

Ao falarmos destas urbes, ou dos seus palcos culturais, não poderemos deixar de referir os fenómenos de aculturação que, a par dos comerciais e artísticos, nos dão o panorama de uma autêntica exposição universal das novidades que se passavam pelo mundo.

Este pioneirismo terá o seu destaque entre 1480 e 1630, da Ribeira das Naus, atravessando a Rua Nova dos Mercadores, passando pelas igrejas e paços do centro de Évora, acabando na vila de Sintra. Portugal vivencia esta mostra especializada, da diversidade dos continentes, sendo natural, cultural, animal e humano.

O gigante bazar oriental ameríndio, a Europa literária, do africano ao Japonês de tudo podemos encontrar nesta exposição permanente que, na sua montra, exibe Arábia, Pérsia, Goa, Brasil, China e Japão.


  • O humanismo e as artes visuais . O estatuto do artista

Falar das cortes nacionais que temos como origem na Renascença lusitana, é também referir a importância das artes e do seu prestígio.

Não poderiamos mencionar o período humanista literário, referir a importância do suporte tecnológico do livro, cientismos, locais de cultura e bazares comerciais, sem referirmos a importância da mais nobre das artes, segundo Francisco de Holanda.

Algo que apenas na Flandres e em Itália se estaria a fazer, Portugal também se deixaria contaminar, através das ilustrações, pinturas e esculturas. Temos uma nova norma que começa a sublinhar-se: a importância do estatuto do artista.

Para tal, iremos falar de Francisco de Holanda que, dando continuidade ao trabalho do pai, nas cortes quer de D. Manuel, D. João III e também de Carlos V e Felipe II, a pedido e por indicação de D. Luís, o infante filho de D. João III, irá através de uma bolsa da coroa, a Itália, no sentido de estudar, o que por lá estaria a passar-se em termos artísticos e correntes arquitetónicas. Considerado um dos maiores exemplos de execução teórica do Maneirismo em Portugal, para alguns é sublinhado como autodidata, uma vez que não existe conexões de sua parte com as escolas/oficinais portuguesas do século XVI: «Apresenta em seus tratados de arte uma erudição que só se explica através das relações estabelecidas por ele no período em que viveu na cidade de Évora junto à corte portuguesa e sedimentadas posteriormente durante os dezoito meses que passou em viagem à Itália para estudar a arte da pintura a serviço do rei D. João III».

Artista, que depois de longas conversas com Miguel Ângelo, iria ser contaminado com ideias que, mais tarde, resultariam numa visão sobre o próprio estatuto do artista, que seria inspirado pelo toque divino, e nada menos seria do que um aristocrata com a nobreza espelhada na alma.

Ainda de referir a importância de Nuno Gonçalves, com os seus painéis de São Vicente, que, agregado aos trabalhos que teria feito para o rei D. Afonso V, viria a ser destacado com a nobilitação, sendo a 1ª em Portugal dada a um artista.

Segundo fontes historiográficas, os painéis iriam agregar-se ao retábulo no altar de São Vicente, na Sé de Lisboa..


  • Considerações finais

Fica-nos, então, entregue no período denominado por humanista, a vanguarda, quer no campo literário, artístico, cultural e científico, comportamental e até civilizacional. Colhido através dos diálogos entre povos, experiências, de novos sentidos de sabores e cheiros, com trocas de ideias e aculturações, vamos fumar os “fumos” dos Ameríndios, conhecer e dar a conhecer o coco, o cacau, o café o chocolate, a batata, o grão de bico, o vinho e os frutos tropicais  Serão estes produtos, em adição às especiarias da Índia e ao açúcar, transformados  nos engenhos que associados à mão-de-obra escrava iniciam o comércio triangular que irá dar origem á primeira globalização.

Esta será responsável, pelo imenso banco de dados informativos que, pela primeira vez, o mundo toma conhecimento, através da tecnologia e cultura intelectual, passando pela doutrina religiosa, potenciando ainda mais a cultura renascentista nacional e projetando-se na Europa, com especial enfoque nos campos da geografia, botânica médica, antropologia, astronomia, matemática, cartografia e aparelhos náuticos aperfeiçoados e hidrografia, como no campo das técnicas de construção naval. Tendo Fernão Lopes, como baliza temporal do fazer uma literatura moderna, passando pelas descritivas navegações da Expansão de Zurara, de Rui de Pina a Damião de Góis, todos eles exemplos da exatidão renascentista, com as melhores descrições dos seus tempos.

Na arte ficam-nos as técnicas e influências de Itália e do norte da Europa, porém, com Nuno Gonçalves, nobilitado pelos seus feitos ao serviço d’el rei e aclamado pelo próprio Francisco de Holanda como estando ao nível dos melhores da Europa, Aos lusitanos da época dos descobrimentos e das humanidades, fica provado, que será através do experiencialismo da lógica e dedução que iram transformar o infinito Caldeirão de águas fervilhantes, no conhecimento do mar, que ficará finalmente livre de monstros. Aos feitos do humanismo nacional ficará consagrada a responsabilidade de serem os pioneiros no uso do sol e das estrelas como guias para o desconhecido através de tecnologia lusófona.


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Ricardo de Oliveira
Sintra, 2020