Maria Madalena, a apóstola dos apóstolos?

 

 

 

 

 

 

Frei BENTO DOMINGUES, O.P.


  1. Já escrevi muitos textos sobre as questões e o papel das mulheres na Igreja, sobretudo na Igreja Católica.  Não posso, no entanto, deixar em branco o lançamento recente de uma nova colecção sobre o fenómeno religioso: Religare. Religiões no Mundo. Uma colecção é algo muito diferente de um livro ou de um artigo. É uma promessa e um compromisso. É a recusa do evanescente. Figura, como primeiro número desta colecção, o livro Maria Madalena, a Apóstola dos Apóstolos. É obra de Maria Julieta Mendes Dias e de Paulo Mendes Pinto[1]. Os dois autores não são desconhecidos.

Maria Julieta é Religiosa do Sagrado Coração de Maria. Estudou Teologia na Universidade Pontifícia de Salamanca e Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, onde fez Licenciatura e Mestrado. Desde o início dos seus estudos, a complexa problemática das mulheres no Novo Testamento tornou-se a paixão central das suas investigações.  Há 30 anos que esse trabalho se tem materializado essencialmente no papel e no lugar das mulheres no Cristianismo primitivo. Participou na criação, em 2011, da Associação Portuguesa de Teólogas Feministas, com Teresa Toldy, Fernanda Henriques e Maria Carlos Ramos.

Paulo Mendes Pinto trabalha fundamentalmente no campo do diálogo entre e com as religiões. Especialista em História das Religiões com trabalho sobretudo sobre Mitologia Antiga e Estudos Judaicos. Dirige a área de Ciência das Religiões na Universidade Lusófona desde 2006. Foi Embaixador do Parlamento Mundial das Religiões (2015-18) e fundador da European Academy for Religions (2017). É Director-Geral Académico do Ensino Lusófona – Brasil.

Confesso que já conhecia, em parte, a chamada Verdadeira História de Maria Madalena, destes mesmos autores, publicada pela Casa das Letras (2006), com Prefácio de Anselmo Borges. É obra esgotada, mas ressurge agora, em novo contexto e novo projecto eclesiais criados pelas iniciativas do Papa Francisco, com novo título que distingue e realça a sua originalidade nos Evangelhos: Maria Madalena, a Apóstola dos Apóstolos, servida por uma imagem muito bela, do século XII, que a apresenta anunciar a Ressurreição aos discípulos[2].

Por seu lado, até os chamados Evangelhos Apócrifos, ao procurarem desclassificá-la, acabam por realçar a sua especial proximidade com Jesus. Mestre, não podemos aguentar mais Maria Madalena, porque nos tira as ocasiões de falar; a todo o momento ela faz-te perguntas e não nos deixa intervir. São muitas as queixas deste género, mas Jesus não se deixa impressionar: todo aquele que é inspirado pelo Espírito que recebe de Deus tem competência para falar, seja homem ou mulher[3].

  1. 2.O Papa João Paulo II, em 1994, publicou uma famosa Carta Apostólica,Ordinatio Sacerdotalis, sobre a ordenação sacerdotal reservada somente aos homens para todo o sempre. Por isso, o Papa Francisco tem-se recusado a enfrentar uma questão que João Paulo II declarou, de forma solene, como encerrada definitivamente. Não sabemos qual será o futuro da chamada ordenação sacerdotal, seja de homens seja de mulheres, que está finalmente em debate aberto, no clima do caminho sinodal, cujo resultado não podemos prever.

Dada essa situação, é normal que o Papa Francisco sinta dificuldade em pôr em causa essa decisão. Mas, homem prático como ele é, está a colocar mulheres na Igreja, em posições muito activas e dirigentes que contornam essa declaração que me parece muito abusiva.

Só como exemplo, nos últimos anos, Francisco nomeou, pela primeira vez, uma mulher como número 2 do Governo da Cidade do Vaticano, a irmã Raffaella Petrini, hoje membro do Dicastério para os Bispos e a irmã Yvonne Reungoat; a irmã Nathalie Becquart foi designada subsecretária do Sínodo dos Bispos, sendo a primeira mulher com direito a voto nas assembleias sinodais. Maria Lia Zervino, nomeada presidente da União Mundial de Organizações Femininas Católicas. Barbara Jatta foi nomeada directora dos Museus do Vaticano e Cristiane Murray, vice-directora da Sala de Imprensa Santa Sé. Gabriela Gambino e Linda Ghisoni, foram nomeadas subsecretárias para o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, assim como Carmen Ros Nortes como subsecretária na Congregação para os Institutos de Vida Consagrada[4]. Não se trata de uma lista exaustiva nem de um fenómeno definitivo, mas não estávamos habituados. O próprio voluntariado das mulheres na Igreja tinha de contar com uma espécie de linha vermelha que não podia ser ultrapassada. As nomeações que o Papa já fez provam que esta situação pode ser vencida.

  1. Neste Domingo, deparamos com uma parábola escandalosa construída para saltarmos fora da rotina dos convencionalismos religiosos para se encontrar a originalidade radical da fé cristã. As contas de Deus, não são as nossas contas.

Uma parábola, como sabemos, é uma história para dar que pensar e não uma informação para resolver um problema. Obrigam-nos a saltar fora de soluções simplistas e mudar radicalmente de registo. Para falar do Reino de Deus, promessa para todas as pessoas, Jesus preferiu usar construções literárias – parábolas – a partir das situações do quotidiano, nas quais todos se podiam reconhecer, mas implicando um compromisso de mudança de vida. Não eram um jogo linguístico gratuito. Eram instrumentos da originalidade do caminho cristão.

O título deste livro tem uma justificação óbvia. As mulheres foram as escolhidas por Jesus Ressuscitado para reunir os discípulos que a Sua morte escandalosa havia dispersado. Não podemos reproduzir, aqui, todos os textos que mostram o singular papel das mulheres nos primeiros textos cristãos que continuam a não serem levados a sério. Destaco um verdadeiramente impressionante.

Conta o Evangelho de S. João que Maria Madalena não se resignou à morte de Jesus. No primeiro dia da semana, ainda escuro, ela foi ao sepulcro para chorar a morte do Mestre e não encontrou o Seu corpo.

Ouviu umas vozes que lhe perguntaram: Mulher, porque choras? E ela respondeu: Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.

Estava a falar com o próprio Jesus sem O reconhecer. Esta é uma arte para dizer que o Ressuscitado é o mesmo, mas não é da mesma maneira como o conhecera antes da morte.

Quando Jesus a chamou pelo nome, Maria, é que ela O reconheceu. Era o seu Mestre que lhe disse: Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus. Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: Vi o Senhor! E contou o que Ele lhe tinha dito[5].

Precisamos, hoje, de muitas Marias Madalena, em liberdade, que despertem a Igreja para a vocação de todos.

 

[1] Edições Universitárias Lusófonas, 2023

[2] Saltério de Sto. Albano. Não podemos esquecer uma grande obra de A. Cunha de Oliveira, Jesus de Nazaré e as Mulheres, Angra do Heroísmo. Instituto Açoriano de Cultura, 2011.

[3] Cf. as referências citadas em Maria Madalena a Apóstolo dos Apóstolos, p. 87

[4] Cf. Notícias do Vaticano de 13 Julho 2022

[5] Cf. Jo 20, 11-18


24 Setembro 2023