ANTÓNIO BARROS
O CAP – Círculo de Artes Plásticas de Coimbra foi criado na década de cinquenta como Secção Cultural da Academia de Coimbra, personalidade colectiva, como assim se manteve até 1980. No Ano de Actividade de 1979-1980, o CAP, vem a transitar para Organismo Autónomo da Academia de Coimbra com o acrónimo de CAPC – Círculo de Artes Plásticas da Academia de Coimbra, e nesta data, e nesta condição, fundado por Alberto Carneiro, Túlia Saldanha, António Barros, então elementos da Direcção do CAP, e. o. [Associação com estatutos idênticos aos demais organismos da “Academia”, da Universidade de Coimbra, como o CITAC, o TEUC, o GEFAC, o TAUC e. o.].
Em 1974 José Ernesto de Sousa (JES) propôs ao CAP a celebração do “Aniversário da Arte”, conforme o conceito FLUXUS, o de Robert Filliou. A partir daí, e chegado eu a Coimbra, em 1973, como estudante da Universidade, e graças a este Manifesto Fluxus, venho a aderir ao CAP, ao “Círculo”, onde passo a acompanhar os desígnios da Cultura FLUXUS advogados por JES. A convite deste, venho depois a integrar a Cooperativa Diferença, em Lisboa, onde realizei a minha primeira exposição, de uma Colecção, no domínio da Poesia Visual, integrando esta a peça icónica da minha obra: “Escravos”, estudo prévio, Prova de Artista, depois apresentada na SACOM 2, Cáceres, no MVM, Museo Vostell Malpartida, e hoje integrado na colecção do mesmo Museo, com três outras peças minhas.
A peça original “Escravos” integra hoje, com outras 14, a colecção do Museu Serralves, no Porto.
Esta exposição [a da colecção: “gRitos da Angústia e do Sarcasmo”] foi depois apresentada no CAP, tendo a mesma sido visitada em Coimbra por Wolf Vostell.
[Posteriormente, e na senda do Movimento FLUXUS, trabalhei com Wolf Vostell em Leverkusen, com Robert Filliou, Serge III Oldenbourg e Yoko Ono, e comuniquei em Dusseldorf com Joseph Beuys].
Em Coimbra, a minha actividade Artística e Educativa, na verdade não se centrou no CAP, nem no CAPC [o “Círculo”], mas na Universidade de Coimbra (UC), na sua “Academia”, em múltiplas estruturas como a RUC [programa “Círculo Branco num Quadrado Negro…”], CITAC [Projectos & Progestos / Artitude:01] CEC, TEUC, TAGV, IUC, ATPED, EUG2018, Revistas Via Latina, Música em Si, Senso, Rua Larga, entre muitos outros programas na senda da UC/“Academia” e. o. …

Mas a minha actividade artística não começou, de todo, em Coimbra [com JES, Alberto Carneiro e João Dixo], mas no Funchal, na Quinta das Cruzes, onde nasci. Neste lugar endémico onde meu pai, Allfredo Gomes de Barros, com António Aragão e. o. criou e dedicaram a vida à criação do Museu da Quinta das Cruzes, teve aí atelier, na sua residência artística, o pintor António Areal, presença amiga lá de casa. Como também a visita frequente de Lourdes Castro [que, com meu pai, dedicavam-se à Botânica, mormente às orquídeas]; e ainda o António Aragão que, aí também fazia oficina gerando as suas composições letristas, poemas concretos, e visualismos literários, e assim tendo criado os “Cadernos de Poesia”, com o Herberto Helder, modos estes tão galvanizadores do que veio a surgir como Literatura Experimental em Portugal, e a PoEx [ver: po-ex.net/].
Privei e, na senda das artes, fui contaminado mais por António Areal [da imagem icónica, aos seus conceptualismos], do que por Luz Correia, e mais por Herberto Helder, do que por António Aragão.
De Aragão apreciei sempre a sua condição de historiador, etnógrafo, arqueólogo, e sublinho que, para mim, o seu mais conseguido poema é o Jardim Arqueológico da Quinta das Cruzes [onde vivi a minha infância até ir para Coimbra [estudar as falências do corpo humano, estudar Medicina, Psicologia, Educação, e suas Performatividades numa Arte do Comportamento, uma Arte de Acção, tudo muito na raíz do Movimento FLUXUS de George Maciunas, e com José Ernesto de Sousa sempre a gerar-me múltiplos chamamentos].
Voltei a encontrar-me com António Areal em Lisboa, porque ambos fomos eleitos para uma exposição da AICA [na Sociedade Nacional de Belas Artes] por nomeação do então crítico da Arte, Egídio Álvaro. [E. Álvaro chegou mesmo a prometer-me propor-me para o Prémio AICA, mas teve um acidente, e ficou doente para sempre. Ainda o visitei em Paris, mas já muito debilitado].
No CAP acolhi, contra a vontade de todos no “Círculo”, o regresso de Silvestre Pestana (SP) a Portugal, vindo do exílio que permaneceu até a revolução em 1974. Retomou a sua carreira, e sempre lhe apoiei nas solicitações e pedidos que me formulou. Foi SP reconhecido com o Prémio AICA.
No CAP, e no CAPC, muito me dediquei, como nos mais diversos lugares geradores das artes residentes na Academia, mas não apenas. Aceitei em 1979-80 o convite de Alberto Carneiro de integrar a direcção do CAP até ser CAPC, mas só o fiz com a condição de ser apenas um ano. Pois tinha já assumido compromissos outros de investigação e estudo, com outras estruturas, mormente nas Artes Performativas. E em 1981 saí dos directivos do CAPC como tinha assumido, e tinha colocado como condição.
Anos mais tarde fui surpreendido como a doença fatal de Túlia Saldanha. Esta, antes de falecer pediu-me para a substiuir na direcção do CAPC. Recusei duas vezes, e não resisti quando Túlia me disse que não queria morrer com o meu dizer não. Ainda tentei resistir, mas na última hora fui fraco, e contudo aceitei, e para o descanso no falecimento de Túlia, na sua hora. [Foi uma fraqueza minha, mas a minha humanidade falou mais alto. Como uma poesia esGrita.]
Formulei uma direcção com estudantes da UC [pois sempre entendi que o CAPC era um Organismo de Estudantes da Academia, como os demais Organismos].
Apoiei os estudantes do CAPC que queriam candidatar-se a Arquitectura, Artes, e ao Design, gerando com a Prof. Margarida Anjos Amaro aulas para formação propedêutica. Tudo gerou sucesso, e o elemento Carlos Antunes, que convidei a integrar a direcção do CAPC, chegou a Arquitecto [e daí já ganhou o prémio AICA.]
A minha missão no CAP, e no CAPC, que aceitei apenas pontualmente gerir enquanto fui estudante da UC, foi sempre por opção transitória e de reformulação. Sempre advoguei para este Orgsnismo, para o “Círculo”, um modelo democrático, independente, com processo eleitoral anual. A direcção CAP/CAPC, que integrei no Ano de Actividade 1979-1980 [ver catálogo: “Dois ciclos de exposições…”], foi então votada na Assembleia Geral do CAP, e eleita por maioria absoluta.
Na direcção de transição após a morte da Túlia Saldanha, estive o mínimo de tempo que entendi necessário para dignificar o CAPC, e assim formular uma transição rápida [trazendo então autores conceituados como Rui Chafes, Leonel Moura, Cabrita Reis e. o. e, Ciclo – “A Arte das Ideias | As Ideias da Arte” – logo abrindo portas às novas gerações de então, lançando novos nomes também na análise, como vim depois a sublinhar nos Encontros de Arte Alquimias dos Pensamentos das Artes, em 2000, e como proposta pública de que Coimbra passasse a ter uma Bienal de Arte. Foi a edição uma proposta pública. E anos depois foi o propósito consequente.
As duas direcções que assumi no CAP/CAPC foram sempre assumidas como estruturantes, e a cumprir celeridades, tempos velozes, pois fui convulsivamrnte desafiado, quer pela Academia, quer por diferentes reitorias, a gerar situações novas na UC, ou mesmo a reactivar lugares e projectos que estavam paralizados, como sucedeu com o TAGV [então o tão “encerrado para obras” – TAGV, que desbloquei; e a reactivação da revista centenária, da AAC/“Academia”: Via Latina; a reabertura da IUC-Imprensa da Universidade de Coimbra [operação que o Reitor Fernando Rebelo me solicitou todo o empenho]; a UC Património da UNESCO; os EUG2018, entre tantos outros programas com resultados e sempre num diálogo e conjugação assumida com a Arte e a Educação.
E estamos nos meus 50 anos de Acrividade Artística e Educativa. Dia 22 de março a Universidade do Porto terá a elegância de prestar-me uma homenagem pública; a Universidade da Madeira, com as revistas Translocal e mormente Islenha #74; assim como o Reitor da Universidade Lusófona; e também a revista Triplov, de Lisboa, que me convidou a dirigir um número temático sobre as Vanguardas em Portugal, já publicado e publicamente exposto como objecto-livro na Galeria dos Prazeres na Madeira…
O Egídio Álvaro e o José Ernesto de Sousa chegaram-me a prometer proporem que me fosse atribuído o Prémio AICA. mas quer um, quer outro, tiveram doenças fatais, inesperadas, e já não houve disponibilidades então.
Este ano, nestes meus 50 anos de Actividade Artística e Educativa, olho para trás e há um silêncio gélido. E não me refiro apenas à AICA. AICA que referiu que premiou quem apoiou as gerações seguintes. Dizem…
Criei 5 associações para jovens, na área das Artes, e apoiei cerca de 30 dissertações e teses de doutoramentos, mestrados, e ensaios académicos para jovens, e publiquei dezenas de artigos promocionais do trabalho artístico dos demais artistas, hoje já formados com sucesso. Mas é como se nada tivesse eu feito, mesmo.
Um dia escrevi um livro sobre silêncio [John CAGE, música FUXUS e outros gestos da música aleatória em Jorge Lima Barreto] e surge agora o livro abraçado por uma edição de Islenha #74, numa releitura minha, performativa, a inscrever a Colecção da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.
Vejo-me um espectador observando aqueles que apoiei, … portando os seus prémios da AICA [e outros]…
Mas não, não sou um espectador, não. E como disse Frantz Fanon e JES bem repetiu comigo, na “Alternativa Zero” — todo o espectador, ou é um cobarde ou um traidor. Bem que sublnhei cobrindo o muro da Galeria dos Prazeres, numa elegia a Fanon…
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