NUNO REBOCHO
Vasco de Graça Moura, um senhor

Conheci Graça Moura ainda na Casa dos Bicos, em Lisboa: foi para uma entrevista, já não me recorda do assunto. Fiquei com uma impressão positiva, de um indivíduo afável e sorridente. E tornámo-nos amigos.

Por essa época, já conhecia o seu irmão Miguel, de encontros que com ele tive em casa da Rita Carneiro, então ao Campo Pequeno. Começou então um relacionamento, fortalecido pela toca de mensagens de quando em vez. O facto de ele figurar numa antologia que preparei (“Na Liberdade”) acabou por se tornar um motivo mais de aproximação, dado que seria impossível não lidar de perto com esse poeta que recebeu o prémio do Pen Clube.

Não que as tomadas de posição de Vasco da Graça Moura fossem por vezes “politicamente corretas”. Ele estava-se nas tintas para isso, como se costuma dizer: gostava de dizer frontalmente o que pensava, doesse a quem doesse, ainda que tal pudesse contrariar “árbitros de elegâncias”. Embora se assumisse como incontornável personalidade de direita, era um intelectual de excelência (conheci alguns, como foi o caso de Manuel Múrias), sem complexos de qualquer espécie.

Devo dizer que muito pouco dele discordei, embora não entendesse algumas das suas posições, sempre admitindo que haveria razões para elas, que eu não descortinava. É o caso da sua oposição ao atual acordo ortográfico: aprendi as regras linguistas com bons mestres (Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, Bénard da Costa, Cansado Gonçalves…) e as novas regras da escrita portuguesa estipuladas por esse acordo sempre me deixaram assustado. No entanto, levo em consideração alguns problemas que pesam quando se analisa a questão: porque estou atualmente em Cabo Verde e tenho alguns textos publicados no Brasil, compreendo as dificuldades que se colocam a quem, como os estudantes cabo-verdianos, são obrigados a balançar entre o modo lusitano e o brasileiro de escrever o português. Mas daí a aceitar sem resistências os novos ditames da ortografia medeia um mais que controverso diktat.

 A maneira desassombrada como Vasco da Graça Moura “defendia a sua dama” tina algo que me lembrava a Natália Correia e tantas vezes recorda o meu amigo Nicolau Saião. Diga-se que sempre preferi isso de enjeitamentos de subserviências. De facto, nunca pode sentir-se livre quem as tem. Quanto a mim, em Portugal já houve fascismo quanto baste. Saudades, não as deixou.

   Nuno Rebocho

 
Nuno Rebocho - Nascido em 1945, em Queluz (Portugal), viveu em Moçambique desde os três meses de idade até 1962. Jornalista, poeta e andarilho – bastou-lhe ter estado preso por cinco anos na Cadeia do Forte de Peniche (por cinco anos, motivos políticos), para recusar ser animal sedentário. Viveu a imprensa regional (Notícias da Amadora, Jornal de Sintra, Aponte, A Nossa Terra, Jornal da Costa do Sol, Comércio do Funchal, entre outros), foi redactor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, das revistas O Tempo e O Modo e Vida Mundial, em diferentes diários e semanários, e é chefe de redacção da Antena 2 da RDP. Colaborador de Acontece en Sorocaba (Brasil) e Liberal (Cabo Verde). Autor de “Breviário de João Crisóstomo”, “Uagudugu”, “Memórias de Paisagem”, “Invasão do Corpo”, “Manifesto (Pu)lítico”, “Santo Apollinaire, meu santo”, “A Nau da India”, “A Arte de Matar”, “Cantos Cantábricos”, “Poemas do Calendário”, “Manual de Boas Maneiras”, “A Arte das Putas” (poesia), “Estórias de Gente” (crónicas), “O 18 de Janeiro de 1934”, “A Frente Popular Antifascista em Portugal”, “A Companhia dos Braçais do Bacalhau” (investigação histórica), está representado em diversas antologias e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil. Tem colaborado em catálogos para exposições de artes plásticas: Ramón Catalan, Deolinda, Carlos Eirão, Alfredo Luz, Edgardo Xavier, João Alfaro, Maria José Vieira, Ricardo Gigante, Ana Horta, Isabel Teixeira de Sousa, Nuno Medeiros, Viana Baptista, Teresa Ribeiro, Rico Sequeira, João Ribeiro, José Manuel Man... Comissariou a Bienal do Mediterrâneo, Dubrovnik (Croácia), em 1999.