Dentro da cicatriz

 

ANTÓNIO BARROS


Diz a ciência que o impulso natural leva-nos para a vida. E não para a morte. Por isso é que saúde, é geralmente alimentarmos factores de vivenciação e recusa constante dos pensamentos da morte. Mas há as religiões. E mormente a gerada pelo cristianismo. Esse vulto constante. Essa preguiça do pensar e do ser. A religião é uma preguiça da poesia. Um luto. E não uma luta. Trabalho esse jogo de esgrima entre a luta e o luto. Esse estigma. Toda uma denúncia dos símbolos da morte, pois a religião é opressora do indivíduo. ”A cruz, a crucificação, o martírio, a tortura, a morte são os símbolos constantes do cristianismo, uma religião que incute o medo e o terror ao anunciar o apocalipse e o fim do mundo, e que quando nascemos, nascemos já como pecadores.” Toda uma antecipação da condenação. Uma condenação do ainda inocente. Esta falsa sociedade de direito. Do direito ausente é uma marca de ferida. Cicatriz. A cicatriz de Frantz Fanon. A lágrima_lago que fugiu do olho.

Esta iconografia de uma cultura judaico-cristã é enunciada, e resulta com fortes reflexos na minha escrita visual. Na narrativa e na semiótica do objeto cultural que os  obgestos exploram. A cruz invertida de Pedro . Há um luto latente. Mas também uma denúncia desses constrangimentos. Dessas catequisações.

Mas outra das inquietações que esta religião me provoca é o referir que pecamos por pensamentos. Duvidei sempre desta premissa e condição. O pensamento como ferramenta de pecado. Basta pensar —  e o castigo logo poderá ser aplicado. Toda uma sociedade do castigo. E do não reforço. Estes foram os desígnios de uma sociedade onde a escola foi geradora de uma prática de educação punitiva. Trabalhada com as armas do castigo. A escola como lugar de punição e não de ensino e aprendizagem para a construção da pessoa. A escola como túnel. Sem luz. Dentro da ferida. Antiga. SóLida. Dentro da cicatriz.


António Barros, Coimbra, 22 abril 2020