Autobiografia sem piedade

 

 

 

 

 

 

HUGO ALMEIDA


Hugo Almeida, jornalista e escritor, é doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Autor, entre outros livros, de Vale das ameixas (romance) A voz dos sinos, ensaio livre sobre o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, ambos publicados em 2024 pela Sinete. Almeida participa da coletânea Minas Gerais – Contos e confidências, organizada por Luísa Coelho (Gato Bravo, Lisboa, 2024): Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br


W.J. Solha: “Autob/i/ografia” sem piedade

 

No livro inteiro está a marca da coerência e integridade humana
e intelectual desse artista brasileiro de múltiplos talentos e prêmios

 

Ernest Hemingway (1899-1961) escreveu há 90 anos numa resenha do primeiro romance de John O’Hara (1905-1970): “Se você quer ler um livro de um homem que sabe exatamente sobre o que está escrevendo e o escreveu maravilhosamente bem, leia Encontro em Samarra”. Quase um século depois, pode-se dizer isso também sobre a autobiografia de Waldemar José Solha (Sorocaba, SP, 1941; vive em João Pessoa). Sob vários aspectos, W. J. Solha, como assina sua obra, é um fenômeno. Com a publicação da Autob/i/ografia (Arribaçã Editora), o leitor brasileiro agora pode saber o quão ricas e fascinantes são a vida e a obra desse artista de múltiplos talentos e prêmios. Poeta, romancista, contista, dramaturgo, letrista, artista plástico, pintor e ator. Ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante do Festival de Cinema de Porto Alegre, em 2013, pela atuação em O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho.

Como escritor, conquistou diversos prêmios, entre eles o Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores, em 1974, com sua estreia, o romance Israel Rêmora ou o sacrifício das fêmeas (infelizmente ainda não reeditado); o João Cabral de Melo Neto, da UBE-Rio, em 2005, com Trigal com corvos, seu primeiro poema longo, fruto de dez anos de trabalho; o Instituto Nacional do Livro (INL), em 1988, com o romance A batalha de Oliveiros, e a Bolsa de Incentivo à Criação Literária da Funarte, em 2007, para escrever Relato de Prócula, depois laureado com o Prêmio Graciliano Ramos. O monumental História Universal da Angústia, contos, foi finalista do Jabuti em 2006. Solha é um fenômeno que precisa ser mais divulgado e conhecido.

Como tudo que ele faz, sua autobiografia foge ao tradicional. Para começar, não segue a ordem cronológica. Nada de nascimento, infância, juventude, maturidade e velhice nessa ordem. Nada de filtros. Cada relato como que se constitui um pequeno conto, mas de fatos, sem invenção, floreio nem autopiedade. Artista incansável, culto que só (na boa expressão popular do Nordeste), dotado de uma rede neural privilegiada, Solha tem uma memória extraordinária.

Ele transita com segurança por episódios da meninice no interior paulista, acontecimentos marcantes da mudança para Pombal, na Paraíba, aos 21 anos, aprovado em concurso do Banco do Brasil, o início da carreira de escritor e de pintor, o desenvolvimento de suas habilidades artísticas, narra episódios alegres e divertidos, sim, mas também dolorosos, como a perda do filho, de câncer, aos 50 anos. Uma dor viva, aguda, de lanhar o corpo e a alma. Solidário, generoso, sempre leu e incentivou novos escritores, da década de 1970 à de 1990 por carta, depois por e-mail; e é rápido nas respostas. Sua vasta obra inclui um volume que expressa solidariedade já no título: Sobre 50 livros (brasileiros/contemporâneos) que eu gostaria de ter assinado (Ideia, 2012).

De tão numerosas que são, fica difícil, ou mesmo impossível, destacar passagens capitais da autobiografia. Todas são. Qualquer seleção será parcial, ainda mais na limitação de uma resenha. Há meses convivo com o desafio que agora enfrento. Portanto, o que vou citar aqui é apenas uma pequena fração do que o escritor narra, desde cenas familiares, professionais, políticas (várias durante a ditadura militar), artísticas, como improvisos em filmes, bastidores do mundo editorial e do cinematográfico, a edição de livros, a pintura de quadros, especialmente o painel em homenagem a Shakespeare. Em tudo está a marca de sua coerência e integridade humana e intelectual.

Leitor voraz, leu quatro vezes o volumoso Ulisses de Joyce e o também imenso Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Perdeu a conta de quantas vezes releu Hamlet, o Novo Testamento, o Êxodo e o Gênesis, os Salmos e o Eclesiastes, a obra de Augusto dos Anjos e do poeta e amigo Sérgio de Castro Pinto. Passou incontáveis horas em cinemas vendo e revendo filmes como Deus e o diabo na terra do Sol, de Glauber Rocha, …E o vento levou, de Victor Fleming, e “todos aqueles filmes de Bergman e Woody Allen, Resnais, Godard e Truffaut, Fellini, Rossellini, Visconti, Bertolucci e Antonioni”.

No trecho de abertura da autobiografia, Solha conta que acabou se tornando escritor graças à insistência de um colega do banco. Sua estreia na literatura, um conto, foi publicada em João Pessoa por um professor do Liceu “numa antologia mimeografada, entre textos de Bandeira e Drummond”. Solha escreve: “Nunca mais tive sossego”. Décadas depois, o mesmo amigo e também escritor, José Bezerra Filho, que considerou aquele primeiro conto “arretado” e o enviou ao professor, sofreu um aneurisma e seria operado, com 10% de chances de sobrevivência. Solha pensou em fazer o “retrato para a posteridade” do amigo que, de cabeça raspada, sorria na cama do hospital. A cirurgia foi um sucesso tão grande que Bezerra se tornou ainda mais talentoso, passou a cantar ópera e a jogar futebol.

Solha trabalhava num banco privado em Sorocaba quando passou no concurso do BB. O pai tentou demovê-lo da ideia de assumir o novo emprego no Nordeste, já que o banco em sua cidade oferecia salário igual. O filho argumentou que no banco estatal teria vantagens, como progressão na carreira, reajuste semestral, financiamento da casa própria. Então, o pai apresentou um forte argumento: “Sua mãe anda chorando muito”. Solha foi comunicar à mãe sua decisão: “Desisti do Banco do Brasil”. Então ouviu dela os mesmos argumentos que ele havia apresentado ao pai. Quando o filho contou que o pai disse que ela andava chorando por causa da iminente partida dele, ouviu isto: “Eu?!!! Quem tá chorando é ele! Vá cuidar da tua vida, rapaz!”.