Procurar textos
 
 

 

 

 







OS LIVROS DA WALKYRIA
JÚLIO VERNE
VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS
CAPITULO IX
A Atlântida
Na manhã seguinte, Ned Land surgiu em meu camarote visivelmente contrariado.

- Veja - disse ele - , o capitão resolveu parar o navio exatamente no momento em que íamos fugir...

Consolei-o o melhor que pude e fi-lo ver que talvez em outra ocasião tivéssemos melhor sorte.

Ao meio-dia, o sol surgiu por alguns instantes. O imediato a bordo aproveitou essa ocasião para localizar o navio.

Como a maré estava subindo, tornamos a descer e as escotilhas foram fechadas.

Uma hora depois, ao verificar o mapa, vi que a posição do Nautilus indicava 16°17' de longitude e 30°2'de latitude, a cento e cinquenta léguas da costa mais próxima. Não se podia pensar em fugir.

À noite, recebi a visita do capitão Nemo, o qual me propôs uma curiosa excursão. Tratava-se de visitar as profundezas submarinas em uma noite escura. Apesar de me avisar que esse passeio seria fatigante, pois era preciso andar muito e subir numa montanha, e os caminhos estavam mal conservados, aceitei o convite. Somente o capitão e eu. Em pouco tempo vestimos nossos trajes e colocamos nas costas os reservatórios de ar bem carregados. Não levaríamos lâmpadas elétricas, pois o capitão acreditava que seriam um estorvo para nós.

Recebi um bastão com ponta de ferro e alguns minutos depois, pisamos o fundo do Atlântico, a uma profundidade de trezendos metros.

Anoitecia, e a escuridão era intensa na água, porém o capitão Nemo indicou-me ao longe um ponto avermelhado, uma espécie de faixa resplandescente, que brilhava a cerca de duas milhas do Nautilus.

Não me foi possivel determinar a natureza daquela luz. Seja como for, ela nos iluminava, embora fracamente, e logo fiquei habituado àquelas trevas especiais, entendendo que em tais circunstâncias seria inútil usar os aparelhos Ruhmkorff.

Viamo-nos obrigados a avançar de vez em quando, porque nossos pés afundavam em uma espécie de limo, repleto de algas e parecendo seixos. De repente, senti uma pancada na água, sobre minha cabeça. Era a chuva que caia forte. Institivamente, pensei que ia ficar molhado. - Mas como molhar-me dentro d'água? Não pude deixar de sorrir ante tal extravagância. Todavia, esse fenômeno tem uma explicação, porque quem está dentro do pesado traje de escafandro, deixa de sentir a presença do elemento líquido, parecendo estar em uma atmosfera mais densa que a da Terra.

Ao fim de meia hora de caminhada, o solo tornou-se perigoso. As medusas, os crustáceos microscópicos e as penátulas nos iluminavam com sua fosforescência. Percebi montes de pedras cobertos por milhões de zoófitos e urdiduras de algas. Esbarrávamos amiude naqueles tapetes viscosos de algas e, se não fosse o pesado bastão em que me apoiava, teria caído ao solo mais de uma vez. Parecia que as minhas solas pesadas de chumbo aplainavam uma camada de esqueletos, que rangiam ao serem pisados.

Entretanto, a liz vermelha que nos servia de guia ia aumentando. A presença daquela luz embaixo d'água me deixava intrigado. Seria a manifestação de alguma irradiação elétrica? Estaríamos diante de um fenômeno natural ainda desconhecido pelos cientistas da Terra? Cheguei até a pensar que era produzido por intervenção humana. Haveria naquele abismo de água uma colônia de desterrados que, cansados das misérias da Terra, tinham procurado e encontrado a independência no fundo do oceano?

O nosso caminho ia clareando aos poucos. Os clarões luminosos surgiam no cimo de uma montanha de cerca de oitocentos pés de altura, porém o que eu via era apenas um reflexo produzido pelas camadas de água. O foco, a origem daquela claridade inexplicável, encontrava-se na vertente oposta da montanha submarina.

O capitão Nemo caminhava sem a menos hesitação entre os labirintos pedregosos que sulavam o fundo do Atlântico. Parecia ser um dos gênios do mar, e quando andava na minha frente, admirava-o por sua estatura elegante, que se destacava do fundo luminoso do horizonte.

Era huma hora da manhã. Havíamos chegado ao sopé da montanha, mas, para escalá-lo, era preciso adentrar nos cominhos sinuosos de um amplo matagal.

Era um bosque de árvores mortas, sem folhas e sem seiva; árvores petrificadas, sob a ação das águas, abafando os pinheiros gigantes em todas as direções. Parecia um bosque de Hartz, vizinho aos lados de uma montanha; porém, um bosque submerso na água. Os caminhos estavam obstruídos por algas e líquens, entre os quais se agitava uma multidão de crustáceos. Caminhávamos subindo pelas rochas, saltando sobre os troncos caídos, quebrando os cipós marinhos que balançavam entre as árvores, espantando os peixes.

Que espetáculo notável! Subíamos por rochas que se desmoronavam repentinamente em grandes massas, com um ruído surdo de avalancha. De espaço a espaço surgiam clareiras, que pareciam abertas por mãos humanas, dando a impressão de que iria ver-se de repente um habitante daquelas paragens submarinas.

Pouco minutos depois chegávamos a um ponto alto de onde se avistava toda aquela massa rochosa, em um plano de dez metros. A montanha elevava-se apenas de setecentos a oitocentos pés acima da planície; em compensação, a outra vertente descia quase o dobro.

Essa montanha era um vulcão. A cerca de cinquenta pés do topo, entre um dilúvio de pedras e lava, uma grande cratera jorrava torrentes de lava, que se espalhavam um cascatas de fogo, no seio da massa líquida. Nessa posição, o vulcão, como se fosse uma tocha gigantesca, iluminava a parte inferior da planície, até onde alcançava a vista.

Disse que o vulcão submarino lançava lavas, e não chamas. Para haver combustão é preciso o oxigênio do ar, e a chama não poderia formar-se sob as águas; mas as camadas de lava, que têm em si mesmas o elemento de sua combustão, podem adquirir coloração vermelho-esbranquiçada, podem lutar contra o elemento líquido e evaporar-se com o contato dele. Correntes rápidas arrastavam todos aqueles gases em difusão e as torrentes de lava deslizavam até o sopé da montanha como se fossem resíduos do Vesúvio sobre uma outra Torre de Greco.

Perante mim, surgia uma cidade destruída, em ruínas, com seus tetos desabados, seus templos destruídos, seus arcos deslocados e suas colunas derrubadas ao solo.

- Onde eu estava? Queria saber a resposta a todo custo.

O capitão Nemo aproximou-se e fez-me parar com um gesto. A seguir, apanhando um pedaço de pedra calcária, escreve numa rocha de fasalto uma única palavra: "Atlântida".

Aquelas ruínas que eu contemplava como testemunhos inegáveis de uma catástrofe eram da Atlântida, região submersa que existiu separada da Europa, onde viviam os poderosos atlantes, contra os quais foram destinadas as primeiras guerras da antiga Grécia!