Um rasgo na pele
Alexandra Vieira de Almeida

ALEXANDRA VIEIRA DE ALMEIDA

Um rasgo na pele suave do mundo, em Narlan Matos


Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.


Em Um alaúde, a península e teus olhos negros, de Narlan Matos (Penalux, 2017), temos a força do poético como o máximo da expressão lírica, como se ela fosse um rasgo na pele suave do mundo. Como não nos admirarmos da conjunção suprema entre o significado das palavras e seu ritmo que desencadeia o lirismo prenhe de magnetismos, de forças de atração e repulsão? No poema que abre o livro, “Lanternas ao longe”, temos: “e se as ruas cálidas da lua anseiam por nossos passos”. Percebe-se aqui, a entrega magistral para as palavras e sua música flamejante de desejo. O som do /s/ cria uma rica imagem entre a delicadeza e a violência do desejo, fazendo deste verso um lindo jogo barroco que constrói a tensão inesperada entre suavidade e erotismo, entre a chama leve e o gozo. Não é por menos, o livro dialoga com a obra de Garcia Lorca que foi influenciado pelo barroco e pelo surrealismo, unindo realidades díspares no labirinto cortante do desconhecido. Aliás, Narlan Matos cria belíssimas analogias entre o corpo e a natureza, produzindo um rito mágico entre o que se vê e o que nos observa. O corpo do ser e o corpo da natureza se entreolham. O historiador da arte francês Didi-Huberman revelou a cisão no ato de ver na arte, mostrado o duplo sentido do olhar: “O ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois, ou seja, o que vemos vive em nossos olhos pelo que nos olha”.
Esse excepcional livro de poemas de Narlan Matos traz um grande prefácio do poeta ímpar Salgado Maranhão, que diz: “Trata-se de uma poética de alta linhagem, praticada com o vigor do talento e o acúmulo de saberes correlatos, dando ao leitor a oportunidade de encantar-se com uma das mais representativas sintaxes da poesia brasileira atual”. Sem dúvida, Salgado Maranhão é certeiro em suas palavras ao demonstrar o estilo elegante, mas que não deixa de ter a força apaixonada do sol do desejo. É um erotismo domado pela delicadeza das palavras que ferem o código anêmico do mundo. Narlan se utiliza de uma fineza com as palavras, beirando o erudito com o gosto mais popular, aproximando-se da carne do mundo. Na matéria “A vida e as mortes de García Lorca”, da Folha de São Paulo, Juliana Gragnani assim se reporta ao escritor espanhol: “No mesmo ano, Lorca lançou o livro de poemas ‘Romanceiro Cigano”, em que misturou linguagens erudita e popular para retratar a Andaluzia.” É forte a presença cigana em Narlan Matos que flerta com as visões vastas de regiões influenciadas por este povo exótico e original. O poeta brasileiro em questão revela o olhar do viajante, fazendo verdadeiras fotografias poéticas, passando da influência espanhola, portuguesa, árabe numa topografia lírica a partir da relação entre o humano e o natural numa dimensão avassaladora que requer do leitor um fôlego imaginário e aberto para várias direções: uma topografia múltipla como a poesia requer. Já Paul Valéry tinha comparado num de seus textos a poesia à dança, revelando o descentramento e a liberdade nos quais o poético nos lança: “me acercam mil e uma noites nesta noite”. Aqui, em “Canto para um alaúde”, temos a riqueza magistral do canto lírico que se espraia em camadas profundas como a noite numa dança nos círculos das palavras.

Narlan Matos nasceu em Itaquara, Bahia, em 1975. Escreve poesia desde os 21 anos. Seu segundo livro, No acampamento das sombras, lhe valeu seu primeiro reconhecimento nacional, o Prêmio Xerox de Literatura Brasileira, no ano 2000. Considerado um dos poetas destaques de sua geração, críticos na América e Europa têm apontado a importância universal de sua obra. Seus poemas foram publicados em vários idiomas, incluindo esloveno, espanhol, italiano, japonês e sueco. No Brasil, publicou Senhoras e senhores: o amanhecer (1997) No acampamento das Sombras (2001) e Elegia ao Novo Mundo (2012) Ele publica e viaja extensamente pelo mundo. O poeta brasileiro, residente nos Estados Unidos, também é Bacharel em Letras pela Universidade Federal da Bahia, Mestre em Artes pela Universidade do Novo México e Ph.D pela University of Illinois at Urbana Champaign nos Estados Unidos.


A metáfora do alaúde, instrumento de cordas de origem árabe, só vem reforçar a força lírica do livro, pois essa vem da lira, instrumento de cordas com larga difusão na Antiguidade. Em Narlan Matos, cada palavra é imprescindível. Não é possível substituir uma palavra por outra. Tudo é ritmo, música. Emil Staiger, em Conceitos Fundamentais de poética demostrou esta exatidão no gênero lírico ao dizer: “Mas quanto mais lírica, mais intocável”. Em “Arábias”, o poeta brasileiro nos presenteia com a estrutura milimetricamente pensada e utilizada em versos firmes e verossímeis: “no abismo das noites/já não encontrarei teus abraços/e já não serás para mim como o lírio/aberto para a noite física…” Essa pontualidade de Matos faz de seu livro um verdadeiro exemplo de como a poesia mais essencial deve ser produzida. O poeta por ora aqui apresentado busca a verdadeira essência do poético. É como se esse fosse uma rasura no corpo delicado do real, unindo a força e a suavidade, o fino e delirante.
Não é apenas a partir da voz espanhola de Lorca, o que já é uma grandiosidade, que o livro se reporta. Ouvimos a voz de Fernando Pessoa, tendo um poema dedicado a ele. Mas é de um heterônimo em particular, escondido, “palimpsesticamente”, nas dobras de seus versos, que vemos o olhar tranquilo que dá elegância ao mundo. O equilíbrio entre prazer e serenidade comparece em Ricardo Reis através de seu epicurismo e estoicismo, com a máxima do “carpe diem”, e do “aqui” e “agora”. Em Ricardo Reis, temos: “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio,/Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos/Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas/(Enlacemos as mãos).” Em “Marginando”, de Narlan Matos, encontramos: “sentados à margem do rio observamos nossas sombras/deitadas imóveis sobre a água que passa na correnteza/os nossos pés o rio que nos ouve e nos observa…” Tal analogia entre o poeta aqui em questão e Ricardo Reis revela a potencialidade com que a voz do poeta português é reinventada, revelando a originalidade do poeta brasileiro em recriar com sua voz singular essas vozes que percorrem a península ibérica: Lorca e Pessoa, assim como outras influências que ressoam como homenagem à tradição literária.
Se a grandeza da natureza é enaltecida, não se deixa de ter a força do mítico em sua poesia. O mítico é a própria metafísica das formas, a transcendência das palavras e não se deixa de ter aqui uma referência novamente à Pessoa, mostrando a voz do poeta português, sua afirmação num tom originalíssimo. Influência e subversão. Atração e repulsão. Se o heterônimo de Pessoa, Alberto Caeiro, disse que há metafísica em não pensar em nada, Narlan Matos sublinha que “há na floresta esta noite/metafísica suficiente/para fazer nascer a manhã/amanhã de manhã cedo”. Para Pessoa a metafísica, paradoxalmente, traduzia-se como natureza, a força do olhar, diferindo do pensamento ocidental que tudo esquematiza em conceitos. Pensar era estar doente dos olhos. E não é de menos que encontramos no título, deste livro de Matos, “os olhos”, símbolo de uma metafísica do corpo que se espraia para a natureza. Uma botânica linguística é afirmada como supremacia do filosofar. Temos, assim, uma poesia solar, que não deixa de ter a cor da noite. Se a visão solar é possível, os “olhos negros” também acendem uma chama que requer sua contravoz: a noite, a sombra, um descanso. No poema “Botânica”, temos: “a paisagem da manhã/ainda não pode ser dita/o mel nas flores/e o abismo nas folhas/a paisagem da manhã/se move como teus cabelos/iluminados pela sombra/as árvores perenes/e as manadas de nuvens/se arrastando lentas/na abóbada do dia”. Encontramos neste poema o virtuosismo poético em sua expressão de chiaroscuro, onde encontramos um jogo de revelação e encobrimento. Ao mesmo tempo em que sua poesia nos mostra a face clara do mundo, temos um rasgo na delicadeza do real, produzindo um ferimento na pele das palavras em que o tecido não se mostra totalmente límpido. A autenticidade de sua poesia nos mostra que o poeta sabe lidar com as camadas que esse mundo nos apresenta, feita de sol e de sombra, de manhãs e de noites, como podemos perceber, belamente, no poema “O cedro de Líbano”: “minha alma é como o cedro/verde escuro /na manhã clara/sob o céu azul /brilha como ouro /e como a mirra/no vento calmo//minha alma/na brisa fresca/matinal é como/o cedro verde claro/sob a noite escura /recoberto de estrelas”.
Portanto, em Narlan Matos, encontramos os olhos de Pessoa e Lorca e tantos outros olhos possíveis adensados na península dos sonhos de uns olhos negros, estes sim, inspiradores de um novo olhar que requer uma criatividade e uma originalidade de um poeta que caminha para o rol dos escritores singulares, que são aqueles que, ao mesmo tempo em que dialogam com a tradição, sabem dar uma roupagem diferenciada, com novos tons, exatos e precisos, na sua dinâmica lírica, que são capazes de quebrarem o espelho original, os modelos, dando uma nova ênfase nos textos criados, como “pequenos deuses” de uma arquitetura poética. Trazem o dom da escrita para o mundo, revelando a força originária da palavra. Maurice Blanchot dizia que a arte é a potência sobre a qual a noite se abre. A poesia de Matos é feita de luzes e sombras, revelando aquilo que não pode ser dito, o indizível da poesia. E é a partir do lirismo que ele consegue esta artimanha, a difícil proeza que é fazer o leitor se densificar na potência da palavra que é fogo e cinza, chama e carvão, manhã e noite, prazer e suavidade. Termino com a epígrafe de Lorca, que Narlan Matos utiliza neste seu livro, um autor brasileiro maravilhoso que abrilhanta a nossa poesia nacional: “Empieza el llanto de la guitarra”.

“Um alaúde, a península e teus olhos negros”, poesia. Autor: Narla Matos,
88 págs., R$ 35,00, 2017.
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