TRIPLO II

Órgão de Informação Cultural da Revista TriploV

A poesia na arte moderna e suas interfaces

por Tania Montandon

As portas tremem vendo-a chegar mais uma vez. O céu está lindo, a cabeça vazia, o coração capotando, taquicardia…

Um mundo, um submundo, uma sociedade, um lugar pros excluídos. Vida! O que é isso? Um dom, uma magia, uma música sem melodia única, mas múlptipla, enquanto respira e percebe quão menos sabe e a que se destinara…

Tania Montandon, guache sobre Moleskine

Toda inovação em arte, como reconhecia Wordsworth, implica mudanças sociais. A revolução permanente assegura a posição em que se encontra até que o corpo volte à terra e nela desapareça misturada a ossos de homens e bestas, talos de plantas, folhas de trigo e esterco.

Curiosa análise de Piet Mondrian:

“No futuro, a realização do puramente escultórico na realidade palpável substituirá a obra de arte, pois não precisaremos quadros, já que vivemos no meio da arte realizada.”

Quanto mais a vida se desequilibra, mais se demanda a arte.

A arte moderna nasce no meio da revolução oposta àquela arte que já não quer ser, da substância e do espírito da antiga e eterna arte, via sublimação, transformação artística de pensamentos, considerações e formas novas. Descoberta de outras ordens de fenômenos, aperfeiçoamento do verso, poder criador da imaginação poética, força das palavras e realidades vivas, concretas além de abstrações teóricas.

A liberdade angustiada diante tantas repressões da cultura leva à eclosão do rio ocluso de longas águas agitadas e posses particulares da essência transbordante, predispondo a se fazer o que mais não se desejaria fazer, boicote do desejo vital do sujeito como ataque impulsivo ao desejo repressor do Outro.

A palavra é a portadora da mensagem dos interesses supremos do espírito à consciência.

astro de nervo e ocluso vento

em diálogo diáfano do sanguíneo catavento

hipógrifo violento

que consiste parejas com el viento

os gestos e as vozes

os olhares e a vida

para dentro e para fora intransponível

la luz se comunique

es fuerza que el temor se multiplique

todos os gestos do eu e de fora

para um e outro lado abrindo espantos

em desierto monte,

quando se parte el sol outro horizonte

musicalmente estranha de vendaval em si

garra de fogo a violentar montanhas

ciega y desesperada

bajaré la aspereza enmarañada

Palavras são signos das representações do espírito.

“O extremo limite de toda a especulação sobre a natureza da poesia, sua essência, pertence ao campo da estética, e não concerne a poeta e crítico de preparação tão limitada quanto eu.” (Thomas Eliot)

O poema se faz pelo discurso e imagem poética e usa ritmo, harmonia, rima, combinação de palavras… O poeta substitui as formas espirituais pelas formas sensíveis: imagens, intuição, sensação…

A palavra direta dá ao objeto só o caráter concreto. Para se alcançar o sentido poético necessita-se juntar ao termo algo que possibilite a visão de uma imagem figurada. A palavra se transfigura na poesia.

Sentimento

Há conforto, amor, abundância na linda casa

Tanta miséria, fome, carência na favela

Novas ondas de vida palpitam em meu coração

Um amigo secreto surge na oportuna ocasião

Desmerecida do conhecido, margem do avesso

Outra paisagem é benquista, atiça o desejo

Sensações carnais, anseios angelicais

Adentram a subjetividade, talvez sejam vitais

O espelho mostra as marcas do já feito, feio

O desejo mostra o anseio pelo novo, insatisfeito

Áspera lida de esperanças emaranhadas

Algo desperta novas notas em vendaval, estranhadas

“Não é a coisa em si mesma ou sua existência prática, senão a imagem e o discurso o que constitui como o núcleo central do poema.”

(Hegel, fonte de todas teorias da expressão poética moderna, mesmo aquelas que se colocam em oposição a ele)

Que peso tem a brisa sentida

Na grade fria da janela

Montanha de dor chorando no verão

Imensa é a coroa de espinhos sobre ela

A impor, canhestra, sua simbolização.

A paixão mística é a exaltação e a negação da vontadde, a mortificação.

Para saber tudo, deves não querer saber algo em nada.

Solitário, o morto ascende à montanha da dor original.

E nem uma só vez seu passo ressoa no destino insonoro.

Mas se os infinitamente mortos despertassem em símbolo,

Em nós, olhai, mostrariam talvez os engastes pendentes

Das aveleiras vazias, ou a chuva que cai

Sobre o reino obscuro da terra em primazia

Na venturosa ascensão,

Sentiríamos uma ternura enorme

Perturbadora, misteriosa

Quase o cair da felicidade

No alto, as fumaças recém-nascidas

Estrelas seriam no país da dor

Luzidia lamentação revelando nomes:

Do que não é, não foi, não será jamais.

A mente convoca quaisquer mundos caprichosos e variáveis

Afeiçoa-se a ele ou o muda, onipotente

Pode o convocar ou o banir à sua mercé.

O organismo biológico tende sempre à preservação da vida e da espécie humana. Porém a mente é tão complexa e possui poderes desconhecidos a ponto de conseguir enganar o próprio ser em sua ambiciosa busca para satisfazer a escorregadia falta infinita até conseguir com que se deseje a própria extinção, esquecendo-se que ansiar é o próprio viver.

Não há por que ter que saber ao que se anseia, a ânsia basta assim como a vida. Ambas terminam juntas, como duramente descobrira Buda. Conhecer e aprender a lidar com a ansiedade talvez seja a chave para uma vida sábia.

Tania Montandon

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