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A CRIAÇÃO COLETIVA EM
JACQUES PRÉVERT
Eclair Antonio Almeida Filho

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Desde sua primeira experiência como dramaturgo, na década de 1930, Jacques Prévert apresenta-se como um artista interessado pelas criações coletivas. Por considerar que todo trabalho é fruto de um esforço conjunto, ele evitava assinar sozinho a autoria de suas peças teatrais.

Em suas diversas atividades, pois foi ao mesmo tempo dramaturgo, roteirista, poeta, compositor e colagista, Prévert assume-se como um artista que cria com o outro. De suas parcerias nasceram, por exemplo, a canção "Feuilles mortes" com Josef Kosma, seu parceiro de muitas outras canções; o filme Les enfants du paradis com Marcel Carné; desenhos animados com Paul Grimault, e livros raríssimos de arte com Alexander Calder e Joan Miró.

Ao analisarmos a obra poética de Prévert, percebemos que as dedicatórias e as epígrafes situam-se num movimento ao mesmo tempo inter- e autotextual que ajuda a instaurar na obra prevertiana um espaço de criação coletiva. Intertextual, porque nas dedicatórias e nas epígrafes que Prévert utiliza pode-se constatar elementos da obra do autor de quem o poeta retira a epígrafe ou ao qual dedica seu poema.

Autotextual, porque Prévert faz com que o trecho ou trechos alheios utilizados nas epígrafes e nas dedicatórias dialoguem com trechos de outros poemas prevertianos, ou faz então com que eles retornem em sua obra na forma de citação explícita ou implícita, tornando-se um autotexto, ou seja, neste caso um elemento próprio da obra prevertiana.

O objetivo deste artigo é analisar no poema “Aujourd’hui” (1) (Prévert, 1996, II, p. 450-451) a função das epígrafes e das dedicatórias para o estabelecimento de uma escritura que se constrói com a ajuda de outros escritores ou artistas. Escolhemos “Aujourd’hui”, pois é dedicado a Robert Desnos e contém como epígrafe versos desse poeta e grande amigo de Prévert. Ademais, consideramos esse poema significativo porque nele se encontram explícita e implicitamente trechos de outros poemas de Prévert e de Desnos numa espécie de criação coletiva.

Tanto Prévert quanto Desnos são conhecidos por sua militância política, sendo que, enquanto o primeiro militava apenas através de seus textos, o segundo participava ativamente de grupos de resistência. Em suas obras, há partes dedicadas a jogos com palavras, como o “Rrose Selavy”, de Desnos, e os “Graffitti”, de Prévert. Se Desnos escreveu Trente chantefables pour des enfants sages, Prévert escreveu, mas não ironicamente, Contes pour enfants pas sages, uma vez que a simples leitura dessas obras demonstra o respeito que os poetas tinham por seu público infantil.

Em uma entrevista de Michel Leiris a Jean Paul Corsetti, Leiris afirma que no surrealismo Desnos e Prévert haviam criado juntos um ramo original de poesia de verve popular, a qual destoava do restante da poesia praticada por outros surrealistas:

Il [Prévert] était avec Desnos, qu’il ne faut pas oublier, le creáteur de ce rameau original du surréalisme dont nous parlions tout à l’heure et, en ce sens, il échappait à la menace de “littératurisme” qui pesait sur le mouvement. (Leiris, 1991, p. 22)

Para reforçar essa aproximação entre Prévert e Desnos pelo caráter popular de suas obras, cite-se o depoimento de Robert Sabatier a respeito da relação da obra de Desnos com outros escritores. Para Sabatier, é em seus poemas de linguagem mais espontânea e mais simples, e não simplista, que Desnos se aproxima de Prévert:

Le medium du surréalisme, le proclamateur du droit à la liberté sexuelle a certes trouvé sa dimension personnelle quand, mêlant sa nostalgie des rythmes classiques à son amour du langage populaire, il s’est fait lyrique, a rejoint des lieux proches de ceux d’Apollinaire, de Prévert, de Queneau ou de Max Jacob, en fait il est le meilleur là où il est le plus spontané, hors des théories un peu simplistes: c’est là son trésor. (1982, p. 407)

Assim vemos que, cada qual à sua maneira, Prévert e Desnos vêm traçando um caminho marcado pelo recurso à linguagem popular. Embora, em vida, Desnos nunca tenha escrito nenhum texto com Prévert, consideramos que em “Aujourd’hui”, pelo intermédio da criação poética, podemos ler um texto que traz ao mesmo tempo marcas desnosianas e prevertianas.

A princípio, para entendermos que o texto se constitui como uma criação coletiva de Prévert com Desnos, devemos observar que, além de ser dedicado a Desnos, ele traz uma epígrafe retirada do poema “Aujourd’hui je me suis promené” (Desnos, 1953, p. 382-383), de Desnos, escrito em 1936, mas só publicado em État de veille em 1942. Eis a epígrafe de “Aujourd’hui”:

Aujourd’hui je me suis promené avec mon camarade

......Même s’il est mort

......Je me suis promené avec mon camarade. Robert Desnos. État de veille, 1936, (Prévert, 1996, II, p. 450)

Após essa constatação da presença dos dois elementos paratextuais que indicam que “Aujourd’hui” é uma criação coletiva, devemos partir para o estabelecimento tanto dos elementos prevertianos quanto desnosianos presentes nesse poema.

Assim, em relação aos elementos das obras dos dois poetas, identificamos elementos explícitos e implícitos que comporiam de certa maneira respectivamente a figura e o fundo do poema. Na composição da figura, citamos de Desnos o poema supra-referido e o “Couplet de la rue Saint-Martin” (Desnos, 1953, p. 384), e de Prévert um trecho retirado do final do poema “La lanterne magique de Picasso” (Prévert, 1992, I, p. 152-157), que integra Paroles.

Entre os elementos implícitos, citamos trechos tanto do poema de Desnos “Le veilleur du Pont-du-change” (In Berger, 1953, p. 195-200), escrito em 1940 e publicado por Pierre Berger na coleção “Poètes d’aujourd’hui”, das Éditions Seghers, quanto trechos do poema de Prévert “C’est à Saint-Paul-de-Vence que j’ai connu André Verdet” (Prévert, 1992, I, p. 874-886), escrito em 1943, cujo tema, o passeio do poeta que “donne le bonjour”, é o mesmo que o de “Aujourd’hui” e de “Je me suis promené”. Ademais, a invocação do nome de André Verdet reforça a idéia de uma criação coletiva, pois Prévert publicou com Verdet dois livros de poesia: a primeira edição de Histoires (1946), que conta também com poemas de André Virel, e Poèmes (1947), assinado por Prévert e Verdet.

Em relação ao diálogo entre “Aujourd’hui” e sua epígrafe, pode-se perceber a disseminação pelo poema de trechos da epígrafe a fim de marcar a presença tanto de Desnos quanto aquela de seu texto. Logo no primeiro verso Prévert dialoga diretamente com o poema desnosiano ao utilizar o “aujourd’hui”, que entra numa rede de referência tripla. Primeiro, remete imediatamente ao poema desnosiano. Segundo, refere-se à revista homônima (Aujourd’hui), na qual Desnos trabalhou como crítico literário no início dos anos 1940. Terceiro, marca no poema o momento da enunciação, chamando a atenção para o fato de que, para Prévert, Desnos continua.

Em seguida ao termo aujourd’hui Prévert faz seguir lugares e datas ligados à vida de Desnos, como a Rue Mazarine onde Desnos viveu durante muito tempo e o período de militância de Desnos, o qual começou em 1936 e terminou tragicamente em 1945, quando Desnos morre contaminado pela febre tifóide.

Depois, Prévert apresenta o segundo verso da epígrafe, porém com a substituição do termo “mon camarade” pelo nome de Robert Desnos: “je me suis promené avec Robert Desnos” (Prévert, 1996, II, p. 450). Quatro versos depois, Prévert cita o “même s’il est mort”, verso que enfatiza a presença do amigo mesmo depois de morto.

Ao retomar o último verso da epígrafe (“Je me suis promené avec mon camarade”), Prévert opera uma outra modificação acrescentando-lhe na primeira enunciação um “moi aussi” e na segunda, que vem no verso seguinte em elipse, substitui o “mon camarade” pelo termo “mon ami”. Na primeira modificação, Prévert nos diz que, além dele, vários outros também passeiam com Desnos, ou seja, que tal passeio é possível a todos aqueles que entram em contato com a obra desnosiana e aceitam empreender a caminhada poética.

Na segunda modificação, Prévert estabelece uma maior intimidade com Desnos, uma vez que o autor de Paroles prefere o termo “mon ami” ao termo “mon camarade”. Ademais, o termo “camarade” traz ainda uma conotação de militância, neste caso política e poética .

A fim de reforçar a imagem poética de um passeio com um camarade que é um ami, Prévert refere-se à Rue Saint Martin, que dá título a um couplet no qual Desnos afirma não querer mais passear nessa rua depois do desaparecimento de seu amigo André Platard:

Je n’aime plus la rue Saint Martin

....Depuis qu’André Platard l’a quitée

....C’est mon ami, c’est mon copain.

....Nous partagions la chambre et le pain

....Je n’aime plus la rue Saint Martin . (Desnos, 1953, p. 384)

Quanto ao elemento autotextual prevertiano, ele aparece justamente nessa parte em que Prévert e Desnos brindam à saúde deste nosso mundo. Comparem-se a seguir o trecho de “Aujourd’hui” e o de “Lanterne magique de Picasso”:

 

Et nous buvions un verre en tournant de chaque rue

...............À la santé entière

...............D’un monde éparpillé

...............D’un monde escamoté

D’un monde retrouvé

Et perdu

Éperdu. (Prévert, 1996, II, p. 451)

 

Les idées calcinées escamotées volatilisées désidéalisées

Les idées pétrifiées devant la merveilleuse indifférence

D’un monde passioné

D’un monde retrouvé […] (Prévert, 1992, I, p. 157)

É interessante notar que Prévert transforma o “salut” ao amigo em elemento mesmo do poema que ele escreve com Desnos. Ou seja, os poetas brindam bebendo à saúde de nosso mundo. Assim, além de homenagear Desnos, Prévert insere como tema em “Aujourd’hui” uma preocupação com a saúde do mundo.

Em relação aos poemas implícitos, não citados nominalmente, eles criam no poema a sensação de que os poetas vêem no passeio, no cumprimento cordial “Bonjour”, uma metáfora que definiria a própria poesia de Robert Desnos e de Jacques Prévert. Comparem-se a seguir os trechos finais de “Le veilleur du Pont-Au-Change” e “C’est à Saint-Paul-de-Vence”:

Que ma voix vous parvienne avec celle de mes camarades

Voix de l’embuscade et de l’avant-garde française.

Écoutez-nous à votre tour, marins, pilotes, soldats.

Nous vous donnons le bonjour, [. . .]

Et bonjour quand même et bonjour pour demain!

Et bonjour de bon coeur et de tout notre sang! (In Berger, 1953, p. 200)

 

André Verdet […]

Et il se promène dans ses poèmes à la recherche de ce

qu’il aime

et quand il trouve ce qu’il aime il dit bonjour et il salue

oui il salue ceux qu’il rencontre quand ils en valent

la peine (Prévert, 1992, I, p. 885-886)

Vê-se nos dois poemas a mesma atitude do caminhar. Mas, enquanto em Desnos o passeio é pelas ruas de Paris, no poema de Prévert, dedicado aliás a André Verdet, o poeta, apresentado na figura de Verdet, não só caminha pelas ruas como também empreende um passeio pelos próprios poemas.

Assim, em Aujourd’hui, ouvimos dos poemas de Prévert e de Desnos um canto ao amor, de saudação à amizade e ao respeito entre os seres humanos. Ademais, entendemos a exaltação à poesia como um meio de se chegar a esses momentos de confraternização. Vimos que, através de dedicatórias e textos com epígrafes, Prévert conclama seus amigos, como Desnos, Verdet, para que participem ativamente tanto da congregação poética quanto da criação poética.

(1) Para a referência dos poemas de Prévert, uma vez que consultamos os dois volumes de suas obras completas, todas as citações terão de acordo com o tomo as seguintes formas: (Prévert, 1992, I, p. ) e (Prévert, 1996, II, p) . Para a referência dos poemas de Desnos, adotamos duas formas de acordo com a obra consultada. À exceção do poema “Le veilleur du Pont-du-Change”, extraído da obra “Robert Desnos”, de Pierre Berger, a qual referimos como (Berger, 1953, p.), todos os outros poemas são extraídos da obra Domaine public, referida como: (Desnos, 1953, p.)
   
   

 

 

 


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