Ana Hatherly

FERNANDO AGUIAR
Ana Hatherly: Pintura de signos

 

ENTRADA e AGRADECIMENTOS

O livro Ana Hatherly: Anagramas é a continuação do Ciclo Ana Hatherly (1929-2015): Anagrama da Escrita que o Festival Silêncio organizou na sua edição de 2016, com curadoria de Manuel Portela.

Na organização do livro quisemos fixar o que foi a homenagem a Ana Hatherly, fazendo de novo o percurso através de todas as actividades do Ciclo, com evidente destaque para as obras da autora.

Assim, no capítulo “Pintura de Signos” reproduzimos muitas das obras de Ana Hatherly que integraram a exposição com o mesmo nome, “Pintura de Signos”, do Arquivo de Fernando Aguiar.

Igual destaque damos às obras gráficas e visuais dos artistas e poetas convidados que participaram na exposição “ReAnagramas”. Obras inspiradas na estética e na poética de Ana Hatherly.

Das outras actividades — Mesa-redonda, Dança, Performances, Exibição de filme e Leituras — deixamos a apresentação e uma fotografia ilustrativa.

Agradecemos a todos os autores a amabilidade com que acolheram a ideia deste livro, a sua colaboração e a cedência dos direitos para a publicação dos seus trabalhos.

Um agradecimento muito especial a Fernando Aguiar que nos abriu o seu Arquivo de Ana Hatherly para seleccionarmos as obras que agora publicamos e a Manuel Portela, autor de todos os textos de apresentação das actividades do Ciclo Ana Hatherly (1929-2015):Anagrama da Escrita que reproduzimos.

A Mariposa Azual publica este livro a convite do Festival Silêncio, numa parceria que dará origem à Colecção Livros do Silêncio, de que Ana Hatherly:Anagramas é o primeiro título.


Anagramas – Ana Hatherly 


Mapas – Ana Hatherly. Título (da série Mapas).
Ponta de feltro sobre papel.
34,8x25cm. 1971

Morrer e ressuscitar no céu – Ana Hatherly .
Tinta-da-china sobre cartolina . 21×14,8cm. 1997

A ambivalência emotiva – Ana Hatherly .
Tinta-da-china sobre cartolina. 15×21,1cm. 2003

 

ANA HATHERLY: PINTURA DE SIGNOS

Esta exposição, proposta por Manuel Portela, tem como objetivo mostrar a multiplicidade de formulações técnicas e estéticas utilizadas por Ana Hatherly ao longo de mais de 40 anos de atividade. Por essa razão, e também por o número de obras apresentadas ser reduzido, não existe uma unidade formal ou estilística, procurando-se antes, através da diversidade das obras, exemplificar uma inquietação própria da criatividade da autora, cuja linha de trabalho se situava numa fronteira de indefinição entre a escrita e a visualidade, uma das características enquanto precursora da poesia experimental em Portugal e também enquanto reconhecida artista plástica.

Embora uma parte substancial da sua obra visual esteja diretamente ligada à palavra e aos signos gráficos, em determinadas alturas realizou trabalhos onde as cores e as tonalidades se revelaram como um fator de exploração primordial, de que a série “Viagem à Índia e outros percursos”, apresentada no Museu do Chiado, em 1997, será um exemplo.

À semelhança de outros artistas, Ana Hatherly trabalhava por séries, explorando as possibilidades que cada uma lhe proporcionava e, nesse sentido, poder-se-á considerar que cada uma destas obras representa uma porta para a descoberta de um conjunto de trabalhos que essa obra invoca.

Estão patentes desenhos, pinturas e colagens de diversas décadas, desde um retrato de Natália Correia e um autorretrato de 1961, passando pelas reconhecidas caligrafias com conotações poéticas que constituem, porventura, a faceta mais conhecida da sua obra plástica, passando pelos anos 90 com uma renovada expressividade pictórica e onde a força do cromatismo é mais evidente, até aos anos 2000, sobretudo a sua última fase, com um conjunto de obras denominado genericamente de “Neograffitis”.

Os anos 80 foram dedicados principalmente à atividade docente, à investigação e à publicação de livros, alguns relacionados com as pesquisas dedicadas ao barroco e aos textos-visuais portugueses dos séculos XVII e XVIII, razão pela qual foi escassa a produção de obras visuais, exceto para responder a solicitações específicas.

Atenta às realidades sociais, apresentam-se algumas obras que demonstram a envolvência de Ana Hatherly com acontecimentos marcantes, como a Revolução de Abril (de que a conhecida série “As Ruas de Lisboa”, da coleção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian é o exemplo mais significativo), as referências a Timor-Leste e ao 11 de setembro de 2001.

Refutando o conceito de “coerência” que normalmente se gosta de evidenciar nos artistas plásticos, Ana Hatherly optou por uma intransigente ousadia expressiva e uma libertadora irreverência criativa, deixando a imaginação invadir os suportes, normalmente simples, onde executava as suas obras plásticas, elegendo espaços de provocação e de experimentação, ao invés de se decidir continuadamente pelas mesmas soluções.

Apesar de não ter sido um critério de seleção, muitas destas obras são inéditas, o que poderá acrescer ao conhecimento que já se tem da autora, considerando as exposições individuais realizadas e o elevado número de publicações, nas quais consta uma quantidade significativa da sua produção visual e gráfica.

As obras e os documentos patentes na exposição são provenientes do Arquivo de Poesia Experimental Fernando Aguiar, que possui um extenso núcleo dedicado a esta escritora e artista plástica, constituído por pinturas, desenhos, colagens, gravuras e serigrafias, livros, catálogos, cartazes, fotografias, negativos fotográficos, desdobráveis, convites, objetos iconográficos e outros documentos.

Resta agradecer à Fundação Portuguesa das Comunicações a disponibilidade em acolher a exposição, assim como ao Festival Silêncio e a Manuel Portela a realização do Ciclo “Ana Hatherly: Anagrama da Escrita”.


Natural de Lisboa, Fernando Aguiar (1956-) é Licenciado em Design de Comunicação pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Paralelamente à sua actividade como artista plástico, poeta e performer, Fernando Aguiar organizou festivais, exposições e antologias de poesia experimental, entre os quais Poemografias: Perspectivas da Poesia Visual Portuguesa (1985, com Silvestre Pestana), 1º Festival Internacional de Poesia Viva (1987), Concreta, Visual, Experimental, Poesia Portuguesa 1959-1989 (1989, com Gabriel Rui Silva), Visuelle Poesie Aus Portugal (1990), Poesia Experimental dels 90 (1994) e Imaginários de Ruptura, Poéticas Experimentais (2002). Esta intensa atividade contribuiu decisivamente para a divulgação e afirmação nacional e internacional da poesia experimental portuguesa.

Mais, em: 
http://po-ex.net/taxonomia/transtextualidades/metatextualidades-alografas/fernando-aguiar-biografia