Má rês

JAIME SOARES


Rés-do-chão

 

As mãos de Artur Carvalho tremiam há horas. O sangue parecia abandonar-lhe o sistema a um ritmo lento. Artur tentava escrever um telegrama a uma amiga de infância que viajara para o Alentejo, lugar onde a aposta em hortas era cada vez mais um passo em direcção ao êxito. As mãos de Artur mal conseguiam permanecer junto à folha de rascunho; uma folha amarela e com traços de cor escura. A televisão estava desligada há um ano, o telemóvel era deixado constantemente no silêncio, o computador exibia uma mensagem, sem som, e as paredes da sala começavam a adquirir uma tonalidade mais escura. O sol ia abaixo uma e outra vez, as nuvens eram uma espécie de filtro defumado.

Um barulho semelhante a batidas de martelo vinha do andar de cima. Era um barulho que havia começado há três semanas, altura em que o seu novo vizinho se instalou no apartamento. Não havia sinais de familiares ou visitas, e Artur, um metro e oitenta, ajudou o seu vizinho de cima na montagem do recheio. Tudo aquilo se resumia a três camas, quatro bancos, uma mesa e um expositor. O apartamento era um lugar frio, um T2 que esteve à venda durante anos. O seu último ocupante morrera junto ao fogão de sala sem que o casal vizinho do lado desse importância ao barulho. A parede do fogão de sala ficara ensanguentada, havia marcas de punhos no chão. Era um cenário que o casal vizinho tentou apagar do pensamento a cada dia que passava, e o universo acaba por ser bom para os pacientes. Artur encontrou o corpo do seu vizinho na posição de quatro, a cabeça tocava o rodapé daquele ponto da sala. Era como um beijo a uma coisa ao alcance da humidade com pouco relevo. Um bombeiro e Artur benzeram-se por instinto, e procuraram os familiares do homem. Inicialmente, tais acções resultaram infrutíferas, mas aquele mistério circulava com rapidez, e a porta do apartamento não se fecharia com facilidade, era um local de encontro.

Há olhares que uma pessoa nunca esquece. Um olhar que atravessara a fita da polícia e se deteve no corpo do morto foi aquilo que mais chamou a atenção de Artur, que se encontrava ao pé do representante de condomínios. A temperatura no corredor não parava de subir, era um mar de gente quase sem interrupções; cotovelos e calçado chocavam muitas vezes. Artur encarara a mulher ruiva no seu lado oposto, mas não havia nenhum traço de confiança naquela tez. Por seu turno, a mulher continuara sem desviar a sua atenção do interior do apartamento, as mãos alisavam o cabelo lentamente; e os presentes eram uma espécie de guardiães daquela porta e daquele silêncio. Artur observara durante alguns minutos a mulher e a sua dúzia de tiques. Ninguém apontara para o interior do apartamento à medida que mais pessoas se concentravam nos corredores. A luz de presença parecia afastar-se do olhar de Artur, era um ruído branco num corpo de luzes postas numa linha da parede, e a mulher ruiva inclinou a cabeça em direcção ao degrau.

O barulho que vinha do apartamento de cima não dava tréguas. Artur escrevia o telegrama de modo paciente, uma palavra atrás de outra com um significativo intervalo de tempo. O barulho não cessava, e Artur batia com as mãos no tampo da mesa, porém, os sons do contacto entre pele e madeira eram quase imperceptíveis. Artur estava nu. No telegrama queria escrever sobre a dificuldade que tinha em puxar o prepúcio por completo, era uma fimose, mas a sua amiga não era fã daquilo que era o saber do médico de família. Um espelho da sala vibrava com aquele barulho, e Artur levantou-se da cadeira apertando o pénis.


Primeiro andar

 

A vida é estranha. Mal nasceu o sol, Saúl Antunes começou a experimentar receitas na companhia de Ana Sá. A cozinha era uma espécie de bloco aberto onde cheiros e chamas se misturavam de modo intermitente, e Saúl tentava coçar a sua corcunda. O seu trabalho como empregado de balcão num restaurante de cozinha espanhola exigia cada vez mais de si, mas os clientes eram motivo de júbilo. A azáfama era a lei do quotidiano de Saúl, que no seu trabalho, turno após turno, se esforçava por curvar e estender o corpo da forma mais simétrica possível. Os clientes do seu restaurante procuravam-no com a língua de fora. Com efeito, um sorriso e uma anedota de quatro orações raramente lhes eram negados. Há um lugar-comum que diz respeito a Saúl: comer uma tapa traz um ataque de riso à barriga. E no acto de rir é que está o ganho, embora o dia-a-dia encha Saúl de tensão na sua corcunda. As noites de insónia produziam um efeito de torpor a Saúl durante o pequeno-almoço, era uma condição que ninguém costumava testemunhar. Assim que Saúl chegava ao trabalho, e os clientes se abeiravam daquele estaminé, a lembrança da noite de insónia era posta debaixo de qualquer calçado. A corcunda parecia um mecanismo de medição da temperatura do corpo de outrem, assim como o seu nível de instinto. O negócio, ou seja, a restauração, ia de vento em popa, e os clientes de Saúl e daquela arte estabeleciam o seu próprio diálogo com a corcunda. Uma cliente, de nome Ana, tinha um fascínio pela corcunda.

No final daquela degustação de comida, Saúl limpou o rosto, era uma mistura de suor e molhos, sem esquecer um ou outro vestígio de ervas do campo. Ana despiu-se por completo no centro da sala, e chamou por Saúl. O corpo de Ana era magro, e alguns pêlos da púbis mediam quase meio palmo. Saúl agarrou um banco de cozinha, a fim de colocar o mesmo no sítio indicado por Ana. Então, Saúl sentou-se no banco, que tinha um pequeno orifício, e despiu a sua camisa de uma só vez. Ana ajudou Saúl a inserir o pénis no orifício do banco. As mãos de Ana esfregavam a corcunda, e o banco movia-se uns centímetros sob o peso de Saúl, que contava o episódio de uma discussão que teve com um gerente de alguns restaurantes em Espanha. A voz era rouca, e Ana não se mexia nenhum milímetro. Quando Saúl gritava, Ana remetia-se ao seu silêncio, e algumas imagens dentro da sua cabeça eram um circuito de visões de abuso.

Após meia hora de massagem, Ana colocou-se de cócoras observando o pénis em repouso. Pela janela entrava uma massa de ar quente que fazia mexer um pouco o pénis no interior do banco. O ritmo cardíaco de Saúl estava a aumentar, e em simultâneo o pêlo de Ana ia rodopiando ao abrigo das peles. Mal se sentiu duro Saúl levantou-se do banco, e o pénis bateu, no último instante, naquela superfície de palmo e meio. Em seguida, Ana colou o seu corpo no corpo de Saúl, as mãos ao nível da zona lombar. Era um aconchego que parecia adquirir outro significado perante a simplicidade da decoração daquela sala de jantar; dois corpos sem roupa que se imobilizaram no frio daquele soalho.

Ana agarrou o pénis de Saúl, ao mesmo tempo que lhe acariciava o ponto saliente que fica junto ao cu. Por sua vez, Saúl segurava o banco com firmeza. Aquele aconchego entre homem e mulher que se instalara no centro do apartamento era então uma soma de nervos e de puxões. À medida que Ana masturbava Saúl, o banco ia batendo contra o soalho. À retaguarda de Saúl, Ana aquecia o seu corpo lentamente, e o cabelo rodopiava em redor daquela corcunda. Saúl agarrou o banco de pernas para o ar quando sentiu uma onda de prazer que lhe percorria a zona do diafragma. Em seguida, Ana parou de mexer no prepúcio, que latejava, e Saúl bateu com o banco contra o soalho. Depois disso Ana retomou a masturbação, e Saúl batia com o banco contra o soalho no momento de conter o seu orgasmo.

O barulho projectava-se ao longo de todo o bloco de apartamentos. À porta de Saúl apareceu Artur, nu, que respirava com algumas dificuldades. A temperatura naquele corredor era cada vez mais baixa, e a pele de Artur reagia a esse facto. As mãos sem pêlos bateram na porta, a palma bem estendida, uma e outra vez, e o som era como um trovão no silêncio de casa. Saúl e Ana deixaram de se mover, no apartamento havia um vazio de palavras. Então, Saúl pedira desculpas no seu íntimo. Mil vezes desculpas. Artur continuava junto à porta de Saúl, e de repente apareceu a empregada de limpeza, era uma mulher ruiva. Artur permanecia nu junto à porta de Saúl, que era o único que pagava o condomínio no fim do mês, e a mulher pediu-lhe desculpa, pois não pensou que estivesse alguém naquele corredor.


Jaime M. M. Soares nasceu a 14 de Janeiro de 1987, em Vila Nova de Famalicão. É um jovem activo e contemplativo, um criador e agente das Letras. É licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas (Português/Inglês) e mestre em Estudos Anglo-Americanos (Literatura e Cultura), pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2016, foi-lhe atribuída uma bolsa pela Associação Luso-Britânica. Assim, por um período de um ano, trabalhou no CETAPS (Centre for English, Translation, and Anglo-American Studies) como estagiário, ajudando a desenvolver actividades culturais e académicas como, por exemplo, seminários com docentes e escritores, assim como sessões de cinema.

Jaime M. M. Soares é colaborador do CETAPS, tendo apresentado, até à data, comunicações em conferências no Porto, em Braga e em Boston (neste último caso, in absentia). A revista da “Don DeLillo Society” inclui um artigo da sua autoria intitulado “Don’t blame the players, blame the ‘system’: a systemic reading of Don DeLillo’s The Names” (2017).

Por outro lado, é autor de dois livros de prosa e de dois livros de poesia, sob pseudónimo, Mosath.
Em 2014, foi premiado no 1.º Concurso Internacional de Literatura da ALACIB (1.º lugar, categoria Crónica, texto “Caixa”). Actualmente, é um crítico literário com um canal no Youtube, “Bate-Livros”.


© Revista Triplov  .  Série Gótica .  Inverno 2017