Adam Zagajewski

ADAM  ZAGAJEWSKI
Seis poemas

Traduzidos por Francisco José Craveiro de Carvalho
com base em versões inglesas de Clare Cavanagh


Procura enaltecer o mundo mutilado

Procura enaltecer o mundo mutilado.
Recorda os longos dias de Junho,
os morangos selvagens, gotas de vinho, o orvalho.
As urtigas que cobrem metodicamente
as propriedades abandonadas dos exilados.
Tens de enaltecer o mundo mutilado.
Observaste os barcos e iates elegantes;
um deles tinha uma longa viagem pela frente,
enquanto o esquecimento salgado esperava outros.
Viste os refugiados dirigindo-se para lado nenhum,
ouviste os carrascos cantarem alegremente.
Deves enaltecer o mundo mutilado.
Lembra os momentos em que estivemos juntos
num quarto branco com a cortina a esvoaçar.
Volta em pensamento ao concerto em que a música se incendiou.
Apanhaste bolotas no parque no outono
e redemoinharam folhas sobre as cicatrizes da terra.
Enaltece o mundo mutilado
e a pena cinzenta um tordo perdido,
a luz suave que se extravia, desaparece
e que volta.


Morte de um pianista

Enquanto outros travaram a guerra,
procuraram a paz, estiveram deitados
em camas estreitas de hospitais
ou tendas, ele treinou

*

dias seguidos as sonatas de Beethoven
e dedos esguios, como os de um avarento,
tocaram em tesouros grandiosos
que não lhe pertenciam.


Onde a respiração está

Está de pé sozinha no palco
sem qualquer instrumento.

*

Coloca as palmas das mãos sobre o peito,
onde nasce e morre
a respiração.

*

As palmas das mãos não cantam
nem o seu peito.

*

O que canta é o que permanece silencioso.


A Europa vai dormir

Para Gosia

A Europa vai dormir; em Lisboa jogadores de xadrez
que envelhecem franzem ainda as sobrancelhas.

Um nevoeiro acinzentado ergue-se sobre Cracóvia
e torna pouco nítidos os contornos de velas venerandas.

O Mediterrâneo balança ligeiramente
e em breve será uma cantiga de embalar.

Quando a Europa estiver a dormir por fim,
a América vigiará

o pobre mundo silencioso
cheia de desconfiança, como uma irmã mais nova.


Tarbes

Crescem palmeiras no jardim onde
enterraram o inverno.
A sombra dos Pirinéus
balança no horizonte.
Tudo pode acontecer.
Casas cheias de pó, janelas fechadas.
Tordos escondidos nos ramos da paulóvnia cantam
animadamente ao fim da tarde,
enquanto a noite surge nas ruas vinda de leste
como a Legião Estrangeira.


Natação

Os rios deste país são doces
como uma canção de trovador,
o sol forte vagueia em direcção a oeste
em carros de circo amarelos.
Pequenas igrejas de aldeia
sustentam um tecido de silêncio tão fino
e antigo que até um bafo
o pode rasgar.
Gosto de nadar no mar, sempre
a falar consigo próprio
no tom monótono do vagabundo
que já não se recorda
com precisão de há quando tempo anda na estrada.
Nadar é como rezar:
as palmas da mão juntam-se e afastam-se,
juntam-se e afastam-se,
num movimento quase sem fim.

 


Adam Zagajewski, nascido em 1945, em Lwów, é um poeta, romancista, tradutor e ensaísta polaco. A sua actividade literária tem recebido amplo reconhecimento, sendo ele o vencedor do Prémio Princesa das Astúrias (Literatura) em 2017.