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::::::::::::::::::::Pedro Proença::::
O IRRECONHECÍVEL
Soneto imaturo

Somos criaturas psicológicas, e precisamos de cacau como combustível para disfarçar as iniquidades que o amor provoca.

Tu que te recatas nos elogios pintados de seres um pretexto, deixa-te embalar na beleza estranha que a todos ameaça.

A mão injuriosa do tempo esmaga e remexe não só as evidências mas até as intimidades mais ignoradas pelos seus sujeitos – há permanentemente uma inclemente desapropriação.

Quando as horas drenaram seu sangue e encherem sua testa com as linhas e enrugamentos e transplantes...poderei chorar ou rir?

A sua graça será condensada na visão atribulada destas linhas escuras, e reviverá, quem possa, as verdes verdades destas minhas imaginadas tormentas.

Só o tempo é suficientemente perverso.

Os instantes ao passarem ruminam-nos, e ao nos removerem, quer para fora do tempo, quer da eternidade, também absolvem o eros e a paixão.

Este pensamento é como uma morte que não se pode escolher – chicoteia-nos em ânsia de ter aquela que tememos perder, e mais as outras que já foram e as que ainda estão por nascer.

Quando o jovem nojo habitar com tendas negras na claridade alheia nem a viajem nas cavernas da noite é garantida.

Bomba suporífera – degrau da idade.

Uiva-se fácilmente pela glória, da qual a beleza é a versão menos agoirenta.

Ninguém arrancará da minha memória o seu cruel explendor – mesmo que se trate de uma cárie.

A faca cruel da idade só corta fatias de confusão em cada recordação.