PSICOMORFILUM / XANGAIADA CHIC-CHOC / Uma espécie de romance
PEDRO PROENÇA (ROMANCE E PINTURAS)
08-10-2003 www.triplov.com

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Psicomorfilum
(Janeiro/Julho 1982)


Uma
Espécie
De
Romance



(PRE
FÁCIO
2003)

Dei-me ao trabalho de dactilografar estas páginas ilegíveis e experimentei um prazer pessoal que não esperava. Confesso-o. Devo também confessar a vergonha habitual que os escritores gostam de confessar. Um bhaaah! Porcarias do fim da adolescência. A razão da minha passagem a limpo prende-se exclusivamente com a minha celebração íntima do ANNUS HOMEOSTÉTICUS. Estas páginas traduzem a emergência da Homeostética antes das exposições, que só decorrem um ano e picos depois.

Esta «espécie de romance» sobre uma pintura da escola de Leonardo é apenas uma parte, a mais significativa, de um livro com 64 capítulos. A sua redacção pressupôs desde o início que seria revista, desfeita, acrescentada, dilacerada, transformada, etc.. Tomei dezenas de notas nesse sentido, mas acabei por nunca o levar à prática. Talvez agora o comece a levar.

A influências óbvia de Joyce misturou-se com a da música dita contemporânea. Cage, em primeiro lugar. Não conhecia na altura as suas «empty words», mas há alusões neste texto à mesóstica. Fui influenciado por Almada, Ângelo de Lima, pelos futuristas, pelos poemas fonéticos de Jorge de Sena, pelos dadaístas, por alguma poesia da beat generation, etc., etc., etc.. Há tambérm (e infelizmente?) um tom demasiado a puxar para o «cósmico» que se deve à leitura de Mircea Eliade, Klee e Jung.

Tenho a sensação de que este é o texto mais radicalmente experimental e post-moderno escrito por cá. A sua qualidade é para mim um facto menor. O ar descomposto, colado, improvisado, intencional/não-intencional, simbólico e abjecto, infantil e retórico, lúdico e culto, etc., passou para a minha pintura e descreve-a ainda hoje melhor do que os meus próprios actos críticos, que são mais conscientes na consciência que adquiri, mas menos naturais.

Há uma teatralidade, um desejo performativo, um autobiografismo e uma pura combinatória, por vezes demasiado desregrada. Há os lirismos à portuguesa de que hoje já não sou capaz e algum exibicionismo sexual de fim da adolescência. Não sei se isto é ou não publicável, mas este é o meu ajuste de contas comigo e o desejo de o fazer chegar aos meus amigos, que espero que sejam compreensivos e lhe deitem uma vista de olhos.

É o retrato, de um milhar de pontos de vista, do que eu estava a ser. Um desejo ardente, pretensioso, por vezes foleiro, mas, diabos, o que é que se pode esperar de imberbes e ambiciosos 19 anos?