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PEDRO PROENÇA
Orquideias atópicas

Embaraça-nos sobranceiramente a incapacidade masculina de pôr os pontos nos is e de mostrar como é o que é, com ou sem exactidões menores.

Os homens são seres exteriores, vivendo nas suas confortáveis e bem menos problemáticas hormonas, e graças a elas donos de um inconsequente pudor a que também forçaram as mulheres durante indeterminado tempo. Os feminismos tornaram-nos mais esclarecidas, mas não temos a certeza se mais emancipadas! Quanto aos machos, continuam confusos, incapazes de se pensarem e de trocarem os seus ridículos «comia-te toda!» por uma consciência mais acutilante da sua pobre situação. Creio que temos que ser nós, mais uma vez, a fazer o servicinho todo, e a pensar-lhes a macheza, na substância, mas não no modo. É este esforço generoso que nos torna ainda mais mulheres, e que poderá um dia, se a sua estupidez não persistir tão assiduamente, libertar os homens de um eterno servilismo às «suas» mulheres, coisa que Hegel nem sequer conseguiu discernir na sua espirituosa Fenomenologia. Daí estas Orquideias Atópicas, dedicadas à Maria e ao Marcelo...

Sóniantónia e Sandralexandra

 

 

  1. Aos outros, que se arrastam nos mesmos nomes declinantes, na exuberância de não deixarem marcas, no ruído irrecuperável que sobra aos silêncios entretanto amarelecidos - como uma jibóia esquiva que ressoa e aperta o pescoço às imensas florestas em que não ousamos entrar. Que florestas? As florestas de Babel!
  2. Não podemos deixar de ser a excepção flutuante, inclinada para toda a exterioridade, na inexactidão crescente que contradiz as mortes.
  3. A terra não te poderá ensinar muito mais do que a sua constância assassina e anónima - a mineralização como evidência - e a cumplicidade feroz com os desertos lunares.
  4. A carne para ser carne tem de aprender a descer, ternamente, a si mesma.
  5. As provas da sua existência são menos diminutas para além do modo fulgurante como os sentidos se acendem.
  6. A imagem - ruminação pânica de um gosto que se afina para uma predação insaciável.
  7. De nós nem a acre voz pode declarar algo com o rigor da sinceridade.
  8. Não há escândalo que não seja a simulação de uma decepção antiga - mesmo anterior à humanidade erecta ou para sexo deitada. Uma decepção ante o desaparecimento dos ornamentos que sustentavam a glória.
  9. Traduzo-me numa infidelidade sistemática, como se a escuta de aedos antigos fosse um desejo de domar as distorções canoras.
  10. Exterior aos espasmos civilizacionais, ainda que gargarejando numa linguagem embaraçante, sinto em redor os signos boquiabertos com uma ferocidade carnívora e em perigosidade iminente.
  11. Buscaram-me os lugares porque me não soubera sequer buscar - mas andava de um lado para o outro, furtando-me às inclemências vorazes de cada espaço. Afinal os espaços querem devorar-nos muito - escapo-me como se passasse a uma dimensão sonora.
  12. As perguntas que poderia ter feito estavam seladas, se é que havia alguma pergunta de escondido mérito - reclinava-me numa arte refutante para não ser excessivamente cúmplice da tentação das evidências.
  13. Do íntimo das simplificadas mães, até ao espólio que se dispersou noutros contornos fecundáveis - nada é meu senão em exílio de Duplo.
  14. Alegra-nos o facto das civilizações já não serem povos e das línguas antigas e desconhecidas contaminarem de uma forma decisiva os nossos mínimos gestos - mesmo o sabor da água que beberemos demasiado tarde.
  15. Chamamos a essa cólera que rasteja justiça, como se os saúrios tivessem a arte de ser sibilinos.
  16. Há amores que transpiram para além da alegria incontida - entramos pois em mapas selvagens onde o desejo nos devora antes da eternidade.
  17. A equação que iguala o odor ao êxtase faz mais sentido que o catálogo das metamorfoses que nos aguardam - o inesquecível, o súbito, o palpitante sem anamorfoses ou arredores.
  18. Residia na prudência para cometer premeditadamente imprudências sistemáticas e sucessivas - um coabitar amoroso, embora elíptico. Curvando espaços que tinham sido feitos rectos. A paixão é inconciliável com as quadraturas.
  19. Mesmo os mais temíveis eram necessários para aperfeiçoar a tua subtileza - só os cânticos que derrubam muralhas são afins da alegria divina.
  20. Nomeio a girafa porque a sua altivez é um dom da aproximação - não sou como o archeiro que sabe acertar metáforas em alvos certos, mas aprendo a ser o indigente anterior ao indígena, uma criatura plumativa mais antiga que qualquer aborígene.

 

 

 


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