CLAUDIA SAMPAIO....
Noite morta e outros textos
noite morta

a paragem de autocarro embateu-me no peito

com toda a força – carruagem de comboio

em descontrolo amoroso, bancos partidos

com a miséria de um adeus

 

estava a pensar chocar contra um táxi

e engolir o taximentro com dois ou três dentes

mas a paragem, abrupta, chocalhou-me o

que ia cá dentro

subiu-me à cabeça o que estava em baixo e

desceu-me o que estava em cima

ficaste-me aos pés, assim de repente

lagarta fugidia a engraxar-me os

sapatos

 

infinitas partículas de vidro sobre a minha

pele, mas não doeu

doeu-me mais não saber que dia era

odeio as terças e as quartas porque

são indefinidas

doeu-me

não saber se te lembras da última roupa

que trazia vestida antes do embate

que tenho um espaço entre os dentes da frente –

ponte subtil que me liga da esquerda

para a direita

e que os meus olhos são oficialmente tristes

 

tantas coisas para embaterem em mim

para me lembrarem que durmo pouco

mas foi a paragem de autocarro mais vazia

daquela noite

 

a garrafa já estava perdida há muito

entre três turistas londrinos que me

cantaram o hino e me levaram em

braços até ao diabo que me

carregou

 

tenho raça de quem leva com tudo

pragas, gafanhotos, jardins desertos

betão desprovido de tinta em cima,

cascas, caroços, souvenirs

 

e agora levei com a paragem mais

triste de Lisboa

aquela que fica  junto à esquina

do primeiro eléctrico, onde uma

velhinha que passou disse

“puta que lhe pariu os cornos”,

e onde, caso te lembres,

o amor era uma anedota

com a qual ainda nos ríamos.  

A lucidez é uma puta que me escova os dentes quando tenho preguiça. Utrapassa-me na auto-estrada, faz-se de morta para lhe fazer festinhas e dá o meu nome na declaração de impostos. Mesmo quando quando me afogo com relampejos de água ardente fria atiram-me o juízo para a cova de um piegas qualquer. E eu que tenho nojo à pieguice. Nojo, nojo, um nojo apertado, asmático, prefiro jogar à roleta russa ou montar-me numas costas felpudas. Eu, que quase fui santa no outro dia, mas saíram-me palavrões a pedalar de capacete, uma tour de France. Um pouquinho mais de cegueira, vá lá, que doem-me os olhos de tanto espalhafato e o meu circo ardeu em 1987, uma beata mal apagada. Juro que não estou a ser irónica, isso é só aos domingos quando vou à missa e me passeio pelo chiado com a hóstia pendurada na orelha.

a cama torta

 

não sei concretamente o que é sonhar

nem o que é estar acordada

misturo as duas coisas com

inocência

e sai-me uma longa estrada

que me deixa no purgatório

 

eu sentada a tentar dormir

com a Adília ao colo,

a sonhar comigo

a sonharmos com alguém

ambas com as gatas

nos champs elysees

O egocentrismo reproduz-se por omnipresença, deus de todas as coisas.

Vejo-o na minha cerveja preta, a boiar na espuma, em colchão azul, a sorrir-me com dentes de aço. Vejo-o em cada mesa da esplanada, em cada par de perna com ou sem varizes, nos narizes grandes ou pequenos, nos queixos barbudos. O egocentrismo também tem barba, mas apara-a de vez em quando porque é egocêntrico. Vejo-o em cada partícula de caspa que salta para outra cabeça com a ligeira brisa, vejo-o nos dentes bem ou mal lavados, na roupa torta ou engomada. O egocentrismo também anda engomado. O egocentrismo tem a voz aguda e está às vezes numa esquina de beiços esticados a pedir beijinhos, com a perna semi-flectida em pose de sedução isenta de vergonha. Se for preciso retorce-se todo e entra numa veia transeunte, expandindo-se célula a célula até fazer a língua ficar de fora e as palavras se tornarem mongoloides.

e-e-e-euu e-eu-eu e-e-e-eu eu eu eu -e-e-e-e-e-eu eu -euuuuuuu eu e-e-e-eu - uma música imperceptível que oiço sair das bocas do Chiado.

Transe não alcoólico, não derivado de qualquer doença nem psicoactivos, uma marcha fúnebre cantada em coro, mas sempre em silêncio.O egocentrismo gosta de silêncio.

Andar de crucifixo seria pouco.

Andar descalça chamaria a atenção.

Enfeito-me com um colar novo comprado ao indiano e deixo escapar um

e-e-e-eueueueuuu mi-mi-mim-mim-mim e-e-eu-eu-mimimim mim - tão mongolóide que dói.

A cerveja preta está boa, mas falta-me a tua presença para falar sobre a minha teoria e saber se já fui completamente contaminada.

Sei que tudo explodirá mais depressa do que ontem.

Se calhar virás com a perna semi-flectida, semi-barbudo, semi-desprezível e o teu cumprimento será

e-e-eu-eu-eu-eu-eu-e-e-e-eu-eu-eu-eu-eu-e-e-e-e-e-e-e-e-e-e-e-ee--e-e-e-e-ee-e-e-e-e-e-

Então e nós? Nó-nó-nó-nó-nós?

Então e o resto? E o que nunca mais se viu? Aonde andam as palavras para aquela coisa resquícia em mim que já nem nome lhe dou? Aonde anda a simplicidade de nos sentarmos a falar sobre coisa nenhuma? Aonde anda o outro braço daquele homem? E porque é que atiraram para aqui uma beata sem sentido?

Porque é que alinho os guardanapos na mesa enquanto não vens, porque é que vejo se tenho borrões no canto da boca?

Nó-nó-nó-nó-nós-nós-nós - não nos desenlaçamos.

O mongloidismo da espera, mesmo depois do cabeleireiro. A deficiência do peito, mesmo depois dos comprimidos.

Está aqui um arbusto seco com os ramos ainda sublimes há espera de uma reencarnação.

Porque é que não nos reencarnamos já? Porque é que só tenho dinheiro para uma cerveja mas fui ao cabeleireiro?

e-e-e-e-e-e-eu-euuuu-eue-eueueueueu-eu-e-e-e-e-euuuu-eueueu

Sim, fui ao cabeleireiro e talvez me cortem a electricidade. Mas tenho esta doença que me abre falhas no cabelo. Tenho esta doença com falhas.

Não posso imaginar maior romantismo do que ter sido contaminada pelo mongloidismo do eu e estar sozinha na minha sala às escuras, com o cabelo aprumado e liso, como um hamster dado à luz.

Cláudia R. Sampaio nasceu em Lisboa em 1981. Dedicou-se ao ballet, ao teatro, à pintura, ao cinema e à escrita de ficção para TV, sendo a poesia a sua forma preferida de comunicação.  Blog: http://genocidiopoetico.blogspot.pt/2013/05/a-culpa-e-minha.html