REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências


nova série | número 44 | fevereiro-março | 2014

 
 

 

 

A.M. GALOPIM DE CARVALHO


Palingénese

 

A.M. Galopim de Carvalho (Portugal). Geólogo e ficcionista. Professor jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.  

 

EDITOR | TRIPLOV

 
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  Ciclo petrogenético. (Imagem retirada de sofiablogecn.blogspot.com)
 

 

Termo erudito do glossário geológico, palingénese radica nos étimos gregos palim, que quer dizer de novo, e génesis, que significa acto de gerar. Em linguagem vulgar é o mesmo que renascer. O termo foi usado por alguns autores para referir a fase do ciclo petrogenético que conduz à formação do granito por fusão dos sedimentos de que são feitas as montanhas, no seu interior profundo, durante a respectiva formação. Para outros autores, o mesmo processo toma o nome de anatexia (do grego aná, novo, e teptikós, fundir).

Na formação de uma montanha, em consequência do fecho de um oceano e da colisão das massas continentais que o ladeavam (um processo que pode demorar quatro a cinco dezenas de milhões de anos), parte dos sedimentos acumulados nos fundos e nas margens desse oceano e cujas espessuras podem atingir milhares de metros, são forçados a mergulhar algumas dezenas de quilómetros, em profundidade[1]. No referido mergulho, os sedimentos vão ficando sujeitos a temperaturas e pressões cada vez mais elevadas, sofrendo modificações nas respectivas texturas e composições mineralógicas. A tais modificações, quando ainda processadas no estado sólido, convencionou-se chamar metamorfismo e as rochas dele resultantes são adjectivadas de metamórficas. Por exemplo, os sedimentos terrígenos habitualmente referidos por pelitos (argila mais partículas muito finas de quartzo e de outros minerais), quando submetidos a condições moderadas de temperatura e pressão, transformam-se nos conhecidos xistos argilosos e nas ardósias ou lousas. Os que desceram um pouco mais deram origem aos filádios, também chamados xistos luzentes, uma vez que a componente argilosa se transformou em minerais algo brilhantes (ou luzentes), como a sericite, a clorite ou o talco. Mais profundamente, formaram-se os micaxistos e, ainda mais abaixo, os gnaisses.

A profundidades na ordem dos 30 quilómetros, a temperatura pode atingir os 700 a 800 oC, e a pressão ultrapassar as 4000 atmosferas. Neste ambiente e na presença de água (contida na composição das argilas) tem lugar a fusão parcial das rochas, ou seja, a fusão dos minerais menos refractários (quartzo e feldspatos). Entra-se aqui no domínio do ultrametamorfismo e o processo, como se disse atrás, toma o nome de anatexia ou palingénese, dando origem, primeiro, a migmatitos[2] e, finalmente, no caso de fusão total, ao renascimento do granito[3]. Os granitos do soco hercínico[4] (ou varisco[5) português, de norte a sul, são granitos renascidos por esta via, numa orogenia ocorrida há 360-300 milhões de anos.

Quem frequentou a escola nas últimas décadas, talvez se recorde da tectónica de placas, a teoria que fala de continentes à deriva, quais imensas jangadas de pedra, de oceanos que se abrem e que, milhões de anos depois, se fecham. Talvez se lembre do ciclo geotectónico global, proposto pelo geofísico canadiano John Tuzo Wilson (1908-1993), segundo o qual as massas continentais resultantes da fragmentação de um supercontinente se tornam a reunir num novo supercontinente, com uma periodicidade média avaliada na ordem de 400 a 500 milhões de anos, fazendo renascer montanhas. Renascer, porque as rochas que as edificam correspondem à transformação de sedimentos acumulados durante milhões de anos nesses oceanos, sedimentos que resultaram da erosão de montanhas anteriores.

Renascer é um processo que remonta aos primórdios do Universo. Na sequência das explosões das primeiras estrelas, surgidas, segundo se crê, há 12 500 milhões de anos (mil milhões de anos depois do Big Bang), nasceram outras por aglutinação dos respectivos despojos (gases e poeiras) lançados no espaço. O nosso Sol renasceu, assim, de uma estrela anterior, num processo cuja história julgamos poder contar, olhando o céu com os equipamentos adequados.

Os petrólogos falam de magma primário sempre que se referem à lava incandescente a brotar de um determinado vulcão. Adjectivam-no assim porque admitem que ele surge directamente do manto superior, por fusão parcial ou total deste, sem que tenha havido qualquer contaminação por parte de rochas da crosta. Consideram-no, pois, um magma juvenil, primitivo ou primordial e, por isso, um ortomagma, ou seja, um verdadeiro magma. Porém, não devemos esquecer que a rocha (peridotito) do manto superior de onde ele surgiu por fusão parcial, foi magma nos primórdios da formação do planeta, quando este, segundo se crê, esteve envolvido por um oceano de rocha em fusão. Quando há cerca de 70 milhões de anos a região de Lisboa-Mafra, era palco de intensa actividade vulcânica ou quando, em 1957, surgiu o vulcão dos Capelinhos no extremo oeste da Ilha do Faial, nos Açores, foi, como em todos os vulcões da Terra e em todos os tempos, magma a renascer.  

Renascer é uma constante nas histórias do Universo, da Terra e também dos homens. Vem de longe a ideia de renascer. Bennu, a ave da mitologia egípcia, ateava o fogo ao seu ninho e deixava-se consumir pelas chamas, renascendo depois, dos seus restos calcinados. Na Grécia antiga era Fénix que renascia das próprias cinzas. Há um paralelo entre esta ave mitológica e o Sol, que todos os dias morre no longínquo Poente, para renascer na manhã seguinte, do outro lado do mundo, numa alusão da morte e do renascimento da natureza. Na expressão figurativa do cristianismo, o renascer da Fénix tornou-se um símbolo popular da ressurreição de Cristo. Nos nossos dias, “Fénix 2” foi o nome escolhido para designar a cápsula que, numa operação prodígio da engenharia mineira com o selo da NASA, fez renascer, um a um, os 33 mineiros da mina de São José, no Chile, soterrados a cerca de 700 metros de profundidade, em Agosto de 2010.

   
 
 

Momento do resgate de um dos mineiros, em 13.10. 2010 (imagem retirada de cienciahoje.pt)

   
 

No final da Idade Média, fazendo a transição para a Idade Moderna, teve lugar em Itália, nomeadamente nas cidades de Florença e Siena, um período marcado por transformações em muitas áreas da vida humana, em particular nas artes, na filosofia e nas ciências, com evidentes reflexos na sociedade, na economia, na política e na religião, na Europa. Foi a ruptura com as estruturas antigas e em transição gradual do feudalismo para o ideal humanista e naturalista. O historiador, pintor e arquitecto italiano Giorgio Vasari (1511-1547) designou este florescente período da chamada civilização ocidental, por Renascimento, em virtude de ter feito renascer e revalorizar as referências culturais da Antiguidade Clássica. 

Renasceram cidades depois de destruídas por catástrofes naturais ou pelas guerras. Renascem para a vida as mulheres e os homens que se libertam dos agentes opressores, sejam eles outros homens ou mulheres ou as tristemente célebres substâncias psicoactivas. Renascem os cravos vermelhos, todos os anos, em Abril e, logo a seguir, nos campos, as espigas do trigo e as papoilas, ao mesmo tempo que, nas cidades, avenidas, praças e jardins se cobrem de um tapete de pétalas lilases de jacarandás.

 

 

[1] - Sabemos que o planeta conserva, no seu interior, grande parte do calor original e o que resulta da desintegração de certos isótopos radioactivos, presentes na constituição de algunsminerais (feldspatos, micas e outros) de rochas como, por exemplo, os granitos. 

[2] - Migmatito – rocha ultrametamórfica, gerada por palingénese ou anatexia, de que resulta uma composição granitóide, na qual uma parte foi fundida e outra, mais refractária, permaneceu no estado sólido. Ao nível do terreno, situa-se na passagem das rochas metamórficas da catazona, como é o gnaisse,  ao granito franco. 

[3] - Em sentido lato, o que inclui a generalidade das rochas granitóides (granitos, granodioritos, tonalitos, etc.)

[4] - hercínico – ciclo orogénico situado entre o Devónico superior e o Pérmico, representado por diversas cadeias, com destaque para os Urais, Europa do Sul e Norte de África. Na Europa, o orógeno é formado pela soldadura dos escudos Africano e Báltico. Do nome latino da Floresta Negra (Hersynia silva), na Alemanha. O mesmo que varisco. 

[5] - varisco o mesmo que hercínico. Do nome dos habitantes da Curia Variscorum, versão latina de Hof, na Baviera.

 

 

© Maria Estela Guedes
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