MAJOR MIGUEL GARCIA

A GEOPOLÍTICA DA SIDA
Francisco Proença Garcia
Maria Francisca Saraiva

INDEX

Introdução
1. A evolução do fenómeno no mundo
2. A SIDA e o selénio
3. SIDA e Segurança
3.1. Os reflexos na população
3.2. A SIDA e as operações militares
3.3. A SIDA e o Estado
4. A resposta ao fenómeno
Conclusão
A Sida em números
Referências bibliográficas

3.1. Os reflexos na população

Em primeiro lugar, nos países mais afectados a taxa de mortalidade aumentou drasticamente. O mesmo sucedeu com a esperança média de vida, seriamente afectada nestes casos. Estima-se que nalguns países uma larga percentagem da população, que poderá chegar aos 60%, hoje com 15 anos não atingirá os 60 anos (1).

Os efeitos do HIV na mortalidade adulta é maior na faixa etária entre os 20 e os 30 anos e é propocionalmente maior no caso das mulheres. Outro sinal preocupante tem que ver com o facto dos índices de mortalidade para portadores de HIV em países em desenvolvimento serem até 20 vezes superiores aos encontrados nos países mais prósperos, o que reflecte bem as dificuldades no acesso às terapias antiretrovirais.

Cite-se que, desde 1999, a esperança média de vida recuou em 38 países. Com efeito, em 7 países africanos onde a prevalência de HIV excede 20%, a esperança de uma pessoa nascida entre 1995 e 2000 é agora de 49 anos, ou seja, 13 anos menos que na ausência de SIDA. Perspectiva-se que na Suazilândia, Zâmbia e Zimbábue a esperança média de vida de pessoas nascidas na próxima década seja inferior a 35 anos. A menos que a resposta à SIDA seja drasticamente fortalecida antes de 2025, estes países terão populações 14% menores do que na realidade teriam se não houvesse SIDA.

Mais alguns factos revelam a dimensão do fenómeno. Referimo-nos ao facto de o HIV, apesar de mais urbano do que rural, não se encontrar uniformemente distribuído ao longo das populações nacionais. O que significa que a epidemia altera drasticamente as estruturas demográficas dos países mais fortemente afectados pela pandemia. As pirâmides demográficas passam a apresentar novos padrões. Quer isto dizer que países como a África do Sul verão a sua estrutura etária perturbada: haverá menos pessoas entre os 30 e os 50 anos e também menos mulheres que homens.

Neste contexto, não admira que a SIDA provoque uma tendência de aumento das situações de orfandade. Parece, portanto, que estamos em presença de estudos prospectivos que indicam que, em 2010, serão cerca de 40 milhões as crianças abandonadas e privadas da presença dos pais (2). Estas crianças dificilmente recuperarão as condições para terem uma vida normal, com todas as consequências sociais que a situação acarreta.

Notas

(1) NAÇÕES UNIDAS (2004 b), ob. cit..

(2) INTERNACIONAL CRISIS GROUP, ob. cit., p. 24.

 

Francisco Proença Garcia. Major de Infantaria, Professor do Instituto de Estudos Superiores Militares.

Maria Francisca Saraiva. Assistente no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Mestre em Relações Internacionais.