Nova Série

 
 

 

 

 

 

NICOLAU SAIÃO
Três poemas para um fim de semana: C.Ronald, António Luís Moita, Jules Morot
Caros/as confrades
  É sempre uma delícia sentir de novo o bom tempo de primavera.   
  Neste dia que antecede o fim de semana, através da janela da salinha que me serve de escritório/biblioteca entra de novo o bom sol dos dias com a sua carga de alegria e de sossego fecundo.
  Quero enviar-vos no anexo, com a estima que sabeis, três poemas para uns momentos de fruição: um do Brasil, outro (inédito) de Portugal e, o terceiro, da França - irmanando-se os três na naturalidade que lhe vem da qualidade que possuem.
 E antes de passarmos à sua eventual leitura, faço questão de referir:
 1. Que foi criado sob a égide da AGULHA e por isso me congratulo, o  Centro de Estudos Literários Latino-Americanos Floriano Martins (CEL-FM). (Agulha, esta, que fez sair há um par de dias o seu número 25, que vos suscito a ler. Vale bem a pena!).
    Sendo conhecidos o pundonor e a qualidade do autor de "Alma em Chamas", tem-se como seguro que o Cel-Fm será uma pedra branca na pesquisa, na escrita e na apresentação de textos e de autores do espaço que irá atingir.
2. Permito-me chamar, desde já, a atenção para a próxima edição da Revista TriploV (a sair no próximo mês) que terá como leit-motiv, mas numa perspectiva lata, o 25 de Abril. Aliás, é também muito boa leitura o número de Fevereiro-Março, em linha, que pode ser consultado numa visita a esta notável página cultural dirigida por Maria Estela Guedes.
3. Em próximo envio aos confrades serão dados a lume poemas de Mariano Auladán e Enrique Carlón, acompanhados duma carta inédita deste último. A poesia espanhola de ponta soma e segue.
  E por ora, resta-me enviar a todos/as o meu proverbial abraqson de cordial estima.
  O vosso,
          ns
VOU VER

 

Vou ver a minha velha mãe. Quanto tempo,

meu deus, não a vejo. Lembro o silêncio

da casa quando nela eu estava. A conduta

do ser inexplicável, não contradiz, entretanto

essa coisa parecida à turbulência do filho.

Agora diante daqueles retratos…Haja coisa

para se aprender na falta de luz. O vento

passa os dedos na fachada da casa. Eu me

admiro de estar dentro de um corpo frio,

ultrapassado. Sobe da terra a consciência

e põe as mãos nessa casa de fotografias.

 

 

                                                    C. Ronald

                                                     in “Seguindo o tempo”

 

MONÓLOGO DO ELEITOR

 

Acabaram-se as Direitas?

Dissiparam-se no Centro?

Serão as Direitas feitas

de esquerdino movimento?

 

Sendo as Esquerdas sujeitas

ao mesmo vaivém do vento,

vão, com as nuvens, direitas

à parte esquerda do Centro?

 

E o Centro? O que é o Centro?

Em que centro se situa?

No centro do Centro-Centro

De um satélite da Lua?

 

É um Centro direitista

Para a Esquerda cor-de-rosa?

Ou a tendência Sinistra

Da Dextra silenciosa?

 

Que Centro é esse? Um sinal

de não comprometimento?

Ou, ao contrário, um invento

manobra do Capital?

 

Será o Centro a Direita?

Fascismo com meiga fala?

Medo? Angústia? Um olho à espreita

com raiva de não ser bala?

 

E a Esquerda? O que é a Esquerda?

Para a Direita, agonia?

Para o Centro, mesmo Esquerda?

Para a Esquerda mais esquerda

Retrocesso à burguesia?

 

E a esquerda Extrema-Esquerda

- a que tudo desagrega –

o que será quando vemos

que a Direita se lhe pega?

 

Será mesmo Extrema-Esquerda

a pedir terra queimada?

Ou um braço que a Direita

Manipula encapuçada?

 

Será cravo de pureza

ou goivo de de gula grada?

Lirismo? Farsa? Utopia?

Concreta antropofagia?

Fim do dia ou alvorada?

 

Ou nem sequer há Direitas

nem Esquerdas, nem mesmo Centro,

sendo isto estreitas ideias

em que aprendiz me concentro?

 

Serei eu, nascido outrora

quando só Direita havia,

que ga-ga-gaguejo a História

da De-de-Democracia? 

 

                                              António Luís Moita

                                              in “Poemas Temporais”  

O LUTO A  ALEGRIA

 

Os amigos que estão

no seu pé de página

como em caixão florido

pelos tempos futuros

têm de nós o gesto mais perfeito -

 

um sorriso transido mas mesmo assim

verdadeiro

e muitas mãos para afagar lembranças

e muitos dentes luzindo para criar o verão

e muitos olhos  em repouso para dizer   que é tarde

 

e muitos gritos para dizer que é cedo

e que é a hora de acordar

e de dormir porventura

e de bailar entre as árvores

e de correr entre as sombras

e a luz que elas provocam

e de sofrer um pouco

um pouco ainda

como crianças sem remorso  sem dor  sem amargura

de novo em viagem

 

sem efígie sonhada 

e já desaparecida.

  

        

                                                                   Jules Morot

                                                                   in “Le mardi gras”

 

                                                                                    (Tradução de ns)

 

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas”(Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

Blog : Ablogando, em: http://ab-logando.blogspot.pt/

 
 
 

 

 

 




 



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