Nova Série

 
 

 

 

 

NICOLAU SAIÃO
Nicolau Saião à conversa com Lino Mendes

LM  -  Sei que o amigo Francisco (Nicolau Saião) é uma pessoa atenta ao mundo que nos rodeia, por isso, como define, como caracteriza a situação que se vive no país? 

NS – Sucintamente, um regime partidocrático de democracia tendencial, com incidência cleptocrática daí decorrente, vigorando um domínio evidente de elites autocráticas que manobram o quotidiano a seu bel-prazer, escorando-se em compadrios constitutivos orgânicos manifestados nas formações partidárias e, até. em sectores profissionais de topo. Ou seja, a política ter-se transformado num frio e frequentemente desenvergonhado instrumento de acesso ao Poder – não para benefício dos cidadãos e da Pátria mas de projectos próprios. Daí os escândalos sucessivos que alguma comunicação social corajosamente denuncia e outra cavilosamente esconde ou tenta mesmo abafar mediante o chamado “jornalixo”.

LM - Concorda com o voto obrigatório?

NS – Não concordo. Efectivarem a obrigatoriedade de voto seria, nesta conformidade, um abuso mais e uma prepotência mais sobre o povo e a Nação. Uma vez que – como se compreende – a abstenção é talvez e nestas circunstâncias específicas a derradeira arma que resta aos cidadãos para manifestarem o seu descontentamento para com a muito duvidosa classe política que, ardilosamente, capturou os ritmos realmente democráticos que o Povo luso devia dignamente desfrutar e lhe têm sido camuflados. 

 

LM -  Não é novidade que certos interesses instalados são protegidos pelas próprias leis. O que está mal? Que medidas entende que deveriam ser tomadas? Tem algumas ideias? 

NS – Eu colocaria aqui uma “nuance”: leis, umas, arranjadas em moldes tais que são a indumentária apropriada para salvaguardar os interesses espúrios de certos sectores que tripudiam sobre os cidadãos, de forma irregular e sem ética. Outras, adequadas e feitas por legisladores honestos e que ainda se respeitam, mas desvirtuadas nas instâncias próprias mediante o domínio de entidades que se habituaram a estar acima dessas mesmas leis e que, pese ao trabalho digno das diversas polícias que estatutariamente velam pela boa conduta societária, têm dominado Portugal como se duma herdade ou duma quinta suas se tratasse.

  O que está mal é, fundamentalmente, os “konzerns” políticos terem subjugado em grande parte o poder judicial e terem esvaziado o direito cidadão de exigir verdade e transparência às instâncias gerais governativas e executivas.

  A meu ver, o panorama pode ser modificado – contando-se com as naturais demoras – se Associações de cidadãos levarem os casos evidentes às instâncias internacionais próprias, nomeadamente ao Tribunal dos Direitos Humanos. Paralelamente, portas adentro, essas associações conseguirem que as pessoas da magistratura ajam conforme o verdadeiro Direito, hoje em grande parte colonizado por tartufos ou oportunistas que se servem do seu poder para tripudiarem e intimidarem os cidadãos de bem. E, adicionalmente, dar-se apoio aos que tentam servir esse mesmo Direito para limparem da Pátria as emanações mefíticas com que certos caudilhos a enlameiam.

 

LM - Penso eu que o combate à corrupção passa pela inversão do ónus da prova. O que pensa? Por que não o entendem assim os políticos? 

NS – O combate à corrupção é, diria eu de novo como o disse numa conferência efectivada em França e depois publicada em diversos países (europeus e americanos), o combate nuclear da nossa Nação!

Assim sendo, a inversão do ónus da prova é uma medida legítima do todo desse bom combate. Sejamos claros: só o teme quem tem razões para o temer. O virem com a declaração de que tal seria um atentado aos direitos dum qualquer visado é, apenas e tão-só, uma frase feita, uma desculpa para se manter o ambiente apodrecido em que os velhacos se têm repoltreado. Quando eles dizem direitos humanos dum visado o que de facto buscam é tornar ainda mais impenetrável a barreira de privilégios que tem protegido os fautores de verdadeiro roubo existente. Pois sabe-se a dificuldade que existe, da parte dos investigadores – hábilmente enleados em correntes processuais – em clarificarem a vigarice e a burla.

  Certos políticos – e não digo todos porque ainda há, creio, gente séria na política – procuram entravar o assunto porque temem que havendo limpeza e dignidade os seus interesses e os de apaniguados deles seriam postos em causa. Creio que é tão simples como isto…

 

LM - Um político dizia recentemente que o maior défice que temos é o do "conhecimento”. Mas em meu entender o mesmo não se aumenta através da distribuição de diplomas… 

NS – Diz muito bem. E urge dizer desassombradamente: se temos pouco conhecimento em Portugal isso deve-se precisamente às manobras psicológicas e específicas que têm norteado a “conquista” do conhecimento, torpedeado por manejos que visam analfabetizar verdadeiramente os cidadãos – e não só nos estabelecimentos de ensino, colocados com frequência na situação de verdadeiras máquinas de propaganda disfarçada, veiculando a ideologia e não a ciência, criando um clima de mentira e de logro pese aos esforços dignos e honrados de mestres devotados e que são por vezes os que mais sofrem o ambiente de mediocridade induzida. Com o apoio sinistro, repare-se, de mídias ao serviço da autêntica ditadura de manipulações grosseiras, de que a TV pode ser exemplo a dar.

 

LM -  Em empregos que exigem habilitações até ao 12º ano, penso eu todos deveriam depender de uma prova elaborada em conformidade com as exigências do mesmo (podendo também concorrer quem não tivesse a referida certificação dado que o conhecimento está onde existe o saber).

 NS – Concordo plenamente. Mas isso não sucede porque, a suceder, impossibilitaria a faculdade de se manejarem as célebres “cunhas” (pessoais ou partidárias), tornadas em Portugal (hoje como nos tempos do anterior regime) uma verdadeira instituição…!

 

LM -  Que medidas preconiza para que possamos ter um país mais culto? 

NS – Em primeiro lugar, permita-me o caro confrade uma afirmação de base, uma frase situando os dados da questão: a cultura traz consigo sempre a capacidade de nos interrogarmos sobre o Mundo e a Sociedade - assim sendo, um país mais culto é, de forma legítima e natural, mais exigente no contexto social e, por extensão, societário. E o sonho de qualquer autoritário, de qualquer manobrador – individual ou colectivo – é que o seu mundo de domínio não lhe coloque perguntas, dúvidas ou exigências. Portanto, esses dominadores colocam entraves ao saudável crescimento cultural, o que permite a mentira ideológica, a prepotência doutrinal e existencial, a parlapatice que facilita a “vidinha” aos sátrapas, aos “condottieris” e aos totalitários, sejam cinzentos ou vermelhos. Sejam laicos ou fideístas! 

 

LM -  Acontece, e não raramente, que pessoas mesmo licenciadas, se lembram de escrever sobre temas de que nada sabem, o que se torna perigoso dada a sua posição social os tornar credíveis para muita gente. O que pensa dessas pessoas?

 NS - Em primeiro lugar, sei que o que diz corresponde bastas vezes à realidade. Dado que estou ligado, por razões específicas, a órgãos culturais e de comunicação em vários locais do mundo, tenho o modesto privilégio de dispor de um razoável miradouro sobre esse panorama…

  Não devemos esquecer-nos que a pedantice, a falta de vergonha e o atrevimento são algo muito distribuído/difundido em certas gentes. E se os licenciados são, maioritariamente – permita-se-me esta confiante generosidade formal – pessoas de bem, diplomados dignos e que se respeitam a si e aos outros, também há entre eles insensatos, pretensiosos e canalhas que não prezam nem a honestidade intelectual nem a educada dignidade que uma colação de grau deve transportar consigo. Não devemos esquecer, ainda, que a partidocracia lusa tem incrementado os “doutores da mula ruça” – todos conhecemos os politicões que se especializaram em licenciaturas de aviário e de exames ao domingo, para hipnotizarem os pobres populares a quem indrominam com superioridades de cana-rachada…  

 

LM -   E a terminar, uma mensagem… 

NS – Serei muito breve: a exemplo do que noutra circunstância e enquadramento dizia Montesquieu, guardemo-nos de políticos mentirosos, de cozinheiros de refeições intragáveis e de actores canastrões.

 Actores da coisa pública, naturalmente…

 No que pessoalmente diz respeito ao confrade, desejo que mantenha durante muitos anos a sua bela disponibilidade para continuar a efectuar o seu espaço cultural – que sei hoje lido e seguido em Portugal e em diversos locais do estrangeiro, pela qualidade de artigos e, também, pelo prestígio dignamente conseguido pelo caro amigo nos seus anos de defesa da Cultura qualitativamente encarada. Os Linos Mendes fazem falta e são um refrigério neste mundo que muitos queriam sombrio e sem ética. Bem haja e fica o abraço firme do seu

 

 NS/FG

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas”(Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

Blog : Ablogando, em: http://ab-logando.blogspot.pt/

 
 
 

 

 

 




 



hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano