ADELTO GONÇALVES
Lições de mestre Steiner
LIÇÕES DE MESTRES
George Steiner
Tradução de Maria Alice Máximo
Rio de Janeiro, Record, 240 págs., 2005
E-mail: record@record.com.br
 

Um mestre é responsável pela conduta de seus discípulos? A pergunta quem faz é George Steiner que, nascido em Paris em 1929, é professor das universidades de Cambridge e Genebra e, numa carreira que já ultrapassou meio século, lecionou em Oxford, Stanford, Princeton, Harvard e Yale. A pergunta é apresentada no ensaio “Maîtres à Penser”, que faz parte de Lições de Mestres (Lessons of the masters), em que Steiner, um dos maiores pensadores do mundo contemporâneo, coloca em xeque a legitimidade da “profissão” de professor. “O que dá a um homem ou a uma mulher o poder de ensinar a um outro ser humano, de onde provém essa autoridade?”, questiona logo na introdução.

Para quem se dedica no Brasil de hoje a essa “profissão”, que Steiner prefere que seja grafada assim mesmo entre aspas, este é um livro imperdível, embora, como seja óbvio, não apresente alternativas para o ensino tal como hoje o conhecemos e que continua apoiado sobre uma estrutura medieval. É que por muito tempo ainda o ensino vai continuar a depender de um mestre a falar e a ser ouvido por seus alunos em sala de aula, ainda que o ensino a distância tenha obtido um grande impulso com a Internet.

É claro que, hoje, muitos professores recorrem a recursos tecnológicos, como filmes e audiovisuais, para evitar que a monotonia domine suas aulas, ainda mais diante de jovens que nasceram e foram criados com um controle remoto na mão diante de um aparelho de TV. E que não têm a menor paciência para ouvir alguém falar por mais de cinco ou dez minutos. Se pudessem, substituiriam o professor no tempo exato da entrada do intervalo comercial.

Esse drama é ainda maior no Brasil, onde a mercantilização do ensino obriga professores universitários a darem aulas para classes com mais de 70 alunos — a maioria oriunda de um ensino fundamental e médio feito numa escola pública em frangalhos e originária de famílias desestruturadas e sem a menor noção do que significa sociabilidade. É claro que Steiner não conhece esta realidade e a universidade de que fala é a do Primeiro Mundo, que por aqui só conhecemos quando ingressamos num curso de mestrado ou doutorado de uma de nossas grandes universidades públicas.

Mas o que diz é de aplicação universal. Lembra o autor que há mestres que destroem seus discípulos psicologicamente, subjugando seus espíritos, destruindo suas esperanças. Em contrapartida, observa, há discípulos, pupilos e aprendizes que derrubam, traem e arruínam seus mestres. É da condição humana.

Steiner lembra o caso de Antonio Negri, professor italiano de Filosofia que deu base intelectual a uma facção de extrema esquerda no começo da década de 70. Exercendo uma influência irresistível sobre seus alunos, Negri impulsionou-os a criar as brigadas vermelhas que cometeram vários atos de terrorismo. O professor foi acusado de cumplicidade e de organizar o movimento subversivo, tendo sido condenado a 30 anos de prisão. Hoje, todas as acusações contra ele estão suspensas.

No Brasil dos anos 60 e 70, muitos dos militantes que engrossaram as fileiras da guerrilha urbana saíram de nossas universidades públicas, onde havia professores que, com justa razão, denunciavam em suas aulas as arbitrariedades do regime militar. Teriam induzido aqueles jovens a uma luta inglória e suicida contra o poder armado? Hoje, quando olhamos para trás, perguntamos: valeu a pena o sacrifício daqueles jovens? E, se por uma aberração da História, aqueles guerrilheiros chegassem ao poder num regime de exceção? Provavelmente, teriam sido iguais ou piores que seus algozes. Steiner observa que a condição de Mestre (assim mesmo com inicial em maiúscula) costuma indicar carisma. “Um desejo de agradar ao Mestre, de ‘atrair para si seu olhar amoroso’, é tão manifesto no Symposium e na Última Ceia quanto em qualquer seminário ou curso”, diz. Mas lembra que o discípulo é livre para descartar, reavaliar, considerar meramente hipotéticos os preceitos de seu Mestre.

No final, a responsabilidade é mesmo do indivíduo, de quem praticou a ação, por mais influenciado que tenha sido. Homens e mulheres que pensam não são como os cães de Pavlov, argumenta Steiner. É por isso que Negri, ainda que tenha exercido larga influência sobre aqueles que se atiraram ao terrorismo, não poderia ter sido responsabilizado pelos atos de seus antigos discípulos.

E o que dizer das más interpretações? Lembra Steiner que há muitos casos de discípulos que, de boa ou má-fé, interpretaram de maneira errada ou distorceram os ensinamentos que receberam. De fato, hoje em dia, o que um professor diz em sala de aula pode estar horas depois no blog de um aluno acessível ao mundo inteiro. E o que é pior: pode estar distorcido, mal interpretado. E não há quem possa corrigir esse erro, a não ser o próprio incauto. Pode-se recorrer à Justiça, é verdade, mas vale a pena?

Enfim, a leitura de Lições de Mestres é um exercício recomendado a todos aqueles que sentem desde cedo a irresistível vocação para a sala de aula e mesmo para aqueles que, não tendo sido vitoriosos em nenhuma outra carreira, descobrem quase no outono da vida que têm muito que passar para as jovens gerações. Seja qual for o caso, saibamos, como ensina Steiner, que o Mestre tem nas mãos algo muito íntimo de seus alunos: a matéria frágil e inflamável de suas possibilidades.

“Ele (o Mestre) toca com as mãos no que concebemos como alma ou as raízes do ser, toque esse do qual a sedução erótica é a versão menor, ainda que metafísica. Ensinar sem grave apreensão, sem uma reverência inquietante pelos riscos envolvidos, é uma frivolidade. Fazê-lo sem se preocupar com quais podem ser as conseqüências individuais e sociais é cegueira. Ensinar com grandiosidade é despertar dúvida no aluno, é treiná-lo para divergir. É preparar o discípulo para partir (“Agora, deixem-me”, ordena Zaratustra). O verdadeiro Mestre deve, no final, estar só”, diz Steiner.

Deve sempre ficar só, é verdade, mas para sempre na lembrança de seus alunos, como bem sabe quem teve um bom Mestre. Afinal, como sabia Platão, “a voz do mestre é bem mais decisiva que qualquer livro”.

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 
 

 




 



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