O cruel realismo do cais do porto: Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves*

Por MAURÍCIO SILVA 

Maurício Silva possui doutorado e pós-doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo; é professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação, na Universidade Nove de Julho (São Paulo); atuou como pesquisador da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro de 2012 a 2013 e, atualmente, é pesquisador residente da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo; é autor de A Hélade e o Subúrbio. Confrontos Literários na Belle Époque Carioca (São Paulo, Edusp, 2006), A Resignação dos Humildes. Estética e Combate na Ficção de Lima Barreto (São Paulo, Annablume, 2011), e O Sorriso da Sociedade . Literatura e Academicismo no Brasil da Virada do Século (1890-1920) (São Paulo, Alameda, 2012), entre outros.
I

          Mais de uma vez se chamou a atenção do público-leitor para uma curiosa contradição que parece ter-se instalado de maneira sólida e obstinada no universo literário brasileiro, a qual não nos custa repetir: enquanto a recente produção literária nacional revela-se impressionantemente criativa, ela recebe, em contrapartida, um tratamento incompatível com sua qualidade estética, principalmente nos meios de comunicação e nos canais de divulgação artística, isto quando não são relegadas ao completo ostracismo, resultado de um silêncio ao mesmo tempo pérfido e cruel. Tal constatação pro cura, antes de mais nada, colocar por terra a propalada tese de que a literatura nacional estaria vivendo uma grave e crônica crise criativa, opinião assentada antes sobre um imponderado exercício de impressionismo crítico, do que sobre uma análise imparcial da atual realidade estética de nosso país.

            Exemplo claro, entre outros, de uma literatura em muitos aspectos reveladora – e, sintomaticamente, pouco lembrada pela crítica – é a obra literária do jornalista e escritor Adelto Gonçalves, que com o seu premiado romance Os Vira-latas da Madrugada (1981) está por merecer um lugar de destaque dentro da mais recente produção literária nacional. Natural da litorânea cidade de Santos e tendo dedicado grande parte de sua atividade profissional ao jornalismo, Adelto Gonçalves é um típico exemplo do descaso que a crítica literária contemporânea tem devotado aos mais novos escritores.

            Tal descaso, contudo, revela-se de todo injustificado: manipulando basicamente duas categorias universais distintas – o homem e o meio –, Adelto Gonçalves procura, em seu romance, retratar o embate travado entre ser e espaço, entre o físico e o humano, embate este marcado por uma forte carga emotiva e realista. Neste sentido, não nos parece demasiado exagero afirmar que o autor se coloca, embora em menor grau, entre alguns dos continuadores da tradição literária que reconhece no espaço um componente privilegiado do romance, elemento no qual o ser alcançaria sua plena realização ou a sua mais absoluta decadência.

            Assim, poder-se-ia inserir sua obra, feitas as devidas ressalvas, na categoria do que a teoria literária convencionou chamar de “romance de espaço”1, em que talvez pudéssemos introduzir nomes tão relevantes como os de José Eustasio Rivera (La Vorágine), Euclides da Cunha (Os Sertões) e Rómulo Gallegos (Doña Bárbara), para ficarmos apenas nos latino-americanos. Logicamente, semelhante observação não busca dar ao romance de Adelto Gonçalves o mesmo grau de importância desses que, indubitavelmente, podem ser considerados verdadeiros clássicos da Literatura Latino-Americana, mas apenas revelá-lo como mais um dos originais herdeiros de tão fecunda tradição.

            Deste modo, se nas obras aqui citadas o que se verifica, acima de tudo e num primeiro instante, é a disputa que acirradamente trava o homem e a floresta (Rivera), o homem e o sertão (Cunha) e o homem e a planície (Gallegos), em Os Vira-latas da Madrugada o mesmo embate pode ser percebido entre o homem e o cais do porto, um espaço, como todos os demais aqui aludidos, marcado por características peculiares, por normas e leis próprias, por uma realidade singular.

II

            O romance de Adelto Gonçalves desenvolve-se em Paquetá, bairro da zona portuária de Santos, onde aliás o autor viveu a maior parte de sua vida. É um romance de muitas personagens, embora com pouco destaque para elas, já que, como fora aludido, é o componente espacial que ganha maior relevo no decorrer dos acontecimentos; a existência trágica, o sofrimento cotidiano, a luta homérica contra um meio físico subversivo parecem ser o elo inexorável que liga figurantes e personagens a um destino comum. No rastro desses elementos, o autor procura dar aos acontecimentos um caráter documental, seja por vários de seus episódios estarem assentados em f atos do cotidiano, trazidos à tona por meio das reminiscências do próprio autor (“eu era muito pequeno, quando algumas destas histórias aconteceram”)2, seja pela tentativa confessada do autor em colocar em seu romance personagens que um dia existiram de fato. Não obstante o romance tender ao documental, Adelto Gonçalves não hesita em rechaçar qualquer intenção em fazê-lo histórico (“não pretende este livro uma imagem de histórico”, p.31).

            Analisando o cenário em que os episódios se desenrolam, percebe-se que, com uma habilidade inquestionável, Adelto Gonçalves desloca a narrativa de cenário tradicional, caracterizada pela dicotomia cidade/campo, para uma realidade totalmente nova e diferente – o cais do porto. Sem ser campo, mas também sem chegar a ser completamente cidade, o cais do porto parece situar-se numa zona limítrofe, num indefinível meio-termo, universo norteado por uma espécie curiosa de natural dicotomia: contém, ao mesmo tempo – e numa mistura que apenas um espaço com características tão originais poderia conter –, particularidades tanto do campo quanto da cidade, o que nos permite reformular nossa afirmação anterior: para além de ser uma região dicotômica, o cais do porto é, sobretudo, um espaço híbrido.

            Por ser híbrido, ele também agrupa em si o arcaico e o moderno, trazendo consigo todas as infinitas contradições que esta mistura pode acarretar: excessos, desvios e, principalmente, injustiças. Caberia, a esta altura, perguntar em que o meio físico do cais, stricto sensu, se difere dos demais. Em que, realmente, ele é peculiar? Uma simples análise da descrição que o autor faz do local parece-nos suficiente para que estas peculiaridades aflorem em definitivo:

            “mais adiante, viu novamente os armazéns das docas, uma locomotiva passando rápida, solitária, os guindastes que se sobressaíam além do teto dos armazéns. De vez em quando, um caminhão passava, em meio aos buracos, espirrando lama das poças fétidas – um cheiro de mistério como o de todos os portos do mundo. E perdeu-se na zona do Golfo: à esquerda, um sem-fim de armazéns amarelos, sujos, descaiados – cargas em fileiras nas ruas, cobertas por encerados, um policial adiante –, à direita, uma longa fila de botequins – mulheres desenxabidas sentadas às portas, olhando a chuva batendo nas pedras das ruas, nas latas vaz ias” (p. 21).

 
 

III

            Guindastes e botequins, lama e prostitutas, música e locomotiva: tudo parece contribuir de maneira inusitada para a composição de um cenário francamente grotesco; a conformar sua paisagem, há ainda a presença sugestiva de morcegos e ratos, da densa lama a se espalhar continuadamente por todo o cais, da atmosfera decadente do local, além de sua aparentemente natural subversão.3

                No limite, contudo, é o elemento humano que faz do cais o que ele realmente é, fisicamente ou não: um mundo à parte, marcado pela violência e pela injustiça, pela extrema individualidade e absurda inconsequência, pela trágica fatalidade a se refletir nos olhos dos homens e pela contundente tristeza a dissimular-se no sorriso acanhado das mulheres:

            “mas igual a este beira-cais, como dizem os velhos marinheiros, não existe lugar em outra parte do mundo. Aqui é onde as mulheres das ruas já não brigam mais por causa da traição do amante, mas porque a outra lhe roubou o freguês; onde os moleques, vira-latas da madrugada, percorrem a noite inteira em busca de um otário, roubam os bêbados caídos nas calçados, dormem com os pederastas e vivem de pequenos furtos (...); onde os pretos esfarrapados se deitam nos vãos de porta e dormem com o cuspe grosso de cachaça escorrendo no canto da boca e sonham com a família que não tiveram e com a moça loira que anuncia Coca-cola (...); on de as pessoas têm a cor do rosto amarelada, pálida, os olhos fundos, o cabelo ensebado, a pele macilenta como a dos jogadores de sinuca” (p. 33).

            E assim chegamos ao outro pólo do embate que – ao lado do espaço romanesco – a obra de Adelto Gonçalves procura retratar: o humano. Em Os Vira-latas da Madrugada, as cenas como que se desprendem das páginas do livro para preencher um espaço na mente do leitor: não são cenas simples, comuns, mas antes passagens dotadas de uma intensa complexidade existencial, que se esconde por detrás de cada ato realizado ou de cada palavra proferida.

            Uma questão social se impõe logo de início: Os Vira-latas da Madrugada são um romance dos marginalizados. Em suas páginas, prolifera-se todo um universo por meio do qual o autor procura revelar a crua e violenta realidade do cais, onde bêbados e prostitutas disputam um espaço nos botequins, onde meninos de rua partem em busca de algum dinheiro fácil, onde trabalhadores tristes e solitários – embrutecidos pelo ofício duro e desvalorizado – pervagam sem destino pelas ruas enlameadas. Assim, temos um quadro de relações sociais completamente subvertidas nesse mundo em que reinam a malandragem, o poder perverso e a exploração.

            Entre o patético e o selvagem, há a dura realidade – seja ela a realidade da prostituição, seja ela a realidade do poder. Assim, aos olhos de Sula, a realidade de uma existência prostituída – mais do que a de um corpo prostituído – mistura-se melancolicamente com o seu passado ideal, agora, mais do que nunca, distanciado do presente; e esta é apenas mais uma das muitas mulheres que cumprem rigorosamente um destino marcado pela humilhação, pela violência e pela tragédia pessoal. No que diz respeito à realidade do poder, também pode-se perceber no romance todas as suas perversões, todos os seus desvios, quer se trate do poder político constituído, do poder policial-repressor ou do poder da coerção social.

            O que sobra de tudo isso é uma compreensão profundamente pessimista da realidade, a qual é compartilhada por quase todas as personagens do romance, mas particularmente por Marambaia.

            Também o leitor é tomado, de certa maneira, pelo clima pessimista que logo se impõe: acompanhando de perto a narração dos acontecimentos no cais, ele passa, involuntariamente, a sofrer com as personagens da história, compartilhando de seus anseios e angústias, de suas tristezas e desgostos, de seus tormentos e aflições.

            As últimas palavras do autor marcam o encerramento do romance, mas também atam as duas pontas de um fio narrativo que vinha percorrendo toda a obra. Sua conclusão revela-se particularmente constrangedora – como o próprio autor faz-nos perceber, trata-se de uma autêntica confissão, onde se pode facilmente distinguir a mescla de dor e revolta que a conforma:

            “as vozes que me trouxeram até aqui já não ouço mais. Estão mortas, estão assassinadas. Este irregular relato é só uma homenagem a essas vozes que se calaram cansadas de testemunhar tanta ignorância e violência em nome de valores morais que a ambição já desmoralizou há muito tempo” (p. 163).

            Suas cruéis histórias, por isso, são tão mais cruéis quanto mais reais se tornam com o tempo.

Notas

(*) Publicado em Sentidos Secretos – Ensaios de Literatura Brasileira (São Paulo, Editora Altana, 2005, págs. 137-144) e em Leopoldianum. Revista de Estudos e Comunicações, Santos, vol. XX, nº 56: 144-149, abr. 1994.

1 KAYSER, Wolfgang. Análise e Interpretação da Obra Literária. Introdução à Ciência da Literatura. Coimbra, Arménio Amado, 1976.

2 GONÇALVES, Adelto. Os Vira-latas da Madrugada. Rio de Janeiro, José Olympio, 1981. Todas as referências a esta obra serão retiradas desta edição, doravante aparecendo apenas o número da(s) página(s) em que se encontram.

3 Para uma definição sucinta do grotesco, consultar: MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. São Paulo, Cultrix, 1978, e KAISER, Wolfgang. O Grotesco. São Paulo, Perspectiva, 1976.

 

 

 

 

 




 



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