De vira-latas e de madrugadas criativas

Por Helio Brasil

Helio Brasil, carioca de São Cristóvão, formado em 1955 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, foi professor nas universidades Santa Úrsula, Federal do Rio de Janeiro e Federal Fluminense (UFF).  Contista e ficcionista, publicou O Anjo de bronze e outros contos (Oficina do Livro,1995);); São Cristóvão, memória e esperança (Editora Relume-Dumará, 2004); A última adolescência (Bom Texto, 2004); e Pentagrama acidental (Editora Ponteio, 2014),entre outros.
I

O autor destas linhas não sente acanhamento por usar uma expressão popular, talvez “batida”, mas de grande oportunidade: sentimos a “alma lavada” diante do texto do santista Adelto Gonçalves, tal a leveza com que conduz seus ensaios literários e suas obras de ficção. Sem que a expressão “leveza” signifique superficialidade.

 Já conhecia o autor de textos acadêmicos, abordando em biografia o poeta Bocage (“o perfil perdido”), o nosso luminoso Tomás Antônio Gonzaga e o sombrio Pessoa, obras que lhe valeram prêmios e o reconhecimento da comunidade voltada para a escrita. Nas incursões ficcionais tive, há alguns anos, a oportunidade de me surpreender com a emocionante narrativa de Barcelona Brasileira, não por acaso ambientada no que parece ser o palco predileto de Adelto: o porto da cidade de Santos.

Naquele romance (que julguei fosse o primeiro), percebi o “buril” de retratista social, o uso do suspense de forma muito pessoal, narrando as arriscadas aventuras dos sonhadores anarquistas: “...(o Anarquismo é) só um código de conduta moral...” nos dirá o “vira-latas” Marambaia, à espera de uma sociedade ideal, responsável pelo coletivo sem o encilhamento de mandantes. Em Barcelona Brasileira já se revelara no autor o domínio da linguagem para obter tensões necessárias à narrativa.

Surpresa terá o leitor no posfácio do editor deste Os Vira-latas da Madrugada, onde é revelado que a primeira versão foi escrita por Adelto (nascido em 1951) quando tinha 18-19 anos e o romance retomado no final dos anos de 1970 para ganhar Menção Honrosa no Prêmio Nacional José Lins do Rego. Uma obra, pois, da juventude do autor e que, sem perder o esperado frescor, revela extraordinária maturidade, capturando o leitor desde as primeiras linhas.                                            

II

Fica bem claro que Adelto Gonçalves elegeu o Paquetá – um bairro no porto de Santos; frequentado e povoado pela “escória” de desencantados – como o cenário sombrio para as histórias que formam o tecido trágico de seu romance, confessando ter guardado no olhar de juventude muito dos seus largos lamacentos e escusas ruelas. Os personagens que neles transitam são esculpidos de tal forma que a um só tempo, tornam-se incômodos e fascinantes, seus “desenlaces” violentos ou torturantes, acumpliciam o leitor ou o colocam em cheque com o sentimento de repulsa ou de ternura diante de seus destinos.

O quase terno encontro de Pingola e Sula, as esculturas de Pai João de Angola e seu jovem seguidor Louva-Deus, o atormentado Plínio, a violência da luta entre Grego e o astucioso Batatinha, a inevitável “traição” de Quirino, personagem que tangencia as tragédias gregas, magnetizam as páginas do romance. A entrega de Marambaia a uma causa (para ele) maior, e o estranho ritual de Irene, a streaper, à luz do palco, trazem ao leitor uma inquietação que mostra ser a escrita de Adelto arquitetada para ir além do “efeito literário”. Pungente sem ser lacrimosa.                                      

III

O ambiente do porto, do bas fond, produz inevitável aproximação às sagas do baiano Jorge Amado em seu Capitães de Areia, Jubiabá e outras epopeias da denúncia social. No entanto, sem questionar o justo pódio de Amado, Adelto Gonçalves revela uma saudável descrença nas soluções simplistas de uma “revolução”, mostrando que a consciência crítica é algo que deve amadurecer dentro de cada um no processo social. A nosso ver, uma forma menos idealizada e mais “terra a terra” de um “caminho possível” para os brasileiros. Personagens quase românticos, dentro do painel manchado pela crueldade, Pingola e Sula – que traz no ventre uma nova vida – partem para um horizonte que lhes caberá construir. Uma esperançosa mensagem.

Por fazer incursões no desenho e na gravura, o resenhista justifica-se: se a aproximação literária com Jorge Amado é admitida, desde as primeiras linhas os quadros descritos com o pulso firme de Adelto lembram o clima das xilogravuras de Goeldi. Mas não há vácuo. Com extraordinária propriedade, as talentosas ilustrações de Ênio Squeff valorizam as páginas do romance. 

No dizer do prefaciador Marcos Faerman (1943-1999), o jovem dissidente Adelto ao lançar seu romance nos anos de 1970, não agradaria aos mandantes da ocasião (o que levou à exclusão do prefácio da edição de 1981, que premiava o autor). Pior para eles que, parece, merecem hoje um merecido desprezo após a passagem sinistra na vida brasileira.

 Os Vira-latas da Madrugada veio para ficar em importante lugar na literatura nacional.                                                   

IV

Adelto Gonçalves, doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de inúmeras obras de natureza acadêmica. Também jornalista, é mestre na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela USP e ex-professor titular da Universidade Santa Cecília (Unisanta), no curso de Jornalismo, e da Universidade Paulista (Unip), no curso de Direito, ambas em Santos-SP. É também professor de Literaturas Portuguesa, Brasileira e Africanas de Expressão Portuguesa. Acaba de lançar também Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015).

Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Marcos Faerman, apresentação de Ademir Demarchi, posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes e ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 216 págs., 2015, R$  35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br   Site: www.letraselvagem.com.br

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 

 

 

 




 



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