::::::::::::::::::::::::::::::::ADELTO GONÇALVES

Ondjaki: a reinvenção da linguagem

Publicado no Jornal Opção, de Goiânia, na edição de 14 a 20/9/2008
I

Nascido em Luanda em 1977, Ondjaki, licenciado em Sociologia, prosador, às vezes poeta e roteirista de documentários, já pouco tem a ver com a literatura de afirmação nacional nascida à época da independência de Angola em que se destacaram Agostinho Neto (1922—1979) António Jacinto (1924—1991), Uanhenga Xitu (1924), António Cardoso (1933), Luandino Vieira (1935), Arnaldo Santos (1935), Manuel Rui (1941), Jorge Macedo (1941), Pepetela (1941), Boaventura Cardoso (1944), David Mestre (1948), Kudijimbe (1955) e outros.

Àquela época, anos 60 — 70, quase todos os poetas e romancistas angolanos viveram dramas pessoais ligados ao compromisso político com a independência de Angola — a maioria engajou-se no movimento de libertação nacional dentro e fora do país e muitos deles tiveram de cumprir pesadas penas de reclusão, cujas experiências se refletiram no que escreveram.

Com o fim do colonialismo, a maioria acabou por abdicar de sua liberdade pessoal para ajudar no que entendiam que seria a construção do país, tornando-se, assim, funcionários do Estado pretensamente socialista. Antes de escritores, comportaram-se como soldados de um regime que prometia o paraíso na terra. Muitos deles, valeram-se das boas relações do novo regime com os países do Leste Europeu — que era o que lhes estava à mão — para completar suas formações acadêmicas ou, simplesmente, participar de encontros internacionais de jovens escritores na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ou em países asiáticos ou em outras nações africanas.

Como se sabe, uma boa forma de ressecar a capacidade criativa de escritores é atrelá-los às chamadas razões de Estado. Não que as causas, à época, fossem injustas ou sem méritos. Pelo contrário. Mas é que, passada a euforia da independência, toda revolução tende a cristalizar-se com a sedimentação dos interesses daqueles que chegaram primeiro ou mais longe na máquina burocrática do Estado.

E não há escritor, por mais imaginativo e inventivo que seja, que possa produzir literatura de alta qualidade se, em vez de engajar-se apenas com a sua própria consciência, passa a defender as idéias ou os interesses das lideranças de um partido ou de um segmento político. Foi o que ocorreu, por exemplo, com os romancistas Jorge Amado (1912—2001) e Graciliano Ramos (1892—1953) à época em que escreviam romances e outros textos sob a orientação implícita do Partido Comunista Brasileiro.

De qualquer maneira, as amarras ideológicas, se impedem o afloramento da consciência crítica, não são suficientemente tenazes a ponto de bloquear por completo a capacidade criativa, pois algo sempre escapa. Afinal, é possível encontrar-se períodos de alta qualidade até mesmo em panfletos de Jorge Amado, como “O Cavaleiro da Esperança” biografia do líder comunista Luís Carlos Prestes (1898—1990), publicada em 1944, ou em “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos (1892—1953), publicação póstuma de 1953 que, como se sabe agora, teve vários parágrafos cortados por familiares do escritor para atender à orientação do PCB à época “em nome da causa”.

Por essa razão, como observa Luis Kandjimbo, notável ensaísta e crítico literário de Angola, entre os escritores angolanos que surgiram no bojo do movimento de independência do país na década de 1970, “há uma descontinuidade observável na escrita de ficção e nos padrões estéticos, provocada pela excessiva valorização de temas literários marcados pela ideologia política e sua introdução nos manuais escolares”. Se isso hoje já soa como excessivamente datado e, muitas vezes, como uma forma ingênua de se fazer literatura, por outro lado, é de admitir que essa subserviência à “causa” tampouco foi capaz de impedir o afloramento de uma literatura de boa qualidade da qual os escritores mais recentes são tributários.

II

Nascido já em país independente, Ondjaki, naturalmente, não podia carregar dentro de si o sentimento anticolonialista, tendo sua infância sido embalada pelas invectivas pretensamente revolucionárias que permeavam a educação popular promovida pelo governo de seu tempo. No entanto, embora já nascido livre do colonialismo — mas não do triste espetáculo da opressão das minorias ricas sobre as maiorias deserdadas —, pôde seguir outro rumo em sua atividade literária, ainda que não deixe de repetir experiências que, décadas antes, já haviam sido vividas por Luandino Vieira e outros romancistas inventivos da Angola da década de 1970, já que os musseques (favelas), os jogos de futebol nos terrenos baldios, as feiras populares e a vida dos pés-descalços continuavam a fazer parte do cotidiano da Luanda de sua infância e adolescência, como fazem ainda hoje.

Em seu terceiro romance, “AvóDezanove e o Segredo do Soviético” publicado em 2008 pela Editorial Caminho, de Lisboa, e pela Editorial Nzila, de Luanda, seguindo os caminhos abertos por Luandino Vieira, Antônio Cardoso, Manuel Rui, Antônio Santos e outros, que já haviam rompido com a influência do padrão literário de Portugal, Ondjaki pôde dar vazão outra vez a todas as angolanidades que sua memória retém dos anos 80, marcada principalmente pela presença de soldados, professores e técnicos soviéticos e cubanos deslocados para Angola dentro do contexto da Guerra Fria.

Esse mundo, como se sabe, desapareceu ao final de 1989 com o desmoronamento do regime soviético e a dissolução da URSS. Portanto, as memórias de Ondjaki são anteriores aos seus 12 anos de idade, como se percebe pela passagem em “AvóDezanove e o Segredo Soviético”em que se refere a gigantescas obras do Mausoléu na Praia do Bispo, “um lugar que andavam a construir para guardar o corpo do camarada presidente Agostinho Neto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nessa arte de manter uma pessoa ainda com boa aspecto de se olhar”.

Entre as personagens, há, naturalmente, várias dessas figuras estranhas ao lugar, como o Camarada Botardov, corruptela de boa-tarde, a maneira arrevesada como um russo cumprimentava as pessoas de manhã cedo ou já à noite: bótard. Portanto, ao contrário de seu romance de estréia, “Bom Dia Camaradas”, publicado em Angola pela Edições Chá da Caxinde em 2000, em Portugal pela Editorial Caminho três anos depois e no Brasil em 2006 pela Editora Agir, do Rio de Janeiro, com prefácio do romancista Luiz Ruffato (1961), em que uma criança conta seu dia-a-dia, seu convívio com os amigos e com os professores cubanos que ensinavam na escola, em “AvóDezanove e o Segredo do Soviético”, é a presença dos russos a sua marca principal, fatos que, até agora, ao que se sabe, talvez porque ainda recentes, ainda não haviam sido registrados pela ficção angolana. Eis, afinal, o que diferencia o jovem escritor Ondjaki de seus antecessores em Angola. E que o levou a já estar traduzido para outros seis idiomas.

Em “AvóDezanove e o Segredo do Soviético”, pode-se perceber, no entanto, aqui e ali resquícios deixados pela convivência com os cubanos, especialmente em alguns vocábulos. Afinal, os cubanos — soldados, técnicos e professores — estiveram em Angola de 1975 a 1991, transmitindo expressões que foram incorporadas à linguagem popular. É de assinalar que Ondjiaki guarda boas lembranças dessa presença, especialmente de seus professores cubanos, aos quais se refere como pessoas “muito dignas, com um sentido de irmandade muito forte”.

III

Seja como for, apesar dessa abordagem inusitada ao olhar de fora, não deixa Ondjaki também de seguir uma tradição na língua portuguesa que vem de poetas setecentistas como Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765—1805), que sempre que podia criava um neologismo ou inventava um verbo a partir de um substantivo, passando por romancistas brasileiros como Guimarães Rosa (1908—1967), que recriou o linguajar falado nos sertões de Minas Gerais e Goiás, chegando ao exemplo atual do moçambicano Mia Couto (1955).

Assim é que se lê em “AvóDezanove e o Segredo do Soviético” que há “peixes devagarosos no mar” ou que as pessoas vão “matabichar” (tomar o pequeno almoço, em Portugal, ou o café da manhã, no Brasil), o que denota a preocupação do autor em reinventar a linguagem popular angolana que já não está presa ao padrão lusitano do bem-falar, mas que, permeada por expressões do quimbundu, língua do grupo bantu de Angola, não deixa de ser uma variante auspiciosa do português. E uma garantia de que o idioma haverá de ser preservado por muito tempo no continente africano.

A exemplo dos romancistas angolanos mais antigos, Ondjaki não passou ao largo da influência da literatura brasileira. “AvóDezanove e o Segredo do Soviético” deixa explícitas suas dívidas literárias com Clarice Lispector (1920—1977), que está presente do começo ao fim do livro, não só com uma epígrafe tirada de um trecho de “ Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” (1969), mas na abertura de uma carta dirigida pela poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares (1952) ao autor, num diálogo em que ambos recordam a Luanda de suas vidas e de seus sonhos (“uma serra antiga, o cheiro da goiaba, meninas e missangas”, diz a poeta).

Como já assinalou Luiz Ruffato, pode-se desconfiar de que Ondjaki também já andou lendo os brasileiros Manoel de Barros (1916), Adélia Prado (1935) e Raduan Nassar (1937), além de poetas canonizados como Carlos Drummond de Andrade (1902—1987) e Manuel Bandeira (1886—1968). Mas isso pode ser também resultado da mania que todos os críticos literários temos de classificar e rotular autores, colocando-os dentro de gaiolas metafóricas.

Ainda que tenha produzido um relato lírico e, ao mesmo tempo, divertido, Ondjaki não deixa de permear seu livro com uma certa ironia em relação ao poder ilimitado do regime de partido único, ao colocar uma personagem a dizer que o “Jornal De Angola” não publicava mentiras, mas “verdades que o camarada presidente é que autoriza a saírem lá”.

Em resumo: a exemplo do romance de estréia, Bom dia camaradas, e de seu segundo romance, Quantas madrugadas tem a noite (Lisboa, Editorial Caminho, 2004), “AvóDezanove e o Segredo do Soviético” trata-se de uma autobiografia ficcionalizada, em que o autor recria tipos que povoaram sua infância, numa Luanda que ainda está lá com seus bairros degradados em meio a uma urbe que já se mostra moderna e que pode soar familiar não só ao leitor brasileiro, mas também ao português que, nos últimos anos, acostumou-se a conviver com uma extensa colônia de angolanos e outros africanos que transformaram o dia-a-dia de cidades periféricas de Lisboa, como Oeiras, Agualva-Cacém, Odivelas e outras, deixando-as menos européias e mais africanas.

IV

Ondjaki, que em umbundu significa “guerreiro”, é o nome literário de Ndalu de Almeida, descendente de portugueses e angolanos que ainda carrega em sua árvore genealógica um bisavô cônsul holandês. É, portanto, um exemplo perfeito da mestiçagem que caracteriza o povo angolano. Além de desenvolver estudos de doutoramento na Universidade Oriental de Nápoles, Ondjaki escreve textos para o cinema e já co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda (“Oxalá Cresçam Pitangas — Histórias de Luanda”, 2006). É membro da União dos Escritores Angolanos.

Além dos romances “Bom Dia Camaradas” e “Quantas Madrugadas Tem a Noite”, escreveu a novela “O Assobiador” (2002), os livros de contos “Momentos de Aqui” (2001) e “E se Amanhã o Medo” (2004), o livro de narrativas curtas “Os da Minha Rua” (2007) e ainda os livros de poesia “Actu Sanguíneu” (2000) e “Há Prendisajens com o Xão” (2002) e a obra infanto-juvenil “Ynari, a Menina das Cinco Tranças” (2004). Interessa-se ainda por interpretação teatral e pela pintura.

Alguns livros seus foram traduzidos para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês e chinês. Com “Actu Sanguíneu” obteve menção honrosa no Prêmio Antônio Jacinto (Angola, 2000). Já com “E se Amanhã” o medo, conquistou o Prêmio Sagrada Esperança (Angola, 2004) e o Prêmio António Paulouro (Portugal, 2005). Foi finalista do prémio Portugal Telecom (Brasil, 2007). Com “Os da Minha Rua”, ganhou o Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco, de 2007, em Portugal.

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

Textos em: Academia Brasileira de Filologia Abrafil (www.filologia.org.br)

 
 

 




 



hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano