JÚLIO CONRADO

Foto de Valter Vinagre

BILHETE-POSTAL SOBRE (UNS CERTOS) BILHETES-POSTAIS 

O gesto é tudo     

O argumento poético, de raiz espontaneísta, oriundo do forte alvoroço provocado no sujeito da escrita pela exemplaridade do instante captado pela palavra que o vai expandir e carregar de sentido, nem sempre é capaz de traduzir a cumplicidade que é suposto seja criada entre quem lê e quem é lido.

Essa cumplicidade emerge, muitas vezes, através da lenta densificação do significado fazendo convergir para um produto final as parcelas que, como vozes recônditas e díspares, aspiraram à unidade entre si, ao somatório, ao resultado unificador. Um pequeno livro em prosa pode conter mais poesia do que um conjunto de estrofes classicamente arrumadas. Não por acaso, o livro de Herberto Helder que mais me marcou foi escrito em prosa: Os Passos em Volta. E tanta poesia intrínseca ali se “esconde”. A comparação não é de todo feliz porque o outro termo chamado à colação é uma obra em que a poesia lhe é extrínseca. Poderemos, talvez, chamar-lhe com propriedade gesto poético, sem o contrapeso metafórico que normalmente recai sobre a expressão. É mesmo um gesto. Eu clarifico.

Quando usava da palavra Isabel Alçada, com Luís Souta ladeado pelas duas filhas

Luís Souta, professor do ensino superior, poeta do amor, tem uma filha, hoje adulta e licenciada, que optou aos vinte e dois anos por emigrar para os Estados Unidos. O seu nome é Constança. Antes disso, e ao longo de quinze anos, Luís escreveu-lhe, de onde se encontrasse, um bilhete-postal por cada dia de aniversário. A poesia está, pois, neste gesto gráfico de reunir a prosa dos postais e que envolve a outra filha do poeta, uma designer que se ocupou da ilustração da obra, tendo resultado da iniciativa paterna uma preciosa publicação intitulada BICHOS À SOLTA (edições vírgula), prefaciada por Paulo Borges, e cuja temática mais persistente se desenvolve em torno dos valores ecológicos, da preservação das espécies de animais em vias de extinção (insinua-se mesmo um retorno à fábula, ao “tempo” em que os animais falavam) e das frequentes agressões ao meio ambiente, pelo bicho homem, responsáveis pela degradação global do planeta.

Reuniu Luís Souta um conjunto de 25 postais e correlativa prosa envolvendo três membros da família Souta que juntaram esforços para que dali saísse uma pérola gráfica com diversos significados: a homenagem de um pai às suas duas filhas; uma luta comum contra as agressões ao eco-sistema; um encurtamento da distância física pelo uso afectivo do bilhete-postal e um aparato gráfico deveras logrado. Todas estas questões foram devidamente enfatizadas na sessão de lançamento que ocorreu na lendária Livraria Ferin, em Lisboa, no dia 25 de Janeiro passado, através das intervenções de Isabel Alçada, Paulo Borges, Miguel Noronha, Luís Souta, Constança Souta e Lionor Dupic.

O livro fecha com um ANEXO: A Declaração Universal dos Direitos dos Animais.

Se isto não é poesia…

Júlio Conrado. Ficcionista, ensaísta, poeta . Olhão, 26.11.1936 . Publicou o primeiro livro de ficção em 1963 e o primeiro ensaio na imprensa de âmbito nacional em 1965 (Diário de Lisboa). Exerceu a crítica literária em vários jornais diários de referência e em jornais e revistas especializados como Colóquio Letras, Jornal de Letras e Vida Mundial. Participação em colóquios e congressos internacionais. Participação como jurado nos principais prémios literários portugueses. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, Associação Internacional dos Críticos Literários, Associação Portuguesa dos Críticos Literários e Pen Clube Português. A sua obra ensaística, ficcional e poética está reunida numa vintena de livros. Alguns livros e ensaios foram traduzidos em francês, alemão, húngaro e inglês.

 

 

 

 




 



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