APENAS QUESTÃO DE GOSTO
Romance

INDEX

Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8

Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11

Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14

Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17

Capítulo 16

Dizem que zero hora não existe. Que meia-noite é o que manda no quartel e estamos conversados. Mas como que zero hora não existe, se não faz nem meio átimo o chrono do meu casio alarm cravou 0:00 00? E não foi só o chrono do meu casio alarm, não. Talvez vocês não tenham notado, mas a trombeta do arcanjo Gabriel também cortou o maior dobrado ao anunciar o plantão do anjo Haaiah e dos santos João Bosco, Luísa Albertoni e Marcela de Roma.

É por estas e por outras que perder a confiança é muito pior do que perder a virgindade. Virgindade, a gente troca de homem ou de mulher e finis. Mas, confiança, vai trocar o quê? Eu sempre tive a maior confiança no meu Dicionário do Aurélio. Igual, só mesmo na prontidão do cano longo do .38 do meu Taurus. Pois não é que nem no meu Dicionário do Aurélio eu posso mais confiar? Como é que fica a trombeta do arcanjo se, de repente, o cata-milho do Adauto Simplício virar de ponta-cabeça e surtar, e o tamarindo dos verbetes me disser que ele só podia surtir? Quer dizer, apenas ter como conseqüência, produzir, alcançar efeito, ter conseqüência boa ou má, produzir resultado ou produzir efeito e olhe lá? Pensa bem e me diz se não é o maior fuzuê aureliano um surto virar adjetivo quando se diz do navio ou embarcação ancorada, amarrada à bóia ou ao cais, e dar uma de substantivo masculino em vôo alto, desejo intenso, ambição, cobiça, arranco, arrancada, impulso e aparecimento repentino, irrupção que nem surto de malária? Se alguém me disser que marca de cigarros fuma essa tal da norma das arábias, que o velho Mora dos Incréus diz que ainda tem casa posta num antigo rendez-vouz da rua Alice, mas que já deixou de bater ponto nos murundus gramatiqueiros há miles e miles, eu agradeço. Porque, e isso foi o ainda 15º tratamento do Ximu que me botou no sabe como, surto já não mora mais no cais nem voa nos arrancos. Surto, diz o sim senhor do Ximu, são uns badulaques recalcados que vêm de um tal de inconsciente e que invadem a consciência num momento crítico e botam o sujeito no entrecosto das paredes, e o coitado sifu. Sifu, assim, sifu mesmo, que todo mundo quer é ver o coiso endoidar e voar no manicômio.

Tudo bem que o surto da nossa muito mais do que querida Florismália mandou ver um dramatismo no capricho e botou o Grande Cidadão na cama dela no The End, como é devido nos sacramentos da Santa Madre Igreja e nos filmes que pagam até promessa antecipada por um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Mas, e eu, que não tenho nada a ver com sacramentos intalâmicos e, muito menos, com cidadãos arrependidos, mas paguei uma nota pretíssima pela 3ª impressão da 1ª edição do meu Dicionário do Aurélio, isto quando o verboten do general Geisel botava o nada a declarar do ministro Armando Falcão nos aquiles de mais de cem milhões de sem farda e sem quartel que esperavam uma prometida abertura no funil da democracia brasileira? Que isto de dicionários e verbetes não é de hoje. Não dizem que um tal de Georges Léopold Christian Frédéric Cuvier, sabe-tudo daqueles que piscam até em apagão, isto nos idos em que a marquesa de Santos cantava de galo no terreiro da imperatriz Leopoldina e o cavalo branco de Napoleão morria de saudade das éguas de Paris, ficou puto e devolveu ao remetente o Dicionário da Academia Francesa que pintava o caranguejo como um pequeno peixe vermelho que andava de costas? Meus prezados, a vossa definição estaria perfeita se não fossem três senões. O caranguejo não é um peixe, não é vermelho e não anda de costas.

Pode parecer até sacanagem querer botar o Dicionário do Aurélio no balaio do caranguejo ou na cama da marquesa, mas não é. Não é, porque ele me deixou mais na dúvida do que técnico do São Cristóvão em dia de pintura de banheiros. Afinal, quando eu tinha certeza que às zero horas, no plural mesmo para evitar qualquer possível dimarré na hora do vamos ver, o pé-direito do quadrado da largura ia entrar de vez nas matemáticas e talvez o consumo do meu sonho deixasse de ser sonho, vem o conduto da lembrança e me despeja no peraí, peraí, o surto do 15º tratamento do Ximu. E, aí, já viu, babau. Não aquele babau depois da esquina, que a gente nunca sabe o que vai ver, mas o babau, babau mesmo, o do mais vale uma mão no pássaro do que duas no sifu. E foi a conta. Para quem tinha certeza que experiência de pegar até sagüi em folha de palmeira era que nem bula de papa, nem o coisa-ruim mijava em cima, saber que o Dicionário do Aurélio pegava de menor fé, foi duro.

Foi mais que duro. Foi brabo. E não fosse o meu Santo Expedito mandar ver uma de pronta solução, não sei, não. A certeza que me restava, só os binóculos do zambaísmo da nossa brilhante figurinista podiam pegar o pé-direito do pinípede, entrava mais pelo cano do que de mendigos o governador Carlos Lacerda mandou afogar no Rio Guandu. E só podia ser a zambaiada da Mé dos figurinos por uma minudência e dois detalhes. Minudência, o dramatismo da nossa muito mais do que querida Florismália sempre dramatizou na minha cama na hora dos anzóis serem iscados. Primeiro detalhe, o narigão da nossa magnífica continuísta gostava mais de farejar as nádegas tanajuras da nossa perfeita secretária e as nádegas tanajuras da nossa perfeita secretária gostavam mais de serem farejadas pelo narigão da nossa magnífica continuísta do que o pescador de robalos gostava de frituras. Segundo detalhe, o pedágio das transmissões microbianas em meio úmido da dumbice da nossa famosa cabeleireira e do sweepstake dental da nossa fascinante maquiadora era pago nos coxalismos do nosso grande diretor de arte e do nosso maravilhoso cururu voador, e o charutão à la Fidel desce Sierra Maestra acelerado não fumegava intramuros conjugais. Aí, sobrava quem? O zambaísmo figurínico que, se deu uma de fundo de garrafa na banheira japonesa foi só para provar os escargots, pois sempre deu miles de iscas e anzóis nos embeurrées da sobremesa. Ou alguém já esqueceu o aviso que o capicua 1001 do hotel samaritano estourou na boca do balão: querer lhe servir, até que eu fazia muito gosto, que o meu hotel é um hotel de família, mulher não sai sem companhia nem entra home desconhecido? Mas sem essa de querer saber o que é que tem a ver família com mulher sem companhia, que o presidente Jânio Quadros também nunca soube explicar o motivo da renúncia, e mais era presidente da República e costureiro do pijânio, aquela farda à la Gunga Din de calça-curta e logomarca do Brasil no tempo das vassouras.

Eu sei que todo mundo pensou, já que a minudência do dramatismo, os detalhes do farejo em tanajuras e o pedágio da transmissão microbiana cagaram nas certezas do campanário das urtigas, que o quadrado da largura bem que podia navegar no mar da Noruega ou entrar numa de sombrero mexicano. Porque, e isso todo mundo viu, para a louríssima auxiliar da nossa perfeita secretária ou para a sapotíssima mão-na-roda da nossa magnífica continuísta o samaritanismo geral era que nem confluência bíblica em mar de caridade. Por samaritanas muito menos gerais até o velho Santo Antão mandaria o eremitismo semear acelgas nos jardins do Vaticano, quanto mais o robaleiro, morador de casa e pucarinho nos acostamentos acolchoados do nº 5 do Chanel. Mas tinha Seu Argimiro. Aquele Bustamante, seu criado, capicuão-mor closado à la Sérgio Leone devagar quase parando e a eterna vigilância da caninagem na portaria do hotel: mulher não sai sem companhia nem entra home desconhecido. E, aí, já viu. Se mulher e etc., adeus Noruega e adeus México, e ficamos entendidos no contrapeso do sem dó. Sem dó e finis. Com o samaritanismo rezando missa in albis em lençóis de meia-cama, embora não pareça, sobrava quem para o robalão asfaltar o quadrado da largura no molejo da capital do pecado? O zambaísmo figurínico, lambuzando iscas e anzóis nos embeurrées da sobremesa. Onde? Ora, se manca, cara-pálida. Se a estátua do meu eu cansou de decorar a esquina do corredor da suíte do mistério e o vão de uma porta com a escuridão da rua te olhando que nem oco de chaminé em procedimento de limpeza naquelas sete noites a cinco horas top secret, onde você acha que o zambaísmo acelerado fritava o contrafilé do pescador? Já esqueceu a hidráulica daquele apartamento que a meia-calça do 20 do casal da Recepção botou no escanteio do conserto? E logo com janela abrindo para o jardim? Se bem que isto de janelas abrirem para jardins só tem botado as gentes no sifu. Não é verdade que até hoje pagamos um patarrão só porque a Eva foi pega com a maçã no jardim do Paraíso? Mas janela é janela e jardim é jardim, e o mais que se pode fazer é semear pós-de-mico nos canteiros e cagar na sementeira. Que não era o caso do Hotel Glória, o que muito facilitou o passeio do zoom da minha Nikon e do estojo das chaves mixas pelos arredores da serventia do pecado logo que o chrono do meu casio alarm cravou 0:00 02 e a trombeta do arcanjo Gabriel grudou os decibéis no tímpano-mor da Olimpíadas. Um silêncio que nem te conto. Daqueles, mesmo, sem o menor perigo de ser surpreendido no vem cá. Além do mais, se ninguém mais passeia amores em romantismos de jardins, também ninguém se espanta se alguém der uma de cheira-cheira e correr atrás de algum jasmim-do-cabo perdido no contexto. Mas se nada de perfume de gardênia no silêncio e na penumbra, o tapete da grama também não comprometia. Pelo contrário, me botou junto da janela sem chiar o menor decibel no sonômetro. Mas que havia algo de incerto para além do oco da parede, os filetinhos de luz que lombrigavam nos interstícios persiânicos não deixavam mentir nem o vice-presidente José Maria Alkmin que, dizem, assinou a cassação dos direitos políticos do ex-presidente Juscelino Kubitschek em troca das três horas que substituiu no trono de Brasília o eu não tenho nada a ver com isso do marechal Castello Branco em visita de contrabando aos fac símiles paraguaios.

E se a meia-calça do 20 do casal da Recepção encobriu tanto a suspeita das hidráulicas quanto o Superior Tribunal Militar encobriu o estouro da bomba do Riocentro, mandando arquivar o processo como se a morte do sargento Guilherme do Rosário tivesse sido causada por alergia a fumo de cachimbo ou por ingestão de chope requentado, então a marosca era grossa e disso nem o chefe da manutenção do hotel duvidaria. E tudo a ver com a razão de suspeitar, que luz em apartamento sem hóspede, já viu. Só mesmo um zambaísmo acelerado não entraria em função de no chiu da escuridão. E eu suspeitava porque sabia. E sabia porque a viagem ao fundo da banheira japonesa, com os dez mil watts do transformador figurínico preenchendo até talão de rifa de quermesse, não me deixaram fechar os olhos nem na hora dos esguichos. Não era nada, não era nada, era a minha experiência de pegar até sagüi em folha de palmeira plenamente confirmada. Sem o menor será que, para além daqueles interstícios concubinavam à la tripa mais que forra o zambaísmo da nossa brilhante figurinista e o chapéu de pescador do futuro ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e finis. Finis, assim, que ainda faltava o flagra e eu acordar do ou adormecer no sonho do meu sonho de consumo: entrar na cama da Lassie à la Nunca Fui Santa como ela entrou no meu estaminé. Com a maior firmeza e sem a menor hesitação.

E foi também com a maior firmeza e sem a menor hesitação que deixei os filetinhos de luz lombrigar nos interstícios e botei os pés no caminho da verdade. No escuro do silêncio hotel é que nem noite de núpcias. Nem o preço da liberdade é a eterna vigilância, nem a vigilância pega no pé da liberdade. Um plantão nas camareiras e um elixir paregórico ou um acode aqui no escaninho das urgências, dois cochilos pendulando na Recepção e Portaria, e os conformes se dão por satisfeitos. Que nem eu me dei ao dobrar a esquina do será e nenhum babau me botou nas roscas do sifu. Tudo tranqüilo que nem casa de Papai Noel antes da chuva. Apenas, por um resquício de farejo de ex-catador de bicharada perdida no Aterro do Flamengo e encruzilhadas circundantes, botei o pé ante pé em função de e pisei o capim-seda do pêlo do carpete que nem centígrado pisa mercúrio de termômetro. Cuidadosa, lenta e consecutivamente, amém, Jesus. Amém, Jesus, assim, a respiração na manete do vai-vai e os olhos que nem gatum em moviola.

Como sempre abri as portas dos outros com o suor das minhas próprias ferramentas, nenhum decibel zoneou as consoantes dos ilhoses e o zoom da Nikon firmou a pontaria no intuito. Firmou, quer dizer, não firmou. Tremeu mais do que goleiro do Olaria em Maracanã de Flamengo. Lembra do perder a confiança e da meleca que dá? Se todas as minhas fés sifu com o Dicionário do Aurélio, que sempre tinha sido o meu Santo Expedito nas promessas e ele nos tira-teimas da língua, imagina só o tamanho da baleia que engoliu o Jonas do meu espanto e o espanto do espanto. Dizia meu velho pai que o que não pode ser só não é porque não foi, e tinha mais do que razão aquele portuga que nunca soube nem roubar uma passagem de volta a Portugal e morrer na santa paz daquela tal de Serra do Gerês. Lembra de O Diabo na Carne de Miss Jones, a cabeça daquela cascavel vai-que-vai e a Georgina Spelvin vem-que-vem, e a porra escorrendo da mão de todo mundo? Pois não lembra, não, que se lembrar, vai querer repetir e repetição só missa cantada na catedral de Brasília. E a milicada no faz-de-conta que salvou as criancinhas brasileiras da panela do angu das esquerdas militantes. Mas mesmo sem repetir e sem cantar a missa, ainda botei a carne-seca na balança. Ah, botei. Mandei um Rom. 12:19 no capricho e deixei o zoom da Nikon ferver no tacho da vingança. Trinta e seis 15 x 10 de fazer inveja até a dono de motel. E sem grito nem choro, que se o Jonas do espanto vomitava baleias na rodovia das melecas, o chapéu do pé-direito só rolou o quadrado da largura no colchão e mandou o stand-in sair de cima.

- Quanto?

Quando me contaram que um tal de William Dement, dizem que psiquiatra do melhor freudantismo e procedência, mostrou aos deixa-disso que todos sonham cinco vezes por noite, a primeira nove minutos, a segunda dezenove, a terceira vinte e quatro, a quarta vinte e oito e a quinta mais de trinta, eu não acreditei. Não creditei, só, não. Não acreditei e ainda fiquei puto. Putérrimo. E não vem, não, que tinha mais do que razão. Nunca que consegui dar cinco numa noite e, se conseguisse, quem garante que a Lassie à la Nunca Fui Santa ia agüentar a primeira à la coelho, a segunda e a terceira à la tapiti e a quarta e a quinta à lá lepus lepurina? Mas também não foi só por isso, não. Pensa bem. Eu sonhando com o nº 5 do Chanel abrindo as torneiras do meu sonho de consumo e o filho da puta do freudantista picando o meu consumismo que nem jeca pica fumo nos condomínios do serrado? Mas também não foi só a picada, não. Imagina você debaixo da torneira do melhor e, de repente, babau. Mas um babau, babau mesmo. Você desafinando na ópera e, duas horas corridas, mais gota menos gota, o cinco sonhos te deixa no sabão. Não vem que não tem, que sonho de consumo em duas horas nem o ministro Delfim Netto conseguiu quando planejava o milagre brasileiro pendurado nas baionetas do bunker de Brasília. Não é por nada, não, mas tem gente que devia pagar multa por cada perdigoto. Sonho de consumo em duas horas, só o da senhora sua mãe, viu seu perdigoteiro guilhermino? E também sem essa de quanto, entendeu, ó futuro Oscar de Melhor Consumação?

Eu sei que é apenas questão de gosto, mas quem tem uma cobertura na Tijuca, um Porsche 3000 na garagem e um fornecedor de Ballantine’s que nunca me enganou, sou eu, viu? E, de quebra, ainda penduro a gabardine e o chapéu do Humphrey Bogart, e os 212 graus farenheit da Lauren Bacall num estaminé da Rua Buenos Aires que só não tem duzentas e dez louras peitudas abrindo sorrisos e decotes nas mesas da Recepção que nem a Hollywood Detectives Corp. de Los Angeles, porque o mais que já dei sem tirar fora foram três e olhe lá. Portanto, já viu. Tento na língua, que nem dizia a minha santa mãe que Deus tenha, ou temos o bacalhau pescando siri de calça curta.

- Não tem quanto.

Lembra do olhão e do bocão do pessoal quando a Sophia Loren entrou numa de dramatismo terminal na piscina das Duas Noites com Cleópatra? Pois foi pinto o olho do pinípede furando o sério do meu com um espanto muito mais meu Deus do que baleia de Jonas.

- Não tem o quê?

- Quanto.

Curto e seco, que nem suspiro de varejeira antes da chuva e finis. Finis, assim, que foi aí que a tripa do pau virado tirou o sebo das canelas e botou o stand-in no vamos ver das atenções.

- Precisa mais de mim?

- Não.

Não é não e stand-in é stand-in, e já viu. O Zé Cebola, sobrinho do Tom Só, aquele ex-gaffer do Fitzcarraldo do Herzog, jóquei oficial das dermes conjuntivas do pinípede, enfiou as doze polegadas do barbará de dois metros na standinagem do Grande Cidadão e saiu do pecado capital que nem operador da bolsa depois de feriado. Cuspindo prós e contras na parede e doido por chutar o balde do ministro da Fazenda.

- Então, boa-noite.

- Fecha a porta.

As iscas coruscaram em cima do fecha a porta e os anzóis entraram direto no assunto.

- Se não é dinheiro, é o quê?

Dizem que o que mais espantou o general Augusto Pinochet não foi saber que o Prêmio Nobel da Paz de 1978 tinha sido dividido à la Capuletos e Montecchios entre Anuar Sadat, presidente do Egito, e Menahem Begin, primeiro-ministro de Israel, foi a Academia Sueca não lhe ter concedido o Prêmio Nobel de Fisiologia da Matança pelo muito que operou no cumprimento do dever. Eu nunca ganhei nenhum prêmio, e muito menos o Nobel, mas bem que gostaria. Sabe lá o que é foder o outro e viver a vida inteira à custa da babaquice dos jurados?

Lembra de um tal de Arquimedes que, dizem, só tomou um banho na vida mas cravou os treze pontos da loteca com a heureca de um tal de princípio que lhe paga royalties até hoje? Pois eu tomo banho todos os dias e nunca fiz mais do que dez pontos, e também nunca peguei nenhuma heureca que me pagasse um miniminho de royalties. E digo mais. Se bobear no suadouro, quem paga a gasolina do meu Porsche e o Ballantine’s da minha digestão? E outros badulaques de menor conta, mas de igual peso e volume? Por isso que não esqueço a minha crisma de corrupto. Se tivesse sabido maquiar os caraminguás que recebia dos bicheiros nos meus tempos de suposto sustentáculo da ordem constituída, sabe o que poderia ter acontecido? Talvez, hoje, eu fosse o secretário de Segurança de uma nova Operação Dignidade e até futuro governador do Estado ou presidente da República. Que nada é impossível quando todo mundo batiza filhos pródigos nos saldos das nossas contas e todos os cheques têm fundos. Só que metade dos meus nunca tiveram, e até botar a mão naquele royal straight flush do Hotel das Paineiras, o mais que fazia era xingar Deus e o Diabo na chama da mesma vela. Mas foi só ver aquele negão cavalgando a seqüência e a xinga sifu. Afinal, para quem pegava até sagüi em folha de palmeira, negociar era mais cartório do que firma. Era só pegar o barco e navegar à la viver não é preciso e deixar os tubarões mais tubarões do que peagadê em tubarices. E tubarar era comigo. De catador de bicharada perdida, com um único royal straight flush, logo desci o morro da saudade e entrei no apê das investigações particulares. Muito bem pagas. Por isso mandei sem dó aquele não tem quanto em cima da porra do pinípede. Porra do pinípede, assim, porra do Zé Cebola escorrendo do pé-direito dos anzóis. Cara-pálida, cara-pálida, uma coisa eu posso dizer e vou dizer: voltar à minhocagem do asfalto, jamé. Jamé na minha vida.

Assolapadas as dermes conjuntivas nas dobras do lençol, foi a vez de um fidelão ensebar a chaminé e o quadrado da largura me olhar que nem, dizem, o cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro olhou o pau da cara dos dezessete nem sim nem não, muito antes pelo contrário, e meteu o pé no freio dos nove pilotos das ausências do Colégio Eleitoral de Brasília e perguntou, o kolynos da vingança cagando nas quatro folhas do trevo do retorno: valeu a pena? Dizem que um tal de Fernando António Nogueira Pessoa, cidadão português e cirrose da melhor circunstância e procedência, jurou que tudo valia a pena se a alma não fosse pequena. E dizia minha santa mãe que Deus tenha, que o tamanho das almas era um só e que a diferença estava era na ruindade. Não sei, nunca pedi meças a ninguém e muito menos a Deus, mas o soslaio daquela chaminé me deixou puto. E como, alma por alma, ainda sou mais a diferença, pulei a cerca e matei a pau o conjuntivismo das dermes. Mandei um souza cruz no pó de peido com três covas-fundas no capricho, e deixei a guimba foder o capim-seda do pêlo do carpete. Não era por nada, não, mas em tempo de manda quem ainda tem amigos em Brasília ou conta numerada na Suíça, que tiro podia dar um pé-de-meia que nem eu no eu sou mais eu do futuro ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro? Só cagar no já escutei e negociar o vamos ver. Que negociar tem disso. Ou você caga na cabeça do negócio ou o negócio caga na sua. E não era só a merda, não. Além do possível consumo do meu sonho, havia ainda o fator multipli. Se Cristo, que não tinha problemas trabalhistas nem era primo de ministro, calou a boca das lombrigas com a multiplicação de pães e peixes, a minha lombrigagem era calar a boca das necessidades mais urgentes com a multiplicação das diárias à la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar. E como calar as evidências, se as trinta e seis 15 x 10 que o zoom da minha Nikon tinha pegado no suspiro eram o ponto final da redação sobre o custo/benefício da luxúria?

- Quer saber mesmo?

A resposta ficou por conta do já era. O pé-direito botou o trombone na chaminé do fidelão e mandou o foguinho do capim-seda do pêlo do carpete cagar bombeiros no campanário das urtigas. E mais. Também cagou na seriedade do trabalho e ainda riu no pau da minha cara.

- Você conhece aquele soneto do Bocage, Não lamentes, ó Nise, o teu estado, puta tem sido muita gente boa?

Casquinou aquele quiquiqui de rato empescoçado pelo gato e jogou o fumegas do guimbão bem ao lado do pó do souza cruz.

- Pois é, Seu Simplício, pena o Bocage não ter dito, Não lamentes, ó Adauto, o teu estado, viado tem sido muita gente boa.

Filho da puta. Não fosse o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, ser amigo desse tal de Bocage e muito gostar de lhe contar as piadas na quitanda, e eu respeitar os amigos dos amigos, e o filho da puta ia ver com quantos estados se fazia um Simplício. Mas não era hora de botar arreios na cumbuca e deixei passar o não lamentes. Deixei passar, assim, fiz que nem o cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro fez com o pau da cara dos dezessete nem sim nem não, muito antes pelo contrário, e o freio dos nove pilotos das ausências do Colégio Eleitoral de Brasília, e anotei a filha-da-putice para futuras reservas de mercado. E não deu outra. O pé-direito botou o dedão no escadote e entrou na fazenda Conceição eu me lembro muito bem.

- Seu Adauto, sem falar de gente conhecida, que não vou citar amigos ou inimigos pra não criar inveja na moçada, a minha companhia é de primeira, sabia? E isto, só em Hollywood, que se baixar em Roma ou em Paris, ganhamos todos os páreos de barbada. Anote aí, e veja só os macharrões: Cesar Romero, Tyrone Power, Cary Grant, Randolph Scott, Montgomery Clift, Rock Hudson, Burt Lancaster. E isto só de atores, que se pegar os diretores, os cenógrafos, os coreógrafos, os dançarinos, os roteiristas, os produtores e outros menos abonados, nem cem Maracanãs dão conta da moçada. De forma que, Seu Simplício, se a Revista da Cidade cancelar a matéria, lamento, viu?

Viu? Viu o quê, cara-pálida? Espera, que vai ver só. Ou pensa que eu sou de babar na dentina do Burt Lancaster e do Cesar Romero na condessa larapista do Vera Cruz ou de pegar touros pelos chifres com o macho-macho do Montgomery Clift no eu sou mais eu do Rio Vermelho? Não sou, não, que eu sei que quem mais alto sobe, sobe mais, sabia disso? Então, pega no lamento, que quem com ferro mata, mata mesmo, fedaputa.

- Primeiro, Seu Forfait, a Revista da Cidade não existe e eu não sou jornalista. Segundo, sou investigador particular e quem tá pagando as fotos é madame Raiolinda.

Lembra daquele serão que a secretária só fez no eu prometo, e, na hora do vamos ver, não se viu nada? Igual, igual. Só que o quadrado da largura tinha um pé-direito de pulmão vou te contar e o berro estourou até os tímpanos do sonômetro.

- Não!

Pena, mas é assim. Todo o não que estoura tímpanos de sonômetros, já viu. É que nem coronel de Caxambirra do Norte babando nos toplesses de Ipanema. Rendição absoluta.

- Ela não! Por favor, Seu Adauto, olha os meus filmes.

Não precisou nem mostrar a certidão. Nada como uma boa separação de bens para botar o desespero nos conformes e a moral no ai meu Deus. A moral ou o saldo da conta, que banco sempre teve a maior moral neste país de banqueiros e compadres aquartelados em Brasília. Que isto de regras de conduta é que nem dirigir automóvel nas estradas inglesas. O lado certo é o lado errado e não adianta retornar. Aí, mandei duas folhas-secas num segundo souza cruz, aquelas do não adianta chiar que o beco não tem saída, e deixei o fumo sair, bem devagar, pelo nariz e pela boca. Não era nada, não era nada, já era uma boa prova da minha melhor conformidade.

- Se mulher já odeia ser trocada por mulher, imagina, Seu Forfait...

Fiz aquela pausa que deixa até mosquito sem vontade de torrar o saco de quem dorme, e repeti as folhas-secas.

- Mas, dependendo, quem sabe eu tenho a solução?

 

Cunha de Leiradella no TriploV

 
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