APENAS QUESTÃO DE GOSTO
Romance

INDEX

Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8

Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11

Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14

Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17

Capítulo 15

Sabe porquê que aquele detetive do seriado Kojak, aquele careca que chupava pirulito enquanto fazia de conta que tirava minhoca do asfalto em Hollywood não virou chefe de polícia no Brasil? Igual a chefe de polícia brasileiro que também nunca chupou pirulito na televisão americana? Porque nenhum dos dois conseguiu explicar o que significava Celacanto Provoca Maremoto, aquele xiboletaço que tirou do sério os perdigueiros da milicada brasileira e só não botou o turbo do ex-vice Gerald Ford na cama do tovaritch Iúri Andrópov pela alergia que o americanão tinha a pêlo de cobertor siberiano. Lembra do celacanto pichado em todos os muros do Brasil e do Tarcísio Meira xingando o maremoto pelo fracasso da novela O Semideus? Longe de mim querer bancar um Joãozinho da Goméia à la araponguice do general Golbery do Couto e Silva no SNI ou à lá milagre brasileiro do ministro Antônio Delfim Netto no Ministério da Fazenda, mas que aquele provoca pegou o Brasil de cuecas no Ame-o ou deixe-o, disso só duvidou quem passou longe das catacumbas dos DOI-CODI da catedral de Brasília. Ou quem mandou ver um Concorde na divisa da fronteira e foi lamber aqueles biscoitos que o tal de Marcel Proust lambeu e encontrou o tempo que tinha perdido na embaixada de Paris, ou quem pegou de toucinho do céu que nem o senhor Dom João V pegava nas abadessas conventuais e cantou o fado na embaixada de Lisboa, ou quem esgoelou o maior dominus tecum na embaixada vaticana, como muito bem dizia o velho Mora dos Incréus, aquele ex-tudo em todos os jornais do Rio de Janeiro que sifu no remoinho da traineira do AI-1, costurada pelo Deutschland über alles, aquela Alemanha acima de tudo do doutor Francisco Campos.

Parece que não tem nada a ver, mas tem. Pensa bem. Depois de tudo que o 1001 da capicua botou no balaio do mas não é questão de jeito, aquele apartamento que a meia-calça do 20 do casal da Recepção tinha interditado com problemas hidráulicos era ou não era um baita de um celacanto provoca maremoto? O Ford já virou Chevrolet e o tijolo do Andrópov já paredou no cemitério dos adeuses, e eu nunca lambi biscoitos nem peguei de toucinho do céu ou esgoelei dominus tecum. Mas uma coisa nem a minha santa mãe que Deus tenha negaria. Burro de carregar a minha própria burrice e a dos outros eu não era.

Não era, assim, se entendia de bicharada perdida ou de zoonar cafungadas em cangotes ilegítimos, vôos de cururus não eram a minha especialidade praiana. E nem fazia questão. Afinal, o meu problema eram as diárias à la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar e o meu aeroporto passava longe do lago dos marrecos. Mas pegar ou não pegar é que nem cabo-de-guerra. Se um puxa de um lado, o outro segura do outro e já viu. E para eu puxar o meu lado que nem, dizem, teve um bonde que puxava um baita de um tesão e botava a mulherada no ai, meu Deus, só de ver o Marlon Brando de sovaco e camiseta, eu tinha que ter certeza que o outro também segurava as pontas numa de porca e parafuso. E sem a menor condição da porca torcer o rabo. Aí, fazer o quê? O que fez o John Ford No Tempo das Diligências. Botar o John Wayne no galope e apostar no corre-corre.

E graças ao meu Santo Expedito das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução, já que eu estava mais no mato do que cachorro sem dono, tudo correu que nem cem metros sem barreiras em cuca benzedrínica. Foi entrar no parque e pegar a sombra do primeiro bambuzal e pescoçar o vamos ver, e lá estava o de sempre. O Estado-Maior Conjunto que nem biombo, tapando o sol do pentágono do quadrado da largura das iscas dos anzóis, o pinípede mandando ver um charutão à la Fidel desce Sierra Maestra acelerado, os subeleitos matando centígrados a pau e a quilo de torresmo, e o stand-in do Grande Cidadão feito que nem o olho da Maga Patalógica na moeda número 1 do velho Tio Patinhas. Mais congelo do que ateu ideológico em pau-de-arara nas catacumbas dos conventos militares da catedral de Brasília.

As sete noites a cinco horas top secret que a estátua do meu eu campanou no corredor da suíte do mistério me tinham deixado mais por fora da pintura dos marrecos do que araponga do SNI farejando comunistas na cama da Tradição, Pátria e Família. Não era por nada, não, mas sabia tanto em que pé estava o 15º tratamento do Ximu quanto o zambaísmo da nossa brilhante figurinista sabia da minha última troca de cueca. E, cueca por cueca, melhor deixar as iscas dos anzóis na santa paz do que ter que subir no pé direito do quadrado da largura e botar mais vinte páginas de matéria no ego do pinípede. Mas já lá dizia meu velho pai, e dizia melhor do que ninguém, o homem põe, Deus dispõe e a mulher a ambos compõe.

E compôs. Foi o canto do meu olho terminar a panorâmica e uma coceirinha daquelas, mas que merda, logo pinicar no pé do meu ouvido. Puta que pariu. Eu, logo eu, que cansei de pegar até sagüi em folha de palmeira, não é que me deixo flagrar que nem boi olhando porta de palácio? Nada contra. Eu nunca soube, não sei e sei que nunca saberei o que pensa um boi quando olha a porta de um palácio. Mas que é de lascar você ser pego com a cumbuca na mão, disso só duvida quem já quis tirar um sarro no escurinho de um cinema e sempre lhe tiraram a mão do lugar certo.

- Veio ver a nova cena?

Não precisava nem de voz. Só a umidade do bafo já batia longe a certidão de nascimento. Lembra daquele peignoir de seda lilás que o Ximu botou na escuta dos pianíssimos acordes do Estudo Nº 1 do Villa-Lobos, e que a nossa muito mais do que querida Florismália pendurava no espelho do campanário das urtigas, no primeiro dramatismo do 15º tratamento? Pois ali estava ele, mais lilás do que todas as quaresmas.

- E tem cena nova?

- Todo dia tem cena nova. A de hoje, é eu tirar a roupa junto do lago com o Grande Cidadão me olhando, ou fazendo de conta que me olha, o detalhe ainda não tá definido. Diz o nosso Fellinão que a carga dramática de um nu ao ar livre é muito mais contundente do que num quarto um num banheiro.

- E o Ximu?

- Taí. Afobadíssimo, tratando de aprontar o 19° tratamento.

- Já não é mais o 15°, não?

- Que 15°? Se bobear, amanhã já tá é no 20º.

Fez aquela pausa apaga a luz e a mão dos pianíssimos acordes passou onde a minha santa mãe que Deus tenha costumava passar o talco.

- Mas até que eu gostei, sabia? Tirar a roupa no parque me dá muito mais cartaz do que tirar dentro do hotel.

Não uso mais talco, há anos que só o algodão da zorba me aquece ou arrefece, mas até que os pianíssimos acordes eram mais do que legais. Mas não era hora de cumbucar legalidades. De que adiantava o trem pegar de túnel se não ia poder nem pintar no outro lado?

- Tá todo mundo aí?

- Todinho. Hoje veio até quem não devia.

Esse negócio de quem não deve não teme é que nem síndico cobrando condomínio. Vamos ver, vamos ver, mas no fundo ninguém vê. Só olha.

- Vai assistir?

- Não vai dar. Mudando de cena toda hora, já viu como fica a matéria.

- E logo mais?

- Lo...

O go sifu. Um alto-falante, daqueles de greve à la Partido dos Trabalhadores em armazém de cais do porto, entrou na roda tão por cima que botou até o enxofre das fontes sulfurosas no Ministério da Saúde.

- Atenção, Florismália! Por favor, comparecer ao set com urgência! Atenção, Florismália!

- Tenho que ir.

Quando me contaram que um tal de Hugh Marston Hefner, dizem que o maior pinguço dos chás de catuaba dos entertainments for men, tirou o sutiã da Marilyn Monroe no primeiro número da revista Playboy, eu não acreditei. Mas de jeito maneira. E sabe por quê que até hoje eu juro que ele não tirou? Porque é um crime mulheres como a Marilyn usarem sutiã. E é um crime tão crime que até o retorno do rei D. João VI a Portugal, o escândalo da mandioca em Pernambuco ou o último aumento da gasolina são pinto junto dele. E tem mais. Se os argentinos tivessem ganho a guerra das Malvinas, eu duvido que a merda de um ex-futuro ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro mandasse alguém matar mosquitos com o trombone daquele atenção, Florismália! Mas manda quem tem revista, lê quem pode comprar e vamos nós ao nosso que o deles já se foi.

- Tenho que ir, viu?

- Vai.

Olha, gente, eu nunca fui colecionador de sutiãs e também nunca fui padeiro, mas uma coisa aprendi nas duzentas mil páginas de A Retirada da Laguna. Esse negócio de pão, pão, queijo, queijo, funciona que nem o Ballantine’s da minha digestão. Tenho que ir, viu?, vai e finis. Ela foi e só não desligou o ventilador porque ainda tem muitíssima merda no contexto. Agora, imagine se em vez do pão, pão, queijo, queijo, tenho que ir, viu?, vai, pintasse uma de vereador de São João das Antenas em dia de civismo ou de senador justificando a troca de partido? Ou de deputado gadanhando o orçamento? Ou de prefeito, governador ou presidente agradecendo a confiança dos zimbrados? Já pensou que ou ou mais noves fora? E não tinha tir-te nem guar-te. Ou a segurança me pegava e o pinípede mandava ver em que pé botava as iscas nos anzóis ou eu botava sebo nas canelas e batia o recorde mundial dos enduros pé-no-chão em parques sulfurosos. O que, valha a verdade dos sacrifícios cooperianos, não agradaria nem gregos nem troianos. Portanto, melhor, mesmo, era o pão, pão, queijo, queijo, subir no pódio e o atenção Florismália, cagar regra em outro doutorado.

E eu também. Que eram muitos e variadíssimos os propósitos e os motivos que me levavam a pegar de quilômetro de arrancada no enduro. Saí do parque que nem José, dizem, saiu a primeira vez do quarto da mulher de Potifar. Sem deixar a túnica na mão do vem cá, vem, e a raiva fervendo no panelão filho-da-puta. Longe da vista, do coração e do perigo, botei o chrono do meu casio alarm em função de, e as 16: 01 03 mandaram ver a cadência da marcha dos pelotões dos centígrados no asfalto derretido do caminho de um Ballantine’s cubado no capricho.

Nada como uma formiga atrás da outra para não perder o prumo do formigueiro ou uma cuca botando idéias pelo ladrão na boa e velha inflação da inteligência. Se bem que isto de inteligência é que nem dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, quem tem um grande coração de ouro só pode ser uma pessoa muito rica. E foi sonhando com a caneta da Lassie à la Nunca Fui Santa, aquela que assinou o cheque do meu sinal com mais ouro na tampa do que a estatueta do Oscar que o Rocky Stallone ganhou na porrada contra Todos os Homens do Presidente, que cheguei ao hotel, fuzilei os pelotões dos centígrados com o trator do ar-condicionado e cubei aquele Ballantine’s da minha melhor predileção. Isto servindo de prolegômeno, como muito bem diz o Dicionário do Aurélio, para os primeiros cem metros sem barreiras das idéias que a cuca sempre botava pelo ladrão na boa e velha inflação da inteligência.

Dizem que foi às cinco em ponto da tarde que não sei que touro matou não sei que toureiro numa daquelas Touradas de Madrid que o marcheiro Braguinha flauteou nos 6 a 1 que o Brasil deu na Espanha num Maracanã de duzentos mil gogós no turno final da Copa do Mundo de 1950. Só que na decisão, já viu. Brasil 1, Uruguai 2 e adeus caneco, que só te verei na Suécia, na primeira comunhão dos oito anos.

Nada a ver comigo, com um ano e sete meses eu nem soube daquele 16 de julho, mais negro do que todas as penas do inferno que, dizem, hão de assar a alma de um tal de George Reader, aquele desgraçado daquele árbitro inglês que não marcou impedimento nos gols dos uruguaios Shiaffino e Ghiggia, como juraram no cartório do eu sei 32.027.661 brancos, 13.786.742 pardos, 5.692.657 pretos, 329.082 amarelos e 108.255 sem declaração de cor, ainda hoje chorando mágoas de terceira geração neste imenso continente de sotaques. Claro que todo mundo sabe e eu também sei que aquelas Touradas de Madrid da Chiquita Bacana do Braguinha nada têm a ver com a inflação das idéias. É perfeitamente visível nas mágoas da terceira geração que, inflação por inflação, sou muito mais a do Ministério da Fazenda, que só no ano passado faturou 223,90% em cima dos meus pobres cruzeirinhos. Mas aquele touro que matou o tal do toureiro às cinco em ponto da tarde, esse tem. Tem, assim, o que tem mesmo é o ponto das cinco da tarde. E sem essa dos patrulheiros de plantão babarem em cima da minha ignorância tauromáquica. Se nunca peguei nenhuma daquelas Touradas de Madrid, nos meus tempos de tira e suposto sustentáculo da ordem constituída, peguei miles na Câmara dos Vereadores e algumas nos auês da artilharia do Morro do Turano casquetando em cima do faz-de-conta dos bodoques da polícia. E se isso não bastasse para complementar o meu empenho, a hora bastaria. Foi, precisa, justa e exatamente às 17:00 00 que o chrono do meu casio alarm pinicou o dedão do pé do meu ouvido, e a segunda cubagem do Ballantine’s da minha digestão entrou no caminho do cemitério das contrações estomacais.

Rezada a missa dos adeuses, pelotões dos centígrados ruminando marimbondos no escanteio do corredor e do banheiro, foi a vez de passar a mão no estojo das chaves mixas e levar a gazuagem a passeio. Qual delas faria com o celacanto da fechadura que a meia-calça do 20 do casal da Recepção tinha interditado o mesmo que os confessores da catedral de Brasília faziam com os comunistas-que-comiam-criancinhas, era coisa que logo se veria. Afinal, como não sei se muito bem, mas sempre dizia o velho Mora dos Incréus, a lógica só é lógica porque é que nem a fécula da batata, tanto serve de comida como de cola, se uma das doze mixinhas tinha gazuado a porta da suíte do mistério, outra tinha closado o baticum do coxame da nossa magnífica continuísta com a tanajurice da nossa perfeita secretária, será que nenhuma delas mandaria a tal da interdição fazer cocô no campanário das urtigas? Claro que mandaria. O mão-leve que eu aliviei de uma furada ainda nos meus tempos de alavanca do bem-estar social e que me agradeceu a cochilada no dever com o aço do estojo made in Sweden era gente finíssima. Profissional da maior competência e qualidade. Mas quem tem, como eu tenho, a jura do Sherlock pendurada na parede, não pode dar a menor pé-de-chinelo. Afinal, la noblesse oblige, como também sempre, mas não sei se muito bem, dizia a madame dos embeurrées d’escargots daquele meu royal straight flush do Hotel das Paineiras. Um negão sem mais tamanho cavalgando os lombos do senhor seu marido, um dos maiores cofres-suíços das colunas sociais. Portanto, se tinha doze chaves mixas no estojo, doze seriam levadas a passeio e finis.

Mas está visto que uma coisa é o touro matar o toureiro às cinco em ponto da tarde e outra é o toureiro morrer às cinco em ponto da tarde. Comum, mesmo, só o ponto, que o matar e o morrer, já viu. Diferentes que nem o matador Nilton Cerqueira e o morredor Carlos Lamarca, apesar de ambos serem brasileiros, brancos e militares. Ah, sim, e o matador se fissurar numa cervejinha à la Adolf Hitler heil-heil, e o morredor se babar numa vodquinha à la Ossip Vissarionovitch Stalin, Dzhugashvili na língua georgiocaucasiana da senhora sua mãe.

Só que o meu problema não foi o quebra-pau entre a loirinha de Ipanema e a aguinha da Sibéria acabar sete palmos abaixo do nível das minhocas. O meu problema foi dobrar a esquina do corredor e babau. Não é por nada, não, mas nunca fui assim um Pelé por aí além nessa de dobrar esquinas, fosse à esquerda ou à direita. Não vou aqui dar uma de doutor Freud, que nem a madame dos embeurrées d’escargots gostava de dar entre os licores e os charutos, mas sempre acreditei que o problema não eram as esquinas. Eram as dobras. Sempre que dobrei uma folha de papel, sempre ela aprumou a mais perfeita das esquinas, mas sempre que dobrei uma esquina nunca que ela virou folha de papel, deu para sacar a embocadura? Mas também não era só por isso, não. Freudantices à parte, dobrar uma esquina não é que nem abrir a janela e olhar a vizinha na masturba. Vizinha é vizinha, e o problema da esquina é o babau. Exatamente, a gente nunca saber o que tem do outro lado. Ora, se somarmos o fato de qualquer folha de papel virar esquina ao ser dobrada e o vaice não ser virsa, vocês podem imaginar o tamanhão da minha justíssima puteza ao descobrir que tipo de babau me esperava naquela joça que o velho Mora dos Incréus sempre adjetava aos prolegômenos do primeiro tiro-curto da série matutina. Imprévu, imprévu, toujours l’imprévu.

E fui de imprévu, mesmo, que o babau já tinha sumido no oco do primeiro puta que pariu. Primeiro, assim, primeiro e único, que o sorriso da camareira que empurrava o carrinho dos modess clorados da limpeza, não me deu a menor chance de bisar o desafogo.

- Boa-tarde. Em que posso ajudá-lo, cavalheiro?

Fazer o quê? Pegar o imprévu e dar uma de cego puto em baile de tira-tira ou parafusar a cara estouro de cheque especial e entrar direto no cofre dos conformes? Nem cego, nem cheque. O meu Santo Expedito das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução pintou no pedaço e matou a pau o tal do cavalheiro. Não é por nada, não, mas, cavalheiro, nem a minha santa mãe que Deus tenha me chamava na hora de dormir.

- Me diga. Não é naquele quarto (e, num gesto que nem varredor de rua chutando bunda de bêbado, apontei o silêncio da porta das ausências) que se hospeda o jornalista José Espínola de Morais Sarmento?

A resposta veio que nem o peido do bêbado do cu chutado. Curta e seca, como convém a uma informação sustenida ou a uma reação fora da cadeia.

- Aquele apartamento, cavalheiro, está interditado.

- Tem certeza?

- Absoluta. Tá aqui na minha lista.

E finis. Lista na mão, dedo na linha das certezas, e eu que engolisse o cavalheiro. Vocês talvez não saibam, mas não sou muito dado a engolir cavalheiros. Nem sapos. O último anuro que pegou de tabogã no meu gogó foi quando aquele secretário de Segurança da Operação Dignidade se candidatou a deputado e eu paguei as custas do processo. Paguei, assim, o pilar da ordem constituída precisava botar a mão nos marechais de todos os exércitos para financiar a porra da campanha e, como eu pescava alguns na folha de pagamento dos bicheiros, me deram crisma de corrupto e, a bem da moral e do serviço, o mãos-limpas das arábias me demitiu sem mais aquelas. Aquelas, uma porra. Uns misérrimos caraminguás que eu botava no bolso e que o filho da puta me garfou na maior cara-de-pau. Isto, bem entendido, no tempo em que o América Futebol Clube ainda pensava ganhar um Campeonato Brasileiro e fazer da Praça Saens Peña o seu estádio oficial. Aí, estádio por estádio, já viu. Mandei o cavalheiro cavalgar cururus no campanário das urtigas e subi nas tamancas de faxineiro da catedral de Brasília.

- Não pode haver engano na sua lista, não?

Foi a vez do carrinho dos modess subir nas tamancas das galáxias e botar todas as estrelas da Via Láctea no serviço do hotel.

- Cavalheiro, a minha lista é uma lista de computador.

Finis. Botou computador no sacramento, já viu. Por melhor que seja a reza não tem milagre que dê jeito. É tão mais dureza de intenção que até drupa de manga vira fiofó de caganeira.

- Muito obrigado.

E mandei uma retirada que nem as duzentas mil páginas da laguna teriam condição de esculhambar. Não é por nada, não, mas não é à toa que odeio ortografias. Me diga. Por quê que asar é guarnecer de asas e azar é caiporismo? Só porque asar é sobrinho do latim de seminário e azar é filho do sheik de Agadir? Mas o que é que eu tenho com isso, eu, brasileiro, nascido e criado no bairro do Cubango, em Niterói-antes-da-ponte, e filho do português Eduardo da Micas do Ferreiro? Se eu escrevesse az-zaHar, que nem o Dicionário do Aurélio, está certo, poderia até mudar a minha certidão de nascimento. Mas eu escrevo azar, com z de zebra, tenho título de eleitor e, um dia, ainda hei de votar para presidente da república nesta imensa república das bananas três à dúzia. Quer saber? Se detetive, detetive, não, investigador particular, que foi o que eu virei depois que peguei aquele royal straight flush no Hotel das Paineiras, é um cara mais metido a besta do que besta, esse negócio de gramático é pior do que saúva. Só não acaba com o Brasil porque o Brasil tem mais sotaques do que murundus gramatiqueiros. E tem mais. Se mentir fosse que nem punheta, criasse cabelo na palma da mão sobe-desce, eu garanto que as minhas ortografias seriam mais limpas do que consciências mortas no cumprimento do dever. Mas como não sobrou nem touro nem toureiro, e, muito menos o ponto das cinco horas, deixemos o greguismo da orthographía, que presente de grego, já viu, e entremos na untagem do sebo que tive que cadarçar nas canelas para queimar a vontade de chutar o balde do computador que listava as competências da Governança do Glória.

Valeu-me no aperto da olimpíada Mach 2 o mais compulsivo e alargado sonho de consumo. Nada de mandar gregos e troianos à puta que pariu, como tem muita gente boa por aí que morre píssico só de pensar em botar a boca no trombone, mas taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar que se preza da taifeirice que nem eu, se pinta puta no pedaço não bobeia. Faz que nem, dizem, fazia um tal de Dr. Christian Friedrich Samuel Hahnemann, aquele simillimum que montou a primeira Pharmácia Homeopática do Brasil na Rua do Ouvidor. Primeiro provava ele o efeito e só depois o miligrama do resto fazia a festa da caixa registradora.

Que isto de sonho de consumo, como muito bem dizia meu velho pai e, tenho certeza, dizia melhor do que ninguém, é que nem urubu em sapucaia. Tem mais consumo do que sonho. E o meu, graças a Deus, apesar do Ballantine’s distilled and bottled in Scotland, nunca passou pelo Johnnie Walker 1820, fantasma que vive de fama que nem um Pelé destilado. Com o Paraguai falsificando até broca de irídio, tanta bobagem é o ozônio da tal camada protetora chamar aqui-del-rei por causa do buraco, quanto a alguém achar que nota fiscal é atestado de bons antecedentes. Falou em antecedentes, danou-se. Apesar do chiqésimo embeurrée d’escargots ou do finérrimo Johnnie Walker 1820, ainda sou muito mais aquele pedaço de mau caminho à la Lassie Nunca Fui Santa, que entrou no meu estaminé como eu teria entrado na cama dela. Com a maior firmeza e sem a menor hesitação. Isto, sem falar no carérrimo céu azul do tal do Clube Mediterranée e outras brigadeirices que o cofre-suíço do royal straight flush do Hotel das Paineiras paga para que os apontadores do Cassino de Monte Carlo fiquem sabendo que no Brasil não tem mais índios nem jacarés tomando sol nas calçadas da Avenida Rio Branco. E que o Copacabana Palace Hotel é um hotel que já hospedou até estrelas de Hollywood em função de.

Sei que não tenho nada com isso, o meu negócio é descobrir o que me pagam, mas aquele cavalheiro, a minha lista é uma lista de computador, me deixou puto. E me deixou ainda mais puto porque me obrigou a comparar a minha esferográfica marca Bic e o pigarro do Seu Manuel Joaquim, aquele velho português quinhentos anos de porteiro, faxineiro, bombeiro, pombo-correio e diretor de reportagem da Rádio Portaria onde o meu estaminé faz ponto na Rua Buenos Aires, com as impressoras marca Billion e as duzentas e dez louras peitudas abrindo sorrisos e decotes nas mesas da Recepção da Hollywood Detectives Corp., pilotis no 1009º andar do Lyingly Building, Hollywood Boulevard, Los Angeles, Califórnia.

Não é por nada, não, mas ser brasileiro filho de português emigrado, dá no que dá. Nem sonho de consumo à la pedigree como convém eu posso ter. Já pensou se meu velho pai não fosse português de língua e de sotaque, a bem-aventurança que alguns marechais poderiam fazer nesses tais brasões de linhagem que pintam ali pela feira de Ipanema? Pensa bem. Se o velho Eduardo da Micas do Ferreiro, em vez de ter cascado fora dessa tal de Serra do Gerês, perdido no vácuo de uns tais de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, jóqueis de um teco-teco que ganhou o Sweepstake das Gaivotas por três bicos e duas asas, tivesse aportado ao Brasil no porão de um daqueles navios que, dizia D. Maricota, aquela admiradora fissurada das duzentas mil páginas de A Retirada da Laguna dos meus tempos de colégio, tiravam os criminosos de Portugal e enchiam o Brasil de patrícios, já pensou eu ser neto de um tataraneto desses hóspedes das cadeias de Lisboa, e, comandando um exército de marechais a 3.511 cruzeiros por dólar, ganhar um brasão que embicasse no mais antigo rei de Portugal? A madame dos embeurrées d’escargots, aquela que gostava de dar uma de doutor Freud entre os licores e os charutos, não deixava por menos. Se os lombos cavalgados do monsieur lavavam o suor do negão cavalgador no céu azul do tal do Clube Mediterranée, os pergaminhos da calcinha sustentavam o peso dos tijolos com as cacetadas que o espadão de um tal de Dom Manrique Vaasquez de Soverosa deu na batalha de Ourique, em 1139, tudo devidamente juramentado, selado e registrado em cartório, como eu cansei de ver no quadrão que ela pendurava na parede.

Já disse que tenho os meus sonhos de consumo. Afinal, também sou filho de Deus, engulo meus embeurrées na maior cara-de-pau e se nunca dei tiro quando alguém fala em cultura, é porque ninguém me pagou o custo das balas. Mas já que não posso embicar a criminosidade do tataravô do meu tataravô no mais antigo rei de Portugal, embora não tenha a menor culpa do meu falecido pai ser mais conhecido no bairro do Cubango, em Niterói-antes-da-ponte, do que técnico do Flamengo em dia de Maracanã Fluminense, fazer o quê com a vontade de mandar gregos e troianos à puta que pariu e outros procedimentos assemelhados, mas proibidos a quem tem uma cobertura na Tijuca, um Porsche Turbo 3000 na garagem e um fornecedor de Ballantine’s que nunca me enganou? Fazer o que faz o ministro da Fazenda em véspera de novo aumento de gasolina, parafusar a maior cara-de-pau e jurar que o Brasil saiu da rota de colisão rouba de pobre e entrou nos trilhos de bota rico na cadeia?

Como não sou ministro, nem aumento a gasolina, não posso fazer a jura. Mas parafusar caras-de-pau é a minha praia predileta. Não fosse a madeira-de-lei que minha santa mãe que Deus tenha tanto untou com óleo de Peroba à falta de um jabaculêzinho que comprasse o óleo Johnson, e eu jamais teria tido moral para trocar os negativos daquele royal straight flush do Hotel das Paineiras pelo meu estaminé, pela minha cobertura e pelo meu Porsche Turbo 3000. Por isso, já viu. Consumo por consumo, convenhamos, entrar na cama da Lassie à la Nunca Fui Santa com o mesmo à vontade que ela entrou no meu estaminé, já era sonho para nenhum doutor Freud botar defeito. E foi com a segunda edição, revisada e aumentada, do que poderiam fazer os acostamentos do nº 5 do Chanel nos meus mais inconfessabilíssimos propósitos, que voltei ao meu apartamento, mandei a vontade de chutar o balde do computador que listava as competências da Governança do hotel pintar andorinhas no campanário das urtigas, e meti os peitos no consumo mais à mão: um Ballantine’são on toneladas the rocks. Meti os peitos e badalei zorbas e associados periféricos no mais bíblico estar-no-mundo, que os pelotões de centígrados continuavam ruminando marimbondos no escanteio do corredor e do banheiro.

Acordei com a dentina da ressaca mastigando couro de gato em manhã de carnaval e o chrono do meu casio alarm chinfrinando no oco do ouvido. Mas nada que um litro de magnesiana e uma comporta de Itaipu chispando no cangote não me botassem no prumo dos conformes. Mais três aspirinas e meia dúzia de bufadas à la faz-de-conta de academia de ginástica, e o cata-milho Adauto Simplício entrou no salão de jantar que nem o Dirty Harry do Clint Eastwood entrou nos cinemas de todo mundo. Pronto a faturar o que pintasse.

E a pinta logo buzinou nas iscas dos anzóis. Sentado na cabeceira da mesa como, dizem, um tal de Henrique VIII sentava na cama das seis mulheres com quem casou, matando intimidades no cabresto, o pescador de robalos olhava o esparrame do Estado-Maior Conjunto que nem mosquito espiando cortina de filó. Mais transparência só mesmo relatório oficial das metas do governo. O charutão à la Fidel desce Sierra Maestra acelerado ainda cochilava nas iscas dos anzóis, mas as ferraduras do escocês Cavalo Branco já chispavam no fundo da garrafa. Nenhum eleito do Senhor batia palmas a cada gole ou arroto, ou aceno de cabeça, mas todos olhavam o pé-direito como, me dizia sempre o Mora dos Incréus, uns puxa-sacos de Lisboa olhavam um tal de heil Salazar, e os idem de Moscou olhavam o tovaritch Zé Stalin, Dzhugashvili na língua georgiocaucasiana da senhora sua mãe. Com a maior vênia sim, senhor, e o ábaco do venha-a-nós calculando a relação do custo/benefício. Quer dizer, nada além ou diferente do que acontece nas missas cantadas na catedral de Brasília, apenas consideradas as distâncias entre o escudo e o rublo e o nosso combalido cruzeirinho, mesmo convertido em dólar no dito câmbio paralelo. Paralelo, assim, faz-de-conta, porque mesmo não existindo na lei e no sopapo, movimenta um jabaculezão muito maior do que o primo carimbo-oficial, que só estoura champanhe nas amantes e nos flûtes dos amigos do rei.

Parece que não tem nada a ver, o Brasil não tem rei, mas tem. Tem inúmeras contas numeradas na Suíça e inumérrimos amigos do alheio. Que era como o 19º tratamento do Ximu olhava a toalha da mesa, alheio que só ele à relação do custo/benefício. Quem sabe os Cruz! Cruz! Cruz! da Suíte Nº 4 do mestre Villa panelassem numa de greve que nem secretária particular de senador naqueles dias modessados, ou o 19º tratamento já taxiasse na pista do 20º?

Talvez o Dirty Harry tivesse pescoçado mais algum periquito voando no escuro, afinal o Clint Eastwood chuta com três pés e nunca dobra esquina sem o velho Smith Magnum 44 mandar ver um periscópio. Mas para quem apenas conseguiu adaptar a gabardine e o chapéu do Humphrey Bogart e os 212 graus farenheit da Lauren Bacall ao asfalto da Avenida Rio Branco e taifeirava na marinha do Tio Sam sem a menor perspectiva de almirantar algum navio, a panorâmica que o cata-milho Adauto Simplício deu no cenário já lhe conferia o direito de requerer matrícula no sindicato das imagens. Of course, como muito bem diria o meu cupincha Mora dos Incréus. Afinal, não é à toa que o inglês é a língua da comunicação universal e o chinês a mais falada. Quer dizer, nem sempre o que é parece ser. Ou vaice-virsa.

Mas era. Ou, pelo menos, foi. O 19º tratamento do Ximu rapou o Cruz! Cruz! Cruz! do ponto G da fixação oftal na trama da toalha, e botou a cadeira em função do meu assento. Com as iscas dos anzóis zoando em cima dos robalos e o Ximu dando uma de segunda concubina, já viu. Ou sentava e sorria mesmo sem estar sendo filmado, ou dava meia volta no parafuso e ia cantar de grilo no campanário das urtigas. Grilos por grilos, e com a salada ainda nos ovários das sementes, agradeci o concubinato do Ximu e parelhei o cata-milho com as iscas.

- Boa-noite.

Não foi aquele auê de boas-vindas a candidato do governo em São João das Antenas, mas até que alguns eleitos abriram uns buezinhos e a coisa passou pelos fiscais sem interstício de multa. A nossa muito mais do que querida Florismália abrindo pestanas e dentinas, a nossa brilhante figurinista costurando agulhas no meu saco e o resto dos galões do Estado-Maior Conjunto compondo o dégradé da paisagem. Isto, até que as ferraduras da garrafa retiniram nos anzóis e o pé-direito das iscas mandou baixar o gabarito e o florilégio do seja bem-vindo virou zunzunzum de rés-do-chão.

- Filmei hoje uma nova cena.

- Eu soube.

- Mas nem apareceu.

Lembra do presidente Kennedy cacetando o camarada Kruschov naquela dos mísseis de Cuba e outras pajelanças? Igual, igual. Mais, mais, só faltava mesmo era o telefone vermelho e os sotaques.

- Vi de longe.

- Viu de longe?

- Prá matéria não sofrer influências.

Mais um cravo na ferradura e o Cavalo Branco relinchou que nem manga-larga marchador preso em concentração pré-caminheira.

- Mas de longe...

- Foi perfeito. Realmente, a carga dramática de um nu ao ar livre é muito mais contundente do que num quarto ou num banheiro.

Gente, alguém lembra do bocão que o técnico Vicente Feola abriu ao acordar no estádio de Rasunda e pegou o Brasil campeão da Copa do Mundo de 1958? Dizem que engoliu metade da Suécia, mas nada que se comparasse ao funilão que a nossa muito mais do que querida Florismália e as iscas dos anzóis mandaram ver nos gorgolhões. Não deu nenhum ah! nem oh! por que não era hora de vogais. Era hora de espanto mesmo, de saber o que tinha acontecido a baby jane e botar no mundo o capiroto de todos os assombros. O dramatismo dos suavíssimos acordes assustado, assustado, assim, não querendo acreditar na minha mais do que perfeita cara-de-pau, e o pescador de robalos mais tartamudo do que o tal do Demóstenes antes do tratamento língua nos calhaus três vezes ao dia.

- Quer dizer que o senhor também acha que a amplidão...

Antes que a amplidão me botasse na maior das onze varas do aperto, parafusei a cara das opiniões definitivas e mandei as reticências tocarem um dobre de finados no enterro dos caminhos desconhecidos.

- Não foi só o fator amplidão. Foi a conjugação de um todo em que cada parte já não era só parte, pelo contrário, era um todo em si mesmo configurando uma totalidade de todos.

Viu no que dá sonho de consumo? Na falta dos acostamentos do nº 5 do Chanel sobrou o on das toneladas the rocks e já viu. Ponta-cabeça tão conforme, que nem minha santa mãe que Deus tenha poderia jurar que aquele fator de amplidão era o fruto do seu ventre. E, para falar a verdade, nem eu. Mas Ballantine’são on toneladas the rocks tem disso. A dor de cabeça passa numa boa, o couro de gato entra no curtume, mas as seqüelas seqüelam que nem hora marcada nos relógios da Central do Brasil. Ou você perde o trem por chegar atrasado, ou você é assaltado por chegar adiantado que nem virgem-mártir em primeira edição de suruba turbinada.

- Isso vai constar da matéria?

- Já consta.

Foi aquela pausa e aquele suspiro que nem muralha chinesa teria condições de sustentar.

- Meu amigo, o senhor é o primeiro crítico de cinema que compreende, integralmente, a minha obra.

E mais não disse, nem eu, que o Cavalo Branco pegou de galope no remate do discurso e a chaminé do charutão ganhou habite-se na poluição do vulcão de Cubatão. Não peguei de Souza Cruz para não bater de frente no Fidel, mas não deixei passar em branco a nuvem dos encômios.

- O meu único compromisso é a verdade.

Dizem que o que mais seringou o presidente Ernesto Geisel não foi o compositor Tom Jobim ter dito que a música brasileira era artigo massacrado no Brasil, foi o calhambeque da namoradinha do nosso amigo Roberto Carlos ter jurado no cartório dos melhores antecedentes que era Vasco da Gama quando lhe perguntaram se era do heil da ARENA ou do quase, quase, tovaritch MDB. Quero deixar claro que nunca fui seringueiro, e muito menos amigo de calhambeques, o mais que tomei foram vacinas e um ou outro chope na cerca dos arenistas ou no chuchu dos emedebistas, dependendo de quem me contratava o farejo e o cano longo do velho Taurus .38, mas que isto de heil ou de tova não foi marcapasso ou minissaia dos anos setenta, disso nem o chefe do Patrimônio que tombou o Copacabana Palace tem como duvidar.

Lembra do brigadeiro que era bonito e era solteiro e perdeu as eleições de 1950 para o presidente Getúlio Vargas naquela do preço da liberdade ser a eterna vigilância? Não é por nada, não, mas se compromisso com a verdade não roscar na eterna vigilância, então nem Deus salva o Brasil. Se bem que isto de salvar ou não salvar, todo mundo sabe, depende muito de querer. E a ver pelos vinte anos de manda quem pode, obedece quem não tem farda, logo se vê que o time do Brasil joga na cruz do mau ladrão. Nem na hora da verdade é muito chegado a salvamentos. Melhor um mercedes no aqui e no agora do que um fusca no ato de contrição. E está certo o cientista social. Se assim não fosse, como que a Suíça, que só tem queijos e cucos, e nunca jogou uma final da Copa do Mundo, passa o ano com 14.953 benjamins pára-raios e o Brasil, que, dizem, Deus abençoou pessoalmente e é tricampeão mundial de futebol, passa 365 dias de fome com 1.698 benjaminzinhos? Resposta com o ministro da Fazenda, que mora de graça em Brasília e ainda ganha para aumentar o preço da gasolina.

A gasolina não aumentou naquela hora, mas o silêncio que ficou bateu longe qualquer multiplicação. E, aí, já viu. Ou uma ou duas ou três, e, das três, alguma ou nenhuma ou todas elas. Para tão grande silêncio e assombro, ou eu tinha inventado cabelo em ovo de codorna ou ninguém sabia o que era verdade ou todo mundo tinha compromisso. Gente, a coisa bateu tão forte no rés-do-chão do zunzunzum, que até o zambaísmo da nossa brilhante figurinista descosturou as agulhas do meu saco e o dramatismo da nossa muito mais do que querida Florismália quase, quase entrou em função de. Isto, sob a regência do charutão do pé-direito, que queimava mais mufa por segundo do que todas as chaminés dos caldeirões do vulcão de Cubatão.

- Essa matéria, com todos esses comentários, poderia ser publicada no Jornal do Brasil, no Globo, no Estadão e na Folha?

Já viu barata cercada por Baygon, Raid, Detefon e Rodasol? Era eu, coração mais disparado do que tiro na favela Nova Holanda. Mas o quadrado da largura tinha pé-direito.

- É que, assim, todo mundo ia saber que ainda tem alguém neste país que entende de cinema.

Nada como ter a experiência de uma boa alavancagem do bem-estar social e uma ainda melhor sustentação da ordem constituída. Melhor faz-de-conta, só mesmo o civismo dos nossos homens públicos. Falar em publismos, uma pergunta que há muito me atazana o lado São Francisco da minha consciência: porquê que homem público é, oficialmente, uma figura da maior dignidade e mulher pública é só puta e olhe lá? Machismo mesmo ou moral escrita com u? Resposta para a caixa postal de cada um e vamos à saída de fininho do entendedor de cinema.

- Não prometo, a matéria é da revista, mas farei o impossível.

- Se precisar comprar espaço, eu trato disso.

Sabe o que eu gostaria de ser mesmo? Pai de filho rico. Gosto do que faço, não troco o meu Porsche por nenhum zero-quilômetro, estou com o meu Ballantine’s e não abro e só saio da minha cobertura com a boca cheia de formiga. Morrido ou matado. Mas que deve ser do caralho você pegar um helicóptero e cagar na Torre Eiffel ou bancar os anunciantes da TV Globo e botar o diabo da novela Corpo a Corpo morrendo tuberculoso na fila da previdência social, disso nem eu duvido. Nem o pé-direito duvidou, que repetiu o oferecimento como quem repete um camarão no espeto na praia do Pepino. Lambendo a beiçada e já de olho num terceiro.

- O espaço é comigo.

- Por mim (e fiz aquela pausa que, dizem, o tal do Michelangelo fazia, de olho na bolsa do papa Júlio, 2º de nome e vivaldice, olhei a toalha da mesa que nem o 19º tratamento do Ximu e mandei ver o mais afinado) tudo bem.

Na mosca. Um fidelão para nenhum cafuçu botar defeito fumegou na chaminé do charutão, e aquele sorriso que fez do governador Adhemar de Barros o maior engole-cofre do Brasil abriu a dentina das iscas e jogou os anzóis no paredon.

- Sabe qual é o maior mal do Brasil? É que raramente se encontram duas pessoas inteligentes.

- Eu já encontrei algumas.

- Você é que é feliz.

- Mas o senhor também deve ter encontrado.

Foi a vez dos robalos pularem no azeite e mergulharem nas mais inconfessáveis intenções.

- Muito raramente. Muito raramente.

Bom. Aqui chegado, eu já sabendo que ele sabia que eu sabia o tamanho do parafuso e da porca correspondente, foi a vez das lombrigas abrirem os ovários e mandarem ver uma salada Waldorf e um litro de magnesiana iceberg.

- Vai jantar?

- Uma boquinha só. Trabalhei...

Lembra da medalha-mor das Olimpíadas, aquela que um tal de Sófocles ganhou nas modalidade Electra, Antígona e Enduro-pé-descalço? Pois era pinto parelhada com o Rolex que as iscas marinavam no pulso dos anzóis.

- Dez e dez. Vou, que ainda tenho que decidir se o Grande Cidadão olha ou apenas faz de conta que olha Florismália se desnudando.

Paquete é foda, gente. Tanto chuta de navio, de menstruação, de papel de carta como de moço de recados. E, foda por foda, já viu. Quem vai na quarta vai na quinta, que na sexta alonga o fim de semana e recupera. E, agora que o dramatismo tinha entrado na bolsa de valores, não custava dar uma de maromba.

- Se me permite...

- Mas claro que permito.

Dá até pena, não dá, não? Mas se tem eclesiastes por aí vendendo até apartamento no céu e sauna no purgatório, porquê que eu não ia vender meu peixe na praia do pé-direito?

- Eu acho que se o Grande Cidadão fizer de conta, o contraponto entre o desnudamento e a indiferença, ou suposta indiferença, pois esta leitura também será possível, ficará muito mais forte, muito mais contundente, não acha, não?

- Ximu!

Segunda edição, marca contêiner que nem ladravaz de ladrão, daquele primeiro Ximu! do parque, os centígrados fuzilando farenheits que nem o Tarzan fuzilava cipós e decibéis, não lembra, não?

- Sim, senhor.

- Escutou?

O abano de cabeça confirmou a pontaria, e como tudo que bem começa às vezes acaba bem, o grito morreu no capítulo então já viu.

- Pois então, reescreve a cena do olhar. Mas botando aquele faz-de-conta, entendeu?

- Sim, senhor.

- Amanhã eu vejo.

- Sim, senhor.

- Oito horas no set.

E assim começou o 20º tratamento. A fila do Estado-Maior Conjunto pulinhando na cola do pé-direito que nem formigas cortadeiras a caminho das alfaces, e a minha salada Waldorf taxiando na toalha que nem o consumo do meu sonho taxiava no reino do tomara.

 

Cunha de Leiradella no TriploV

 
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