APENAS QUESTÃO DE GOSTO
Romance

INDEX

Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8

Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11

Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14

Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17

Capítulo 14

Deus sempre foi grande e embora o papa não dê uma de profeta, que ninguém profetiza no cangote do vizinho, profeta que é profeta come gafanhotos no deserto, não enche barriga com embeurrées amanteigados nem toma Royal Salute de 500.000 anos na santidade de um ar-refrigerado, hipótese por hipótese eu sempre fui mais a proposição do vamos ver do que a suposição do pode ser. Não é por nada, não, mas supor tem muito mais de condição do que duvidar tem de caráter. Afinal, se as iscas dos anzóis não metiam nem tiravam mosquitos ou quaisquer outros culicídeos na suíte do mistério e a Cavilinha tinha certeza que o quadrado da largura metia o pé direito em arcobotantes intalâmicos, quem era eu para duvidar da caneta que assinou o cheque do meu sinal com mais ouro na tampa do que o Oscar do Rocky, Um Lutador, aquela máquina de porrada que os músculos do marombão do Sylvester Stallone estrelaram como aperitivo para as futuras firulices do Rambo? Quem sabe o mosquito que não entrava nem saída da suíte do mistério não fazia mistério na capicua do banguela 1001? Como muito bem dizia meu velho pai, e dizia melhor do que ninguém, mistério é que nem confessionário. Apesar do vai com Deus, o pecado não vai, não.

Com o chrono do meu casio alarm cravando 15:17 23, os subeleitos do Senhor derretendo no caldeirão das baionetas dos centígrados e a nossa muito mais do que querida Florismália sem nenhuma função de dramatismo, fazer o quê? O que foi feito. Uma chuveirada e um Ballantine’s no capricho, e lá se foi o Revista da Cidade catar uma vaga no pousio do gelo norueguês e da tequila mexicana, o zoom da Nikon pronto a matar qualquer hipótese ao menor sinal de olha só. Quem sabe, com mais dois ou três zooms a capicua não me dava a maior sorte e eu flitava de vez o mosquito do mistério? E atapetava de colchões de água morna o túnel que levava a luz do trem até à cama da Lassie e pegava de fosforeira o holofote da vela das promessas enfim sós?

Recebeu-me o close à la Sérgio Leone do canino 1 da capicua 1001, aquela vagarice que sempre começava na mó de cima da aba do chapéu, descia pela mó de baixo e só terminava quando explodia a vingança, acompanhado da palha trançada de um garrafão de calibrina. E dois copos que zuniram em cima da toalha mal o zoom da minha Nikon pintou na linha divisória do soalho e do asfalto.

- Boa-tarde.

- Que lhe faça bom proveito, que esta é da boa e acabada de chegar.

Levantou os cinco litros que nem o capitão Belini levantou a Jules Rimet na Copa do Mundo da Suécia em 1958, e só não beijou as tranças da palha porque não eram de ouro nem havia suecas ahs! e ohs! babando nos batons.

- Meu compadre Zé Bezerra amanheceu hoje e não esqueceu do afilhado.

Fazer o quê, com o copo da ex-geléia de mocotó da Colombo já chorando no batismo e o 1001 aberto num sorriso que nem o Sérgio Leone seria capaz de closar? Entrar direto no assunto que nem o Moisés, dizem, entrou no mangue do Mar Vermelho ou botar o Ballantine’s da minha digestão no saco da saudade e mandar ver a satisfação do bom proveito? Dizia o velho Mora dos Incréus em hora de abrir o estande dos tiros-curtos que, quando um ou ou bate no ponto, não tem jeito que dê jeito. É seguir o caminho das pedras e pedir a Deus que não tropece. Nunca tive pedras no caminho, mas como também nunca bati no ponto, já viu. Levantei o colombo acima do nariz e mirei tanto a calibrina, que só não virou aquela gemada que a minha santa mãe que Deus tenha me socava nas goelas nos meus bons tempos de punheta dez ao dia, porque nem o meu Santo Expedito faz milagre no cheiro do pecado.

- Quer dizer que esta é a tal.

- Sim, senhor.

Sim, senhor, em tempos de manda quem pode, obedece quem é civil, tirando a causa, era que nem a carolice do presidente Dutra fechando os cassinos em nome dos bons costumes da família brasileira e todo mundo liberando geral nas roletas do Uruguai e da Argentina. Um faz-de-conta muito maior do que confessar pecados punheteiros para entrar de alma lavada no sete-chaves dos pecados cabeludos.

- À sua saúde.

Dizem que os maiores crimes sempre foram cometidos em nome da liberdade. Não sei. Não me chamo liberdade e que eu saiba, nem a minha cobertura da Tijuca, o meu Porsche Turbo 3000 e, muito menos, o Ballantine’s da minha digestão mataram fosse quem fosse. Agora, que a saúde sempre foi um poço de doenças, disso nem Deus duvida. E o meu velho pai que o dissesse. De tanto levantar copos à saúde dos amigos e dos amigos dos amigos, a cirrose que lhe comeu o fígado só não lhe comeu a alma, disse Seu Ermelindo, apontador de bicho e enfermeiro da Santa Casa, e cliente antigo do boteco. Mas fazer o quê com o 1001 segurando a capicua do sorriso que nem o Sansão, dizem, segurou o tomara-que-caia da Dalila antes da tosquia do cabelo? Fazer o certo. Esquecer o fígado do velho Eduardo da Micas do Ferreiro e lembrar o que ele sempre dizia e dizia melhor do que ninguém. Uma andorinha só não faz verão, só faz cocô. E cocô por cocô, já viu. Firmei o olho no olho da capicua e mandei ver o há de ser das grandes convicções.

- À nossa.

Nem os cavaleiros da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro e da Távola Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro, mesmo tirando as ferraduras do páreo do Colégio Eleitoral que botou todo mundo nos cinemas com o Um, cem, mil, viva Tancredo Neves, presidente do Brasil!, teriam feito mais bem feito. Esvaziado o colombo, embiquei o zoom da Nikon na direção da capicua e dei a razão da visita.

- O que me traz aqui são dois motivos.

E antes que o colombo abrisse algum bué e o garrafão entrasse numa de pia batismal, lembra esta beleza não tem uísque que pague, não?, para não entrar noutra figadiálise a dez litros magnesianos por segundo, tranquei a porta dos batismos e mandei a chave costurar badalos no campanário das urtigas.

- Primeiro, eu quero tirar mais algumas fotos do senhor.

- As outras não...

Já viu desespero maior do que virgem-mártir sacando hímen complacente em hora de não tem mais? Eu já.

- Ficaram ótimas. Mas eu quero destacar ainda mais o seu hotel na matéria, entendeu?

Lembra do sorrisão do general Newton Cruz na lua cheia daquela quarta-feira, 18 de abril de 1984, ao ser nomeado executor das medidas de emergência, no patoá da caserna, cala a boca, paisano, só porque o Congresso ia votar a Emenda Dante de Oliveira, que previa eleições diretas para presidente da República em janeiro de 1985? E o Congresso votou? Votou, mas votou assim: esgoelou a maior caixa alta VIVA A DITADURA! e votou contra o deputado Dante e a emenda. Mas se você lembra do sorrisão do general hipomorfo manga-larga marchador do presidente Figueiredo, sacou a milímetro o tamanhão do 1001 da capicua. Para não perder o embalo daquele mas eu quero, que na Fórmula 1 não é campeão quem mais corre, é campeão quem melhor administra a quebradeira dos carros adversários, que nem, dizem, o Émerson Fittipaldi fazia melhor do que chefe de gabinete em final de mandato, saquei o zoom da Nikon bem no meio do 00 e matei a pau qualquer comparação à la Sérgio Leone, devagar quase parando.

- Vamos lá?

- Mas, e o...

Eu não sabia, mas o meu amigo Mora dos Incréus sabia e me disse que foi do olhar enviesado do Adão em cima da maçã da Eva que nasceu a primeira sacada do marketing: no baneful. O costeleiro acreditou que não havia veneno no pedaço e sifu.

- Primeiro as fotos.

Não foi com a cenoura daquela democracia sem defeitos que a vaca fardada do general Olímpio Mourão Filho cagou no quintal da estação telefônica de Juiz de Fora na madrugada da véspera dos enganos, que os milicos botaram mangas nos coletes de cento e trinta milhões de brasileiros? Não é por nada, não, mas eu não gosto de coletes e muito menos de mangas enganadas. E, em vez de fazer o mesmo que a milicada fez com o Brasil, na véspera dos enganos eu sempre pego o Seu Manuel Joaquim, aquele velho português quinhentos anos de porteiro, faxineiro, bombeiro, pombo-correio e diretor de reportagem da Rádio Portaria onde o meu estaminé faz ponto na Rua Buenos Aires, e sento-o nos bacalhaus do velho Penafiel com uma garrafa de bagaceira portuguesa, que ele muito aprecia e diz que lhe faz lembrar os tempos em que um tal de Salazar fez mais milagres em Portugal do que a Nossa Senhora de Fátima Mãe de Deus, especial devoção da minha santa mãe que Deus tenha. Parece que não tem nada a ver, mas tem. Enganos por enganos, sou muito mais o bacalhau do velho Restaurante Penafiel do que a cenoura daquela democracia sem defeitos que tantas missas sem corpos presentes rezou nas catacumbas dos DOI-CODI da catedral de Brasília. Aí, zoom em função de, e finis.

Claro que a Nikon tinha rolo, 36 poses coloridas, asa 400, que eu gosto de fazer bem feito o que merece ser feito. Gente, quem catou bicharada perdida no Aterro do Flamengo e vizinhanças circundastes como eu catei, quem engoliu na maior serenidade a melecada dos embeurrées d’escargots como eu engoli e quem tem a jura do Sherlock pendurada na parede como eu tenho, não faz de conta, faz de feito. E não é apenas questão de método ou apenas questão de gosto, não, senhor. É apenas questão de qualidade e de cuidado. Já pensou o fotografado pedir uma cópia ou eu precisar dela nos apuros, e valei-me agora Senhor dos Aflitos? De jeito maneira, cara-pálida. Bom, primeira fase nos conformes, seis closes da capicua na melhor abelha no mel, e, no finis, entra a função de da segunda.

- Como é mesmo o nome do senhor?

- Argimiro, Argimiro Bustamante, seu criado.

- Seu Argimiro, o segundo motivo que me trouxe ao seu hotel é crucial.

- É cru...

- É importantíssimo, Seu Argimiro.

- Vamos ver, então, uai.

Fiz aquela pausa de juiz em sentença sem propina e corusquei o olhar das merecidas intenções.

- Eu preciso de um apartamento, se não for apartamento, eu preciso de um quarto, se não for um quarto, eu preciso de uma cama no seu hotel, Seu Argimiro.

- O pessoal do Glória não...

E depois ainda dizem que a Suíça só tem cucos e banqueiros. E os chocolates das surpresas onde ficam? Foi a pausa daquele Glória não fazer cucu no pé do meu ouvido e a maratona dos cem metros entrar em prontidão.

- Como é que eu o senhor sabe que eu tou no Glória?

Lembra do dono do boteco ali da esquina, aumentando hoje o preço da cerveja de amanhã? Igual. Mesmo balanço de cabeça e mesmos conformes de modéstia.

- A gente sabe. Cidade pequena, sabe como é.

Quando me contaram que um tal de Ian Fleming, dizem que o 001 do James Bond, aquele 007 que come todas as bond girls a serviço de Sua Majestade, cortava o cabelo na cosquinha da gilete, eu não acreditei. E não acreditei, não foi para nada, não. Afinal, acreditar é fácil. É só dar uma de mea culpa arrependida e o creio em Deus Pai mata a pau qualquer não sei. Eu não acreditei por que nunca fui jurado nem joalheiro, e nunca soube se os diamantes são eternos, mesmo com o Sean Connery e a Brigitte Bardot fazendo a maior força naquele faroeste fajuto, que nunca ninguém soube por quê se chamou Shalako. Ora se o tal do Ian Fleming não sabia do Shalako, como é que o close daquela capicua 1001 sabia que eu estava hospedado no Glória? Será que a cosquinha da gilete de Sua Majestade também frenesava em Caxambu? Na dúvida, afivelei o carão dos limites radicais e deixei o marfim rolar na circunstância.

- Tou no Glória, Seu Argimiro, mas lhe digo, lá não tem (e num gesto mais dramático do que todos os sem-roupa da nossa muito mais do que querida Florismália, apontei o garrafão do compadre Zé Bezerra), lá não tem isto que o senhor tem aqui.

- Mas não seja por isso. Eu lhe ven...

Foi a luzinha ministro da Fazenda piscar no olho da capicua e o carimbo devolução ao remetente meter o pé na bunda de gregos e troianos.

- Seu Argimiro, o senhor sabe, eu não sou home de luxos.

Pausa, olho olhando pensamento e a sacação no baneful da maçã da Eva pintando na maior conformidade.

- E, depois, também quero botar o seu hotel como deve ser na Revista da Cidade.

Foi aquele abano de cabeça, mas nenhum pingente ciscou no asfalto dos conformes.

- Querer lhe servir, até que eu fazia muito gosto, que o meu hotel é um hotel de família, mulher não sai sem companhia nem entra home desconhecido.

Foi a vez do não seja por isso fazer aquela pausa à la ministro da Fazenda em aumento de gasolina dois ao dia. A capicua trancada na garagem e as mãos levantadas num gesto de impotência que nem equilibrista freudiano em hora de posso mas não devo.

- Mas não posso.

Já pensou a Julieta ver a corda do Romeu não chegar nem à metade da janela? Pior, mesmo, só a seleção brasileira de futebol não perder nenhum jogo na Copa do Mundo de 1978 e a Argentina botar no churrasco o caneco campeão.

- Tou lotado. Totalmente lotado.

- Total...

- Totalmente.

- Nem uma cama num fundo de corredor, Seu Argimiro?

- Hóspede meu não dorme em fundo de corredor, senhor...

Falou senhor, já viu. Viola no saco e missa cantada no campanário das urtigas.

- Quer dizer que não tem jeito mesmo.

- Infelizmente, não tem, não. Nesta época, com as férias e com essas tais de diretas-já, em dezembro Caxambu já tava toda lotada. O senhor pode não acreditar, mas foi uma coisa nunca vista. Até quartos de arrumação eu tive que limpar. Eu e todo mundo.

- Quer dizer que não tem um quarto vago na cidade?

- Quarto, assim, em casa particular, até que pode ser que ainda tenha. Agora, em hotel, só se bobear. Porque se alguém ainda tá com apartamento ou quarto por alugar, não é hoteleiro, não, senhor. Há muitos anos Caxambu não lotava deste jeito. Essas tais de diretas-já foi um maná, sabia disso?

- Não sabia, não.

- Um manazão, sim, senhor. Tem gente aí que nunca tinha vindo a Caxambu e que tá dando mais vivas a esse tal de Tancredo do que deu à seleção da copa de 70.

Sabe o quê que parecia este papo? Um daqueles buracos que a Prefeitura abre na calçada e não tapa por não saber onde foi parar a terra que tirou. Já pensou o quadrado da largura das iscas dos anzóis mandar ver as mijadas intalâmicas no gelo norueguês ou na tequila mexicana, e a Cavilinha me torrar o saco com a merda do Dr. Jonas chorando mais miséria miserere do que viúva de barnabé morto sem tempo de serviço, e as minhas diárias á la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar afundarem nas maiores águas de bacalhau só porque a gritaria das diretas-já deu para amaciar a rouquidão no bendenguê caxambuense? Não era por nada, não, mas o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho tinha razão. Melhor ser gandula num Maracanã de Vasco e Flamengo do que árbitro num Conselheiro Galvão de Madureira e Olaria. Se o pinípede não lascava a mão no pêlo da Lassie à la Nunca Fui Santa e fazia de conta que virava um tal de fantasma de Cantervile no corredor da suíte do mistério, deixa comigo que o meu Santo Expedito nunca foi de dar o dito pelo não dito. E não seria agora com o compadre Zé Bezerra tinha lembrado do afilhado, que eu iria amarelar e deixar o capicua pensar o que quisesse. Mas de jeito maneira.

- Seu Argimiro, acho que vou pegar mais uma dose dessa maravilha, pode ser?

Poder até que pôde, mas de nada valeu. Não cheguei àquele esta beleza não tem uísque que pague, não, que não estava a fim de repetir a tormentação da figadiálise a dez litros magnesianos por segundo, mas mandei ver uma calibrinada nos conformes. O ex-geléia mocotó da Colombo sem a menor diagramação à la colarinho vaticano e esgoelado como mandava o figurino do ex-cirrose da tal de Serra do Gerês. De um tombo só, a garganta pegando mais fogo do que virgem-mártir em função de e os bombeiros do vem-vem botando água na fervura. Mas fervura é fervura e finis. Mesmo que saísse dali direto para a UTI da figadeira, nem o meu Santo Expedito conseguiu dar jeito no mosquito do mistério. O corredor ficou sem cama e todos os caminhos que levavam à Roma da norueguice e da mexicanice do samaritanismo geral, ficaram mais desertos do que a Avenida das Américas em noite de chegada da quase-pura colombiana às bocas da Cidade de Deus, via Estrada do Gabinal ou Marechal Miguel Salazar Mendes de Morais.

- Quer dizer, então, que não tem jeito mesmo, Seu Argimiro? Nem por um ou dois dias?

- Mas não é questão de jeito, meu amigo. É questão de ter ou não ter.

Dizem que o que mais pissicou o general Leopoldo Galtieri não foi ser obrigado a renunciar à Presidência da República da Argentina, foi saber que 4.000 dos seus melhores soldados afinavam a maior La Cumparsita com o God Save The Queen a bordo do Canberra por terem perdido a guerra das Malvinas. Eu nunca fui melhor soldado e, muito menos naveguei mares e mares à la rainha Elizabeth, mas guerra tem disso. Se quem caga regra nos gabinetes cagasse merda nos campos de batalha, logo, logo, a merda valeria mais do que ouro ou platina. Mas não era hora de botar o cavalo branco do Napoleão no Ministério do Exército. Era hora de pegar o God Save e flautear La Cumparsita. Quem sabe caxambu virava malva e malva malvadava em Caxambu?

- Seu Argimiro...

- Meu amigo...

Foi aquela pausa à la chefe de gabinete diante do afilhado do primo da tia do cunhado da mãe do compadre da sobrinha da avó da manicure do vereador eleito pelas mal-amadas da Praça Saens Peña e as mãos levantaram ao céu como se o céu tivesse pedido para segurar os pilotis da tal de Embrafilme.

- Olhe, eu, se fosse o meu amigo, ficava era mesmo no Glória, que eles também devem tar que nem todo mundo. Sem ter nem quarto de arrumação onde caiba colchonete.

Lembra do tempo que demorou para a revolução da vaca fardada ser chamada de golpe dos milicos? Mas isto nos pés de ouvido mais top secret dos paroquianos remissíveis, que nas importações oficiais, mesmo com o Colégio Eleitoral abençoado, na lua minguante da terça-feira do passado dia 15 pelo anjo Aladiah e pelos santos Miquéias, profeta, Mauro, monge, Isidoro de Alexandria, Paulo, eremita, Isidoro, ermitão de Cete, e Francisco Fernandes de Capillas, mártir, e dando de 480 a 180 na cruz gamada da fissura do cavaleiro da Távola Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro, o dentina à la kolynos Paulo Salim Maluf, descontadas os dezessete votos nem sim nem não muito antes pelo contrário, e os nove pilotos das ausências, a soma redonda dos vinte e seis deixa-como-tá-pra-ver-como-é-que-fica, mesmo com o filme Um, cem, mil, viva Tancredo Neves, presidente do Brasil! lotando todos os cinemas, a versão oficial dos evangelhos de Brasília ainda mandou ver durante anos e anos Revolução Redentora, à la RR de Rolls-Royce, que golpe era ferramenta de civil, coisa que o presidente João Goulart não teve culhão para matar no grito daquele discurso aos sargentos do hip! hurra! no Automóvel Clube do Brasil, na véspera da quartelada de 31 de março de 1964.

Com os RR de Rolls-Royce nos escaninhos do já era, e a minha memória não demorou um átimo para lembrar daquele sorriso à la presidente da Petrobrás em dia de aumento de gasolina com que a meia-calça do casal 20 da Recepção do Hotel Glória lambuzou de mel as moscas do meu desconfiômetro. Não demorou um átimo, mas bastou meio para o 1001 da capicua lacrar as fechaduras do contêiner sim, senhor, e botar mais rugas na testa do que rato bota filho em porão de vias navegáveis. Mas nem liguei. O flash que veio depois das moscas lambuzadas iluminou até aqueles buracos negros que, dizem, Deus botou no mundo só para queimar a mufa dessa tal de NASA da Guerra nas Estrelas lá no céu do Tio Sam.

- Mas eles me disseram que tinham um apartamento vazio.

- Vazio?

- E olhe que isto me foi dito faz hoje exatos dez dias, Seu Argimiro.

Foi a vez da dúvida, aquele substantivo feminino que o Dicionário do Aurélio diz que é deverbal e que os olhos arregalados da capicua me disseram ser do escambau.

- Mas interditado mesmo?

- Isso aí. Interditado mesmo.

- Um apartamento interditado, com doutor aí pagando em dólar? Não dá pra acreditar. Não dá mesmo. Eu só faria uma besteira dessas se fosse louco de pedra.

Lembrei da continência que os quatro marechais bateram ao 20 do casal da Recepção e o milagre do colchão marca Bom Sono pintar mais rápido na porta de São Pedro do que morto em ato de contrição, e a lembrança me obrigou a concluir que, se loucos de pedra havia em Caxambu, eu era um deles. E de pedra, assim, só porque não consigo chamar burro ao corpinho que mamãe tanto farinhou de talco nos meus idos de mamadeira. Aí, já viu. Botei os tamancos da satisfação plenária em função de e subi que nem berimbau a escada do foder outro.

- Seu Argimiro, o senhor nem imagina o favor que me prestou.

E sem mais aquelas nem outras mandei ver um galope até ao parque. Não era nenhum Sérgio Leone, mas o close que eu ia dar não ia terminar nem quando a vingança explodisse. Como muito bem dizia me velho pai, diz-me com quem andas que eu te direi com quem não andas.

 

Cunha de Leiradella no TriploV

 
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